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Jardim das Delícias


Terça-feira, 29.10.19

Vamos aceitar?! - Augusta Clara de Matos

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Augusta Clara de Matos  Vamos aceitar?! 

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   Enquanto andamos por aqui a discutir saias e outras futilidades equivalentes e a confundir a tralha semântica dos ianques com a nossa língua, quando o asséptico "politicamente correcto" se confunde com o que é verdadeiramente incorrecto e deplorável, no Parlamento Europeu, eleito por nós, votou-se a recusa ao auxílio a quem se afoga no Mediterrâneo. E não só se votou como se aplaudiu.

E, ao chegar aqui, fico gaga. Não por qualquer atmosfera natural inibidora do meu aparelho vocal, o que me atacou foi a gaguez do entendimento pela nuvem escura que me tolhe a respiração.

De que terra, de que gente, de que pais, de que ética, de que moral, de que deus, de que réstia de empatia e de bondade vêm aqueles vermes todos que, em Estrasburgo, decidiram votar pela transformação de um mar em cemitério?

A quem entregámos os destinos daquilo que nos disseram ser a Casa Comum dos Povos deste continente? Eu não pertenço a nenhum bando de malfeitores nem de salteadores que usam armas para destruir as casas dos outros e depois se mascaram de personagens cultas e respeitáveis que criam estruturas onde graves deficiências mentais, consideradas a nata da inteligência criadora, delineiam as estratégias a que nos obrigam a obedecer.

Não quero pertencer a uma “União” Europeia que acaba de adoptar o lema “VIVA A MORTE!”.

 

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por Augusta Clara às 13:20

Segunda-feira, 31.08.15

"Observando la foto de decenas de náufragos libios ..." - Carlos Di Palma

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Carlos Di Palma  "Observando la foto de decenas de náufragos libios ..."

(o autor é uruguaio, licenciado em História e vive em Granada)

 

 

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   Observando la foto de decenas de náufragos libios flotando en el mar a punto de morir ahogados que ha publicado el diario El País de España, yo, Carlos Di Palma, asumo mi condición de profesor de Historia, para decir avergonzado que nuestra “civilización”, “cultura” o como quiera definirse, Occidental y Cristiana, pasará a la historia como la más cruel, sanguinaria y terrorista que jamás haya conocido la Humanidad. Eso será lo que enseñen mis colegas en sus clases dentro de unos cien, o a lo sumo 200 años en sus clases (si antes no nos cargamos el Mundo entero) No conozco culturas ,o imperios que hayan sobrevivido más de 2.000 años. Nosotros estamos en ese límite. Empezamos a molestar y matar a esta pobre gente ya en tiempos de las Cruzadas. No queríamos solo matar a los infieles, sino lo que buscábamos era robarles sus riquezas. Hubo pueblos como los chinos que hicieron murallas para no ser invadidos, pero nosotros teníamos el espíritu de invadir y saltar esas murallas .Los pueblos que construyen muros o murallas para separarse de otros pueblos son siempre necios, o simplemente no han aprendido nada de la Historia. Mandamos a gente como Marco Polo que era nada más que un espía para informar que había de robable en tan lejanas tierras. Lo mismo hicieron los exploradores ingleses en la India y en el África. Luego de sus informes, venían los ejércitos.

A principios del siglo XX se despertó la necesidad del petróleo, y ahí fuimos a robar el oro negro. Casta que se doblegaba, le perdonamos la vida y la llenamos de lujo como Arabia Saudí, y los que se rebelaron fueron exterminados. Últimamente hemos visto como hemos destruido sociedades como la afgana, la iraquí, la libia etc, etc, etc. Nos mostraban los noticieros a la hora de la cena como nuestra maravillosa tecnología bélica podía hacer volar una aldea, un barrio entero colocando una cámara de TV en la punta del misil, destruyendo familias enteras, rebaños, cultivos considerándolos simplemente “daños colaterales” Ahora tenemos los Drones, que matan por control remoto… ¿es esto terrorismo? No sé ustedes, pero a mí me produce mucho terror. No recordemos las bombas atómicas sobre Japón , ni las de napalm sobre Viet-Nam. Ellos no tienen “drones”, pero la desesperación los lleva a un arma aún más terrible y precisa: los “drones humanos”. Hemos destruido Libia que era un país estable y próspero. Era necesario eliminar al dictador Kadafi para “regalarles “ la democracia. Francia formó parte de la coalición y luego firmó contratos petroleros con las nuevas “autoridades” quedándose con el 40% de la producción. Pues que ahora el país de la “libertad, igualdad y fraternidad” se haga cargo del 40% de los refugiados. Una importante funcionaria de la ONU ha propuesto bombardear los puertos de salida de estas embarcaciones precarias, y da igual si los barcos están vacíos o llenos de gente. Los refugiados, los desplazados, los desesperados se están agolpando en nuestras fronteras. Será imposible frenarlos porque le hemos destruido todo y solo les queda lanzarse al mar. Estamos pagando las consecuencias de los estragos que hemos cometido para lograr “espacio vital”. Nuestra civilización es un barco que se hunde… pronto estaremos como estos desgraciados de la fotografía de la vergüenza.

 

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por Augusta Clara às 08:00

Quinta-feira, 30.04.15

Retidos e refugiados - António Guerreiro

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António Guerreiro  Retidos e refugiados

 

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Ípsilon, 24 de abril de 2015

 

   O Mediterrâneo é um mar de mortos ou a passagem mais directa para um “campo de retenção”. Na Europa, surgem por todo o lado os lugares de retenção, qualquer área pode ser convertida em campo (um campo desportivo, instalações industriais desactivadas, o corredor de um aeroporto, etc.), isto é, num espaço anómico, uma zona cinzenta posta à margem da ordem jurídica normal, onde se dá a intersecção do Estado de direito com aquilo que atenta contra ele. Em suma: onde tudo é possível. O “campo de retenção” funciona como uma plataforma preparatória de expulsão dos estrangeiros indesejáveis e, sobre o que lá se passa, os Estados europeus preferem guardar silêncio ou, quando se vêem obrigados a falar, usam o eufemismo dos “danos colaterais” de uma política necessária de “controlo dos fluxos” de imigrantes para garantir a segurança. Esta figura do “retido”, o ocupante do “campo de retenção”, é recente — pelo menos, na dimensão que tem hoje — e ainda não ganhou o estatuto político do refugiado. Nem tão-pouco ganhou o estatuto de categoria onde é possível apreender uma das configurações do nosso tempo. Quando Hannah Arendt, em 1943, escreveu um texto que tinha como título We Refugees, publicado numa revista judaica de língua inglesa, ela não só universalizou o refugiado, como o definiu como “a vanguarda do seu povo”. Como o proletariado para Marx, o refugiado foi para Hannah Arendt um novo sujeito da História. Em última análise, Hannah Arendt deu legitimidade a uma nova palavra de ordem que poderia ser assim formulada: “Nós somos todos refugiados”. A condição universal de refugiado corresponderia assim à realização do que o poeta italiano Francesco Nappo escreveu num poema: “La patria sarà quandotutti saremo stranieri”. Mas Hannah Arendt deteve-se sobretudo no que a figura do refugiado revelava potencialmente e efectivamente: a necessidade de superar os direitos humanos, tal como eles estavam estabelecidos, porque se tinha tornado evidente que os indivíduos, quando destituídos de cidadania, isto é, quando não pertencentes a nenhum Estado nacional ou quando, para fugir a perseguições e ameaças, fogem para um outro Estado, perdem também a protecção e as imunidades consagradas na declaração dos direitos humanos. A consequência a retirar deste texto de Hannah Arendt sobre os refugiados e de outros sobre o judeu como pária (e foi isso que fez um dos seus leitores, Giorgio Agamben) é a de que sem o pressuposto da cidadania os direitos humanos são uma declaração vazia. O direito adquirido pelo nascimento e pela pertença a um Estado é o último reduto do Estado-nação, cuja sobrevivência já só pode ser assegurada por este factor biopolítico. O retido, para além de estar na base do regresso e da proliferação do “campo” na Europa, sob outras condições (o campo, hoje, já não precisa de estar retirado dos lugares públicos e pode ser instituído e administrado em todo o lado), corresponde a uma outra etapa da moderna política estatal. O retido não substituiu o refugiado. Este continua a multiplicar-se numa altura em que se tornou evidente que a guerra civil mundial é a forma comum da guerra contemporânea. E esta guerra deu origem ao “campo de refugiados”, que é outra modalidade do “campo de retenção”, mas com um objectivo comum: não deixar que o “refugiado” adquira qualquer qualidade política proveniente de um direito de cidadania. Refugiados e retidos tendem assim hoje a confundir-se porque ambos estão devidamente enquadrados por uma política de exclusão e segurança que os obriga a regressar coercivamente ao lugar onde estão votados à morte.

 

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por Augusta Clara às 08:00

Sexta-feira, 24.04.15

União Europeia afogou os direitos humanos no Mediterrâneo - José Goulão

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José Goulão  União Europeia afogou os direitos humanos no Mediterrâneo

 

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Mundo Cão, 24 de Abril de 2015

 

   Os resultados da cimeira da União Europeia dedicada à tragédia no Mediterrâneo confirmam que os conceitos de “humanismo” e “direitos humanos” se transformaram em palavras ocas a usar obrigatoriamente nos discursos e declarações oficiais, mas que deixaram de fazer qualquer sentido nas mentes dos dirigentes, pervertidas por estatísticas, indicadores, cálculos de deve e haver. O panorama tornou-se de tal maneira vergonhoso que permitiu a emergência de Jean-Claude Juncker, o tecnocrata impenitente que preside à Comissão Europeia, como figura dotada de resquícios de alguma sensibilidade. Por isso ficou a falar sozinho e as suas propostas foram derrotadas.

A arte propagandística da manipulação dos números, usando termos como “triplicar verbas” e insistindo no uso da palavra “milhões”, não resiste a uma avaliação breve dos resultados. Em suma, os chefes dos 28 – que gastaram longas quatro horas dos seus preciosos tempos à ameaça que paira sobre milhões de seres humanos – decidiram gastar 9 milhões de euros por mês nas operações de patrulhamento do Mediterrâneo através do Frontex, a polícia das fronteiras externas da União, em vez dos 2,9 milhões actuais. Pois bem, descodificando a multiplicação por três: os 9 milhões correspondem ao que a Itália gasta sozinha na operação Mare Nostrum e, ao contrário desta, que se estende até aos limites das águas líbias e tunisinas, restringem-se apenas às águas territoriais dos países ribeirinhos da União, evitando as zonas onde acontecem a maioria dos naufrágios. Recorda-se que o orçamento da União Europeia para 2015 é de 161 800 milhões de euros

Como o preço da vida humana anda de facto muito por baixo nas cotações bolsistas, note-se que 9 milhões de euros/mês correspondem a menos de um décimo do orçamento do Frontex, que obviamente tem muito mais que fazer. O seu director-geral, Frederice Leggeri, explicou que este corpo “não tem por missão salvar vidas”, e se o faz é apenas por imposição “do direito marítimo”, porque deve dedicar-se, isso sim, a “controlar e triar as entradas de imigrantes irregulares”.

No quadro das decisões tomadas durante a trabalhosa reunião, a chefe da política externa da UE, a italiana Frederica Mogherini, foi encarregada de ir estudar os meios jurídicos a que é possível recorrer, no quadro das leis internacionais, para combater as redes de traficantes de carne humana que medraram como cogumelos no Mediterrâneo depois de a NATO ter “libertado” a Líbia. Ou seja, a dirigente europeia vai reflectir nas leis para combater traficantes de pessoas que fogem da guerra e da miséria depois de a União Europeia ter passado por cima de todas as leis internacionais para fazer a guerra na Líbia e desmantelar o país, deixando o terreno perfeito para os praticantes de todos os tráficos. Quanto aos imigrantes propriamente ditos que sobreviverem às tragédias no mar dificilmente escaparão à triagem do Frontex, muito mais preocupado em expulsá-los para os países de origem, para as situações de que fugiram – sendo que esta medida viola a Declaração Universal dos Direitos Humanos, coisa de que não é matéria obrigatória, nem facultativa, nos cursos de economia neoliberal, incluindo os tirados por correspondência. Para o acolhimento “solidário” dos imigrantes que escaparem a tudo isto, a União Europeia vai criar um “programa piloto” de integração, ideia que dificilmente encontrará saída no labirinto da burocracia europeia, onde nem sequer ainda entrou. Talvez o objectivo seja esse.

Registemos que as quatro longas horas de reunião foram um favor feito pelos dirigentes europeus aos milhões de seres humanos vítimas de guerras e misérias. O presidente do Conselho Europeu, o polaco Donald Tusk, foi muito claro quanto a isso: “a Europa não causou esta tragédia, mas não quer dizer que lhe seja indiferente”. Leram bem, sim. Um dos padrinhos do caos ucraniano diz que a Europa não tem culpa nas guerras de que fogem os náufragos. Síria, Líbia, Iraque, Afeganistão, Egipto, Mali … A União Europeia tem as mãos limpas destes acontecimentos. A mentira e o absurdo tornaram-se instrumentos privilegiados dos políticos que mandam na Europa.

Como nota final de mais um episódio negro da história negra da União Europeia deixo-vos esta pérola patética do impagável Hollande: “gostava que tivéssemos sido mais ambiciosos…”. Então o que os impediu?

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por Augusta Clara às 18:00

Quinta-feira, 23.04.15

Europa, a solidariedade mora a sul - Augusta Clara de Matos

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Augusta Clara de Matos  Europa, a solidariedade mora a sul

 

 

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   A Itália merece ser louvada pelo esforço que tem feito no salvamento de vidas de náufragos no Mediterrâneo, perante a indiferença e desprezo das entidades da União Europeia que nenhuma iniciativa têm tomado.

É porque os barcos se dirigem à costa italiana? E, por isso, a Europa enquanto conjunto tem o direito de se eximir das operações de resgate de vidas humanas?

Tsipras fez um apelo urgente aos países da União Europeia sobre a necessidade de se definir uma outra política migratória.

Parecem ser os povos do Sul da Europa aqueles a quem mais toca a tragédia dos africanos que se fazem ao mar fugindo da guerra e  de todas as ameaças do seu destroçado país. 

Uma só vida é um mundo. Que mal, tão mal andamos, quando a nossa indiferença cresce exponencialmente à intensidade do sofrimento dos outros.

A que genocídio encapotado estamos a assistir?

 

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por Augusta Clara às 11:00

Quarta-feira, 22.04.15

O mar morto veio bater à nossa a porta - Ferreira Fernandes

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Ferreira Fernandes  O mar morto veio bater à nossa a porta

 

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Diário de Notícias, 21 de Abril de 2015 

 

   Katie Hopkins, colunista do jornal inglês The Sun, quando já havia centenas de afogados no Mediterrâneo, chamou aos emigrantes "cockroaches", baratas. E explicou-se: "Não, não me importo. Mostrem-me caixões, mostrem-me corpos a flutuar no mar, toquem violinos e mostrem-me pessoas de pele e osso e olhar triste. Continuo a não me importar." Hopkins usou um termo interessante, "barata" é das raras palavras que vai bem com extermínio, e já os nazis a usaram para pessoas. Mas barata sugere também uma capacidade de sobrevivência - diz-se que é inseto para continuar pela Terra mesmo depois do holocausto nuclear. E, na verdade, os dentes cintilantes e os olhos azuis da colunista parecem-me mais perecíveis. No entanto, as palavras de Hopkins, a meio caminho entre o rastejante e o medo, levam-me a pensar que não se devia desperdiçar o termo que ela introduziu enquanto homens, mulheres e crianças morriam. Barata tonta parece a Europa. Aqueles emigrantes, que nenhum país gosta de receber de forma tão abrupta e sem controlo, embarcaram nas praias de Tripoli. Num país, a Líbia, que deixou de o ser porque a Europa arrumou com o regime que lá estava sem ter pensado em substituto. Indecente, a Europa deu cabo dum país; imprudente, colhe o que plantou. Entre colunistas desbocadas e estadistas estúpidos, salvam-se os que não se salvam: aquela pulsão animal que se atira ao azar do mar é o único sinal de dignidade desta história.

 

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por Augusta Clara às 08:00

Domingo, 19.04.15

Lágrimas de gente e de crocodilo - José Goulão

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Mundo Cão, hoje

   Mais uma catástrofe humanitária nas águas do Mediterrâneo, uma das mais graves entre as mais graves. E logo nestes dias em que a propaganda ao serviço do regime político da União Europeia acordou para o problema, arregimentando profissionais da comunicação social para tentar convencer a opinião pública de que não tem nada a ver com o drama, pelo contrário, faz os possíveis e impossíveis para salvar náufragos.

Passemos por cima de histórias mal conhecidas e logo abafadas de navios europeus fazendo de conta que não vêm refugiados à deriva nas águas, de perseguições movidas por barcos de guardas costeiras a bateiras de refugiados até que naufraguem, como aconteceu na Grécia, de decisões à revelia dos acordos internacionais expulsando imigrantes para os países de origem.

Será que a Europa não tem mesmo nada a ver com esta situação e apenas se limita a fazer os possíveis e impossíveis, repete-se, para cuidar dos vivos e enterrar os mortos? A culpa é toda do terrorismo islâmico em geral e desse tal Estado Islâmico em particular, que deu as caras ao mundo há três anos, no máximo, sendo que as tragédias com refugiados no Mediterrâneo se arrastam há muito, muito mais anos?

Façamos de conta que a culpa é toda do Estado Islâmico. Então de onde vêm os imigrantes? Sigamos as fontes da propaganda europeia: da Líbia, do Egipto, do Sudão do Sul, da Síria, do Iraque, do Afeganistão, da Somália, da Etiópia, do Mali, da República Centro Africana, do Chade, da Eritreia…

Como foram criadas nestes países as tragédias que obrigam as pessoas a fugir em busca não apenas dos meios de subsistência mas para preservar a própria vida e a dos seus, à mercê de guerras e terror sem solução à vista? Será que a União Europeia e, sobretudo, as suas potências mais sonantes nada têm a ver com a origem e desenvolvimento destes dramas? A União Europeia está inocente do caos reinante no Egipto, na Líbia, no Afeganistão, no Iraque, na Síria, no Sul do Sudão, no Mali? Não foram os países da União Europeia que aplaudiram freneticamente a primeira “guerra humanitária” da história, lançada pelos Estados Unidos na Somália ainda na década de noventa, que por acaso também correu mal e em nada resolveu nem humanizou o caos em que o país continua mergulhado?

A propaganda europeia descobriu agora que a Líbia é o principal entreposto do rentável negócio de carne humana proporcionado pelo tráfico de refugiados a quem prometem o paraíso europeu viajando em restos de barcos recuperados do lixo, em troca de todos os seus haveres. Ao que parece o negócio está nas mãos do tal Estado Islâmico, o que provavelmente é verdade. Mas só agora. Antes disso, a Líbia apenas se transformou no bem sucedido entreposto de carne humana depois de “libertada” e “democratizada” pela NATO, ao tempo em que a mesma NATO designou o terrorista e aliado Abdelhakim Belhadj governador militar de Tripoli – ele que agora é o chefe do Estado Islâmico no Magrebe (segundo a Interpol) depois de ter sido incumbido pela senhora Clinton e amigos, também europeus, claro, de atear ainda mais o fogo na Síria.

Façamos mais uma vez de conta que tudo o que atrás ficou escrito é ficção. Será a União Europeia uma entidade que tem uma atitude clara e humanitária de acolhimento dos refugiados, com uma política de asilo transparente e respeitadora dos direitos humanos? Ou, pelo contrário, a política praticada não passa de uma versão cada vez mais dura das tendências xenófobas, das perseguições religiosas de novo tipo suscitadas pelas manipulações perversas do fenómeno do terrorismo, correspondendo assim às prédicas neofascistas que percorrem o continente de-lés-a-lés? Será que isso tem acalmado o neofascismo ou, pelo contrário, continua a engordá-lo?

Uma coisa vos garanto não ser ficção: há muitas lágrimas de crocodilo à mistura com as lágrimas de gente que engrossam e salgam cada vez mais as águas do Mediterrâneo.

 

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por Augusta Clara às 14:30

Terça-feira, 02.07.13

O Mediterrâneo em chamas - Boaventura de Sousa Santos

 

Boaventura de Sousa Santos  O Mediterrâneo em chamas

 

 

Publicado na revista Visão de 4 de Abril de 2013

 

   Regressei da Tunísia, onde participei no Fórum Social Mundial, conven­cido de que o Mediterrâneo conti­nuará a fazer jus à importância que lhe atribuíram Hegel e Fernand Braudel, ain­da que por razões diferentes. Se para Hegel o Mediterrâneo foi o elemento unificador e o centro da história mundial, para Braudel ele foi o berço do capitalismo. Ambos valoriza­ram o Mediterrâneo a partir da Europa e do que entenderam ser a superioridade da Eu­ropa. Eu vejo no Mediterrâneo a premonição de um mundo diferente, não sei se melhor se pior, mas onde a Europa que aqueles autores imaginaram será um passado cada vez menor para populações cada vez mais vastas do mundo.

Pode parecer estranho que estes pensa­mentos me ocorram no momento em que participo numa reunião de muitos milha­res de pessoas vindas de todo o mundo, unidas pela vontade de lutar por um mundo melhor. Mas, como sociólogo, não posso fugir à magia de estar na cidade de Tunis onde nasceu, em 1332, Ibn Khaldun, aquele que hoje considero ser o grande fundador das Ciências Sociais modernas, depois de durante décadas ter ensinado que os fun­dadores eram Max Weber, Émile Durkheim e Karl Marx. Num livro esplêndido, Ibn Khaldun aborda temas tão diversos como história universal, ascensão e queda das civilizações, condições da coesão e da mu­dança social, economia, teologia islâmica e teoria política. Refiro-me a Muqaddimah, ou Prolegomena, escrito em 1377.

Imerso no bulício do comércio da Medina ou na algaraviada das palavras de ordem da marcha monumental com que abriu o Fórum Social Mundial, leio de memória o livro e entendo por que as duas margens do Mediterrâneo estão em chamas. A norte, os cidadãos de países supostamente democrá­ticos assistem ao confisco dos seus aforros, dos seus salários e da sua esperança para satisfazer banqueiros insaciáveis, à chanta­gem de governos sobre tribunais constitu­cionais como se as Constituições fossem tão descartáveis quanto a montanha de papel que resta da comida macdonaldizada, ao pesadelo alemão que, depois de destruir a Europa duas vezes num século, parece querer destruí-la uma terceira vez, sempre em nome da superioridade teutónica. E tudo isto se passa nas cidades italianas outrora livres e em países como Portugal e Espanha, a que Braudel conferiu tanta importância no nascimento do capitalismo moderno e que agora nem importância conseguem conferir à humilhação a que são sujeitos.

 

A SUL, CIDADÃOS SEDENTOS de democracia e de dignidade concluem que estiveram sujeitos a duas ditaduras, a dos ditadores e suas polícias e a do capitalismo global. Entre a surpresa e a confirmação de tanta derrota histórica, verificam que os vizi­nhos do Norte saudaram a sua libertação da primeira ditadura mas em caso algum toleram que se libertem da segunda. Pelo contrário, prendem, matam ou deixam morrer os seus filhos que, em desespero, se lançam ao mar na esperança de uma vida melhor chamada Ilha de Lampedusa.

Se com a democracia vem a miséria, não é difícil concluir pela miséria da democracia.

E é ainda mais fácil se das ditaduras mais retrógradas do Golfo Pérsico vem um Islão agressivo que sabe explorar a piedade dos crentes para bloquear o ímpeto democrá­tico que, caso o contágio funcionasse, um dia poderia chegar ao golfo. O que sucederia aos super-ricos do Norte se os super-ricos dos Sul não pudessem dispor das ditaduras para prosperar nos negócios?

 

IBN KHALDUN NÃO NARRA estes factos mas narra outros muito semelhantes. Comum a todos é a ideia de que as civilizações decli­nam quando as elites políticas que querem servir o povo não o podem fazer e as que se querem servir do povo têm o caminho livre. Em termos contemporâneos seria assim. Os membros da classe política que se dedicam ao país fazem-no de forma a nunca poderem participar da governação. Todos os outros, a esmagadora maioria, governam o país em função de carreiras pessoais futuras, sejam elas as instituições interna­cionais, o comentário político ou o emprego em multinacionais. Se isto não é o princípio do fim é o fim de todos os princípios.

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por Augusta Clara às 08:00



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