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Jardim das Delícias


Domingo, 15.07.18

Mia Couto

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"O vento foi um pássaro e fugiu para fora de si mesmo quando os homens o quiseram capturar. Deixou de ter corpo, fez ninho nas nuvens e viaja com elas para pousar quando se cansa. É por isso que o vento canta." - MIA COUTO, O Bebedor de Horizontes.

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(Justyna Kopania)

 
 

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por Augusta Clara às 15:28

Terça-feira, 16.12.14

Engravidar o mundo de futuro - Mia Couto

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Mia Couto  Engravidar o mundo de futuro

(ensaio alusivo aos 25 anos da Convenção sobre os Direitos da Criança)

 

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Maputo, 10 de Dezembro de 2014 

 

    O melhor prémio que tive enquanto escritor foi-me dado por uma criança. Por um menino que teria uns 9 anos de idade. O pai tinha-o levado a uma sessão de lançamento do meu livro "O gato e o escuro".
A obra foi apresentada como sendo um "livro para crianças", apesar da minha resistência em aceitar que alguém escreve "para" crianças. O facto é que o menino ali estava, à entrada do grande salão, com um exemplar debaixo do braço. O pai pediu-me que assinasse o livrinho antes da sessão de lançamento porque o menino, o Manuel, tinha que se deitar cedo. Ajoelhei-me junto ao Manuel e fiz umas tantas perguntas idiotas que os adultos normalmente fazem quando acreditam que estão a falar com crianças. O menino olhou-me desinteressado e quase desapontado: eu era igual a todos os outros, os que, vezes sem conta, já lhe haviam feito as mesmas perguntas. Coloquei-lhe então uma outra questão:
- Este livro é sobre o medo do escuro. Será que tu tens medo?
Pela primeira vez ele me olhou nos olhos. Demorou a reagir e respondeu com uma pergunta:
- E tu tens medo do escuro?
Disse-lhe que sim. Ele gostou da sinceridade, deu meia volta e quando já se afastava conduzido pela mão do pai, ele parou e disse-me à distância:
- Não tenhas medo. O escuro apenas é feito das coisas que nele colocamos.
Disse aquilo para me reconfortar. Mas ele apenas recitava uma frase que eu tinha escrito no livro. O facto de um menino ter citado uma frase minha como se fosse algo da sua autoria foi talvez o maior dos prémios literários que tive. Nunca mais esquecerei esse momento.

 

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por Augusta Clara às 14:00

Quinta-feira, 13.11.14

Raízes - Mia Couto

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Mia Couto  Raízes

 

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(Marcel Caram)

 

  Uma vez um homem deitou-se, todo, em cima da terra. A areia lhe servia de almofada. Dormiu toda a manhã e quando se tentou levantar não conseguiu. Queria mexer a cabeça: não foi capaz. Chamou pela mulher e pediu-lhe ajuda.

Veja o que me está a prender a cabeça.

A mulher espreitou por baixo da nuca do marido, puxou-lhe levemente pela testa. Em vão. O homem não desgrudava do chão.

Então, mulher? Estou amarrado?

Não, marido, você criou raízes.

Raízes?

Já se juntavam as vizinhanças. E cada um pu­xava sentença. O homem, aborrecido, ordenou à esposa:

Corta!

Corta, o quê?

Corta essa merda das raízes ou lá o que é...

A esposa puxou da faca e lançou o primeiro golpe. Mas logo parou.

Dói-lhe?

Quase nem. Porquê me pergunta?

É porque está sair sangue.

Já ela, desistida, arrumara o facão. Ele, esgotado, pediu que alguém o destroncasse dali. Me ajudem, suplicou. Juntaram uns tantos, gentes da terra. Aquilo era assunto de camponês. Começaram a escavar o chão, em volta. Mas as raízes que saíam da cabeça desciam mais fundo que se podia imaginar. Covaram o tamanho de um homem e elas continuavam para o fundo. Escavaram mais que as fundações de uma montanha e não se vislumbrava o fim das radiculações.

Me tirem daqui, gemia o homem, já noite.

Revesaram-se os homens, cada um com sua pá mais uma enxada. Retiraram toneladas de chão, vaza­ram a fundura de um buraco que nunca ninguém vira. E laborou-se semanas e meses. Mas as raízes não só não se extinguiam como se ramificavam em mais redes e novas radículas. Até que já um alguém, sabedor de planetas, disse:

As raízes dessa cabeça dão a volta ao mundo.j

E desistiram. Um por um se retiraram. A mulher, dia seguinte, chamou os sábios. Que iria ela fazer para desprender o homem da inteira terra? Pode-se tirar toda a terra, sacudir as remanascentes areias, disse um. Mas um outro argumentou: assim teríamos que transmudar o planeta todo inteiro, acumular um monte de terra do tamanho da terra. E o enraizado, o que que se faria dele e de todas suas raízes? Até que falou o mais velho e disse:

A cabeça dele tem que ser transferida.

E para onde, santos deuses? Se entreolharam todos, aguardando pelo parecer do mais velho.

Vamos plantar a cabeça dele lá!

E apontou para cima, para as celestiais alturas. Os outros devolveram a estranheza. Que queria o velho dizer?

Lá, na lua.

E foi assim que, por estreia, um homem passou a andar com a cabeça na lua. Nesse dia nasceu o primeiro poeta.

 

(in Contos do Nascer da Terra, Caminho)

 

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por Augusta Clara às 16:00

Sexta-feira, 10.10.14

Mia Couto fala sobre O Medo

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Mia Couto nas Conferências do Estoril 2011

 

 

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por Augusta Clara às 19:00

Sexta-feira, 15.08.14

Desligação de anatomia - Mia Couto

 

Mia Couto  Desligação de anatomia

 

 

 

Quase fui médico.
Cedo acreditei
ter inclinação.
Aconteceu, em menino,
frente aos compêndios escolares.
Fascinava-me,
no corpo humano,...
o vocabulário em flor:
o suco gástrico,
o bolo alimentar,
o trânsito intestinal,
as papilas gustativas.

Ante o meu prematuro pasmo,
a professora vaticinou: vai ser médico!
Em casa, porém,
meu pai diagnosticou diverso:
não era a anatomia que me atraía.

Eu apenas amava as palavras.

Meu pai adivinhava.
E eu, de poesia, adoecia.


(in Tradutor de Chuvas)

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por Augusta Clara às 18:00

Sábado, 05.07.14

PARABÉNS Mia Couto!

 

 

Mia Couto  (Escre)ver-me

 

(Roberto Chichorro)

 

 

nunca escrevi

 

sou

apenas um tradutor de silêncios

 

a vida

tatuou-me nos olhos

janelas

em que me transcrevo e apago

 

sou

um soldado

que se apaixona

pelo inimigo que vai matar

 

                                    Fevereiro 1985

 

(in Raíz de Orvalho e Outros Poemas, Caminho)

 

Veja aqui Mia Couto no "Bairro Alto" da RTP2

 

 

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por Augusta Clara às 18:00

Sexta-feira, 14.03.14

No teu rosto - Mia Couto

 

Mia Couto  No teu rosto

 

(Lyse Marion)

 

 

No teu rosto

competem mil madrugadas

 

Nos teus lábios

a raiz do sangue

procura suas pétalas

 

A tua beleza

é essa luta de sombras

é o sobressalto da luz

num tremor de água

é a boca da paixão

mordendo o meu sossego

 

Janeiro 1981

 

(in Raíz de Orvalho e Outros Poemas, Caminho)

.

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por Augusta Clara às 18:00

Sexta-feira, 22.11.13

Solidão - Mia Couto

 

 

Mia Couto  Solidão

 

(Roberto Chichorro)

 

 

 

Aproximo-me da noite

o silêncio abre os seus panos escuros

e as coisas escorrem

por óleo frio e espesso

 

Esta deveria ser a hora

em que me recolheria

como um poente

no bater do teu peito

mas a solidão

entra pelos meus vidros

e nas suas enlutadas mãos

solto o meu delírio

 

É então que surges

com teus passos de menina

os teus sonhos arrumados

como duas tranças nas tuas costas

guiando-me por corredores infinitos

e regressando aos espelhos

onde a vida te encarou

 

Mas os ruídos da noite

trazem a sua esponja silenciosa

e sem luz e sem tinta

o meu sonho resigna

 

Longe

os homens afundam-se

com o caju que fermenta

e a onda da madrugada

demora-se de encontro

às rochas do tempo

 

Outubro 1982

 (in Raíz de Orvalho e Outros Poemas, Caminho)

 

..

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por Augusta Clara às 19:00

Terça-feira, 05.11.13

Como se o mar tivesse outra margem - Mia Couto

 

Mia Couto  Como se o mar tivesse outra margem

 

(Adão Cruz)

 

 

 

   Ninguém, em verdade, viaja para uma ilha. As ilhas existem dentro de nós, como um território sonhado, como um pedaço do nosso passado que se soltou do tempo. Esse fantasma insular, em mim, estreou-se quando Jonito mor­reu e meus pais disseram que ele tinha ido para uma ilha no meio do Chiveve. Eu era menino, Jonito era um cágado e o Chiveve não era sequer um rio verdadeiro. Como podia aquele riacho ter água suficiente para anichar uma ilha? Mas nada nesse tempo era verdade. Sobretudo, a morte não era verdadeira. E Jonito passeou, durante toda a minha infância, a sua cautelosa lentidão nesse pedaço de terra rodeado pelas escuras águas do Chiveve.

É por isso que, agora, me soa estranho o contrato que estabeleço com Mamudo para que, no dia seguinte, ele me conduza às ilhas. Escrevo assim, no plural, «as ilhas». Terei muita sorte se o barquinho à vela, um dow, chegar a uma única ilha.

A negociação, devo confessar, não foi fácil. Para que corram bem as negociações não podem ser fáceis. Pelo menos aqui, na costa de Cabo Delgado. Os vendedores aproximam-se leves como sombras, como se a areia fosse uma alcatifa amortecendo a sua chegada. No Sul de Mo­çambique, de onde venho, ter-me-iam abordado de outra maneira:

— Estou a vender.

E a relação comercial seria logo ali definida, uma rela­ção não simétrica entre quem tem produto e quem tem dinheiro. O preço está à mão de semear. O que vier a mais é gorjeta. Aqui, não. A aproximação é, desde logo, mais profissional. O vendedor anuncia-se do seguinte modo:

—  Tenho um negócio.

E estamos ambos do mesmo lado da mesa, sabendo de antemão que há um jogo de palavreação que se irá pro­longar. Foi assim que Mamudo me abordou. A visita às «ilhas» (ele sempre as nomeou no plural) era um pacote completo. Ele dava o barco, ele seria o marinheiro e o as­sistente de bordo (servindo uma refeição que ele mesmo prepararia). Após acordar o preço havia ainda a necessi­dade de um adiantamento para ele comprar a comida. Tudo à confiança porque, segundo ele, todos nas redon­dezas conheciam o seu bom-nome.

O «negócio» ficou fechado e um casal de turistas que assistia à conversa pediu para se atrelar à excur­são. E Mamudo fez uma adenda ao contrato já firmado comigo.

Deitei-me cedo porque a partida, na manhã seguinte, aconteceria a uma hora em que, de acordo com Mamudo, os próprios peixes estariam ainda dormindo. Sonhei que era um ser marinho balouçando naquelas águas transpa­rentes, roçando os recifes de corais e as barrigas escuras das almadias. No meio da noite, porém, fui acordado pelo ruído de uma janela batendo. Levantava-se um temporal. A areia fina e branca se lançava de encontro às paredes de madeira do meu rondável. Aos poucos a praia se transfe­ria para o soalho do meu quarto.

De manhã, era evidente que a excursão teria que ser adiada. Quando cheguei ao local combinado, os turistas reclamavam com Mamudo e exigiam-lhe o dinheiro de volta. Mas o marinheiro já tinha gasto o adiantamento no dia anterior. Levantava-se ali uma segunda tempestade: os turistas subiam de tom na sua reivindicação. Que eles já regressavam a Maputo no final do dia e não podiam ficar a perder. Resolvi intervir, amenizando a exaltação dos estrangeiros. E resultou: ao fim da manhã, sob um céu plúmbeo, estávamos todos sentados na varanda de Mamudo a comer a galinha que ele tinha grelhado. E ali nos deixámos ficar, escutando histórias que Mamudo des­fiava como contas de um infinito rosário. Cada história era um remo sulcando águas que nos afastavam do mundo. No final, o marinheiro trouxe a bacia de água morna para lavarmos as mãos. E ele disse:

— A vida é um negócio.

Imagem pouco poética, mas aquele era o seu modo maior de romantizar o milagre de celebrarmos o nosso encontro. Quando os turistas se despediram havia neles um sorriso de quem, afinal, tinha visitado uma ilha e os seus paraísos. Ao fim e ao cabo, o marinheiro cumprira o prometido: sem sair da praia, ele nos conduzira por uma viagem para a outra margem do mar.

(Julho de 2009)

(in Pensageiro Frequente, Caminho)

 

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por Augusta Clara às 17:00

Segunda-feira, 04.11.13

Mia Couto vence o Prémio Neustadt de Literatura

 

Mia Couto vence o Prémio Neustadt de Literatura

 

 

 

Publicado no Diário Digital em 2 de Novembro de 2013

 

O moçambicano Mia Couto, de 58 anos, foi o grande vencedor do Prémio Neustadt de Literatura, no valor de 37 mil euros. Esta nomeação distingue o conjunto da obra.

O prémio, criado em 1969, é entregue de dois em dois anos e, entre os contemplados, já distinguiu Gabriel García Márquez, Elizabeth Bishop, Álvaro Mutis, Octávio Paz, Giuseppe Ungaretti e João Cabral de Melo Neto. Recorde-se que Mia Couto já venceu este ano o Prémio Camões e o seu mais recente livro é «A Confissão da Leoa», editado o ano passado pela Caminho.

«Este prémio coincide com um momento conturbado e de preocupação em Moçambique e, em particular, da minha família, que também foi objecto de ameaças», informou o escritor à Agência Lusa, que admitiu que a situação no seu país é «uma situação crispada devido à possibilidade de reacendimento da guerra. Há uma situação de tensão grande causada pelas ameaças de raptos, sequestros e violência».

Mia Couto dedicou o prémio, considerado o Nobel dos Estados Unidos, em primeiro lugar à sua família, a sua «primeira nação».

«E depois a Moçambique, por todas as razões, mas agora ainda mais porque temos de ficar mais juntos nessa busca por opções de paz, por alternativas de desenvolvimento.»

Mia Couto ressaltou ainda que o prémio também é importante para a língua portuguesa.

De referir que o moçambicano tinha como «rivais» o escritor argentino César Aira, a vietnamita Duong Thu Huong, o ucraniano Ilya Kaminsky, o japonês Haruki Murakami, o norte-americano Edward P. Jones, o sul-coreano Chang-rae Lee, o palestiniano Ghassan Zaqtan e Edouard Maunick, das Ilhas Maurícias.

 

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por Augusta Clara às 17:00



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