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Jardim das Delícias


Sexta-feira, 25.03.16

As 10 estratégias de manipulação mediática - Noam Chomsky

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Noam Chomsky  As 10 estratégias de manipulação mediática

 

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Portal Anarquista
 
1. A estratégia da distracção. O elemento primordial do controle social é a estratégia da distracção, que consiste em desviar a atenção do público dos problemas importantes e das mudanças decididas pelas elites políticas e económicas, mediante a técnica do dilúvio ou inundação de contínuas distracções e de informações insignificantes. A estratégia da distracção é igualmente indispensável para impedir que o público se interesse pelos conhecimentos essenciais, na área da ciência, da economia, da psicologia, da neurobiologia e da cibernética. “Manter a atenção do público distraída, longe dos verdadeiros problemas sociais, presa a temas sem importância real. Manter o público ocupado, ocupado, ocupado; sem nenhum tempo para pensar; de volta à quinta com outros animais (citação do texto “Armas silenciosas para guerras tranquilas”).
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2. Criar problemas e depois oferecer soluções. Esse método também é denominado “problema-reacção-solução”. Cria-se um problema, uma “situação” prevista para causar certa reacção no público a fim de que este seja o mandante das medidas que desejam que sejam aceites. Por exemplo: deixar que se desenvolva ou intensifique a violência urbana, ou organizar atentados sangrentos, a fim de que o público seja quem pede leis de segurança e políticas em prejuízo da liberdade. Ou também: criar uma crise económica para forçar a aceitação, como um mal menor, do retrocesso dos direitos sociais e o desmantelamento dos serviços púbicos.

 

3. A estratégia da gradualidade. Para fazer com que uma medida inaceitável passe a ser aceita basta aplicá-la gradualmente, a conta-gotas, por anos consecutivos. Dessa maneira, condições sócio-económicas radicalmente novas (neoliberalismo) foram impostas durante as décadas de 1980 e 1990. Estado mínimo, privatizações, precariedade, flexibilidade, desemprego em massa, salários que já não asseguram ingressos decentes, tantas mudanças que teriam provocado uma revolução se tivessem sido aplicadas de uma só vez.

 

4. A estratégia do diferimento. Outra maneira de forçar a aceitação de uma decisão impopular é a de apresentá-la como “dolorosa e desnecessária”, obtendo a aceitação pública, no momento, para uma aplicação futura. É mais fácil aceitar um sacrifício futuro do que um sacríficio imediato. Primeiro, porque o esforço não é empregue imediatamente. Logo, porque o público, a massa, tem sempre a tendência a esperar ingenuamente que “tudo irá melhorar amanhã” e que o sacrifício exigido poderá ser evitado. Isso dá mais tempo ao público para acostumar-se à ideia de mudança e de aceitá-la com resignação quando chegue o momento.

 

5. Dirigir-se ao público como se fossem menores de idade. A maior parte da publicidade dirigida ao grande público utiliza discursos, argumentos, personagens e entoação particularmente infantis, muitas vezes próximos à debilidade mental, como se o espectador fosse uma pessoa menor de idade ou portador de distúrbios mentais. Quanto mais tentem enganar o espectador, mais tendem a adoptar um tom infantilizante. Por quê? “Se alguém se dirige a uma pessoa como se ela tivesse 12 anos ou menos, em razão de factores de sugestão, então, provavelmente, ela terá uma resposta ou reacção também desprovida de um sentido crítico (ver “Armas silenciosas para guerras tranquilas”)”.

 

6. Utilizar o aspecto emocional mais do que a reflexão. Fazer uso do aspecto emocional é uma técnica clássica para causar um curto circuito na análise racional e, finalmente, ao sentido crítico dos indivíduos. Por outro lado, a utilização do registo emocional permite abrir a porta de acesso ao inconsciente para implantar ou enxertar ideias, desejos, medos e temores, compulsões ou induzir comportamentos…

 

7. Manter o público na ignorância e na mediocridade. Fazer com que o público seja incapaz de compreender as tecnologias e os métodos utilizados para seu controle e sua escravidão. “A qualidade da educação dada às classes sociais menos favorecidas deve ser a mais pobre e medíocre possível, de forma que a distância da ignorância que planeia entre as classes menos favorecidas e as classes mais favorecidas seja e permaneça impossível de alcançar (ver “Armas silenciosas para guerras tranquilas”).

 

8. Estimular o público a ser complacente com a mediocridade. Levar o público a crer que é moda o facto de ser estúpido, vulgar e inculto.

 

9. Reforçar a autoculpabilidade. Fazer as pessoas acreditarem que são culpadas por sua própria desgraça, devido à pouca inteligência, por falta de capacidade ou de esforços. Assim, em vez de revoltar-se contra o sistema económico, o indivíduo se auto-desvaloriza e se culpabiliza, o que gera um estado depressivo, cujo um dos efeitos é a inibição de agir. E sem acção, não há revolução!

 

10. Conhecer os indivíduos melhor do que eles mesmos se conhecem. No transcurso dos últimos 50 anos, os avanços acelerados da ciência gerou uma brecha crescente entre os conhecimentos do público e os possuídos e utilizados pelas elites dominantes. Graças à biologia, à neurobiologia e à psicologia aplicada, o “sistema” tem desfrutado de um conhecimento e avançado do ser humano, tanto no aspecto físico quanto no psicológico. O sistema conseguiu conhecer melhor o indivíduo comum do que ele a si mesmo. Isso significa que, na maioria dos casos, o sistema exerce um controle maior e um grande poder sobre os indivíduos, maior do que o dos indivíduos sobre si mesmos.

 

VIA: Adital (com alterações)

 

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por Augusta Clara às 13:00

Sexta-feira, 29.05.15

Debate entre Michel Foucault e Noam Chomsky sobre a natureza humana (Completo)

 

 

   Histórico debate entre dois gigantes pensadores ocidentais. O filósofo Michel Foucault — filósofo, historiador das ideias, teórico social, filólogo e crítico literário — discute com Noam Chomsky, linguista, filósofo e ativista político norte-americano.

O debate, promovido por um canal de televisão holandês, aconteceu em 1971 e teve como tema central a seguinte questão: há algo que se possa dizer ser inato à natureza humana?

Com suas visões antagônicas, Foucault desconstrói o argumento da natureza humana, enquanto Chomsky aplica sua visão criativa do ser humano para dar algumas características do que seria a natureza humana, tendo como impeto a sugestão de um modelo de sociedade que a impulsionaria, ao invés de reprimi-la.

Mais de 40 anos após o debate, será que esta questão fora esquecida? Com certeza ainda impera, mesmo que sorrateiramente. (Youtube, 18/05/2015)

 

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por Augusta Clara às 08:00

Quinta-feira, 06.11.14

"Triste espécie. Pobre Coruja de Minerva" - Noam Chomsky

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Noam Chomsky  "Triste espécie. Pobre Coruja de Minerva"

(Tradução de Tiago Franco)

 

 

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OUTRASPALAVRAS, 7 de Outubro de 2014 

 

   Não é agradável contemplar os pensamentos que devem estar passando pela mente da Coruja de Minerva, que alça voo ao cair do crepúsculo e toma para si a tarefa de interpretar cada era da civilização humana — esta mesma que pode, agora, estar se aproximando de um final inglório.

Nossa era começou há quase 10 mil anos, na região da Crescente Fértil. Estendeu-se, a partir das terras do Tigre e Eufrates, pela Fenícia, na costa oriental do Mediterrâneo, chegando ao vale do Rio Nilo e de lá para além da Grécia. O que está acontecendo nesta região fornece dolorosas lições sobre o abismo ao qual a espécie humana pode chegar.

As terras do rios Tigre e Eufrates têm sido palco de horrores indescritíveis nos últimos anos. A ofensiva de George W. Bush e Tony Blair em 2003, que muitos iraquianos compararam à invasão mongol do século XIII, foi mais um golpe letal. Destruiu grande parte do que havia sobrevivido às sanções da ONU, dirigidas por Bill Clinton contra o Iraque e condenadas como “genocídio” por ilustres diplomatas como Denis Halliday e Hans von Sponeck, que as administravam antes de renunciarem em protesto. Os devastadores relatórios de Halliday e von Sponeck receberam o tratamentos usualmente dispensado a fatos indesejados…

Uma das conseqüências terríveis da invasão estadunidense-britânica é descrita em um “guia visual para a crise no Iraque e na Síria” do New York Times: a radical mudança da Bagdá, que tinha bairros mistos em 2003, para os atuais enclaves sectários — sunitas ou xiitas — aprisionados em ódio amargo. Os conflitos causados pela invasão espalharam-se e estão agora rasgando toda a região em farrapos.

Boa parte da área do Tigre e Eufrates está dominada pelo ISIS e seu auto-proclamado Estado Islâmico. Uma caricatura sombria da forma mais extremista do Islã radical, que tem sua origem na Arábia Saudita.

 

 

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por Augusta Clara às 14:00

Terça-feira, 24.06.14

Noam Chomsky e a sua esperança dissidente, entrevista a Chris Hedge*

 

Chris Hedge* entrevista Noam Chomsky

(tradução de Vila Vudu)

 

 

Ele vislumbra brechas na fábrica de consensos do capitalismo e aposta: movimentos como Occupy, economia solidária e rejeição ao consumismo podem abalar sistema

 

Outras Palavras, 20 de Junho de 2014

   Noam Chomsky, a quem entrevistei 5ª-feira passada em sua sala no Massachusetts Institute of Technology (MIT), influenciou intelectuais nos EUA e em todo o mundo, por número incalculável de vias. A explicação que construiu para o Império, a propaganda de massa, a hipocrisia e o servilismo dos liberais e os fracassos dos acadêmicos, além do que ensinou sobre os modos pelos quais a linguagem é usada como máscara pelo poder, para nos impedir de ver a realidade, fazem dele o mais importante intelectual nos EUA. A força de seu pensamento, combinada a uma independência feroz, aterroriza o estado-empresa – motivo pelo qual a imprensa-empresa e grande parte da academia-empresa tratam-no como pária. Chomsky é o Sócrates do nosso tempo.

Vivemos um momento sombrio e desolado na história humana. E Chomsky começa por essa realidade. Citou o falecido Ernst Mayr, importante biólogo evolucionista do século 20, que disse que provavelmente nós jamais encontraremos extraterrestres inteligentes, porque formas superiores de vida se autoextinguem em tempo relativamente curto.

“Mayr dizia que o valor adaptacional do que se chama ‘inteligência superior’ é muito baixo” – disse Chomsky. – “Baratas e bactérias são muito mais adaptáveis que os humanos. É melhor ser inteligente que estúpido, mas podemos ser um equívoco biológico, usando os 100 mil anos que Mayr nos dá como expectativa de vida como espécie, para destruir-nos nós mesmos e destruir também muitas outras formas de vida no planeta.”

A mudança climática “pode acabar conosco, e em futuro não muito distante” – diz Chomsky. – “É a primeira vez na história humana em que temos a capacidade para destruir as condições mínimas para sobrevivência decente. Já está acontecendo. Há espécies que estão sendo destruídas. Estima-se que vivemos destruição equivalente à de há 65 milhões de anos, quando um asteroide colidiu com a Terra, extinguiu os dinossauros e grande número de outras espécies. A destruição, hoje, é de nível equivalente àquele. De diferente, que o asteroide somos nós. Se alguém nos está vendo do espaço, deve estar atônito. Há setores da população global tentando impedir a catástrofe global. Outros setores tentam apressá-la.

Veja bem quem são uns e outros: os que tentam impedir a catástrofe total são os que nós chamamos de primitivos, atrasados, populações indígenas – as Nações Originais no Canadá, os aborígenes australianos, pessoas que ainda vivem em tribos na Índia. E quem acelera a destruição? Os mais privilegiados, os chamados ‘avançados’, os letrados, as pessoas cultas e educadas do mundo.”

Se Mayr acertou, estamos no fim de uma tendência, acelerada pela Revolução Industrial, que nos jogará para o outro lado de uma montanha, ambientalmente e economicamente. Esse evento, aos olhos de Chomsky, nos oferece uma oportunidade e, ao mesmo tempo, traz um perigo. Já várias vezes Chomsky repetiu, como alerta, que, se temos de nos adaptar e sobreviver, é preciso derrubar o poder da elite-empresa-corporação, mediante movimentos de massa; e devolver o poder a coletivos autônomos que são focados em manter as comunidades, em vez de explorar comunidades. Apelar às instituições e mecanismos estabelecidos de poder não vai dar certo.

 

 

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por Augusta Clara às 08:00

Segunda-feira, 02.09.13

Mensagem de Noam Chomsky em Abril de 2013

 

Noam Chomsky

 

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por Augusta Clara às 15:00

Segunda-feira, 17.06.13

Não só nos Estados Unidos, mas em toda a parte - Noam Chomsky

 
 
Diz-nos Noam Chomsky
 
 
Não apenas nos Estados Unidos, mas em toda a parte. Não há nenhum lugar no mundo que não tenha estruturas de autoridade e de dominação que são (na minha opinião) ilegítimas, e deveriam ser desmanteladas a favor da criação duma sociedade mais livre e justa, o que espero se venha a transformar numa verdade definitiva; faz parte da "condição humana".
 
 
   Not just the US, but everywhere. There is no place in the world that does not have structures of authority and domination that are (in my view) illegitimate, and that should be dismantled in the interests of creating a more free and just society. Furthermore, I expect that to be true forever; it's part of the "human condition". 
 
Beyond that, we have to turn to specifics. Take the most powerful institutions in the world: great powers and corporations. I think they are fundamentally illegitimate, and should be placed under democratic control. And I'm including the states here -- democratic control is substantially form, not substance, when there are vast internal inequities of wealth and power. The leading American social philosopher of the last century, John Dewey, "as American as apple pie," was not wrong when he described politics as the shadow cast over society by big business, and when he discussed the reasons for that. And we should, I think, go far beyond what he said. But now we are moving into a domain that requires serious thought and discussion. 
As for the population, it's a complicated matter. An overwhelming majority feel that the political system does not respond to their interests, and that elections are some kind of game among the powerful in which they scarcely participate, except maybe formally. And opposition to corporate power is also far-reaching. Whether this will translate into substantial popular movements to bring about change -- as in past history of the US and others, and elsewhere in the world today -- there isn't much point speculating. For people concerned about the matters, the question is one of action, not speculation about what we cannot know.
 
Noam Chomsky
 
(in Chomsky Quotes)

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por Augusta Clara às 08:00

Quinta-feira, 14.03.13

Quem é o dono do mundo? - Noam Chomsky

 

Noam Chomsky  Quem é o dono do mundo?

 

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   Publicado em Esquerda.Net em 11 de Março de 2013

Uma vez que ultrapassamos o marco dos estados nacionais, podemos ver que há uma mudança do poder mundial, mas a direção dessa mudança é da força de trabalho para os donos do mundo: o capital transnacional, as instituições financeiras mundiais, diz o pensador norte-americano Noam Chomsky, entrevistado por David Barsamian, do Alternative Radio.

 

David Barsamian – O novo imperialismo dos Estados Unidos parece ser substancialmente diferente da variedade mais antiga, uma vez que os Estados Unidos são uma potência económica em declínio e, portanto, estão vendo minguar seu poder e influência política.

 

Noam Chomsky Eu penso que deveríamos assumir certa reserva ao falar sobre o declínio dos Estados Unidos. Foi na Segunda Guerra Mundial que os Estados Unidos realmente se converteram numa potência mundial. O país já era a maior economia do mundo muito tempo antes da guerra, mas era uma potência regional de certa forma. Controlava o Hemisfério Ocidental e tinha feito algumas incursões no Pacífico. Mas os britânicos eram a potência mundial.

A Segunda Guerra Mundial mudou essa situação. Os Estados Unidos converteram-se na potência mundial dominante. O país tinha a metade da riqueza do mundo. As outras sociedades industriais estavam debilitadas ou destruídas, enquanto os EUA estavam numa posição de incrível segurança. Controlavam o hemisfério, tanto do lado do Atlântico como do Pacífico, com uma enorme força militar.

Esse poder sofreu um declínio, sem dúvida. Europa e Japão recuperaram-se e ocorreu um processo de descolonização. Por volta de 1970, os EUA acumulavam cerca de 25% da riqueza do mundo; aproximadamente como era esse quadro, digamos, nos anos 20. Continuava a ser a potência mundial avassaladora, mas não como havia sido em 1950. Desde 1970, essa condição está bastante estável, ainda que tenham ocorrido mudanças, obviamente.

Na última década, pela primeira vez em 500 anos, desde as conquistas espanhola e portuguesa, a América Latina começou a enfrentar alguns dos seus problemas. Iniciou um processo de integração. Os países estavam muito separados uns dos outros. Cada um tinha uma relação própria na direção do Ocidente, primeiro Europa e depois Estados Unidos. Essa integração é importante. Significa que não é tão fácil dominar os países um a um. As nações latino-americanas podem unificar-se para se defender contra uma força exterior.

O outro acontecimento, que é mais importante e muito mais difícil, é que os países da América Latina estão a começar individualmente a enfrentar os seus enormes problemas internos. Com os seus recursos, a América Latina deve ser um continente rico, particularmente a América do Sul.

A América Latina tem uma enorme quantidade de riqueza, mas está muito concentrada nas mãos de uma pequena elite, de perfil europeizado e branca na sua maioria, existindo ao lado de uma enorme pobreza e miséria. Há algumas tentativas de começar a fazer frente a esse quadro, o que é importante – outra forma de integração – e a América Latina está, de algum modo, a afastar-se do controlo dos EUA.

 

Fala-se muito da mudança de poder mundial: a Índia e a China vão converter-se nas novas grandes potências, as potências mais ricas?

 

De novo aqui, devemos guardar reserva. Por exemplo, muitos observadores comentam sobre a dívida dos EUA e o facto de que, grande parte dela, está nas mãos da China. Há alguns anos o Japão detinha a maior parte da dívida dos EUA, mas foi superado pela China. Além disso, todo o marco para a discussão sobre o declínio dos Estados Unidos é enganoso. Ele leva-nos a falar sobre um mundo de estados concebidos como entidades unificadas e coerentes.

Na teoria das relações internacionais, há o que se chama de escola “realista”, que diz que vivemos num mundo de estados anárquico e que os estados procuram o seu “interesse nacional”. Isso é, em grande parte, uma mitologia. Há alguns interesses comuns, como a sobrevivência. Mas, na maioria das vezes, as pessoas têm interesses muito diferentes no interior de uma nação. Os interesses do diretor executivo da General Eletric e do funcionário que limpa o chão da sua empresa não são os mesmos.

Parte do sistema doutrinário nos Estados Unidos é formado pela pretensão de que todos somos uma família feliz, que não há divisões de classes, e que todos estamos a trabalhar juntos em harmonia. Mas isso é radicalmente falso.

No século XVIII, Adam Smith disse que as pessoas que dominam a sociedade fazem as políticas: os “mercadores e manufatureiros”. O poder hoje está nas mãos das instituições financeiras e das multinacionais. Estas instituições têm um interesse especial no desenvolvimento chinês. De modo que, digamos, o diretor executivo da Walmart, da Dell ou da Hewlett-Packard, sente-se perfeitamente contente de ter uma mão de obra muito barata na China a trabalhar sob condições horríveis e com poucas restrições ambientais. Enquanto na China houver o que se chama de crescimento económico tudo está bem.

Na verdade, há um pouco de mito neste tema do crescimento económico do país. A China é, em grande medida, uma linha de montagem. É um exportador importante, ainda que o défice comercial dos Estados Unidos com a China tenha aumentado, o défice comercial com Japão, Taiwan e Coreia diminuiu. O motivo é o desenvolvimento de um sistema de produção regional.

Os países mais avançados da região – Japão, Singapura, Coreia do Sul e Taiwan – enviam tecnologia avançada, partes e componentes para a China, que usa a sua força de trabalho barata para montar produtos e enviá-los para fora do país. E as corporações norte-americanas fazem a mesma coisa. Enviam partes e componentes para a China, onde são montadas e exportadas. É isso o que se chama de “exportações chinesas”, mas são exportações regionais em muitos casos e, noutros, é realmente um caso no qual os Estados Unidos estão a exportar para si mesmos.

Uma vez que ultrapassamos o marco dos estados nacionais como entidades unificadas sem divisões internas, podemos ver que há uma mudança do poder mundial, mas a direção dessa mudança é da força de trabalho mundial para os donos do mundo: o capital transnacional, as instituições financeiras mundiais.

 

Noam Chomsky é professor emérito de linguística e filosofia no Instituto Tecnológico de Massachusetts, em Cambridge (EUA). O seu último livro é "Power Systems: Conversations on Global Democratic Uprisings and the New Challenges to U.S. Empire. Conversations with David Barsamian".

Fonte: Futuro MX, via Rebelión

Tradução: Katarina Peixoto

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por Augusta Clara às 08:00



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