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Jardim das Delícias


Terça-feira, 15.05.18

MEMORIAL PROVISÓRIO DA INAUGURAÇÃO DA EMBAIXADA DOS ESTADOS UNIDOS DA AMÉRICA EM JERUSALÉM:

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Lista de palestinianos mortos pelo exército de Israel ontem, 14 de Maio de 2018

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Ezz el-din Musa Mohamed Alsamaak, 14 years old
Wisaal Fadl Ezzat Alsheikh Khalil, 15 years old
Ahmed Adel Musa Alshaer, 16 years old
Saeed Mohamed Abu Alkheir, 16 years old
Ibrahim Ahmed Alzarqa, 18 years old
Eman Ali Sadiq Alsheikh, 19 years old
Zayid Mohamed Hasan Omar, 19 years old
Motassem Fawzy Abu Louley, 20 years old
Anas Hamdan Salim Qadeeh, 21 years old
Mohamed Abd Alsalam Harz, 21 years old
Yehia Ismail Rajab Aldaqoor, 22 years old
Mustafa Mohamed Samir Mahmoud Almasry, 22 years old
Ezz Eldeen Nahid Aloyutey, 23 years old
Mahmoud Mustafa Ahmed Assaf, 23 years old
Ahmed Fayez Harb Shahadah, 23 years old
Ahmed Awad Allah, 24 years old
Khalil Ismail Khalil Mansor, 25 years old
Mohamed Ashraf Abu Sitta, 26 years old
Bilal Ahmed Abu Diqah, 26 years old
Ahmed Majed Qaasim Ata Allah, 27 years old
Mahmoud Rabah Abu Maamar, 28 years old
Musab Yousef Abu Leilah, 28 years old
Ahmed Fawzy Altetr, 28 years old
Mohamed Abdelrahman Meqdad, 28 years old
Obaidah Salim Farhan, 30 years old
Jihad Mufid Al-Farra, 30 years old
Fadi Hassan Abu Salmi, 30 years old
Motaz Bassam Kamil Al-Nunu, 31 years old
Mohammed Riyad Abdulrahman Alamudi, 31 years old
Jihad Mohammed Othman Mousa, 31 years old
Shahir Mahmoud Mohammed Almadhoon, 32 years old
Mousa Jabr Abdulsalam Abu Hasnayn, 35 years old
Mohammed Mahmoud Abdulmoti Abdal’al, 39 years old
Ahmed Mohammed Ibrahim Hamdan, 27 years old
Ismail Khalil Ramadhan Aldaahuk, 30 years old
Ahmed Mahmoud Mohammed Alrantisi, 27 years old
Alaa Alnoor Ahmed Alkhatib, 28 years old
Mahmoud Yahya Abdawahab Hussain, 24 years old
Ahmed Abdullah Aladini, 30 years old
Saadi Said Fahmi Abu Salah, 16 years old
Ahmed Zahir Hamid Alshawa, 24 years old
Mohammed Hani Hosni Alnajjar, 33 years old
Fadl Mohamed Ata Habshy, 34 years old

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por Augusta Clara às 02:17

Sexta-feira, 11.05.18

Escândalos à medida das necessidades - Carlos Esperança

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Carlos Esperança  Escândalos à medida das necessidades

 

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   À medida que os sucessos no campo económico e no emprego se acumulam, esta direita mobiliza todos os ratos do seu esgoto para a orquestração concertada contra o governo, a que não perdoa o apoio parlamentar do BE, PCP e PEV cuja exclusão governamental julgava legítima e definitiva.

Compreende-se a raiva e uma espécie de ressurreição do ELP e do MDLP, agora com as bombas e assassinatos ausentes. Cerca-se o governo com escândalos políticos, reais ou imaginários, reservados há muito para ocultar os seus e denegrir os resultados nos juros de empréstimos, na criação de emprego, na melhoria da média das remunerações, na confiança internacional e na estabilização da banca.

Hoje, em vez de se lançar uma bomba a uma sede do PCP, dispara-se a suspeição de um lugar num desafio de futebol a um ministro; em vez de se matar um padre de esquerda, divulga-se o vídeo do interrogatório a um arguido da área adversária; por cada notícia benéfica solta-se um primata de Poiares a mandar calar o chefe da Proteção Civil; cada dificuldade da direita reativa os incêndios nos telejornais e, na ausência do PR às missas de sufrágio, publicam-se listas de arguidos relacionados com o partido do Governo.

Em vez de um Ramiro Moreira a pôr bombas, temos a D. Cristas a chamar mentiroso ao PM; não podendo dividir o SNS entre privados e Misericórdias, os partidos que votaram contra a sua criação reclamam dos problemas que deixaram e das faltas para que não há orçamento que resista; os fogos e os escândalos políticos, só dos adversários, são armas sempre à mão para saciar a gula de quem sabe que os últimos sempre foram justificação para golpes da direita. António Costa é a Dilma desta gentalha.

A democracia é, para boa parte desta direita, o compasso de espera para um regime que preferiam a um governo que não seja inteiramente seu. A posse da comunicação social e a atração de trânsfugas garantem a propaganda e a corrupção das consciências venais, que passam despercebidas da opinião pública e não são matéria para os Tribunais.

A asfixia do contraditório perante o garrote demolidor das notícias falsas e das verdades que se ampliam é uma ameaça ao pluralismo e a garantia de que, depois de Cavaco, até o Doutor Passos Coelho pode aspirar a PR, agora que Marcelo, depois de ter jurado que faria um único mandato, anunciou de forma ínvia a recandidatura, que só a repetição da tragédia dos incêndios, no próximo ano, inviabilizaria.
Se António Costa dissesse o mesmo, não faltariam incendiários.

É difícil prever por quanto tempo vão abrir os noticiários e ocupar as primeiras páginas dos jornais os escândalos políticos de figuras maiores ou menores que tenham cometido a imprudência de se associarem ao PS, quer por convicção, quer por se encontrarem em trânsito para a direita.

Desde que se esqueçam os ‘papéis do Panamá’, a divulgação da auditoria de Belém aos mandatos precedentes e as funestas privatizações, chegam os incêndios e os escândalos políticos para neutralizar os êxitos do Governo.

A exigência de divulgação dos devedores, legalmente impossível, apenas da CGD, é o ataque soez ao banco público deixando o BES, BPN, Banif e BPP com o rabo de fora.

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por Augusta Clara às 16:26

Sábado, 05.05.18

Os enigmas da Coreia - José Goulão

 

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José Goulão  Os enigmas da Coreia

 

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abrilabril, Sexta, 4 de Maio de 2018

 

A concretização das intenções manifestadas na Declaração de Panmunjom, implica a independência da Península da Coreia, a desnuclearização do território e a retirada das forças militares estrangeiras.

 

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Coreano-americanos manifestaram-se em diversas cidades americanas contra as ameaças dos EUA e pela paz na Coreia, por ocasião do 72.º aniversário da libertação do jugo colonial japonês, em 14 de Agosto de 2017. CréditosFonte: Zoom in Korea

 

  O comunicado conjunto assinado em 27 de Abril último pelos presidentes da Coreia do Sul e da Coreia do Norte ainda está fresco mas, como é inevitável para que se cumpram as normas mistificadoras inerentes às mensagens com imprimatur, iniciaram-se as operações interpretativas do texto de modo a que, no limite, ele diga o que não diz e vice-versa.

A deterioração do conteúdo do documento, porém, não é da responsabilidade exclusiva dos agentes de propaganda; estes reflectem, em grande parte, a teia de manobras diplomáticas «correctivas» imediatamente suscitadas pelo texto, onde se misturam imposições, falsificações, oportunismo e má-fé, instrumentos fundamentais para quem gere as coisas do mundo de hoje.

Os coreanos anseiam pela Paz – a Norte ou a Sul do Paralelo 38

A declaração dos dois presidentes e a correspondente aproximação bilateral – a mais significativa em 65 anos de estado de guerra – assenta em bases genuínas, porque traduz os anseios pacifistas e unificadores da esmagadora maioria dos 80 milhões de coreanos. A Coreia é uma nação única no território da península e a divisão em dois Estados, ao contrário do que tanto se diz e escreve, revelando deplorável ignorância, não é um simples produto da guerra fria mas também o resultado de um conflito sangrento – aliás a primeira situação em que as Nações Unidas cobriram com a sua bandeira uma operação militar norte-americana, então para aplicação da «doutrina Truman» – em «defesa dos povos livres do mundo». Truman foi, aliás, um presidente tão recomendável como o que está na Casa Branca, como se percebe relendo algumas das suas frases lapidares: «Deus está do lado da América no que diz respeito às armas nucleares»; por isso, «agradecemos a Deus o facto de as armas nucleares serem nossas e não dos nossos inimigos»; com elas, «Deus pode guiar-nos nos seus caminhos e objectivos».

É fundamental recordar que a agressão internacional contra a Coreia provocou a morte de 30 por cento da população do norte da península, um massacre para o qual a chamada comunidade internacional jamais encarou a possibilidade de estabelecer reparações ou punir «os crimes de guerra». Lembrar essa realidade é uma circunstância que ajuda a perceber melhor, e agora mais do que nunca, as reacções obscurantistas e intriguistas ao objectivo de «desarmamento faseado» da península, «ao ritmo do alívio das tensões militares e dos progressos substanciais das medidas de confiança», definido pelos dois presidentes na cimeira de 27 de Abril. E também permite entender o indisfarçado mal-estar em Washington perante formulações como a construção de «um futuro de prosperidade mútua e unificação, conduzido pelos coreanos».

«a agressão internacional contra a Coreia provocou a morte de 30 por cento da população do norte da península»

As reacções gerais à cimeira entre Kim Jong-un e Moon Jae-in que actualmente se vão sedimentando, depois de ultrapassado o período em que se desgastou um pouco mais o estafado adjectivo «histórico», confirmam que os presidentes das Coreias do Norte e do Sul foram mais longe do que se esperava. Quando as atenções estavam concentradas, principalmente, numa cimeira entre o dirigente da Coreia do Norte e o presidente dos Estados Unidos, prevista para Junho mas ainda de realização duvidosa, eis que a iniciativa intercoreana subverteu a agenda diplomática e mediática, e logo por razões que não deixam dúvidas quanto à intencionalidade dos responsáveis.

A origem de toda a movimentação que veio atenuar um risco de confrontação prolongado durante meses foi o anúncio, pela Coreia do Norte, de que está disposta a suspender os ensaios com armas nucleares como ponto de partida para o restabelecimento de negociações sobre a paz na Península.

A importância da proposta tornou-se ainda mais relevante depois da reunião de Março entre Kim Jong-un e o presidente da China, Xi Jinping, cuja realização só foi tornada pública depois de ter sido concluída com êxito para ambas as partes, e na qual Pequim terá manifestado consonância com o pensamento estratégico do dirigente norte-coreano.

Se o movimento de aproximação de Kim Jong-un  colocou na ordem do dia a possibilidade de um encontro com Trump – depois de ambos se terem confrontado num prolongado, assustador e irresponsável duelo de ameaças – o regime de Seul respondeu de maneira ainda mais decidida e criou espaço para uma cimeira coreana. É inegável que houve desenvolvimentos paralelos e a velocidades diferentes.

Apesar de o acontecimento mais mediatizado ter sido o da visita a Pyongyang do então chefe da CIA e hoje secretário de Estado norte-americano, Michael Pompeo, tudo indica que o presidente da Coreia do Sul, Moon Jae-in não cedeu toda a representatividade ao enviado de Washington e reservou para si alguma margem de manobra e canais de acesso directo a Kim Jong-un.

Os inimigos da paz na Coreia devem procurar-se fora da península

Os dois dirigentes coreanos criaram, deste modo, um espaço de diálogo nacional. E quando duas partes se entendem, não necessitam de mediadores; três passam a ser de mais, sobretudo quando o participante excedentário tutela um dos lados. O novo cenário, surgindo contra a ordem dominante na região, está a criar choques e fricções dentro da Administração Trump – em remodelação permanente – mas é visto com bons olhos por fiéis aliados de Washington, um dado que pode funcionar como reforço dos sintomas de isolamento norte-americano em relação a alguns focos internacionais. A interpretação da situação na Península da Coreia depois da iniciativa de Kim Jong-un foi mais um ponto entre os vários desacordos que se manifestaram durante as recentes visitas de Macron e Merckel a Washington.

Moon Jae-in não ignora que, devido à tutela militar de Washington sobre Seul, ele próprio pisa um terreno mais minado ainda que o do seu interlocutor do norte. Pelo modo como se envolveu nas negociações nacionais – «ansioso», segundo algumas análises – e, sobretudo, pelo conteúdo da declaração conjunta, deu passos que extravasam o espaço de autonomia que a tutela externa estipulou para um presidente do regime sul-coreano.

Ao longo de décadas, as sucessivas administrações norte-americanas têm encarado os fortuitos períodos de contactos entre o Norte e o Sul da Coreia como movimentos perfeitamente controlados pela envolvente externa, orientados segundo os objectivos estratégicos de Washington não apenas para a península, mas também para toda a Ásia e tendo em conta a relação de forças global. A estrutura de poder que gere efectivamente os Estados Unidos da América, chame-se «Estado profundo» ou «complexo militar e industrial», tem mantido, em relação à Coreia, uma política com duas variáveis estreitas: ou impedir a unificação; ou ditar os termos da unificação, designadamente de maneira a estender a presença militar para norte, em direcção às fronteiras com a China e com o território da Federação Russa.

A recente Declaração de Panmunjom define objectivos dos dois regimes coreanos que são incompatíveis com o status quo. «Paz, prosperidade e unificação» conduzidas «pelos coreanos»; o início de «uma nova era de paz»; a transformação do armistício vigente desde 1953 num «tratado de paz» e num «sólido e permanente regime de paz na Península da Coreia» são metas apenas alcançáveis num cenário sem qualquer tipo de ocupação militar estrangeira.

«[A Coreia do Sul tem] um regime onde os serviços secretos se designam KCIA e as forças armadas estão subordinadas ao comando operacional norte-americano»

É certo que, dias depois da cimeira, o regime sul-coreano emitiu um comunicado afirmando que a retirada das tropas norte-americanas – as únicas estrangeiras presentes na península – não está a ser encarada no âmbito deste processo.

Trata-se de um recuo aparente, uma espécie de abrigo contra os estilhaços da convulsão que a nova situação coreana está a provocar nos círculos de poder norte-americano. Porque, em termos práticos objectivos, não existe réstia de compatibilidade entre um tratado de paz e a manutenção de um contingente militar de ocupação, entre um «desarmamento faseado ao ritmo do alívio das tensões militares» e a continuação de um regime onde os serviços secretos se designam KCIA e as forças armadas estão subordinadas ao comando operacional norte-americano.

Em suma, a concretização das intenções manifestadas pelos presidentes da Coreia do Sul e da Coreia do Norte na Declaração de Panmunjom, designadamente a unificação, implica a independência da Península da Coreia, a desnuclearização de todo o território e a retirada das forças militares estrangeiras do país.

As «interpretações» ocidentais da Declaração de Panmunjom e a realidade

Na sua letra, a Declaração de Panmunjom manifesta uma intenção de ruptura assumida pelos dois presidentes. Contra a qual se erguem agora as teorias e análises impondo uma «releitura» do texto, algumas delas com tanta credibilidade, por exemplo, como as «provas» do recente ataque químico governamental sírio em Duma. É o caso da interpretação que explica como Kim Jong-un foi obrigado a suspender o programa nuclear porque a montanha que abriga o complexo militar e científico está a desabar; ou então a sua contrária, segundo a qual o presidente norte-coreano promete abdicar dos projectos militares nucleares enquanto continua a desenvolvê-los, e por isso não permitirá quaisquer inspecções internacionais. Um argumento falacioso para esconder a essência do que vai estar verdadeiramente em causa na cimeira entre o presidente norte-coreano e Donald Trump, caso se realize: o encerramento do programa nuclear de Pyongyang sob monitorização internacional em troca da retirada militar norte-americana do Sul da península. Este é o desafio lançado por Kim Jong-un, e cujas implicações Moon Jae-in, certamente, não ignora.

Uma proposta cuja recusa poderá deixar o presidente norte-americano isolado, até do próprio presidente da Coreia do Sul. O qual deve, desde já, precaver-se de quaisquer imprevistos, sendo o menos gravoso para a sua integridade física o pacífico, mas eficaz, golpe palaciano ao estilo paraguaio ou brasileiro.

Mas o que terá levado Donald Trump a aceitar o repto lançado pelo seu inimigo de estimação ao longo do primeiro ano de mandato?

Muito provavelmente porque tal lhe convém, uma vez que outro velho, mas renovado inimigo, entra em cena depois dos comprometedores fracassos dos justiceiros atlantistas na Síria: o Irão.

EUA: repousar na Coreia para atacar no Médio Oriente

Não apenas porque o Irão teve a ousadia de participar na resistência síria à agressão, ao lado da Rússia; também porque Teerão faz frente à reconfiguração do mapa do Médio Oriente, contribuindo para desmontar importantes mecanismos operacionais que a coligação entre Israel e a Arábia Saudita tenta impôr em toda a região, do Iémen ao próprio Irão, passando por Damasco e Beirute.

A agressão contra o Irão, uma obsessão com que Israel há muito tenta contaminar os aliados, e que partilha com o fundamentalismo saudita, estava prevista logo que a Síria se vergasse. Como isto não aconteceu, acumulam-se os indícios de que os dois países sejam agrupados num alvo comum, que provavelmente traduzirá numa catastrófica fuga para a frente. Daí as ameaças cada vez mais consistentes de Trump segundo as quais os Estados Unidos sairão do acordo com o Irão, reforçadas agora que Israel “descobriu”, certamente nos mágicos laboratórios do Mossad, as provas de que além dos tão falados projectos nucleares suspensos, Teerão ainda tem outros – mas esses ultra-secretos.

Na eventualidade de se registar uma maior concentração de esforços de guerra no Médio Oriente, até ao intrépido e omnipresente exército norte-americano convém que a frente da Coreia fique congelada por uns tempos, nem que seja alimentando conversações que darão em nada.

O pior, para as sempre periclitantes estratégias do Pentágono, é se os coreanos conseguirem trilhar em conjunto o caminho que tiveram a ousadia de abrir.

 

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por Augusta Clara às 15:50

Sábado, 28.04.18

A indecente manipulação das imagens - Ferreira Fernandes

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Ferreira Fernandes  A indecente manipulação das imagens

 

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Diário de Notícias, 27 de Abril de 2018

   É como as anedotas. Vocês sabem, é possível brincarmos com tudo, mas não com todos - até se pode contar piadas sobre campos de concentração... mas não se há um nazi por perto. Emmanuel Macron deve ter pensado que podia ter todo o tipo de gestos. Mas aprendeu nesta semana que deveria abster-se de ter gestos íntimos com Donald Trump.

Macron é capaz de posar tão bem de firme como de encantador. O presidente francês tem a boa figura e as convicções que o fazem ficar bem, com qualquer das variáveis, uma ou outra. Dizem alguns analistas que uma das razões de ter chegado ao Eliseu foi por, entre as duas voltas das presidenciais, ter ousado defrontar grevistas coléricos. Cercado entre operários da Whirlpool que protestavam por a sua empresa ser deslocalizada para a Polónia, Macron disse a um: "Não me trate por tu, porque não lhe faço o mesmo." Até lá era o menino dos gabinetes alcatifados do banco Rothschild, mas com essa imagem, essa voz e esse tom à porta da fábrica ocupada e transmitidos pela televisão, sob o escrutínio dos franceses que ainda andavam a tentar saber quem era aquele jovem ovni da política, ele foi catalogado como duro. Quanto a ser gentil, sempre bastou o seu ar de galã frágil - como um herói de filme de François Truffaut, um Antoine Doinel reconvertido na política.

No seu primeiro encontro, em maio do ano passado, com o também recente presidente americano, Macron ganhou por KO. Agarrou no ponto fraco de Trump - as mãozinhas pequenas que até tinham sido assunto da campanha americana. Na Casa Branca, sentados em cadeirões, em frente às câmaras, quando o americano lhe estendeu o bacalhau fugidio do costume, o francês firmou a mão e levou o outro a um esgar de desconforto que não escapou ao mundo. Foi só uma derrota que o presidente do país da imagem pública e dos dentes perfeitos não esqueceu. Até poder resgatar-se, nesta semana.

Aconteceu na visita de Emmanuel Macron à América. Ele trazia um discurso fisgado e esse era - já lá vamos aos pormenores - o de cimentar a sua liderança na Europa, agora que a sua parceira e aliada já não é a poderosa que Angela Merkel foi. Recebeu-o Donald Trump, homem de televisão e americano dos efeitos especiais. Uma coisa foi o francês tê-lo apanhado desprevenido, há um ano, outra seria deixar que o desconchavo se repetisse. Quem teve quem lhe organizasse as eleições, investindo cirurgicamente nos condados onde os dados fornecidos pelo Facebook diziam que se devia inundar com anúncios eleitorais eficazes, pôde apostar desta vez num personal trainer que lhe indicou onde amesquinhar o francezinho. Se a discursar bem Trump ainda não aprendeu, a gestualizar ele mostrou ser bom e rápido aluno.

Então, as conversações de 23 e 25 de abril, durante a visita de Macron a Washington, saldaram-se por um Waterloo gestual. O pequeno Napoleão foi derrotado por um improvável duque de Wellington de melena alourada. Trump caprichou e insistiu no capricho. E Macron convencido de que tinha arrumado o outro de vez com o aperto firme de mão, no ano passado, aprendeu que há gestos que não se podem ter com Trump. Sobretudo quando este já não está desprevenido.

Seguem-se três cenas, todas elas daquelas que levam direito a Santa Helena. Na Casa Branca, com as mãos descaídas e cruzadas frente ao casaco, com o sorriso que já não podia ser de vencedor, Macron deixou que Trump lhe limpasse uma hipotética caspa da lapela e, pior, deixou que o sorriso permanecesse beato. Entre eles, um quadro de George Washington, o mesmo do pai fundador que aparece nas notas de dólar, prevenia. Reparem, Washington nunca mostra os dentes porque os tinha em madeira, os odontologistas ainda não tinham sido inventados no seu tempo, mas o ar austero que aparece naquela foto também era para avisar o amigo francês, do grupo dos presidentes decentes, contra o seu sucessor. Este, grosseiro, sabendo o outro fragilizado, lançou aos jornalistas: "Ele deve ficar perfeito", e sacudiu um pouco mais a lapela do convidado...

 

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Com ambos de pé, Trump deixa o seu microfone, aproxima-se de Macron, cruza com ele as mãos direitas, inclina-se e encosta a sua à cabeça dele. Fotos, filmes. A diferença de alturas sublinha o poder do americano. Finalmente, a imagem mais cruel, à saída da Casa Branca, Trump, apesar de dono da casa, está um bom passo à frente do hóspede. Deixa a mão esquerda para trás, que Macron imprudentemente agarra. E vai arrastado. Em filme, parece a debandada final dos franceses em Waterloo, sem um Cambronne que ponha cobro ao insulto; em foto, é um garoto que o pai leva à escola... As imagens são todas desastrosas para o presidente francês, sobretudo porque a contracorrente do que antes ele demonstrara. O ar glorioso de Trump não escondia, nem fingia que tentava esconder, que a vingança estava consumada.

No dia seguinte, Emmanuel Macron foi ao Congresso. Falar. A imagem, essa, tinha sido lamentavelmente destroçada antes. Sem ela, pior, com ela nas ruas da amargura, restavam-lhe as palavras. Num editorial, o jornal Le Monde fez o rol do que o presidente francês defendeu, em contraponto da nova política americana. A alternativa dos valores europeus, ao mundo fraturado que Trump quer; o comércio aberto contra o protecionismo; os valores progressistas contra o fascínio do poder forte; os acordos de Paris sobre o clima contra a recusa deles. A voz de Macron foi clara e forte. Mas já uma e outra e outra imagem de Macron faziam este valer menos do que mil palavras.

 

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por Augusta Clara às 20:01

Segunda-feira, 16.04.18

Les animaux de la Macronésie - César Príncipe

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César Príncipe  Les animaux de la Macronésie

 

 

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   Um tal Emmanuel Macron, o pauvre diable que se senta com ar de monarca no Eliseu, declarou ao Mundo e a Marte que tem provas do emprego de armas químicas pelo regime sírio. O garçon de bureau Rothschild dispõe de fontes autorizadas: os Capacetes Brancos, bandidos angélicos e evangélicos, que actuam como encenadores e delegados de propaganda médica no terreno dos terroristas; o Observatório Sírio dos Direitos Humanos, com sede natural em Londres, donde jorram informações diárias para o planeta e – claro – possui os seus serviços de intelligence à la carte, aptos a fabricar evidências à medida de Colin Powell e em tempo oportuno. Macron finge que acredita em si mesmo e inventou a Macronésie, a fim de assegurar um lugar que se veja e uma voz que se ouça à superfície do globo. O pauvre, abarrotado de problemas sociais em casa, oferece-se ao rambo Trump para ir à caça ao leão pelas estradas e sobretudo pelos céus de Damasco. E Theresa May, a inventora do fármaco Skripal, disponibilizou-se como enfermeira de drones.

É esta a parelha que tenta pregar um susto à Rússia: a ex-Grande França e a ex-Grã-Bretanha. A França, com o pigmeu de tacão alto Sarkozy, foi até à Líbia assassinar o financiador; a Inglaterra, com a dama de ferro Thatcher, foi até às Malvinas e obteve meia vitória militar. E não poderão ir muito mais além. Em termos de definição global de forças, a França e a Inglaterra esgotaram o potencial hegemónico no séc. XIX. Mas parece não haver maneira de se capacitarem da sua condição: não passam de duas fantasias pós-imperiais. Chegaram ao séc. XXI com um superego que não corresponde às circunstâncias. Não são as exibições de circo mediático que repõem a paridade geo-estratégica. Por isso, tementes de uma dura ensinadela (quem vai à guerra, dá e leva) prontificam-se a servir os USA e deita-fora. Pouco ou nada arriscam sozinhos. Não vá o diable tecê-las.

A guerra, em 2018, não se ganha com fanfarronadas do roy-soleil de la Macronésie nem bestialidades do hooligan Boris Foreign Office. Ou será que ninguém os detém até que os seus países se evaporem num sopro? Poupem o Musée du Louvre e oNational Theatre, meus senhores! Segundo os experts do royal power, em caso de conflito nuclear, mesmo selectivo, estas duas ufanas e medianas nações gozam de dez minutos para se benzerem e encomendarem a alma a Joana d'Arc e a São Jorge. Compete aos franceses e aos ingleses com mens sana exigir, com carácter de urgência, o desterro do casal Macron-May. Merkel afastou-se da armada do bidão de cloro . Um ex-presidente, Hollande, acaba de lembrar ao sucessor que os franceses costumam decapitar os monarcas. O próprio Pentágono reconhece que não tem provas credíveis da pulverização. Anda no seu encalço. Só conhece o caso do animal Assad pela Imprensa e pelas ditas redes sociais. Mas Macron está na posse da verdade revelada. Mas May convoca o Conselho de Guerra. Mas multiplicam-se os avisos, os agoiros, as reticências. Se os USA acabarem por dispensar os guerreiros franco-britânicos, será que estes avançarão de peito feito às balas, aos mísseis, aos gases, à hecatombe, à capitulação?

De qualquer modo, devido ao perigo que representam para a humanidade, embarquemos Macron para os cascalhos da Córsega e May para os rochedos de Gibraltar. Estão carecidos de descanso e algum estudo. Um dos manuais poderá ser de etiqueta. Por exemplo, Como Deverá Comportar-se uma Fera sem Garras ante um Predador de Grande Porte. La Fontaine, se fosse nosso contemporâneo, editaria uma fábula à propos: Les Animaux de la Macronésie.

 

Nota, 13/Abr/18/10h10: O facto do texto ter sido redigido na véspera dos bombardeamentos da Síria, não invalida nem uma letra da denúncia e do alcance da fábula Les Animaux de la Macronésie. Primeiro: as forças franco-britânicas não passam de chiens de guerre dos USA. Segundo: a operação de terrorismo aéreo do triunvirato não se aventurou ao ponto de uma contra-resposta da Rússia. Terceiro: a tríade não esperou pela chegada a Duma dos especialistas da Organização para a Proibição de Armas Químicas/OPAQ, que conta com o sufrágio de 190 países (incluindo os atacantes), e estava prevista para o dia 14 do corrente. Os amigos da verdade adiantaram-se às conclusões. Já assim foi no Iraque: mandaram retirar do terreno os inspectores que procuravam e não encontravam as armas de destruição maciça que existiam nas irrefutáveis provas de Bush, Blair, Aznar e Barroso e nas ilustres cabecinhas do império mediático.

 

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por Augusta Clara às 04:06

Terça-feira, 10.04.18

Seita reaccionária de 'comentadeiros' lusitanos contra Lula - Alfredo Barroso

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Alfredo Barroso  Seita reaccionária de 'comentadeiros' lusitanos contra Lula

 

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   A indignidade dos "comentadeiros" reaccionários - que pululam como cogumelos venenosos nas páginas dos jornais e nos canais de TV portugueses - vai ao ponto de comparar Lula da Silva, o ex-presidente do Brasil que se tornou preso político, com o insensato, desbocado e colérico Bruno de Carvalho, futuro ex-presidente do Sporting. O que é o mesmo que, por exemplo, comparar o colunista do "New York Times" e Prémio Nobel da Economia, Paul Krugman, com o simploriamente reaccionário e sectário "comentadeiro" de última página do "Público", João Miguel Tavares, que se tornou famoso por ter insultado José Sócrates e por isso ter sido levado a julgamento e absolvido.

O que custa a esta "seita" reaccionária, que abunda nos órgãos de Informação lusitanos, é saber que Lula da Silva foi julgado e condenado sem provas, apenas pela "convicção" individual e colectiva dos juízes que quiseram, à viva força, enfiá-lo numa prisão para o afastar da possibilidade de se recandidatar ao cargo de Presidente do Brasil, quando todas as sondagens prevêem que ele seria o vencedor, com larguíssima vantagem sobre o seu mais directo rival, o fascista Jair Bolsonaro...

Claro que a "seita" reaccionária lusitana ainda não chegou ao ponto de fazer como aqueles controladores de voo militares que aconselharam o piloto do helicóptero que transportou Lula para a prisão de Curitiba a "lançá-lo dele abaixo" durante o vôo! Mas talvez não estejam muito longe de desejar a sua morte,,,

São já legião os juristas, não só brasileiros mas também dos quatro cantos do mundo, escandalizados com a condenação, sem provas, e apenas por mera convicção política, de Lula da Silva. O que a mim me faz lembrar aquela anedota do marido que bate sistematicamente na mulher sem qualquer motivo concreto, e que responde a quem lhe pergunta, então, qual é a razão: «Eu não sei, mas ela sabe com certeza!»...

Também custa muito à "seita" reaccionária lusitana ser lembrada do golpe montado por um "exército" de políticos corruptos da direita brasileira decididos a destituir Dilma Rousseff do cargo de Presidente do Brasil sem que a menor suspeita de corrupção incidisse sobre ela, apenas agarrados a um pretexto meramente formal que poderia servir para destituir todos os PR's e chefes de Governo do mundo. Se não houve "conspirata", e das mais vergonhosas, vou ali e já venho. E o que dizer da autêntica "múmia paralítica" que dá pelo nome de Michel Temer, acusado de corrupção em vários processos e um "fantoche" politicamente incompetente que traíu Dilma Rousseff para a substituir?!

Campo d' Ourique, 10 de Abril de 2018"

 

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por Augusta Clara às 17:22

Terça-feira, 03.04.18

A marcha pelas nossas vidas em Gaza - Alexandra Lucas Coelho

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Alexandra Lucas Coelho  A marcha pelas nossas vidas em Gaza

 

SAPO24, 30 de Março de 2018

 

O mundo viu a cara de Emma Gonzalez. No mesmo exacto dia, estudantes revoltavam-se em Gaza. Saem de casa para a escola a cada dia, marcham pela sua vida todos os dias. Espero o dia em que a América, e o mundo, também se possam ver na cara deles.

1. A América em luto viu-se na cara de Emma Gonzalez. A América em choque desde a eleição de Trump viu-se na cara de Emma Gonzalez durante seis minutos e vinte segundos, o tempo que o atirador da Florida levou a matar 17 pessoas. Essa América respirou com ela, sofreu com dela, chorou com ela, lágrimas rolando em silêncio, perante meio milhão de pessoas ali em Washington, perante o mundo. Quando Emma Gonzalez saiu do palco, a América tinha um ícone para o futuro, um perfil do Monte Rushmore. A nova estrela da América, ou a estrela da nova América era mulher, bissexual, 18 anos, cabelo rapado, cara lavada, a pele escura dos latino-americanos, o apelido de quem descende de outra América, mais abaixo (no caso dela, Cuba). Go Emma, we love you, tinham gritado jovens na assistência, ao todo dois milhões de americanos nas ruas de várias cidades contra a violência das armas, pelas suas vidas. Emma Gonzalez era o épico de um tempo, este tempo, a coisa mais poderosa que acontecia na América desde a eleição de Donald Trump. Seis minutos e vinte segundos de cinema, feito na América, pela América, essa utopia de uma só palavra na voz de Walt Whitman (America // Centre of equal daughters, equal sons…)

 

Aconteceu sábado, em directo dos Estados Unidos da América.

 

2. Por assombrosa coincidência, nesse mesmo dia, nesse mesmo sábado, houve uma revolta de estudantes na Faixa de Gaza. Um sit-in disperso à bastonada pela polícia local. Não soube disso em tempo real, como em tempo real soubemos de Emma em Washington, e todos os seus colegas que iniciaram o movimento #neveragain, propulsionando a histórica March For Our Lives de 24 de Março. Soube por um email quatro dias depois, do Palestinian Center of Human Rights (PCHR), um centro baseado em Gaza que conheço há bastantes anos, e regularmente envia relatórios da situação na Faixa para os seus contactos em todo o mundo. Há pouquíssimas notícias de Gaza, há muitos poucos jornalistas em Gaza a reportar para fora, então os relatórios do PCHR são pelo menos um vislumbre regular.

Esse email contava:

“De acordo com informação obtida pelo PCHR, a administração da Universidade al-Azhar anunciou dia 21 Março de 2018 a decisão de impedir qualquer estudante masculino ou feminino de entrar nas salas de exame sem pagar as propinas. Centenas de estudantes recusaram a decisão por as famílias não terem meios de fazer o pagamento, dada a deterioração das condições económicas e sociais [na Faixa de Gaza]. Na manhã de sábado, 24 de Março 2018, centenas de estudantes protestaram dentro do campus da universidade contra a decisão, causando altercações entre os estudantes e os empregados. A Segurança da Universidade interveio para dispersar o sit-in. Os acontecimentos precipitaram-se e agentes do Serviço de Polícia Palestiniana intervieram, chamados pela Administração da Universidade. Os agentes dispersaram o sit-in, e dezenas de estudantes ficaram feridos, depois de serem espancados com bastões. A polícia deteve também vários estudantes e um fotojornalista, Mahmoud Zo'abor, que trabalha para a al-Hadaf News, após um homem, que se identificou como sendo do Ministério do Interior, confiscar a câmara e o telemóvel do jornalista [foram mais tarde libertados].” Cheguei entretanto a outras, breves, notícias que confirmam a tensão estudantil em Gaza nas últimas semanas.

E pensei nos rapazes e nas raparigas da universidade al-Azhar com quem estive em Maio passado, lá em Gaza. Valerá a pena algum contexto, para perceber melhor o que está a acontecer agora.

 

3. O pedacinho de orla que é Gaza (40 quilómetros de comprimento por seis a dez de largura) tem dois milhões de pessoas lá dentro, literalmente presas há décadas, como o mundo sabe. Literalmente presas quer dizer: impedidas de sair. Não há metáfora. E não há nada, mas nada, que se compare a isto em todo o planeta

Desses dois milhões de pessoas 66 por cento têm menos de 25 anos. Ou seja, dois terços dos habitantes daquela prisão única são jovens. Pensem em todos os jovens que viram pela TV nas ruas dos EUA, sábado passado. Em Gaza são mais. E o desemprego, que em Gaza está em 50 por cento, é mais alto ainda entre os jovens. Centenas de milhares de rapazes e raparigas que literalmente, sem metáfora, não têm saída. E, além de não terem forma de sair, fisicamente, nem terem trabalho quando acabam de estudar, não têm um único cinema, já quase não têm música ao vivo, não têm água potável nas torneiras, não têm electricidade 20 horas por dia, nem podem ser bissexuais, gays, trans, intersexo, sob risco, real, de serem mortos (no ano anterior, o Hamas executara um seu comandante, alegadamente condenado por roubo e “sexo homossexual”).

Em Maio, conversei com mais de uma dezenas destes estudantes junto à universidade da Cidade de Gaza onde agora os protestos aconteceram. Não dentro do campus, porque isso os podia pôr em risco, chamar a atenção dos empregados, mas nas imediações. Primeiro, com um grupo de rapazes, depois com um gupo de raparigas. Todos usavam as redes sociais: Facebook, Instagram, Snapchat, Twitter. Essa era a janela, o único oxigénio do mundo. Nas três ou quatro horas de electricidade, que são as que restam diariamente, carregavam os telemóveis, e muitas vezes usavam os ecrãs como lanterna para estudar à noite.

E, vendo agora Emma Gonzalez, lembrei-me sobretudo de Rozan, a Rozan de 18 anos que estava ao centro do grupo de universitárias com quem falei, depois dos rapazes. Emma e Rozan têm a mesma idade, um carisma natural, uma força que sabe-se lá de onde vem. Rozan, cuja cara o mundo não conhece, falou-me como uma líder nata. “Somos muçulmanas mas não apoiamos o Hamas”, disse, rodeada pelas colegas, todas de cabelo coberto, todas de telemóvel na mão. “O Hamas passou dez anos no poder aqui, e como estamos? Não há electricidade, não há salários, não há gasolina. Três guerras! Eu tenho 18 anos e vivi uma intifada e três guerras. E ainda uma guerra civil entre Fatah e Hamas. Isto não é vida, é morte. E temos a certeza de que nos vamos licenciar e não encontraremos trabalho.”
Como a esmagadora maioria das pessoas que encontrei em Gaza nessa estadia de 2017 (em reportagem para a “Visão História”), Rozan e os seus contemporâneos sentiam-se duplamente reféns. Primeiro, reféns de Israel, a potência que controla Gaza por terra, mar e ar, a bombardeia regularmente, a sujeita ao mais longo e desumano bloqueio do planeta. Depois, reféns do Hamas, porque os últimos dez anos de poder em Gaza, os dez anos de divisão interna palestiniana são o fruto dramático do cerco israelita. Conheci Gaza em 2002, e fui visitando a faixa ao longo dos anos. Em Maio de 2017, a atmosfera era não só literalmente pútrida, como toda a gente parecia à beira de enlouquecer, e disparara a desconfiança sobre quem serve o quê, quem espia para quem. A gaiola onde Israel fechou os palestinianos chegava ao ponto a que chega uma gaiola nestas circunstâncias. Só que à vista do mundo, e com dois milhões de pessoas lá dentro, em vez de ratinhos.

 

4. Este é o contexto. O mais espantoso, porém, é que estas centenas de milhares de jovens em Gaza não estão a matar ninguém, nem a fazerem-se explodir, apesar de conhecerem na carne a violência das armas, e das bombas, desde que nasceram. Estão a ir às aulas, estão a lutar pelos seus exames. Estão a marchar todos os dias pelas suas vidas, na verdade, de casa para as aulas, das aulas para casa, de vez em quando para a praia, onde já nem se pode tomar banho sem risco de adoecer, porque é um mar de fezes, porque os esgotos não são tratados, proque não há condições para os tratar, porque o contexto é este. Há décadas. À vista de todos.

Em Outubro, Hamas e Fatah assinaram um acordo de reconciliação, que mal saiu do papel até agora. Não houve eleições, Abbas ainda é aquele presidente da Palestina lá em Ramallah, com quem o mundo fala porque acha que é o único que há, mas em quem os palestinianos não se revêm. O Hamas deu sinais de ter percebido que alguma coisa tinha de mudar, porque a situação em Gaza era insustentável, e a popularidade interna dos islamistas estava em queda, mas o mundo continuou a ter mais em que pensar. Há dias, o primeiro-ministro de Ramallah foi a Gaza inaugurar uma coisa e rebentou um explosivo que atingiu dois carros da sua caravana. Fatah e Hamas puniram-se mutamente, mostrando como é utópica a reconciliação neste contexto.

A partir de hoje, sexta-feira, e até 15 de Maio, quando Israel celebra o aniversário da sua fundação, o Hamas tem cinco acampamentos montados ao longo da fronteira de Gaza com Israel e incentivou a população a manifestar-se, como forma de lembrar o direito de retorno, de assinalar os 70 anos desse 15 de Maio, que para os palestinianos é a Naqba, ou Catástrofe. Israel está a responder com um aparato militar ao longo da fronteira, incluindo atiradores de elite. No momento em que escrevo, sete palestinianos já morreram e há dezenas de feridos.

Isto é Gaza, 30 de março de 2018.

 

5. Em Fevereiro estive nos EUA, parti no dia em que o atirador da Florida matou os colegas de Emma. Esse dia fez um clique que nenhum outro massacre tinha feito. Dos dois milhões que terão saído à rua no dia 24, quase um terço nunca se manifestara, e havia muita gente que não era adolescente. Outro dado interessante: 70 por cento de mulheres. É bom acreditar que uma nova geração esteja em pé. É bom ver Emma Gonzalez, com tudo o que ela é, arrebatar o mundo. E sim, ser bissexual não é um detalhe sem importância, foi nessa luta que ela se fez também, activista da Gay-Straight Alliance na sua escola. Emma é a primeira a dizer que, para ela, o activismo pelos direitos gay e o activismo contra as armas estão ligados. É a vida dela, com tudo o que ela é, e sem ter percebido quem era não estaria agora ali, dando a cara ao mundo.

Vejo a cara de Emma e penso até que ponto os estudantes que conheci em Gaza a acompanharam, desde o massacre na Florida, eles que seguem tudo pelas redes sociais. Penso como terão olhado para o movimento que se estava a formar, eles que mais do que nunca viram o inimigo sentar-se na Casa Branca, com a eleição de Trump. Eles que estão assistir à construção da nova embaixada dos EUA em Jerusalém, contra todas as resoluções internacionais. E que viram Trump cortar fundos para a UNRWA, a agência das Nações Unidas responsável pelos seis milhões de refugiados palestinianos. A maioria da população em Gaza tem esse estatuto, refugiada, e depende da UNRWA. Se tem algum abrigo, alguma comida, alguma educação, algum cuidado de saúde, é devido à UNRWA. Faca de dois gumes, porque isso também permite que Israel, e o mundo, continuem a assobiar para o ar.
E não tenho forma de a contactar, mas gostava muito de saber o que Rozan, aquela estudante de Gaza, pensa de tudo isto. Ela não tem uma cabeleira loura descoberta como Ahed Tamimi, a brava adolescente da Cisjordânia que se tornou recentemente um símbolo da luta pró-palestiniana, condenada a oito meses de pisão por ter esbofeteado um soldado isrealita. Rozan não é a cara com que uma plateia não-muçulmana se identifica mais facilmente, nem usa as roupas casuais de Ahed. Tal como Gaza não é a Cisjordânia, nem os forasteiros podem entrar em Gaza como entram na Cisjordânia. É mesmo muito difícil uma rapariga de Gaza não cobrir o cabelo, ainda que não seja essa a sua escolha. E é em Gaza que Rozan, como todos os outros, marcha pela vida todos os dias. Espero o dia em que a América, e o mundo, também se possam ver na cara dela.

 

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por Augusta Clara às 08:00

Segunda-feira, 02.04.18

EUA foram derrotados na Síria como num novo Vietname - Lucia H.Issa

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Lucia H.Issa  EUA foram derrotados na Síria como num novo Vietname

 

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 Facebook, 31.03.2018

   Há poucos meses, em uma manhã de sábado como hoje, eu voltava ao Brasil, vinda da fronteira da morte, de um campo de refugiados em Zahle e de Majdar.

Passei aquelas duas primeiras semanas tendo pesadelos com o que eu havia testemunhado, crianças cujas pernas e sonhos foram amputados, mulheres sírias lindas que tiveram seu rosto deformado com ácido pelos terroristas armados pelos EUA, um menino de 6 anos que tinha o olhar de um velho e me perguntara por que o mundo não os via. A moça de cabelos negros e longos como o meu e perdera uma filha de 3 anos num dos bombardeios dos EUA.

Há menos de um mês, escrevi que a guerra global na Síria, vendida por alguns veículos da imprensa como guerra local, estava chegando ao fim, e que os EUA haviam sido derrotados. Reafirmei o que eu vi na fronteira e o que me levava a acreditar na derrota norte -americana e no fato de que o governo sírio não tinha armas químicas. Vi cidades como Aleppo sendo recuperadas pelo exército sírio e os terroristas armados pelos EUA fugindo para as fronteiras. Os ingleses perceberam muito antes dos americanos que seriam derrotados e retiraram sem alarde suas tropas em setembro. Os ingleses sentiram logo que não ganhariam uma guerra utilizando um exército de terroristas e mercenários pagos para matar os sírios.

Ao saber que Trump decidiu retirar suas tropas da Síria , admitindo indiretamente a derrota, um pequeno alívio, uma certa esperança e muitas perguntas para as quais a menina dentro de mim não encontrá respostas invadiram meu coração.

A guerra não terminou completamente mas caminha para um desfecho que frustra os EUA e fortalece um mundo mais multipolar.

Mas por que permitimos que o ódio fosse alimentado dessa forma na Síria? Por que permitimos que 450.000 pessoas fossem assassinadas ao longo de sete anos? Por que permitimos, como humanidade, que os EUA financiassem e armassem terroristas? Por que permitimos que mais de 10 milhões de pessoas se tornassem refugiadas? Por que permitimos que até as narrativas sobre a guerra fossem manipuladas? Por que permitimos que crianças fossem mutiladas em nome de uma guerra que jamais foi por democracia, mas sim por gás e petróleo?

A guerra na Síria tem um grande derrotado. Os EUA, que viram a Síria se transformar num novo Vietnã. Mas não há vencedores absolutos.

Cidades inteiras foram destruídas e milhares de mulheres foram violentadas. Uma geração inteira foi dizimada.

Minha esperança, meu desejo de dar voz às mulheres refugiadas e denunciar os que alimentam o ódio no Oriente Médio são muito maiores, hoje maiores do que nunca, mas a dor da menina que sonha com um outro Oriente Médio ainda me dilacera.

 

NOTA: Lucia H. Issa, brasileira de origem síria, é Jornalista e Escritora. Trabalhou como jornalista e correspondente internacional no Jornal do Brasil e hoje é jornalista independente, com graduação em Comunicação Social e especialização em Linguagem e Semiótica, pela Universidade de Roma. É autora do livro-reportagem «Quando amanhece na Sicília...», premiado na Itália e no Brasil, sobre a luta das mulheres e da sociedade civil contra a máfia na Itália, onde entrevistou mais de 120 mulheres. Residiu em Londres, Florença, São Paulo e durante seis anos em Roma, de onde colaborou, como jornalista correspondente de alguns dos principais veículos de comunicação brasileiros, como Folha de São Paulo, Jornal do Brasil e revista Istoé. Viajou por cerca de sessenta países do mundo, alguns deles devastados por guerras recentes e reportadas por ela, in loco, tais como, Sérvia, Kosovo, Palestina e Líbano. Actualmente, mora no Rio de Janeiro, onde é correspondente internacional e está terminando um novo livro-reportagem, sobre mulheres do Oriente Médio que lutam pela paz. É Embaixadora da Paz pelo Royal Society Group of London. Prémio Recife de Liberdade de Expressão, outorgado em 2015. Comenda Leonardo Da Vinci por seu trabalho pelos direitos humanos. Medalha Anita Garibaldi. Prémio Nelson Mandela de Defensores da Paz. Troféu Melhores do Ano, Curitiba , 2016, pelo conjunto de reportagens sobre a Palestina. Fala e escreve em português, árabe, italiano e inglês.

 

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por Augusta Clara às 18:53

Domingo, 01.04.18

Envenenamentos e as suas relevâncias - Augusta Clara de Matos

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Augusta Clara de Matos  Envenenamentos e as suas relevâncias

 

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   É triste viver-se num mundo onde a mentira impera sobre a verdade ou onde a verdade é manipulada consoante os interesses do momento de cada um dos poderosos. A mentira corre lesta e oculta a verdade com a maior das facilidades, com a maior leviandade e com toda a impunidade.

Theresa May e os seus amigos afirmam com mentirosa leveza que este caso de envenenamento com produtos químicos é o primeiro que acontece na Europa depois da Segunda Guerra Mundial. Só se for o primeiro praticado pelos serviços secretos ingleses porque todos nos lembramos do envenenamento – o método ainda não passou de moda – de Litvinenko, ex- agente do KGB, envenenado com polónio na própria Inglaterra. Então porquê esta omissão? Percebe-se, os envenenamentos não têm todos a mesma importância, depende dos objectivos que servem. A morte de Litvinenko, atribuída à Rússia de Putin, durou um tempo nas notícias e, depois, apagou-se. Era lá com eles, tinha a ver com a guerra da Tchechénia. Não servia os interesses do Reino de Sua Majestade.

Neste momento em que tinha havido troca de espiões entre um lado e o outro; em que a Rússia tinha assinado com os EUA o acordo contra as armas nucleares que o mutante que governa o império americano rasgou; que o exército russo ajudou a Síria a repelir os opositores terroristas alimentados pela falsa solidariedade da dita Coligação Internacional de que o país de Theresa May fazia parte, que necessidade teria a Rússia de criar tal conflito vindo envenenar alguém em território britânico?

Pergunto se ainda se justifica a lealdade a cediças alianças com países cujos caminhos nos sentimos obrigados a seguir quando a loucura de um deles, o mais poderoso, pode levar à morte de milhões de pessoas por mentiras forjadas à medida das suas conveniências?

O que deve Portugal agora ao Reino Unido para ter de dar aval à já destapada aldrabice de Theresa May?

O Governo português tem de manter-se alheado e não só, combater através de todos os canais diplomáticos, esta escalada em tudo semelhante àquela em que se baseou a mentira que destruiu o Iraque e mergulhou o mundo num verdadeiro inferno.

Esta nova mentira tem de ser desarmadilhada a tempo, antes que o seu reconhecimento chegue tarde. E, para isso, todos não somos demais.

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por Augusta Clara às 19:18

Sexta-feira, 30.03.18

O caso Skripal e as dúvidas que ainda subsistem - Major-General Carlos Branco

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Major-General Carlos Branco  O caso Skripal e as dúvidas que ainda subsistem

 

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Expresso, 29 de Marlço de 2018

   Na sequência das declarações de Theresa May, a primeira-ministra britânica, no parlamento, a 12 de março, e de Boris Johnson, o seu ministro dos Negócios Estrangeiros, sobre o alegado envenenamento do agente duplo Sergei Skripal e de sua filha Yulia, as relações político-diplomáticas entre os países ocidentais - nomeadamente Estados Unidos e Reino Unido - e a Rússia deterioram-se a um ponto nunca visto desde o fim da guerra-fria, piores mesmo do que nos anos cinquenta do século passado. Theresa May acusou a Rússia de ser “muito provavelmente” responsável pelo duplo envenenamento. O assassinato “teria sido planeado diretamente pelo Kremlin”, ou a “Rússia teria permitido que o gás tivesse caído em mãos erradas”.

Desconheço quem possa estar por detrás deste incidente, mas estou particularmente interessado em saber o que realmente aconteceu. A serem verdadeiras as acusações feitas à Rússia justifica-se uma resposta firme. Contudo, a argumentação utilizada pelas autoridades britânicas apresenta algumas fragilidades não negligenciáveis. Mais de três semanas passadas sobre o incidente, justificava-se a apresentação de provas inequívocas e irrefutáveis sobre o envolvimento russo. Continua-se sem conhecer a identidade do perpetrador, assim como as circunstâncias e o local da ocorrência. O que se tem sabido é pela comunicação social e a informação é contraditória. Uns falam num pub, outros num restaurante, parece que os Skripal teriam sido encontrados moribundos num banco de jardim. Segundo alguns relatos o polícia que os encontrou teria tido contacto com o veneno em casa dos Skripals, segundo outros durante a prestação do auxílio. Seria conveniente conhecer a versão oficial.

Preocupa-me sobretudo a desastrosa gestão política do acontecimento. A falta de evidência tem sido acompanhada por um retórica inaceitável, pouco consentânea com aquilo que são as boas práticas da diplomacia internacional. O assunto deveria ter sido logo encaminhado no dia 4 de março para a OPWC, o fórum próprio onde o assunto deveria ser analisado. A Rússia argumenta com os termos do Artigo IX da CWC, que estipula a necessidade de se efetuar um primeiro esforço para clarificar e resolver, através de troca de informações e consultas entre as partes, qualquer assunto que possa colocar em dúvida o cumprimento das normas em vigor. Por seu lado, o governo britânico recusou-se a partilhar as alegadas evidências, assim como as amostras do produto alegadamente utilizado. A sua publicitação seria um xeque-mate. Contudo, não o fez, prolongando inutilmente (ou não) uma discussão.

O Reino Unido optou por politizar o assunto e levá-lo ao Conselho de Segurança da ONU, no dia 14. Nesse mesmo dia, já com todas as “certezas”, as autoridades britânicas convidaram a OPWC a levar a cabo uma investigação independente. Com a crise já instalada, a 19 de março – duas semanas após o envenenamento - chegaram ao Reino Unido os especialistas da OPCW. Felizmente que o tema não foi considerado ao abrigo do Artigo V pela NATO, apesar de ser considerado um ataque a um país da Aliança. Um caso baseado em hipóteses e não sustentado em evidências foi rapidamente equiparado a um ato de guerra. Teria sido mais curial esperar pela finalização das investigações. Acusar primeiro e investigar depois não parece ser a prática mais adequada.

Esta questão assume contornos burlescos quando o laboratório científico inglês que fez análises ao sangue dos Stripal concluiu pela exposição a um “nerve agent or related compound”… e as amostras indicaram a presença de um “novichok class nerve agent or closely related agent), não se comprometendo com uma prova irrefutável. Esperava-se que May tivesse promovido uma audição parlamentar ao diretor do laboratório para que este fornecesse todas as evidências e prestasse todos os esclarecimentos, nomeadamente sobre a origem russa da substância, uma prática comum nas democracia avançadas.

Ao contrário do que afirmou Theresa May são muitos os possíveis perpetradores, para além da Rússia, claro está. Naturalmente que a Rússia não poderá ser excluída da lista dos suspeitos, assim como muitos outros, nomeadamente os mais de 300 espiões que constavam na lista que Skripal entregou às autoridades britânicas. Mas a lista de putativos suspeitos não acaba aqui. São conhecidas as ligações profissionais de Skripal a Christopher Steele, e ao seu possível envolvimento no Russiagate. Skripal tinha-se tornado um elemento perigoso que podia causar danos na comunidade de inteligência americana, no Partido Democrata e por aí adiante. Existem vários precedentes similares. As autoridades policiais britânicas, tão zelosas noutras circunstâncias, revelaram-se particularmente descuidadas na proteção dos Skripal.

Não podemos deixar de nos interrogar sobre o que é que objetivamente teria a Rússia a ganhar - a alguns meses da realização do campeonato mundial de futebol no qual investiu avultadas somas de dinheiro para fosse um sucesso - em liquidar nesta altura um simples espião que deixara há muito de constituir um perigo, agravando assim as já tensas relações com o ocidente? A resposta não é evidente. Putin tem provado ser um ator racional. Tendo tido a oportunidade para eliminar Skripal enquanto este permaneceu nos calabouços russos, não o fez, porque o faria agora, depois de este viver oito anos em Inglaterra? É de facto difícil descortinar uma razão (lógica).

A argumentação de May apresenta igualmente fragilidades quando responsabiliza Putin por ter permitido a fuga do gás. Como se sabe, nos tempos da União Soviética, o novichok era produzido no Uzbequistão, fábrica essa que foi desmontada com a ajuda dos Estados Unidos em 1993. Sem salários, a venda de Nnovichok foi uma forma que na altura muitos funcionários encontraram para sobreviver. Dizer que se trata de um gás do “tipo desenvolvido pela Rússia”, não prova que a substância utilizada tenha sido processada na Rússia. Ser atropelado por um Mercedes não significa que a responsabilidade seja “muito provavelmente” do governo alemão.

É desconcertante vir agora o Reino Unido acusar a Rússia de não ter declarado todas as suas capacidades, não cumprindo as suas responsabilidades no âmbito CWC. A ser verdade – o que desconheço – sendo esta informação conhecida antes de 27 de setembro de 2017, a data em que a OPCW declarou a total destruição do arsenal russo, porque é que o Reino Unido não informou a OPCW com base no seu próprio intelligence, que tanto quanto sei tinha a obrigação de o fazer? Seria muito importante ouvir o que os responsáveis britânicos têm a dizer sobre isto.

Para além das questões de natureza técnica apontadas – que não se encontram esgotadas – há várias outros aspetos a relevar. Em primeiro lugar, o rasto de fiabilidade deixado pelos dois personagens responsáveis pela presente crise. Um, ainda ontem fazia campanha contra o Brexit e hoje lidera o processo de separação do Reino Unido da União Europeia, que por sinal lhe está a correr bastante mal; o outro, liderou a campanha contra o Brexit mas depois não quis assumir as devidas responsabilidades colocando a responsabilidade na condução do processo no primeiro. Convém lembrar que o partido liderado por May não tem, nem nunca teve pruridos em ser financiado pelos pouco recomendáveis oligarcas russos que se refugiaram em Londres, transformando a city num enorme tanque de lavagem de dinheiro russo. De acordo com o London Times e o Daily Telegraph, o partido da Sr.ª May terá recebido deles donativos no valor de £820,000.

Em segundo lugar, convém trazer à memória as conclusões do relatório Chilcot aprovadas pelo parlamento inglês, que chamava à atenção para as narrativas deliberadamente exageradas apoiadas em intelligence fabricado à “medida das necessidades” para convencer e receber o apoio das opiniões públicas. Claramente que esta possibilidade não pode nem deve ser descartada neste caso. Terão sido as mesmas fontes - igualmente credíveis - em que se baseiam agora May e Johnson que terão convencido Blair da irrefutável posse de armas de destruição massiva pelo Iraque. São conhecidas as consequências desastrosas dessas crenças sem a devida certificação.

Recordamos ainda o papel desempenhado pelas chamadas empresas de “Strategic Communications” como a Cambridge Analytica e a Strategic Communication Laboratories próximas do partido Conservador e do aparelho militar britânico, contratadas para influenciar a opinião pública levando-a apoiar o Brexit, algo de que apenas se conhece a ponta do iceberg. É pois na palavra destas pessoas que estamos a colocar o nosso futuro coletivo. Fará, provavelmente, algum sentido parar para pensar e refrear os ânimos.

Encontramo-nos numa estrada perigosa. Assistimos a algo que se assemelha ao início de uma guerra. As guerras, leia-se os confrontos militares generalizados, são sempre precedidos por uma escalada que passa pela subida de tom na retórica, a demonização do oponente, o reforço dos dispositivos militares e a conquista da opinião pública para apoiar ações mais assertivas contra o oponente. Depois é necessário criar um acontecimento, um pretexto que não tem necessariamente de ser causado pelo oponente e que é normalmente provocado por quem pensa que vai beneficiar com o resultado da guerra. Sabe-se hoje quem montou a armadilha que levou à guerra do Vietnam, à guerra espanhola-americana e muitas outras mais recentemente. Por isso, convinha que prevalecesse o bom senso.

Começa a ser claro que o campeonato mundial de futebol será um palco desta luta. Mas enquanto for só isso… a histeria russofóbica faz parte da operação de moldagem das opiniões públicas, preparando-as para o confronto. Com o clima criado poderá nem ser necessário conceber um pretexto. Bastará um imprevisto, um erro de cálculo para nos levar para uma situação sem retorno, fazendo com que a crise político-militar se transforme numa confrontação militar direta. Essa possibilidade afigura-se-nos muito elevada. A nova postura nuclear dos Estados Unidos e a crença de que se consegue manter uma guerra ao nível nuclear tático, sem evoluir para o patamar estratégico e para a destruição total são mais alguns ingredientes que nos devem fazer refletir. A presente crise – real ou fictícia – enquadra-se perfeitamente no modelo. O que está mesmo a fazer falta é testar os efeitos das novas armas hipersónicas.

  

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por Augusta Clara às 19:02



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