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Jardim das Delícias


Quinta-feira, 14.03.19

Porquê as mulheres? - Isabel do Carmo

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Isabel do Carmo  Porquê as mulheres?

 

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Público, 14 de Março de 2019

Esta sociedade está cheia de sinais que vão até aos crimes baixos que fazem soar o alarme. Mas é tudo o resto que também temos que discutir.

Por que é que são as mulheres espancadas, algumas até à morte, ameaçadas, assediadas, sobrecarregadas com trabalho doméstico, ganham menos desempenhando as mesmas funções, vivem na sombra? Porque vivemos numa sociedade patriarcal hierarquizada. Os casos extremos são a ponta do iceberg. É uma questão de poder e é também o quotidiano que temos que discutir, para pôr ao sol o que parece subtil ou insignificante. Dar testemunho é um dever.

Participei na avaliação das consequências físicas do inquérito de prevalência de violência sobre mulheres (Manuel Lisboa, 2006). Algumas ousavam revelar lesões, arranhões, encontrões, hematomas, torções. As que tinham sofrido fracturas tinham ido ao hospital. Quase todas “porque tinham caído na escada” na declaração feita à entrada da urgência. Não sabemos os comentários que aí as acolheriam se dissessem o verdadeiro motivo.

Há portanto aqui uma escala, em que o assassinato emerge como caso extremo e sinal de alarme. No entanto, sei o que ouço nas minhas consultas clínicas, e por dever de médico, pergunto o que é que se passa “lá em casa”, para além das queixas que são motivo da consulta. O que ouço também é uma escala. Há as que se queixam que os maridos são uns “brutamontes”, dos quais nunca se separaram porque não tinham condições para isso. E há aquelas, muitas, a quem o marido “levanta a mão”, entra em cólera e impede qualquer conversa sobre razões conflituosas. Enfim, uma relação de maior força física e de poder que regula a relação doméstica.

Estes homens já foram crianças que assistiram a espancamentos ou a simples empurrões ou cóleras exercidas sobre a mãe, para eles “naturais”, assimilados, interiorizados. Foram crianças elas próprias espancadas pelos pais e educadas a reguadas na escola pública. Ou que, mais elegantemente, levaram “uns açoites” ou umas “palmadas que não fazem mal a ninguém”, exercidas pelas mães, subjugadas pelo patamar de cima. A escala do poder foi pois “natural” e interiorizada, o comportamento e o impulso nem são interrogados.

Este ambiente foi o mesmo em que viveram ou vivem polícias e juízes, para só falar nos que têm que exercer autoridade e decidir. É pois necessário meter a mão naquilo que é a vida privada, a vida quotidiana, sem ter medo de ferir susceptibilidades. Mas também sem considerar os homens como inimigos das mulheres ou dizer que “são todos iguais”. A par das histórias dramáticas e sobretudo tristes que ouço, também testemunho muitos casos de casais de muitos anos, verdadeiros companheiros solidários e jovens rapazes que partilham com alegria os cuidados dos filhos e da casa, o que nos dá esperança para o futuro.

Mas a maior parte das vezes em que pergunto sobre as tarefas domésticas, as mulheres descrevem um quotidiano em que fazem quase tudo. Nos casos mais simpáticos ele “ajuda”. Ele “ajuda” e ela até fica agradecida, como se fosse a vizinha do lado, prestável, que a ajudasse. E não a pessoa que tem os mesmos filhos e vai utilizar os mesmos objectos, a mesma roupa e comer a mesma comida que ela, que tem os mesmos horários e os mesmos transportes. Pôr em questão estes problemas relacionados com a sociedade patriarcal e com estas relações de poder não é coisa fácil e atravessa classes sociais e ideologias. Indignação perante um assassinato é uma coisa, mexer nas relações do quotidiano é outra. Infelizmente, a primeira tem que servir para trazermos à luz do dia aquilo que está oculto.

Podemos lembrar as concepções ditas machistas que emergiram a seguir ao 25 de Abril e durante o processo revolucionário. Iam muito além dos tradicionalistas e conservadores e atravessavam os politicamente à esquerda, que se diziam “chefes de família”, respeitavam as suas “esposas”, mas tinham uma vida hipócrita tal como o papa Francisco descreve para os habitantes do Vaticano — moralistas para fora, “pecadores” para dentro. Aliás, homem que tinha “casos por fora” até era engraçado, sinal de virilidade, mas as mulheres tinham que ser “sérias”, “honradas”. Considerar “histéricos” os protestos contra a estrutura machista da sociedade veio até agora.

Só há poucos anos vou a sessões do dia 8 de Março com alguma tranquilidade, pois durante muitas comemorações fui objecto de provocações e tentativas de desacato, as quais foram provocadas por personagens insuspeitos. Numa, um militar muito radical interrompia e queria provar que os homens é que eram vítimas das mulheres. Noutra, uma jovem mulher dizia que estas questões da mulher não deviam ser levantadas porque quando a sociedade mudasse elas ficavam resolvidas, o que desde já se provava pelo facto de no partido dela não haver discriminação de sexos. Noutra, numa sessão da Ler Devagar, uma “feminista” vestida à homem contestava violentamente que estivéssemos a exibir um belo filme, Curvas Graciosas, onde se mostravam as formas próprias das mulheres novas e velhas, muito para além do estereotipado. Todos estes casos foram provocações premeditadas e destinadas a acabar com a sessão, em locais considerados “abertos” e com frequentadores habituais.

Evoco, todavia, também como janela de esperança, o caso de um adolescente, numa escola que servia o Vale da Amoreira, no Barreiro, que numa dessas sessões me colocou uma verdadeira questão: ser ou não verdade que se for o homem a estar desempregado e a fazer tarefas domésticas se sente mais humilhado do que se for o inverso. Foi há poucos anos, estávamos e estamos ainda muito na infância da discussão do quotidiano. Quando estou numa reunião, seja política, seja institucional, seja profissional, com homens e mulheres, proponho sempre que quem fale o faça pedindo a palavra ou, muito melhor, dando a volta à mesa. Porque se não for assim... já sei quem vai falar primeiro, mais alto e a sobrepor-se. E quantas vezes em reuniões sociais vemos as mulheres entrarem e saírem caladas porque “onde há galos não cantam galinhas”. E não evoquemos as excepções para provar o contrário, porque são mesmo excepções conseguidas a custo!

Aprofundando mais ainda os sinais e observando a linguagem, não se poderá reflectir sobre a expressão de insulto “filho da p...”? Não considero que a prática da prostituição seja uma profissão, também não considero que seja crime ou delito e conheço o sofrimento que acarreta. O que sei é que as mulheres que a praticam e os filhos delas são tão dignos de consideração como qualquer cidadão.

O insulto é mal escolhido. Indo mais longe: o que é que queremos dizer com a expressão agressiva “fuck you” nos vários idiomas? Falocrático, não é? Com isto não quero fazer qualquer campanha moralista contra os palavrões e até aprecio a poesia erótica de José Maria do Bocage, que os empregou na verdadeira acepção. O que quero mostrar é que esta sociedade está cheia de sinais que vão da linguagem banal, à ordem “natural” do quotidiano, público e privado, passando dos pequenos gestos ameaçadores até grandes gestos. Para finalmente emergir em crimes baixos que fazem tocar o alarme. Mas é tudo o resto que também temos que discutir.

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por Augusta Clara às 17:03

Segunda-feira, 18.07.16

Será possivel julgá-los? - Isabel do Carmo

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Público, 18 de Julho de 2016

 

   Suspeita-se, com fortes indícios, que os grandes decisores da invasão do Iraque em 2003 mentiram voluntariamente, provocando centenas de milhares de mortes. Sendo este um crime contra a humanidade, pode haver alguma esperança de que sejam julgados e eventualmente condenados? Ou vamos acreditar de vez que os caminhos da justiça política e social têm mesmo que ser percorridos fora da ordem estabelecida?

A 16 de Março de 2003 Tony Blair, José Maria Aznar, George Bush e o anfitrião Durão Barroso reuniam-se em território nacional português, a Base das Lajes, para dar uma “última oportunidade” ao Iraque. Recordamo-los na fotografia oficial, os quatro sorridentes e bem-dispostos. O crime estava decidido. Quatro dias depois as tropas dos Estados Unidos, do Reino Unido, da Polónia e da Austrália invadiam o Iraque, seguidas de soldados de mais 36 países para solidificar a ocupação. É altura de lembrar, porque a memória é curta ou trapalhona, que as Forças Armadas portuguesas nunca estiveram incluídas nem na invasão, nem na ocupação do Iraque, porque, sendo Jorge Sampaio, como Presidente da República, chefe das Forças Armadas, opôs-se à sua utilização para esse fim. Há sempre formas de dizer não, mesmo nos mais estritos formalismo e legalidade. Só a GNR foi, porque não dependia da presidência.

O que seguiu é uma tragédia, cuja amplitude se tem de avaliar em função das suas consequências. Morreram centenas de milhares de iraquianos, morreram pelo menos mil soldados invasores. E sobretudo desencadeou-se uma catadupa de guerras no Médio Oriente, uma situação de conflito permanente no Iraque e o nascimento da organização de assassinos do autoproclamado Estado Islâmico, com território próprio, criado exactamente a partir de território do Iraque. Centenas de milhares de mortos, milhões de deslocados. Em nome de uma mentira. Em nome de um álibi, cujo enredo estamos longe de conhecer — parece haver provas de que o plano para a invasão já existia antes do 11 de Setembro. Em nome do petróleo, claro, e de acordo com os aliados locais.

A mentira foi desde logo desmontada em vários focos informativos de contracorrente. Mas é agora formalmente denunciada no Reino Unido no Relatório Chilcot.

Tony Blair aceita a acusação, mas desculpa-se dizendo que foi para bem do Iraque. Quanto aos outros personagens ainda não se pronunciaram. Tony Blair criou a sua terceira via do socialismo, atraiçoando toda a história trabalhista da Grã-Bretanha e enfiando uma grande parte dos partidos socialistas europeus no caminho colaboracionista do domínio financeiro. Veja-se o comportamento da maior parte dos ministros das Finanças socialistas, que são a maioria do Ecofin e que obedecem reverentes à ditadura de Schäuble, o infame. Tony Blair enriquece com a sua actual fundação mercantil. É boa altura para revermos o filme O Escritor Fantasma de 2010 de Polansky, sobre “um ex-ministro britânico”, quase explicitamente retratando Blair e traçando-lhe compromissos políticos ocultos que nos dizem muito sobre o seu comportamento na cena internacional. Durão Barroso é o retrato da sua promoção, que vai directamente de presidente da Comissão Europeia e adepto da Alemanha e das indignas sanções a Portugal para o topo do gangsterismo financeiro, o Goldman-Sachs. Todos eles se desculparão. Lembrando uma série francesa recente do segundo canal, Uma Aldeia Francesa, que descrevia a ocupação e a resistência na II Guerra Mundial, o chefe local das SS, depois de torturar barbaramente e de matar, dizia para a amante: “C’est la guerre, Hortense.” Estes dirão com um sorriso: “C’est la politique, chérie.”

Ora o julgamento era possível. Paulo Portas afirmou taxativamente que viu as provas das armas de destruição maciça. Poderá explicar o que viu, como viu, quem lhe mostrou. Todos eles poderão explicar-se. Mas parece que a ordem estabelecida não o permitirá. Blair irá ao tribunal de Haia?

Fica-nos a sensação de beco sem saída. Em 2003 fomos milhões os que se manifestaram nas ruas das cidades portuguesas e de outras cidades do mundo. Convocados sem os apelos dos partidos e com as palavras de ordem e os cartazes que escolhemos. Por mim escolhi o grupo que mostrava uma grande ampliação do Grito do Munch. E como vivemos em democracias, eles toleraram-nos. Deixá-los manifestar-se. Assim descarregam a sua raiva...

De que é que serve a nossa razão moral, anos depois de centenas de milhares de mortos?

Pode ser que um dia aconteça como no Campeonato Europeu de Futebol e que actores políticos improváveis, vindos de baixo, demonstrem, como diz o nosso humorista, que as “criadas” podem vencer as patroas.

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por Augusta Clara às 15:00

Segunda-feira, 03.08.15

Os filisteus cultivados - António Guerreiro

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António Guerreiro  Os filisteus cultivados 

 

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   Ípsilon, 31 de Julho de 2015

   Falemos do filisteu — uma figura fascinante agraciada com a unção das reminiscências bíblicas. Não da sua versão clássica (a que deu origem à palavra “filistinismo”, que o escritor alemão Clemens von Brentano, no início do século XIX, utilizou pela primeira vez como conceito para designar uma atitude intelectual de desprezo pela cultura e pela arte, em nome do pragmatismo e da utilidade imediata), mas de uma versão moderna, típica da época da cultura de massa, a que Hannah Arendt chamou “filisteu cultivado”. O filisteu cultivado não despreza os objectos culturais. Pelo contrário, na boa sociedade cultivada sente-se como peixe na água. Para ele, a cultura é mesmo uma moral e, por conseguinte, uma prescrição: a prescrição da transparência, da homogeneidade, dos discursos bem oleados em que tudo corre sobre rodas. O filisteu cultivado ama a cultura, habita-a como casa sua, mas na condição de ela estar bem limpa e isenta de tudo o que provoca atrito. Vive em estado de plenitude cultural e acha que tudo o que lhe escapa — e é muito — pura e simplesmente não tem sentido. A nostalgia do sentido é o sentimento mais comum do filisteu cultivado. Podemos confirmá-lo através do exemplo de um escritor, cronista, blogger e muito mais que se chama Luís Miguel Rainha. Na sua página do Facebook (a que só tive acesso através de um amigo porque ainda não fixei morada nesse lugar universal), reage ele assim a uma passagem da minha crónica da semana passada, onde falava da “dívida infinita” da Grécia: “Alguém me explique, por favor, onde se encontra um só grama de sentido nesta frase: ‘Recordemos que, para a teologia cristã, existe uma única instituição legal que não conhece interrupção nem fim: o inferno’”. Com enorme solicitude, passarei a explicar, não apenas ao reclamante, mas também a quem aproveitou (gente igualmente culta, dessa espécie de filisteus cultivados, entre eles um escritor, Bruno Vieira Amaral, e uma editora, Bárbara Bulhosa) para dar o seu assentimento, através de likes, à declaração de que nem um grama de sentido pesava esta frase. Mas, então, nunca leram A Divina Comédia? Não sabem como é que Dante descreveu os nove círculos do Inferno? Não sabem que este é caracterizado como um “mundo de desesperação sem fim”, onde os tormentos são perpétuos? Leram, certamente, ou pelo menos ouviram falar. Mas, para os filisteus cultivados, Dante é Dante, o Inferno é o Inferno, a dívida, finita ou infinita, é a dívida, e tudo o que não respeite as fronteiras onde eles são guardas não tem sentido. O filisteu cultivado gosta da objectividade e nem lhe passa pela cabeça que eu use o Inferno de Dante para falar da dívida grega, informado, aliás, por um famoso ensaio de Erich Auerbach (1892-1957) Dante, Poeta do Mundo Terreno, onde esse importantíssimo romanista analisa a questão da eternidade e imutabilidade das penas, à luz da doutrina teológica e filosófica cristã e incidindo na afirmação de S. Tomás de Aquino, na sua Suma Teológica, de que “o fogo do Inferno é eterno” e os tormentos são perpétuos. E, em O Reino e a Glória, o filósofo italiano Giorgio Agamben escreve: “O princípio segundo o qual o governo do mundo cessará com o Juízo Final conhece, na teologia cristã, uma única excepção: o Inferno”. E a seguir refere-se à doutrina de S. Tomás segundo a qual, enquanto no Paraíso, depois do Juízo Final, os anjos abandonam toda a função de governo, no Inferno os executores das penas infernais continuam a desempenhar a sua função judiciária. Mas nisto não há um grama de sentido, sentenciam os filisteus cultivados, carnífices de serviço no tribunal popular.

 

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por Augusta Clara às 08:00

Quinta-feira, 11.12.14

Os ricos são pessoas mas os pobres são estatísticas - José Vítor Malheiros

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José Vítor Malheiros  Os ricos são pessoas mas os pobres são estatísticas

 

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Público, 9 de Dezembro de 2014

 

   Os pobres como Garner só vêem as histórias contadas do seu ponto de vista quando chegam à morgue.

“Quando um homem morre é uma tragédia. Quando morrem milhares, é uma estatística”. A frase é de Estaline, que a terá dito a Churchill durante uma conversa na cimeira de Teerão, em 1943. Encerra uma enorme verdade.

O movimento de protesto que está a varrer os Estados Unidos devido a uma série de homicídios injustificados de homens negros por polícias brancos é uma das muitas provas do aforismo. Se não conhecêssemos os nomes e as histórias de Eric Garner, sufocado por um polícia que pensava que ele estava a vender cigarros avulso na rua; de Tamir Rice, um miúdo negro de 12 anos que brincava com uma pistola de plástico num jardim; de Michael Brown, um jovem de 18 anos, desarmado como todos os outros, que foi atingido com oito tiros por um polícia que o deteve no meio da rua, em Ferguson, Missouri; de Rumain Brisbon, que ia tirar do bolso um frasco de comprimidos que um polícia receou que fosse uma arma; de Akai Gurley, que ia a sair de sua casa quando um polícia o atingiu mortalmente a tiro sem que houvesse a mínima razão para tal, e de outros como eles, trataríamos o elevadíssimo número de negros mortos às mãos de brancos nos EUA (ou de polícias brancos) como uma estatística. É porque os conhecemos um pouco, porque ouvimos contar as suas histórias, que sentimos as suas mortes como tragédias. É evidente que sentimos estes casos como injustiças intoleráveis e como sintomas de uma sociedade gravemente doente porque todos os polícias brancos envolvidos na morte destes negros foram ilibados ou tratados com grande brandura pelo sistema judicial, mas a nossa revolta também não seria a mesma se, em vez das cinco ou seis pessoas que ficámos a conhecer, se tratasse de 500 que não conhecemos.

No caso de Eric Garner, o negro obeso que talvez estivesse a vender cigarros de contrabando avulso na rua, há uma poderosa razão extra para a nossa indignação: o vídeo do seu assassinato divulgado no YouTube. Vimos o vídeo e sabemos o que aconteceu. Vimos o uso desproporcionado e injustificado de força pelos polícias e ouvimo-lo repetir “I can’t breathe!” enquanto teve forças para isso, perante a contínua brutalidade dos agentes.

 

 

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por Augusta Clara às 08:00



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