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Delícias são tudo o que nos faz felizes: um livro, a magia dum poema ou duma música, as cores duma paleta ... No jardim o sol não raia sempre mas pulsa a vida, premente.

Pablo Picasso

Maria Teresa Horta "Voamos a lua ..."
(Pablo Picasso)
Voamos a lua,
menstruadas
Os homens gritam:
- são as bruxas
As mulheres pensam:
- são os anjos
As crianças dizem:
- são as fadas
(in Os Anjos, Litexa Editora)

A pintura e a guerra

(Pablo Picasso)
Aquando da apresentação em Paris, no Verão de 1937, de Guernica representando a Guerra Civil de Espanha, o quadro de Picasso recebeu uma apreciação negativa por parte do crítico de arte do The Spectator, Anthony Blunt. Dizia Blunt que o quadro era "uma explosão da mente inteiramente pessoal, que em nada prova que Picasso se tenha apercebido da importância política de Guernica". Blunt, nessa altura alinhado pela linha ideológica da União Soviética, de que chegou a ser espião durante a Segunda Gerra Mundial, afirmou que "Picasso pertence ao passado" por lhe faltar a consciência de que a Guerra Civil de Espanha era apenas um momento trágico do caminho do homem para a sua libertação do fascismo.
Três décadas passadas, nos anos 1960, o Prof. Blunt mudou completamente a sua opinião considerando a extraordinária dimensão e a genialidade de Guernica. Mas, muito antes disso, em 1945, já Picasso tinha recusado a acusação de indiferença que lhe fora atribuída e, pouco antes de aderir ao Partido Comunista Francês, declarou: "Não, a pintura não serve para decorar apartamentos. É um instrumento de guerra e um meio de ofensiva e defesa frente ao inimigo".
(referências tiradas do texto "O Sacerdote da Traição", do conjunto de ensaios de George Steiner publicados em The New Yorker, editados pela Gradiva)
Junto a este texto, porque dele gosto muito, e porque representa o mesmo espírito em relação à recente guerra de Gaza, o seguinte quadro, da autoria de Adão Cruz, pintado precisamente durante o conflito.

Prova de vida de Gabriel Celaya, um pouco antes do seu falecimento
(Pablo Picasso)
No blog de Amadeu Baptista
Está um estouvamento de cães que se riem
ao longo da estrada. Um poeta deve alisar
as rugas que a vida lhe impõe, por isso
paro para pensar e sei que aquele riso
é infecundo, como a asfixia que me levou
à miséria. Paro para pensar e volto atrás
no tempo, ainda que o tempo seja o termo
em que tudo se vence, e reencontro os meus pais
nas estradas de Espanha, e os mortos
que foram desarmados para a extradição
da vida nas montanhas do País Basco, tal como eu
vítimas da fome intemporal que acompanha
os povos, esta gente circundante que não tem
senão lençóis de esparto como última mortalha.
Paro para pensar e procuro a última força
da minha alegria, e vejo as árvores enegrecidas
do meu país, um desvario de luas infatigáveis
que sobre as nossas cabeças pulsa como uma tormenta,
uma agonia sanguinária que desde sempre alongou
o silencioso vazio dos caminhos, a treva que estoura
as cabeças dos homens e os reduz a não mais que ânsia
e medo sob a força torrencial do sol e dos campos em volta.
Paro para pensar e pergunto-me o que é a miséria
sem que saiba o que possa responder-me, embora a veja
sempre, e estendo os olhos para o infinito da terra onde nasci,
a sua gesta brutal, e sei que hei-de ter sempre fome
de poesia e de luz neste emparcelamento da dor, e que
as ramificações da infâmia sempre afligirão
as minhas entranhas, a minha luta diária,
a minha mágoa irretorquível sobre este mundo
de palavras sitiadas pela aridez envolvente.
Paro para pensar e vejo-me capitão da república
e o voluntário que em Bilbao foi feito prisioneiro,
corria a guerra civil pelo meu mundo, com as ruínas
de Guernica a elevarem-se do fogo como uma denúncia
– ah, em verdade vivemos uns pelos outros, a luta enrijece
a cada dia que passa, ainda que os cães riam e seja
a estrada longa e acidentada, e vasta a miséria
para quem vive de versos, e por eles morra
à fome, ao frio, ao abandono. Sobre mim crescem
estorvos inabaláveis, pela afronta
da míngua obrigaram-me a vender a biblioteca,
é inexprimível o pesar de me ter visto afastado dos meus livros,
às vezes demoramos o uso das navalhas
e a aprendizagem que delas carecemos,
mas é pela vertigem que vamos, enquanto
não ocorre o degelo e os nossos corações
estiolam por tanta desonra, tanta iníqua tristeza
a fluir infinitamente pelas ruas de Madrid.
É uma pátria que escrevo quando escrevo
o meu optimismo carregado de futuro,
o que tomei entre mãos é ao amor que se deve,
um amor de serenas pegadas e nomes magnificentes,
o amor da mulher que amei sem condições
e que sempre vislumbro no sortilégio das noites,
Amparitxu Gastón, que nunca deixou de incitar
a que viessem a nossa casa os mais preciosos amigos,
Blas de Otero, Pablo Neruda, Dolores Ibarruri,
e todos os que me ensinaram a avaliar
o crepúsculo e a manhã concomitante.
Paro para pensar e sei que o riso dos cães é infecundo,
talvez de pouco mais saiba neste tempo em que
a dignidade de um poeta de Espanha é tocada
pela selva negra da afronta, no fundo dos bolsos
não resta dinheiro para bálsamos e maçãs,
mas possuo uma boa quantidade de mortos
que de cara levantada vão como as estrelas
no firmamento sem fim, a luzir, sempre a luzir
porque é da luz que nos alimentamos
e da ferocidade incontornável de mesmo mortos
permanecermos vivos. Oh, sim, riam-se os cães
na iniquidade suprema, riam-se pela maldade
que sempre revelaram, riam-se pelas execuções
sumárias e arbitrárias, riam-se dos fuzilamentos,
do garrote, das perseguições, das detenções prepotentes,
da miséria, riam-se que o fim da estrada está próximo
e não há-de tardar a que nos libertemos.
Hagar Peeters Encontro
(Pablo Picasso)
Ele não apareceu.
Talvez tenha adoecido ou ficado debaixo de
um eléctrico. Talvez outra pessoa se pusesse na conversa com ele.
Talvez se tenha esquecido do relógio,
ou o relógio se tenha esquecido de lhe dar o tempo certo.
Talvez o carro não pegasse,
ou tenha ficado avariado a meio do caminho....
Talvez alguém lhe telefonasse quando ia a sair de casa,
dizendo-lhe que tinha de ir a um funeral
ou que a mãe dele tinha morrido.
Talvez tenha encontrado um antigo conhecido.
Talvez tenha tido uma discussão no emprego,
tenha sido despedido e esteja a esconder
a cabeça debaixo de uma almofada.
Talvez a ponte estivesse fechada e
a seguinte também.
Talvez o semáforo permanecesse vermelho.
Talvez o multibanco tenha engolido o cartão
ou a meio do caminho tenha reparado que se esquecera
do porta-moedas.
Talvez tenha perdido os óculos,
não conseguisse deixar de ler,
houvesse um programa que ele queria acabar de ver,
não conseguisse dar a volta à fechadura da porta,
não encontrasse as chaves em sítio nenhum e
o cão dele de repente começasse a vomitar.
Talvez não houvesse um telefone por perto,
não encontrasse o restaurante
ou esteja à espera noutro sítio, por engano.
Talvez – a última possibilidade,
incompreensível e inesperada –
ele tenha deixado de me amar.
(Tradução: Maria Leonor Raven-Gomes)
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