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Jardim das Delícias


Sábado, 10.04.21

Um texto de João Vasconcelos-Costa sobre as vacinas

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João Vasconcelos-Costa é médico e virologista e foi director do Departamento de Virologia do Instituto Gulbenkian de Ciência
 
VACINA DA ASTRAZENECA
 
   Parece-me que não é preciso ser-se adepto de teorias da conspiração para se suspeitar de que há muito de económico e político nesta história da AstraZeneca. Por exemplo, não deixa de ser estranho que os países europeus se tenham sempre escudado nesta pandemia em recomendações técnicas supranacionais, como na aprovação das vacinas pela EMA e não pelos seus “infarmeds” nacionais e agora não sigam a opinião da EMA de que os riscos da vacina AZ são infimamente inferiores aos seus benefícios. Mas, como não tenho dados suficientes sobre isso, vou comentar apenas os aspetos médicos e científicos.
Não há nenhuma vacina, como nenhum medicamento, que não tenha efeitos secundários. Por exemplo, a vacina da febre amarela, que toda a gente é obrigada a levar como condição de viagem para muitos países, causa ocasionalmente em pessoas mais velhas consequências que podem ser graves. O que há a fazer sempre é uma avaliação de risco. É dado objetivo que, com dezenas de milhões de vacinados com a AZ, as dezenas de casos de acidentes trombóticos, principalmente a trombose venosa do seio cavernoso cerebral, representam um risco cerca de 100000 vezes menor do que o risco de morte pela COVID-19. Note-se que estes acidentes também ocorrem com a tomada de anticoncepcionais, até em maior percentagem, que nunca ninguém se lembrou de retirar do mercado ou de recomendar só a mulheres acima dos 60 anos…
Com isto, é de temer, legitimamente, que o medo instalado pelas medidas de muitos países – agora também Portugal – de limitação do uso da vacina AZ leve a recusa de vacina por muita gente, com uma probabilidade de aumento de mortes pela doença muito maior do que a probabilidade de acidentes vacinais. Eu próprio já recebi bem uma dezena de telefonemas a pedir-me opinião, sentindo que, no fim da conversa, as pessoas continuaram a não querer serem vacinadas com a AZ.
A isto, soma-se toda a incerteza sobre a capacidade de vacinação em massa sem o aproveitamento de todo o fornecimento da AZ. Também, como sempre, o nosso eurocentrismo esquece que a AZ é o fabricante que melhores condições comerciais (a preço de custo) e técnicas (condições de armazenamento, por exemplo) oferece ao terceiro mundo, cujas populações certamente vão ficar inquietas com o que se está a passar.
Ainda não se conhece o mecanismo desta anomalia da coagulação, provavelmente ligada a uma disfunção plaquetária. Um estudo inicial sugere um mecanismo de agressão por complexos antigénio-anticorpo em pessoas, principalmente do sexo feminino, que têm naturalmente anticorpos contra um fator de regulação das plaquetas, situação muito rara. O que não s sabe é qual a relação com a vacina. Uma hipótese plausível é que isto se relacione com o vetor viral de adenovírus utilizado na vacina AZ. Se assim for, isto coloca um problema adicional, que ainda não vi referido. É que há outras vacinas contra o SARS-CoV-2 baseadas na mesma tecnologia e usando adenovírus.
Uma, já em uso, é a Sputnik. Seria natural que já se estivesse a investigar se já ocorreram na Rússia acidentes do mesmo tipo. Curiosamente, no momento em que restringe o uso da AZ, a Alemanha está a negociar a compra da Sputnik. A outra vacina do mesmo tipo é a Jansen, cujo fornecimento em prevista larga escala estava a ser a base para a previsão de uma alta percentagem de vacinação na Europa no segundo trimestre a até ao outono.

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por Augusta Clara às 18:54

Segunda-feira, 22.02.21

Cuidemos do nosso jardim - Eva Cruz

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Eva Cruz  Cuidemos do nosso jardim

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(Adão Cruz)

 

   “Cândido ou o Optimismo” de Voltaire, um dos maiores vultos do Iluminismo, é uma obra notável que foi publicada clandestinamente no século XVIII, o que lhe valeu nos séculos posteriores milhares de edições. Romance picaresco ou Bildungsroman, conto filosófico ou sátira tornou-se inspirador de vários autores, artistas, músicos, cineastas, não só pela crítica mas também pela filosofia que encerra. Debruça-se sobre a metafísica do Mal, sobre a utopia e a distopia da Vida e do Mundo. Não vou entrar por considerações académicas ou filosóficas, pois não é essa a minha área nem o meu propósito.

Cândido é um jovem que vive num mundo paradisíaco, recebendo de seu mestre ou tutor Pangloss ensinamentos de optimismo, essencialmente baseados na filosofia de Leibniz. Abruptamente, este seu mundo edénico é cortado quando Cândido toma contacto com a realidade. A sua vida sofre imensos reveses e ele acaba convencido de que se não tivesse passado por tudo isso não estava a comer doce de cidra e pistache. “Tudo isso está muito bem dito - mas devemos cultivar o nosso jardim”. 

A propósito de Optimismo, as palavras mais marcantes da minha vida de professora foram ditas por um aluno, hoje um grande senhor e um grande amigo. “Obrigado, professora, por ser optimista.” Na verdade, nunca, por mais básico que fosse o conhecimento de algum aluno, eu deixei de ter para com ele uma palavra de esperança ou entusiasmo. Por isso, quero deixar aqui o meu apreço às palavras do virologista Pedro Simas, o qual, no meio desta arrasadora pandemia, deste tenebroso confinamento, aparece sempre com um rosto calmo e tranquilizante, com palavras de esperança transmitindo algum do ansiado optimismo que tanto escasseia. Pedro Simas dá-nos a todos uma excelente lição de pedagogia. A sua expressão e a sua voz inspiram confiança e optimismo, aquilo de que neste momento mais precisamos. É uma voz eloquente, sábia, serena, credível e muito simples. Das poucas que não assustam. Todos o entendemos e todos nos animamos ao ouvi-lo dizer, sem demagogias, que Portugal está a ter uma redução abrupta de contágios, resultante do confinamento, o que poderia colocar o país entre os melhores do mundo a controlar a terceira vaga da pandemia. 

Todos os dias nos entra em casa a comunicação social, com imagens de enfermarias a abarrotar de doentes em estado deplorável, de ambientes quase surreais, seringadelas em braços mil vezes repetidas, de INEMS e ambulâncias com luzes de alarme e sirenes de emergência, de telejornais abarrotados de recordes de mortes e infectados como se de resultados de jogos se tratasse. Recuperados, sempre no fim da lista, como notícia secundária. Se porventura, alguma melhoria se nota aqui ou ali, vem logo um “mas…” ou “ o pior está para vir… “ou” já se atingiu o limite…!” E como se não bastasse, vêm a seguir políticos e comentadores que nada têm a ver com profissionais de saúde, a assustar com gráficos, opiniões e poses de quem sabe tudo e mais alguma coisa. “ Quem está fora racha lenha” diz o nosso povo. Curiosamente, os menos críticos, mais reservados e serenos são os da linha da frente, aqueles que fazem o mais difícil, estóico, único e exemplar. 

É muito importante estarmos informados, é muito importante passar a mensagem da gravidade da situação que todos estamos a viver, mas também é muito importante a forma, a sabedoria e a pedagogia com que essa informação se faz. E, acima de tudo, que não se critique de ânimo leve quem está a fazer o melhor que pode, com todas as carências que não são só de agora, no meio de um labirinto de científicas e humanas dúvidas e incertezas. Todos acham que fariam melhor, todos querem tirar dividendos políticos desta triste situação, e é isto que leva à saturação e ao descrédito e dá muitas vezes vontade de dizer ”put yourself on the other side.” 

Cândido foi perdendo ao longo da vida o optimismo exagerado, mas chegado ao fim, aceitou os ensinamentos de Pangloss “ tudo vai pelo melhor no melhor dos mundos possíveis”. Sem maniqueísmos, aprendamos a dizer “ tudo isso é muito bem dito, mas cuidemos do nosso jardim”

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por Augusta Clara às 16:14



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