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Jardim das Delícias


Segunda-feira, 17.09.18

A caminho da Internacional Fascista? - Augusta Clara de Matos

 

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Augusta Clara de Matos  A caminho da Internacional Fascista?

 

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   Que eu saiba a União Europeia, apesar de se intrometer muito nas políticas internas dos países e não dever, como há quem afirme por aqui e com razão, não contempla nos seus documentos fundadores uma união de países de regime fascista. Quando se formou não estava prevista a viragem que vários países da antiga Cortina de Ferro viessem a sofrer com a instalação da extrema-direita no poder. Já bastante antes do início deste processo nos lembramos das discussões havidas à volta da entrada ou não da Turquia como membro da União por ainda ali vigorar a pena de morte. Portanto, a União Europeia formou-se pelo agrupamento de várias democracias. Se internamente cada uma delas cumpre os requisitos que as caracterizam, isso é outra coisa.

Mas o caso da Hungria e de outros países como a Polónia e a Áustria já ultrapassam as malformações democráticas e assumem-se como regimes autoritários de características fascistas. São os direitos humanos mais básicos que estão a ser atacados, incluindo os dos refugiados que chegam à Europa a fugir das guerras e da penúria nos seus países; é o ataque às opções sexuais, políticas e religiosas dos seus cidadãos; é a perseguição às minorias étnicas como os ciganos e a anulação de outras liberdades típicas da democracia.
Países que adoptem regimes fascistas devem ser expulsos da União Europeia.

O fascismo está a alastrar rapidamente na Europa e não se vê ninguém tomar medidas que lhe ponham travão. Não se entende, por isso, a votação do PCP, um partido antifascista, contra as sanções propostas no Parlamento Europeu à Hungria. E escuso-me de rebater os argumentos que o partido, ultimamente, tem evocado quando se esperariam tomadas de posição contrárias às que adoptou – em relação ao regime Angolano de José Eduardo dos Santos, à eutanásia, às touradas, que me lembre agora – porque são tão inconsistentes que não têm ponta por onde se lhes pegue.

E eu não quero viver numa União Internacional Fascista!

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por Augusta Clara às 12:00

Terça-feira, 01.03.16

Os primeiros meses de Costa - Freitas do Amaral

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Freitas do Amaral  Os primeiros meses de Costa

 

 

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Visão, 27 de Fevereiro de 2016

O imprevisto aconteceu: com as inevitáveis alterações que sempre resultam de qualquer negociação, a Comissão Europeia e o Eurogrupo aprovaram, pela primeira vez (desde a criação do euro), um orçamento social e não um orçamento neoliberal! Não há ninguém com coragem par ao dizer?

   Já não é surpresa para ninguém que Passos Coelho, mau a governar, foi bom a influenciar quase toda a comunicação social. Verdade seja que o mérito não foi só dele: a moda neoliberal, convertida em pensamento único, faz coro com Berlim e com Bruxelas, com o mesmo entusiasmo com que alinhava com a América de Bush e deprecia a de Obama…

Não é de estranhar, pois, que se leia e se ouça diariamente um coro de críticas e protestos contra António Costa, o seu governo e a maioria que o apoia. Passos dixit!

Considero útil apresentar na VISÃO – um raro bastião da liberdade de imprensa – uma análise alternativa.

Recordemos cinco momentos decisivos:

1. Eleições legislativas: PSD e CDS defenderam, até à exaustão, que as tinham ganho e, por isso, tinham o direito de governar. Não perceberam que este direito só pode ser exercido por quem tiver maioria parlamentar (quer de apoio, quer de não-rejeição). Protestaram vivamente contra um governo apoiado pela maioria de esquerda, e até lhe chamaram “ilegítimo”. Mas ele era tão legítimo, tão democrático e tão irrecusável que até o Presidente da República, contrariado mas cumpridor da Constituição, o nomeou e lhe deu posse!;

2. Eleições presidenciais: foram ganhas, e bem ganhas, por Marcelo Rebelo de Sousa. Não pelo PSD de Passos Coelho, que não queria Marcelo, nem pelo PS, que se dividiu inutilmente;

3. Últimas sondagens: a imprensa favorável a Passos apresentou o PSD e o PS como tecnicamente empatados, mas esqueceu-se de dizer, por um lado, que o PS sozinho já aparece à frente do PSD sozinho – o que significa que nada perdeu, e até começa a ganhar, com a sua aliança à esquerda; e, por outro, que a direita continua a valer apenas 40 por cento, enquanto a esquerda mantém os seus 60 (ou seja, nem o PCP, nem o Bloco, nem o PEV perderam eleitorado por causa da sua aliança com o PS);

4. Orçamento: a direita repete todos os dias que a proposta não presta, que as previsões são irrealistas e, até (pasme- -se), que há um “grande aumento de impostos” – isto dito pelos mesmos que, no governo anterior, decretaram um “enorme aumento de impostos”, o maior de sempre na nossa história financeira! E, é claro, os jornais, rádios e televisões seguidores do pensamento único garantiam-nos todos os dias que aquele Orçamento não passaria em Bruxelas. Contudo, o imprevisto aconteceu: com as inevitáveis alterações que sempre resultam de qualquer negociação, a Comissão Europeia e o Eurogrupo aprovaram, pela primeira vez (desde a criação do euro), um orçamento social, e não um orçamento neoliberal! Não há ninguém com coragem para o dizer?;

5. TAP: a direita achou por bem privatizar a TAP, coisa que muitos dos seus eleitores tradicionais detestaram. O PCP e o Bloco queriam a nossa companhia aérea cem por cento pública, o que era financeiramente inviável. O PS, discordando da privatização, também não concordou com a renacionalização integral. Afirmou sempre que o seu objetivo era repor o controlo estratégico da TAP nas mãos do Estado, sem prejuízo de a gestão da empresa continuar a ser privada. Precisou o Governo de recomprar mais de 50 por cento da TAP? Não. Nessa negociação, muito hábil e bem sucedida, aceitou os 50-50, mas ficando o Estado com voto de qualidade (ou de desempate) nas matérias de interesse estratégico. Brilhante!

Em resumo: nos cinco principais pontos de divergência entre os líderes dos maiores partidos portugueses, a vantagem, ao fim de dois meses e meio, vai em 4-0 a favor de Costa. Os que votaram nele têm razões para estar satisfeitos.

Que o Orçamento seja rapidamente aprovado, e venham depressa as medidas de carácter social – eis o voto de, pelo menos, 60 por cento dos Portugueses.

 

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por Augusta Clara às 08:00

Terça-feira, 10.11.15

Passos tem mais encanto na hora da despedida - Ferreira Fernandes

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Ferreira Fernandes  Passos tem mais encanto na hora da despedida

 

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  Diário de Notícias, 10 de Novembro de 2015

   Hoje, quero lembrar o meu mérito maior: o país começou a dar atenção aos números. Aquele défice não era para ser cumprido, mas dávamos atenção. Àquele crescimento prometido não chegávamos lá, mas dávamos atenção... Dir-me-ão, a economia não ganhou grande coisa com isso. Pois não. Mas a educação ganhou. Hoje, graças à nossa insistência com números, todos os portugueses começam a apreciar a aritmética. E, hoje neste Parlamento, tivemos o grande exemplo do renovado interesse nacional pelo valor do algarismo, a poesia do algoritmo, a surpresa da adição. A partir de agora, ninguém mais pode ignorar que 122 é mais do que 107. Fosse ontem, quando imperava a teoria dos conjuntos fechadinhos no seu casulo, 107 era maior do que 86 mais 19 mais 17. Até eu me surpreendo com o que isso pode ocasionar na subtração das minhas ambições... Sou a principal vítima, mas saúdo o conseguimento dos governos que tive a honra de presidir. Também, se bem se lembram, em 2011 eu tinha prometido mais eficácia do Estado. Geralmente, quando os resultados são bons, os partidos governamentais salientam os méritos nas campanhas eleitorais. Não foi isso que fiz, preferi esperar pelo fim das eleições para poder comparar. Faço agora o balanço. No mandato passado liderei um governo por 4 anos, 4 meses e 9 dias, isto é, 1592 dias. Hoje, cai o meu segundo governo, só com 10 dias! Contando os prós e contras, É EVIDENTE QUE ESTE ÚLTIMO GOVERNO FOI MUITO MELHOR!

 

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por Augusta Clara às 15:00

Terça-feira, 10.11.15

Esperança - José Vítor Malheiros

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José Vítor Malheiros  Esperança

 

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Sabemos que os tempos que se avizinham serão difíceis. Um governo que defenda estes princípios será atacado por todos os interesses.

 

 

 

Público, 10 de Novembro de 2015

   Tomemos um exemplo. Apenas um exemplo. “Proibição das execuções fiscais sobre a casa de morada de família relativamente a dívidas de valor inferior ao valor do bem executado e suspensão da penhora da casa de morada de família nos restantes casos”.

 

É uma das 70 medidas sobre as quais PS, PCP, BE e PEV chegaram a acordo.

Será uma medida justa? É justa. Haverá algo mais elogioso que se possa dizer de uma medida política? Haverá alguma etiqueta mais nobre no dicionário? Penso que não. Haverá algo que seja melhor para a sociedade, para a economia, para o desenvolvimento, do que uma medida justa? Penso que não. Porque as pessoas tratam os outros como são tratadas e nada pode ser melhor para uma sociedade onde todos tentam ser justos, onde todos tentam fazer o bem.

É uma medida humana, feita à medida das pessoas. Uma daquelas que quereríamos que alguém tomasse em nossa defesa e em defesa da nossa família se estivéssemos naquela posição de fragilidade e, por isso, simplesmente por isso, uma medida que é justo que todos tomemos em defesa dos outros.

Qual é o benefício? Retirar de cima das famílias, dos pais, o terror de que os seus filhos sejam forçados a viver na rua, a vergonha de que a sua família seja obrigada a esmolar abrigo junto de familiares ou amigos, roubando-lhes o resto de dignidade que o desemprego, as dívidas e a pobreza não levaram ainda. Tirar a casa a uma família é condená-la a uma pena perpétua, se não de miséria pelo menos de opróbrio, de vergonha e de medo. E no entanto… no entanto… quantos milhares de famílias não foram assim lançadas para o inferno nos últimos anos, em nome de uma política cega que considerava que era preciso castigar as pessoas mais frágeis pela sua fragilidade e de uma burocracia apenas capaz de ver números onde havia pessoas? Quantos milhares de famílias não foram assim lançadas para o inferno em nome de uma destruição redentora que as tornaria mais fortes, mais eficientes, mais diligentes? Quantas crianças não foram lançadas para a rua para ensinar aos seus pais que deviam ser mais empreendedores?

Qual é o prejuízo desta medida? Qual é o inconveniente, o custo? Nenhum. As dívidas podem ser cobradas de outra forma, eventualmente penhorando até outros bens (salários, bens móveis) e o facto de uma família não ser condenada ao desespero aumenta a probabilidade de que um dia venha a equilibrar a sua vida e pagar com mais facilidade as suas dívidas.

Se houvesse apenas esta medida no acordo, isso seria suficiente para marcar o dia da sua assinatura com uma pedra branca. Mas não há. Como esta há muitas outras, que têm em comum algumas preocupações centrais: a protecção dos mais frágeis, a inclusão dos mais sacrificados, o reforço dos serviços públicos essenciais, a sustentabilidade ambiental.

Sabemos que isto é apenas o início, mas é um início auspicioso. Um programa que protege os cidadãos acima de tudo, em vez do dinheiro. Um programa que olha para os cidadãos como tendo todos a mesma dignidade.

Sabemos que isto é apenas o início e que tudo o que segue, daqui para a frente, será muito difícil. Mas todas as dificuldades são bem-vindas quando se trata de construir um futuro solidário, sem excluídos, sem escorraçados, sem párias. Um futuro como sonhámos depois do 25 de Abril e que depois, sem que se tenha percebido bem porquê, se perdeu em labirintos, intrigas e areias movediças.

O acordo PS-BE-PCP-PEV não é uma esperança porque garante a estabilidade do governo do PS, em vez de um governo PSD-CDS. O acordo da esquerda é uma esperança porque ele esboça de novo um programa que defende os direitos de todos contra os privilégios de alguns, o bem-estar de todos contra a ganância de alguns, a liberdade de todos contra os abusos de alguns, a igualdade de todos contra as prerrogativas de alguns, a solidariedade de todos contra o egoísmo de alguns.

Sabemos que os tempos que se avizinham serão difíceis. Um governo que defenda estes princípios será atacado por todos os interesses, por todos os privilegiados de todos os privilégios, por todos os preconceitos, por todos os rancores. Sabemos que as primeiras frentes de ataque se concentrarão nas frestas existentes entre os vários signatários, tentando desfazer o seu acordo, ampliar diferenças, acicatar rivalidades, difundir intrigas, comprar traições. Sabemos que o acordo que hoje celebramos tem fragilidades porque acabou de nascer e porque vai ter de ser reconstruído dia-a-dia pelos seus autores, numa prática quotidiana de debate que confronte todas as diferenças sem perder de vista os grandes objectivos. Sabemos que muito pouco está garantido e muito está em jogo. Mas também sabemos que temos muito aliados dentro e fora das fronteiras, em todos os homens e mulheres de boa vontade. Sabemos que a honra é mais forte que a ignomínia. Que a dignidade é mais forte que a subserviência. Que a liberdade é mais forte que a submissão. E sabemos, enfim, que podemos ter esperança.

jvmalheiros@gmail.com

 

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por Augusta Clara às 13:30

Terça-feira, 10.11.15

Unidos como os dedos da mão - José Goulão

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José Goulão  Unidos como os dedos da mão

 

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Mundo Cão, 8 de Novembro de 2015

   Hoje é um dia especial, um dia capaz de relançar a esperança das pessoas em Portugal. Não lhe chamemos histórico, não toquemos trombetas como é usual e burocrático fazer quando alguma coisa de importante acontece e ainda está apenas em estado de embrião – forte, é certo – mas submetido a uma gestação sob tempestades de calúnias e mentiras, a um nascimento ameaçado por golpes de malfeitores, a um crescimento à mercê de anunciadas barragens de fogo sem quartel.

O edifício político inovador em Portugal resultante do acordo entre o Partido Socialista, o Bloco de Esquerda e o Partido Comunista Português, ao qual está agregado o Partido Ecologista Os Verdes, é uma afirmação de vitalidade democrática num país onde a democracia tem estado sequestrada pelos que se olham como seus eternos proprietários. Os partidos citados têm maioria absoluta na Assembleia da República, um programa de governo que promete estabilidade durante a legislatura, o que significa legitimidade total e absoluta para governar nos termos da fórmula por eles acordada.

O processo beneficia de uma transparência onde se reflectem a vontade e a soberania populares. Portanto, qualquer outra solução governativa que venha a ser sugerida ou forçada pelo ainda chefe de Estado será ilegítima, corresponderá a um golpe contra a democracia. Sobre isto não resta qualquer dúvida, por muito que a mafia ainda governante se desmultiplique em manobras e mensagens inspiradas pelo terrorismo político e também sopradas pelos círculos autoritários e austeritários de Bruxelas ao serviço das quadrilhas económicas e financeiras internacionais.

A nova realidade política em Portugal é dominada por gente séria, que sabe o que quer para o país, que põe os portugueses acima dos negócios, que finalmente privilegia o que a une sobre o que a divide, que preza a soberania nacional. Toda uma situação que tem um potencial único para travar e começar a inverter as consequências trágicas da política de caos, desmantelamento e parasitismo a que os portugueses, com excepção das minorias servidas pelo governo cessante, têm estado submetidos.

O acordo político de governo agora estabelecido em Portugal é um marco na história dos últimos anos na União Europeia: uma machadada na imposição do regime de arco da governação, uma negação do bipartidarismo que passo-a-passo, baseado em manipulações também através de sistemas eleitorais, tem vindo a ser imposto como um disfarce mal-amanhado de um sistema de partido único pan-união. A nova realidade portuguesa é um exemplo de genuinidade democrática, uma afirmação livre da vontade popular que enfrenta corajosamente um sistema que se entreteve a destruir paulatinamente os mecanismos democráticos, procurando eternizar-se sem jamais ser questionado, qual ditadura light.

Hoje é um dia especial em Portugal. Abre-se uma porta que parecia irremediavelmente fechada. Honra às forças políticas e aos dirigentes que tiveram a ousadia – num ambiente de propaganda intimidatória interna e externa – de pensar em primeiro lugar nos portugueses, na restauração da dignidade do seu trabalho, dos seus salários e pensões, de direitos antes adquiridos e entretanto roubados, na reactivação do tecido económico nacional. De ousarem, em suma, travar o passo à austeridade, tenebroso sistema organizado para violação dos direitos humanos. O que surge, para muitos ilusionistas da política, como uma “aberração” ou uma opção “fora do tempo” pode ser, afinal, um tempo novo para Portugal, uma declaração de dignidade perante a indignidade europeia reinante.

A reacção está a ser e será ainda muito mais tremenda, intimidatória, avassaladora em termos de chantagens europeias e de propaganda, porque conhecemos o estado de sabujice e de manobrismo censório a que o sistema até agora reinante reduziu a comunicação social.

É importante ter a noção disso e de que a democracia, para o ser de facto, só pode ser fruto do combate diário e solidário dos democratas que se revêem nesta solução. A mudança potenciada pela nova realidade não poderá consumar-se apenas no hemiciclo e nos gabinetes de São Bento. Tem de ser tecida por todos nós, sobrepondo sempre, dia-a-dia, o que nos une ao que nos divide, formando uma barreira sólida, ombro-com-ombro e em todo o país, contra os interesses poderosos que manipulam e instrumentalizam a direita política.

O objectivo de devolver aos portugueses muita da dignidade perdida não foi atingido nem cabe unicamente ao governo fruto do entendimento entre PS, Bloco, PCP e Verdes. Apenas se concretizará com o empenho de todos nós, com muita coragem e toda a determinação frente aos que querem travar a mudança.

Hoje é um dia especial, um dia de partida para tempos melhores que estão apenas prometidos e que só o serão se formos capazes de lutar e agir unidos, unidos como os dedos da mão…

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por Augusta Clara às 08:00

Quinta-feira, 05.11.15

Partidas simultâneas - Alexandre Abreu

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Alexandre Abreu  Partidas simultâneas

 

 

 Expresso Diário, 4 de Novembro de 2015

 

A esquerda tem pela frente tempos de grande exigência, que terá de enfrentar com inteligência e responsabilidade

   Se, como parece provável, António Costa for em breve indigitado para formar governo com apoio parlamentar do PS, BE e CDU, os tempos que se seguirão serão de enorme exigência para a esquerda portuguesa. Não somente devido à urgência de reconstruir uma sociedade assente na justiça social e na decência, nem apenas em virtude dos constrangimentos que se colocarão à governação – mas também devido à necessidade de prosseguir simultaneamente objectivos políticos com tensões entre si. Esta exigência será enorme para toda a esquerda, mas sê-lo-á ainda mais para a esquerda à esquerda do PS, que não poderá deixar de prosseguir pelo menos três objectivos fundamentais.

O primeiro objectivo consiste em concretizar uma alteração profunda de política dentro dos constrangimentos do euro, da dívida existente e das regras orçamentais europeias tal como têm sido aplicadas, dando-se como assente que um programa de governo apoiado pela esquerda ampla não promoverá rupturas com estes constrangimentos. Escrevi sobre isto na semana passada, tendo então referido uma parte do muito que pode ser feito dentro destes parâmetros – ao nível da mais justa distribuição dos apoios e sacrifícios associados ao orçamento de estado, ao nível das alterações estruturais sem impacto orçamental directo (nomeadamente na regulação das relações laborais) e mesmo, por vias indirectas, ao nível dos impactos macroeconómicos diferenciados de diferentes formas de atingir a mesma meta orçamental. Mas não deixa de ser um objectivo muito exigente - e tanto mais quanto possa ocorrer uma deterioração das condições externas.

O segundo objectivo consiste em demonstrar a viabilidade política de um governo apoiado por uma maioria parlamentar que englobe o PS e os partidos à sua esquerda. Esta solução governativa constitui uma ameaça tanto maior para a direita e para as elites que esta representa quanto a geometria que consubstancia venha a consolidar-se no futuro. É por isso que a direita aposta tudo em que corra mal, através da dissidência de uma ou mais das bases de apoio desta solução política. E fará tudo – na comunicação social, na presidência da república e onde mais puder exercer pressão – para corroer a solidez desta aliança, deturpando palavras e intenções e promovendo a dissidência. É exactamente por esse motivo que a solidez desta aliança é crucial, e que a lealdade de todas as partes é fundamental.

O teste último do sucesso desta aliança, enquanto elemento de contestação duradoura ao domínio da direita, consistirá na capacidade de evitar rupturas traumáticas. Se a aliança se desfizer em resultado de tacticismos de curto prazo ou num ambiente de recriminação mútua – em suma, se as condições da separação constituírem um argumento favorável àqueles que, no seio destes três partidos, se opõem a este mesmo entendimento -, então a direita terá ganho. É por isso que é tão importante, no momento actual, alcançar um acordo político que encoraje a cooperação, dissuada a dissidência e, se absolutamente necessário, permita uma separação harmoniosa – e que o faça para um conjunto amplo de condições políticas e económicas.

Quanto ao terceiro objectivo, que dos três é o único que não é comum ao PS, decorre da consciência, à esquerda do PS, de que o euro, a dívida e as regras orçamentais europeias são impedimentos fundamentais ao desenvolvimento económico e à autonomia política nacionais. Contribuir para abolir esses constrangimentos é, por isso, um objectivo político de que a esquerda não pode demitir-se. Mas trata-se de um processo gradual, de consciencialização e mobilização de uma maioria social, que não deve sobrepor-se aos outros dois objectivos. Tenho alguma legitimidade para dizê-lo, visto que me conto há alguns anos entre os que têm procurado contribuir activamente para esse processo, inclusive quando essa posição era muito minoritária.

Nenhum destes objectivos é secundário ou dispensável para a esquerda, mas é evidente que existem algumas tensões entre eles. Daí a enorme exigência dos tempos que correm. Porém, é possível responder à altura, com base na compreensão das prioridades em cada momento e das diferentes temporalidades de cada um dos objectivos.

No curto prazo, é indispensável melhorar as condições de vida das pessoas e marcar a diferença face à governação da direita. No médio prazo, nada é tão importante quanto demonstrar a viabilidade e solidez políticas de um governo assente na esquerda ampla, construindo a confiança e resistindo às tentativas de desestabilização. O resto, podemos estar certos, virá a seu tempo.

 

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por Augusta Clara às 08:00

Sábado, 24.10.15

O processo de apagamento em curso - Ferreira Fernandes

 

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Diário de Notícias, 24 de Outubro de 2015

 

   Cavaco Silva deve ser ouvido pela sua linguagem gestual. Quando apontou, esticou o dedo, enfim, indigitou Passos Coelho, entendemos. O pior é quando ele fala. Gostaria de conviver (três minutos, não mais) com Aníbal Cavaco Silva, vocês sabem, esse. Eu só queria saber o que se passa quando ele pede um café. Suspeito que o pedido cause grande rebuliço no Palácio de Belém. O empregado da copa começa por não entender o que foi pedido. O chefe da Casa Civil, Nunes Liberato, aconselha calma, e pondera que talvez o Presidente nem tenha pedido nada. A assessora das Relações Internacionais divaga, não se querendo comprometer, "talvez seja qualquer coisa relacionada com Timor, talvez com a Colômbia". Nuno Sampaio, dos Assuntos Políticos, considera que o momento não é para estimulantes, mais valia camomila.
O consultor Fernando Lima faz um sorriso de quem entendeu tudo mas não diz nada, próprio de quem já não é ouvido, e pensa: "No meu tempo, eu não teria dúvidas de que ele pediu um café, mas também sei que se a coisa desse para o torto ele negava." O consultor para a Inovação, Jorge Portugal, hesita, mas acaba por ousar: "Eu por mim, trazia-lhe um negroni, o cocktail da moda." José Carlos Vieira, da assessoria para a Comunicação Social, de memória toma nota de todas as interpretações, sendo certo que fará um comunicado assaz vago. E a assessora do Gabinete do Cônjuge, Margarida Mealha, depois de um telefonema, sussurra para o empregado: "Um café, mas não traga açúcar"...
Como não tenho o número do telemóvel da doutora Maria Cavaco Silva não sei bem o que dizer da comunicação do PR sobre a situação política, proferida na quinta-feira. Mas, como todos, tenho a minha interpretação e, essa, entendi bem. Desde logo, notou-se no discurso o dedo da cônjuge: amargo, não trazia açúcar nem adoçante. Depois, confirmou-se que Cavaco Silva, homem que lida mal com as palavras, deve ser ouvido mais pela sua linguagem gestual. Assim, quando apontou, esticou o dedo, enfim, indigitou Passos Coelho, todos entendemos que o líder do PSD foi mandado fazer governo. A seguir, foi a fúria de palavras, não como se tivesse engolido uma fatia de bolo-rei mas, desta vez, uma broa de Avintes. E inteira.
Em palavras, Cavaco Silva começou por prestar homenagem à Constituição e respeito sem condições pela Assembleia da República: entregou a decisão aos digníssimos 230 deputados. Essas pedras basilares da vontade do povo português, disse, podem - e saberão certamente fazê-lo - consubstanciar o desiderato da Nação e aprovar o governo de Passos Coelho. Cavaco fez uma pausa e prosseguiu: "Agora, meus meninos [e, aí, pôs o tal dedo em riste com que fala melhor e ficou todo afogueado], se alguém tiver a lata de boicotar isto, atiro-lhe com uma gorpelha de figos à cabeça!", disse Sua Excelência o Presidente da República. Já as câmaras se apagavam e ouviu-se gritar: "Andem cá! Ninguém disse que já acabei..." e viu-se o PR a espernear e a ser levado por Nunes Liberato, que se voltou para os telespectadores, encolhendo os ombros e fisgando um sorriso tímido que pretendia tranquilizar-nos. Resumindo, voltando aos gestos, porque é assim que se entende melhor Cavaco Silva, na quinta-feira foi--nos mostrado o boletim do dia 4, sobre o qual pusemos uma cruzinha, dobrámos e metemos na urna. Mostrado o voto, apareceu um indicador a fazer de limpa-vidros, da esquerda para direita. A imagem voltou outra vez ao voto - continuo a contar-vos o resumo da comunicação de quinta, à hora dos telejornais - e apareceu o PR, mestre--escola zangado, a dar-nos uma lição. Com uma esferográfica no punho, o PR riscou a linha dizendo "CDU" e as imagens da foice e do martelo e do girassol. Depois, o PR riscou a linha dizendo "Bloco de Esquerda" e a imagem da estrelinha de quatro pontas e uma cabeça. A câmara mostrou Cavaco, olhos furibundos: "Perceberam?!"
 Dando-se conta de que talvez não, Cavaco voltou ao boletim. Desta vez, com a parte azul, a mais abrasiva, duma borracha, Cavaco continuou a sua sanha contra aquelas duas linhas malditas. Olhou-nos, outra vez: "E, agora, já perceberam?!" Achando-nos estúpidos, ele insistiu na explicação: com um X-ato, cortou as duas linhas. E com a convicção de que uma imagem vale mais do que cinco pareceres de constitucionalistas mostrou-nos os dois finos buracos em retângulo: os comunistas e os bloquistas tinham sido abolidos da democracia portuguesa.
Eu estava num café quando ouvi o senhor Presidente da República. Olhei à volta e foi terrível. Percebi que as pessoas agora nem por gestos entendiam Aníbal Cavaco Silva. Aquilo era um olhar alucinado e poucos viram isso. Saí do café a matutar na velha e desiludida ideia de que as pessoas só entendem quando lhes batem à própria porta. O abuso cometido, por enquanto, é só um problema "deles", os do PCP e do BE, só 996 872 portugueses, só 18,44% dos votantes, a quem acenaram com um direito que depois rasuraram, mas só a eles. Ninguém, para lá dos comunistas e dos bloquistas, pensou: e se amanhã outro alucinado também me quiser apagar?"

 

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por Augusta Clara às 19:30

Sexta-feira, 23.10.15

Testemunhas de Jeová - Carlos de Matos Gomes

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Carlos de Matos Gomes  Testemunhas de Jeová 

 

 

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   A comunicação social portuguesa transformou-se na Sociedade Torre Vigia do Sião. A possibilidade de um governo apoiado numa maioria de esquerda converteu a comunidade jornalistas e opinadores em missionários da congregação de leitores fundamentalistas da Bíblia criada por Charles Taze na Pensilvânia, nos Estados Unidos. Todos transmitem a mensagem dos “meninos de Deus” de aviso da proximidade do fim do mundo. As televisões, as rádios, os jornais foram assaltados por bandos de pregadores bíblicos que anunciam o Armagedão, a batalha decisiva entre o Bem e o Mal.

Por obra e graça da proposta de um vulgar secretário geral de um vulgar Partido Socialista de chefiar um vulgar governo de um pequeno Estado com o apoio de um vulgar partido que reúne cidadãos oriundos de vários movimentos da esquerda europeia pós Maio 68, maioritariamente de classe média urbana e progressista e de um vulgar partido comunista que procura o seu lugar nos novos tempos históricos, os opinadores que enxameiam a comunicação social portuguesa transformaram-se em esconjuradores bíblicos. Para a comunicação social portuguesa António Costa passou a ser o Anjo do Mal. Nas redacções de jornais, rádios e televisões a escatologia passou a ser religião única. Descobrimos que existem mais Césares das Neves nas televisões, jornais e rádios que ricos nas Bahamas!

A possibilidade de um governo normal, que substitua o gangue que devastou Portugal durante quatro anos, incendiou o desejo de salvação através da palavra que existe em cada plumitivo. De repente, perante o fim do mundo que avança com António Costa à frente, a multidão de crentes nas bênçãos dos mercados subiu aos púlpitos, saiu à rua para, de porta em porta e com os olhos arregalados, a voz num sufoco, anunciar o perigo mortal que aí vem com comunistas, bloquistas e outros apóstatas do euro, da dívida, do défice, da austeridade, em suma. Passaram a ser testemunhas da única religião verdadeira, a do paga e aguenta. Passos Coelho, Paulo Portas e a sua PAF passaram à categoria de Guardiões do Templo de Jeová. Todos repetem a frase bíblica de Isaías: “Antes de mim não foi formado nenhum Deus e depois de mim continuou a não haver nenhum.”

Nada existia antes deles e nada existirá depois deles, garantem com ar zangado dos Césares da Neves as testemunhas e os meninos de Deus que desfilam por ecrãs de televisão ou em fotografias nos jornais. São as testemunhas fiéis e verdadeiras que lutam para impedir a chegada do Apocalipse.

A possibilidade de um governo do Partido Socialista, apoiado pelo Bloco de Esquerda e pelo Partido Comunista revelou que a comunicação social portuguesa é uma seita. Uma seita como a das Testemunhas de Jeová, com os seus membros subordinados a um secreto Corpo Governante, o único com autoridade para interpretar as Escrituras.

A tentativa de António Costa teve, pelo menos, o mérito de desmascarar a falsidade da independência e da pluralidade da comunicação social. Sobra uma seita de pregadores bíblicos, de Césares da Neves, que nos impingem a “Boas Novas do Reino de Deus”. Do seu. Se quiserem saber tudo o que há para saber, e salvarem-se do Mal que se aproxima leiam a Sentinela e o Despertai, os órgãos oficiais da seita.

 

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por Augusta Clara às 10:00

Terça-feira, 13.10.15

A surpresa - Manuel Loff

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Público, 10 de Outubro de 2015

 

É sintomático que a direita veja 1975 nos resultados eleitorais. É a prova evidente de que estes anos mudaram o panorama da esperança política em Portugal.

 

   O governo da austeridade foi ratificado pelos portugueses?! Depois de ter sofrido a maior sangria de votos desde que há democracia em Portugal (perdeu 730 mil, mais do que os 600 mil que perdeu em 2005, depois de Santana, ou em 1995, depois de Cavaco), o terceiro resultado mais baixo em 40 anos (38,6%, por pouco acima de 1975 e 2005), que lhe fez perder a maioria absoluta - o que ganhou a direita?

Ganhou ao PS, um campeonato que ela própria inventou. O problema é que Portugal não acaba nas fronteiras do PS, do PSD e do CDS, e que os outros 29% de votantes (com ou sem representação) estão hoje mesmo a fazer-se ouvir. Posso perceber que Passos&Portas (e Dijsselbloem&Schäuble) papagueiem o disparate de que o governo ganhou as eleições; mas não tem razão quem, deprimido, diz que “os portugueses têm o que merecem” - porque eles votaram efetivamente contra este governo! As eleições confirmam, aliás, o que dizem todas as eleições europeias: em nenhuma, a austeridade foi ratificada pelos eleitores. O sistema eleitoral britânico deu uma maioria aos conservadores com 36% dos votos; a coligação de Merkel perdeu milhões de votos e a maioria parlamentar, e pediu ao SPD para a deixar regressar ao governo. Mas não foram os eleitores a dar-lhes razão.

As oposições ganharam amplamente as eleições. 2.860 mil eleitores (53,1%) votaram nas candidaturas que se reivindicam da esquerda (isto é, o PS, o BE, a CDU, os pequenos partidos), mais 600 mil que em 2011, ao nível dos seus melhores resultados históricos, e exatamente o inverso das eleições de 2011. E imaginemos o impacto nos resultados se tivesse votado a maioria do meio milhão de novos emigrantes que abandonaram o país nos últimos cinco anos...

O PS não foi sozinho alternativa – e Costa não resolveu o problema. Ao contrário do que se assegurava há um ano, o pólo de atração do protesto não foi António Costa. O PS ganhou apenas 180 mil votos (de 28% para 32,4%). Juntamente com a derrota de Sócrates em 2011, o PS continua com os seus piores resultados desde 1991 (segunda maioria absoluta de Cavaco). Os partidos do “arco da governação” (ou, pelos vistos, da NATO, segundo Cavaco...) continuam em queda: no seu conjunto (PS, PSD, CDS) obtêm o resultado mais baixo desde 1985. O problema, portanto, não está nos líderes, não estava em Seguro, nem sequer em Costa. Era bom que os cultores das lideranças, tão de moda, que parecem julgar que o mundo se resume a uma leitura de marketeiro, reconhecessem que os eleitores também votam em ideias, em atitudes, o que explica que um milhão de portugueses tenham votado no BE e na CDU sem que precisassem de sentir que votavam Catarina Martins ou Jerónimo de Sousa para Primeiro-Ministro. Os socialistas deveriam tentar perceber porque é que uma grande parte dos eleitores já não acredita (e de forma que parece consolidar-se) na alternância sem alternativa, no slogan de “só nós conseguimos pôr de lá para fora os que lá estão”, como ocorreu em 2005 (em seu favor) e em 2011 (contra o PS).

Afinal, isto virou mesmo à esquerda! E essa foi a surpresa destas eleições. Enganou-se quem, com a habitual ligeireza, desvalorizou o ciclo de maior contestação social dos últimos 30 anos, e achou que a esquerda “radical” bem podia sair à rua, convocada pela CGTP ou pelo Que Se Lixe a Troika!, porque, uma vez chegadas as eleições, todos voltariam ao redil e votariam nos “suspeitos do costume”. É ou não significativo que o BE tenha duplicado a sua representatividade depois de o terem declarado morto e, pelo contrário, quem, como o Livre, reclamava uma “esquerda de governo” e criticava a “esquerda de protesto”, tenha saído arrasado das urnas, perdendo metade dos poucos votos que obtivera para o Parlamento Europeu? É ou não significativo que a CDU, apesar do voto útil no PS e dos 260 mil novos eleitores do BE, tenha ganho mais apoio (sobretudo no Norte) pela 4ª eleição consecutiva?

Quem quis mudar a sério foi à esquerda do PS que confiou o seu voto: 1.113 mil votos (+315 mil), 20,7% de quem foi às urnas, constituem hoje um bloco sociopolítico (plural, como tudo na sociedade) de quem continua, apesar de toda a pressão das sondagens a favor do “voto útil”, a não confiar nos socialistas para fazer a mudança. Há meses escrevi-o aqui: desde 2005 que este bloco sociopolítico à esquerda do PS voltou a reunir a confiança de 1/3 dos eleitores de esquerda, como acontecera nos anos 70 e 80 e deixara de acontecer entre 1991 e 2005, com uma hegemonia do PS que entretanto se esfumou. E desta vez, o PS já só tem a confiança de três de cada cinco eleitores da esquerda.

É por isso que o PS perdeu as eleições – mas a esquerda as ganhou! É óbvio que PS, BE e CDU representam opções políticas diferentes, mas é mais relevante recordar que, depois de semelhante devastação social e económica como a que vivemos desde 2011, os três milhões de portugueses que neles votaram fizeram-no para impedir que este governo voltasse ao poder. E que é perfeitamente natural, e constitucional, que se tente uma solução alternativa de governo, mesmo que (como tudo indica) não passe por nenhuma aliança formal, com partilha de ministérios. Até podemos aceitar que todo o bicho careta passe na TV por especialista de futebol – mas era bom que se contivesse ao falar da Constituição e que não confundisse o sistema político com a Liga de Futebol, porque, desde que há parlamentos e eleições, as candidaturas mais votadas que não reúnem maiorias parlamentares cedem o lugar a quem as reúna! Se o PS tem dúvidas, veja o PSOE que constitui em Espanha governo com maiorias de esquerda, com ou sem a participação direta de parceiros, em muitas regiões autónomas e municípios onde o PP foi o partido mais votado, mas, justamente, onde não não reúne maioria. Ou que Willy Brandt só chegou ao poder na RFA, em 1969, constituindo uma coligação contra a CDU/CSU que ganhara as eleições sem maioria. E os exemplos podiam ser muitos mais... O que o PS escolher fazer vai ficar na memória de todos.

Jaime Neves na Presidência da República? Revelador do incómodo por que passa a direita portuguesa é o tom patético com que Cavaco, desrespeitando regras básicas da democracia, descreveu as condições para se poder fazer parte do governo de Portugal. De repente, o mais impopular dos presidentes, em fim de mandato, parecia Jaime Neves na noite do 25 de Novembro de 1975... Esta lengalenga da NATO, da “parceria atlântica” e dos tratados europeus é digna de uma uma espécie de democracia musculada, onde há uma espécie de oposição tolerável e outra que se for apanhada na rua já sabe o que lhe acontece... A oposição tolerável deveria humildemente lembrar-se do dogma (suponho que um misto de austeridade/Pentágono/o-que-o-Dijsselbloem-disser) a que se deveria reconhecer sujeito, fora do qual na cabeça de Cavaco não há nada. É verdade, ele não está sozinho nesta alucinação. Até entre socialistas que estão a encarar tudo isto da forma menos digna de todas (pura chicana partidária contra Costa que pode paralisar o PS durante meses), levantam-se vozes a recordar os valores “europeus” (há 40 anos diriam “ocidentais”) que partilharão com a direita. Os que agora acham que a maioria de esquerda de “bananas e laranjas” não existe, vislumbram uma outra, a atlântica, que Passos e Costa garantiram a campanha inteira que não existia. Se o PS cair nesta armadilha, bem pode antecipar o mais que provável futuro: Passos&Portas queixar-se-ão que os não deixam trabalhar, nova vitória da direita elegendo Marcelo a Presidente, que convocará novas eleições enquanto os socialistas estiverem ocupados com essa questão tão importante que é a de trocar Costa por outro...

Os que se mostram horrorizados com a possibilidade de um acordo de mínimos à esquerda denunciaram anos uma “esquerda do bota-abaixo” que, ao contrário de outros países, não contribui para a “governabilidade”. Deixaram-se surpreender com a frontalidade com que o PCP e o BE mostraram abertura para viabilizar um governo do PS para impedir o regresso da direita, não fazendo mais do que aquilo que disseram toda a campanha: que os seus votos não faltariam para procurar uma solução contra a continuação do que temos. O PS sabe que esse é o pressuposto básico de uma mudança. De um mínimo de esperança.

É sintomático que a direita veja 1975 nos resultados eleitorais. É a prova evidente de que estes anos mudaram o panorama da esperança política em Portugal. E de que, afinal, a esquerda foi eficaz em convocar o 25 de Abril contra a austeridade.

 

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por Augusta Clara às 15:00

Terça-feira, 13.10.15

Tombam as máscaras do regime - José Goulão

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José Goulão  Tombam as máscaras do regime

 

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Mundo Cão, 12 de Outubro de 2015

   A hipocrisia assaltou definitivamente os ecrãs portugueses. O que tanto se denunciou sobre os desvios impostos ao regime democrático no sentido de neutralizar o funcionamento dos mecanismos de respeito pela vontade e os interesses dos cidadãos, e que, de acordo com a propaganda oficial, não passava de opiniões de marginais do sistema, de antieuropeístas, quiçá de terroristas encapotados, está confirmado. Não era teoria da conspiração, era a demonstração do que se pretendia e pretende atingir com a mascarada de democracia apresentada como a democracia única, possível e desejável, afinal um regime em que a soberania nacional e a maioria das pessoas têm de submeter-se aos interesses minoritários dos predadores da sociedade, dos parasitas dos cidadãos.

Bastaram umas eleições e umas sessões de diálogo – esse diálogo tão enaltecido quando não passa de monólogo em que finge falar-se do que já está decidido – para que a inquietação, os medos, no fundo as pulsões antidemocráticas e trauliteiras subissem ao palco. Elas aí estão, ridículas nos conteúdos, perigosas nas intenções, intimidatórias na prática.

Cito alguns exemplos ao acaso porque a memória e a capacidade de registo não conseguem acompanhar a criatividade dos canais de propaganda do regime os quais, como é sabido, são o suprassumo do pluralismo desde que ele seja monolítico e esteja sintonizado com os agentes de Bruxelas, os seguranças dos credores, os magarefes dos mercados.

Na cegada desfilam politólogos e comentadores independentes que, por acaso, ocupam ou ocuparam altas posições no chamado arco da governação, analistas e papagaios amestrados, comentadores, jornalistas ditos de referência e recadeiros, enfim a corte dos bobos que conseguem especular horas a fio sobre supostas variantes de um mesmo cenário, o único, o permitido, aquele de que vivem e que por sua vez alimentam, num ciclo vicioso e viciado.

Assim sendo, António Costa transformou-se num “radical” com tendências “suicidárias” ao aceitar que o PS dialogue com o PCP e o Bloco de Esquerda. Portugal deve ser governado pelo grupo que teve mais votos, mesmo que seja em minoria, devendo os outros membros do Parlamento fazer de patetas. É assim a “tradição política”, a mesma “tradição” que proíbe a entrada de partidos à esquerda do PS na área governativa, porque isso “não está no ADN” da democracia portuguesa. Partidos esses, como o PCP e o Bloco de Esquerda, que foram acusados de se esquivarem a assumir responsabilidades governativas e que, quando manifestam essa disponibilidade, são acusados se meterem onde não são chamados, de acordo com a bem conhecida trama de morto por ter cão, morto por não ter. E atenção que isto da “tradição” é muito importante em Portugal, sobretudo a “tradição” que manda o bom povo ser ordeiro e marchar em rebanho.

Além disso, e a cegada continua, fiquem sabendo que uma minoria de 107 deputados é muito mais estável e responsável que uma maioria absoluta de 122, susceptível de viabilizar um governo à esquerda da clique da troika; maioria esta que não passa “de uma coligação negativa”, formada à partida por imbecis mal-intencionados e incapazes sem legitimidade porque, por exemplo, não aceita a austeridade nem dá como plenamente adquirido que os portugueses sejam governados de Bruxelas pelos credores e o sobe-e-desce dos juros da dívida e das manipulações estatísticas. Vejam bem, que legitimidade teria essa maioria se porventura se questionasse sobre o tratado orçamental, manobra suja de Bruxelas e Berlim escamoteada aos cidadãos e que transforma os países da União em pobres protectorados de uma Alemanha expansionista e das praças financeiras? Como seria possível admitir um governo de Portugal capaz de governar para as pessoas, segundo os interesses de Portugal e dos portugueses, quando o que interessa são números, cifrões, milhões manipulados pelo casino financeiro mundial e armazenados em paraísos fiscais?

A austeridade provoca miséria, desemprego, emigração? Pois é, mas não existe outra saída, mesmo que as eleições tenham dito claramente que os portugueses a rejeitam, porque Bruxelas é que sabe o que é bom “para o futuro dos portugueses”, como esse futuro ficará ainda mais risonho estraçalhando o Estado social e a segurança social; e se Bruxelas manda, assim seja. Para lhe obedecer existe a minoria que desejavelmente deveria assumir-se como maioria em forma de “bloco central”, esse partido único garante da democracia da austeridade. Mas se assim não for, que essa minoria governe com a “estabilidade” e a governabilidade” que lhe são inerentes, capaz de ressuscitar em versão actualizada a “democracia orgânica”, uma inspirada criação da propaganda marcelista, não a de hoje, a de ontem. Fora desse quadro, como por exemplo a hipótese de um entendimento entre PS, Bloco de Esquerda e PCP, que permitiria governar Portugal com maioria parlamentar e para a maioria dos portugueses, seria um “absurdo”, uma “batota política”, “um mergulho no desconhecido”; a “instauração da miséria”, uma “irresponsabilidade antieuropeísta”, um “pandemónio ingovernável”, uma “aberração”, uma “vergonha nacional”, um alvo da “chacota internacional”, “mudar as regras a meio do jogo”, “uma conspiração”, um “delírio”, a “restauração do gonçalvismo”, até “um golpe de Estado” – como se percebe nem o céu será o limite para a criatividade chantagista.

Tombam as máscaras dos democratas oficiais, os que sabem corrigir o regime dos enganos dos eleitores para defesa dos interesses dos próprios eleitores, uns pobres idiotas incapazes de saber o que é bom para eles.

 

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por Augusta Clara às 08:00



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