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Jardim das Delícias


Sábado, 03.09.22

REFLEXÂO (complexo caminho da simplicidade da Evidência) - Adão Cruz

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Adão Cruz  REFLEXÂO (complexo caminho da simplicidade da Evidência)

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(Adão Cruz)

   Não é fácil percorrer o complexo caminho da simplicidade da Evidência que anda por aí, em muita coisa. O medo da Evidência apavora as mentes que, de uma forma ou de outra, perderam a liberdade ou rejeitam a liberdade, sobretudo a liberdade de pensar. Interiorizam mecanismos fortemente redutores que são aceites acriticamente, porque não existe ou foi tacticamente anulada a capacidade crítica, ou são impostos por uma espécie de fé ou crença consuetudinária, impiedosamente dogmática, que cristaliza toda a forma de pensar, mesmo em pessoas familiarizadas com a Cultura Científica da Evidência. Estas as pessoas, ainda assim, de boa fé. Porque as há, e não são poucas, que fazem da má fé o antídoto da Evidência que não conseguem negar. O mundo é muito claro, até onde nos permite que o seja.
O sobrenatural continua a ser um grande problema, com a maioria das pessoas a serem incapazes de o resolver, incapazes de rever a equação cujo resultado estabeleceram como certo sem conhecerem os dados que a compõem.
Há muito tempo que deixei de discutir fé e religião com gente crente, gente que indiscutivelmente respeito, mesmo não respeitando as crenças. Dogmas e argumentos condicionados, não sendo permeáveis à razão, só podem levar a conclusões sempre frustrantes. Sou ateu, mas há muitos anos fui crente. O sobrenatural, tantas vezes aterrorizador, entrou na minha cabeça à força da destruição da minha razão e do meu entendimento, perpetrada por mentes ignorantes que assaltaram a minha infância e adolescência. Essa parte negativa da minha vida teve um lado positivo. Permite-me, hoje, à luz da Evidência possível, fazer a comparação entre a falsa liberdade da aleatória felicidade do obscurantismo e a aliciante liberdade da real felicidade de uma razão não mais miscível com qualquer grande ou pequena crendice. É muito difícil quebrar as grilhetas de um pensamento fortemente colonizado, mas a força projectiva da curiosidade humana que leva ao complexo caminho da simplicidade da Evidência é a única força capaz de nos libertar de todas as constritoras angústias metafísicas. Foi essa libertação que me trouxe a paz e a serenidade de uma total descrença mística, uma das melhores prendas que a vida me deu.

 

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por Augusta Clara às 19:27

Terça-feira, 09.08.22

Reflexão - Adão Cruz

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Adão Cruz  Reflexão

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(Adão Cruz)

   Ouvindo novamente a Oração de Sapiência proferida por Ana Luisa Amaral em Março passado, fui levado a reconhecer que a razão e o pensamento são as duas maiores riquezas do ser humano. Ser capaz de parar para pensar é um enorme privilégio. Eu tenho um escrupuloso respeito pelo pensamento, pelo meu pensamento e pelo pensamento dos outros, quando racional e honesto. Acredito que todos nós, aqueles que nunca se venderam a nada nem a ninguém, aqueles que nas questões que mais nos inquietam e mais preocupam a humanidade necessitam sempre de pensar e ouvir a voz da razão. Não conseguem sentir-se livres fora da verdade, ou pelo menos fora da procura do caminho da verdade.
Há para mim três verdades que a reflexão profunda e séria de uma vida inteira tornaram irrefutáveis. Mas são minhas, e de modo algum eu pretendo impô-las a quem quer que seja. Uma delas é a convicção de que o conhecimento e a cultura, a verdadeira cultura, ou seja, a cultura do conhecimento e, por inerência, a cultura da verdade são os mais importantes recursos de que dispomos para encontrar o caminho da justiça e da solidariedade, os sentimentos que nos acordam para a nobreza que poderia existir e não existe no coração da humanidade. A segunda convicção é a do nefasto papel do obscurantismo, religioso ou não, arrastando consigo a irracionalidade e a secundarização do conhecimento, os grandes inimigos da verdade. A minha terceira convicção é o simples reconhecimento de que a intencional desinformação e ignorância impostas ao mundo pelas forças que o dominam vai deformando, de forma mais insidiosa ou mais contundente, a consciência e mesmo a inconsciência das pessoas, levando-as à gelatinosa certeza de que não há verdade mais credível do que a verdade da mentira.

 

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por Augusta Clara às 12:51

Sábado, 06.08.22

Para Ana Luisa Amaral - Adão Cruz

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Adão Cruz  Para Ana Luisa Amaral

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(Adão Cruz)

 

   Como a vida te apagou, também apaguei o teu e-mail. Lá para os confins do mundo molecular do Universo, não tenho possibilidade de comunicar contigo, mas irei falando para mim mesmo sobre tanta coisa que deixaste. Aprendi com outros e também contigo que a cultura tem de fazer parte integrante da estrutura do ser humano, da sua solidez e profundidade, da sua autenticidade, da sua verdade e da sua intrínseca sabedoria. Aprendemos que a cultura com que te irmanaste e que cedo a morte ceifou é construída através da vida como qualquer mecanismo de adaptação, mas apenas quando assenta nos fortes alicerces do conhecimento científico e na aprendizagem dos emaranhados mecanismos neurobiológicos da mente criativa. Também aprendemos que a verdadeira cultura, a cultura do saber autêntico, a cultura do ser são indissociáveis da nossa língua e de toda a linguística onde sempre foste mestra. Como todos sabemos, a língua não é apenas um mero instrumento de comunicação, mas uma parte inseparável do todo que somos e da riqueza anímica que construímos. Um bom perfume deve ser sentido como parte integrante da personalidade de uma mulher e não como um cheiro. Uma boa decoração deve ser sentida pelo bom ambiente, pelo conforto e bem-estar que cria e não por dar nas vistas apenas pelo estilo e pela configuração dos objectos. A cultura não é um enfeite, uma cosmética, uma roupagem mais ou menos vistosa, nem pode ser confundida com a cultura-folclore, com a prolixa cultura política ou com a cultura do enciclopedismo balofo dos nossos dias.
Adão Cruz
Adeus Ana Luisa. Guardarei como recordação o difícil livro que me aconselhaste: PAISAJES COGNITIVOS DE LA POESIA, de Amelia Gamoneda e Candela Salgado Ivanich

 

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por Augusta Clara às 19:10

Terça-feira, 26.07.22

Se eu fosse um avião - Adão Cruz

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Adão Cruz  Se eu fosse um avião 

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(Adão Cruz)

 

Se eu fosse um avião
com um motor em cada mão
voava…
não sei para onde
mas voava à procura da ilusão.
Se eu fosse um avião
com um sonho em cada mão
voava…
não sei para onde
mas voava para fora da ilusão.
Ai…se eu fosse um avião
com um copo em cada mão
voava…voava…
não sei para onde
mas sempre rentinho ao chão.

 

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por Augusta Clara às 14:51

Terça-feira, 19.07.22

Em legítima defesa - Ruy Belo

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Ruy Belo  Em legítima defesa

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(Adão Cruz)

Sei hoje que ninguém antes de ti
morreu profundamente para mim
Aos outros foi possível ocultá-los
na sua irredutível posição horizontal
sob a capa da terra maternal
Choramo-los imóveis e voltamos
à nossa irrequieta condição de vivos
Arrumamos os mortos e ungimo-los
são uma instituição que respeitamos
e às vezes lembramos celebramos
nos fatos que envergamos de propósito
nas lágrimas nos gestos nas gravatas
com flores e nas datas num horário
que apenas os mate o estritamente necessário
Mas decerto de acordo com um prévio plano
tu não só me mataste como destruíste
as ruas os lugares onde cruzámos
os nossos olhos feitos para ver
não tanto as coisas como o nosso próprio ser
A cidade é a mesma e no entanto
há portas que não posso atravessar
sítios que me seria doloroso outra vez visitar
onde mais viva que antes tenho medo de encontrar-te
Morreste mais que todos os meus mortos
pois esses arrumei-os festejei-os
enquanto a ti preciso de matar-te
dentro do coração continuamente
pois prossegues de pé sobre este solo
onde um por um persigo os meus fantasmas
e tu és o maior de todos eles
Não suporto que nada haja mudado
que nem sequer o mais elementar dos rituais
pelo menos marcasse em tua vida o antes e o depois
forma rudimentar de morte e afinal morte
que por não teres morrido muito mais tenhas morrido
Se todos os demais morreram de uma morte de que vivo
tu matas-me não só rua por rua
nalguma qualquer esquina a qualquer hora
como coisa por coisa dessas coisas que subsistem
vivas mais que na vida vivas na imaginação
onde só afinal as coisas são
Ninguém morreu assim como morreste
pois se houvesses morrido tudo estava resolvido
Os outros estão mortos porque o estão
só tu morreste tanto que não tens ressurreição
pois vives tanto em mim como em qualquer lugar
onde antes te encontrava e te posso encontrar
e ver-te vir como quem voa ao caminhar
Todos eram mortais e tu morreste e vives sempre mais

 

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por Augusta Clara às 16:35

Sexta-feira, 15.07.22

Ontem à noite…quem diria - Adão Cruz

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Adão Cruz  Ontem à noite…quem diria

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(Manel Cruz)

A poesia era o espaço entre a inocência e o dia
uma espécie de alforria
redimindo à boca da sorte
o silêncio de mil noites.
Vago sentimento de uma consciência acordada
pelo gemido do vento
poesia real fundida e refundida
sensual e nua.
A vítima que há dentro de nós
procura sempre o amor
na densidade dos processos
na empatia do sofrimento.
Nada mais relativo-magnético do que o sofrimento
movimento de tudo
senhor do silêncio vivo que arde dentro do poeta.
A poesia distorce a relação com a vida
e abraça o sonho parasita do amor verdadeiro
e cada um tem dos restos de si próprio
a elegante ideia de uma identidade interior.
A poesia é assim…ontem à noite... quem diria.

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por Augusta Clara às 19:22

Quinta-feira, 07.07.22

Já não entendo este mundo - Adão Cruz

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Adão Cruz  Já não entendo este mundo
 

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(Adão Cruz)
 
 
Não entendo este mundo moribundo
este mundo escuro nascido sem sol e sem luar
já não entendo esta onda de sismos e cifrões
esta dor de milhões de cabeças rolando como esferas
para o fundo dos abismos.
Não entendo este mundo dilacerado e sem vida
já não aguento este frio de quatro paredes
este jogo do cemitério da história
este profundo alarido
este diabólico mistério de morte concebido
esta vida sem sentido a que chama mercado e democracia
a argentária escória.
Não entendo este mundo de olhos vendados com barras de ferro
este silêncio absorto e abstracto
no assalto impune a soberanas nações
este mundo de vidas e almas sem direitos nem justiça
este mar de sangue escorrendo pelas garras dos algozes
este rasgar de corações
este martírio dolorosamente tatuado na pele dos inocentes
por tanques e aviões por mísseis e canhões.
Já não entendo as metástases deste cancro da guerra
este perigo sistémico diariamente arquitectado
esta inelutável evolução para a desordem suprema.
Já não sou capaz de aguentar
o peso do crime chamado superlucro
brilhando como a luz do inferno na ponta dos punhais.
Já não entendo este mundo apodrecido
na secura do grande rio da esperança.
Não entendo este mundo escorraçado para as bocas da fome
pela infame corrida a um podium inglório
por entre as malhas da ganância enlouquecida
neste imparável caminho do caos e da fatalidade
na ensanguentada bandeira erguida para o nada
no constante apunhalar da liberdade.

 

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por Augusta Clara às 22:18

Sábado, 25.06.22

A Amizade e a Vida - Adão Cruz

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Adão Cruz  A Amizade e a Vida

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(Adão Cruz)

Se a amizade vive longe da vida
e a vida longe da amizade
não sei onde fica a vida.
Sei que ela vive no caminho do nosso encontro
no perfume das flores do jardim de todos nós
na poesia do olhar com que nos vemos.
A vida só é poema
quando damos as mãos nos caminhos da vida
e descobrimos que nós e o sol
somos irmãos naturais.
A vida só é poema
quando a amizade nos ensina
que a neve pode ser pintada de cores quentes
e o mar cabe dentro de uma gota de orvalho.

 

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por Augusta Clara às 16:08

Quinta-feira, 23.06.22

Poema superdesenvolvido - Ruy Belo

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Ruy Belo  Poema superdesenvolvido

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(Paulo Ossião) 

 

É tão suave ter bons sentimentos
consola tanto a alma de quem os tem
que as boas acções são inesquecíveis momentos
e é um prazer fazer bem
 
Por isso se no verão se chega a uma esplanada
sabe melhor dar esmola que beber a laranjada
Consola mais viver assim no meio de muitos pobres
que conviver com gente a quem não falta nada
 
E ao fim de tantos anos a dar do que é seu
independentemente da maneira como se alcançou
ainda por cima se tem lugar garantido no céu
gozo acrescido ao muito que se gozou
 
Teria este (se não tivesse outro sentido)
ser natural de um país subdesenvolvido
 
(in TODOS OS POEMAS, II, Assírio & Alvim)

 

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por Augusta Clara às 14:53

Sexta-feira, 08.04.22

Hiroshima - Adão Cruz

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Adão Cruz  Hiroshima

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(Adão Cruz)
 
 
Nos limites da razão
onde os homens produzem monstros
todos nos sentimos escombros
do maior terrorismo da História humana.
Nasceu a manhã mais cruel da mais inocente madrugada
a manhã mais negra do que a noite do absurdo.
O inferno rasgou o sol e a lua
os rostos e os braços
arrancou as árvores
secou os rios e as fontes
enchendo a cidade de sangue e corpos em pedaços.
Um mar de gente… no corpo nu da solidão
gente só…no ventre da multidão
olhos vidrados de lágrimas e pânico
correndo… fugindo…
para onde… para o nada…
para o abismo da escuridão
sobre restos de sonhos e pedaços de vida
espalhados pelo chão
onde a dor fincou as garras
abafando os gritos em catedrais de cinzas.
O fim de tudo entrou pelas portas e janelas
e comeu tudo…
comeu as casas que caíram
as mãos que deixaram de brincar
comeu os olhos que deixaram de olhar
e as bocas que deixaram de respirar.
Tudo era dentro e tudo era fora
na amplidão do desespero
não havia mães nem filhos nas entranhas da aflição
não havia rumo nem caminho
no deserto infindo da maldição.
Tudo se fez pó
não ficou pedra sobre pedra
e nem pedras havia no chão
já o chão não era chão
mas o fundo abismo de uma cratera
onde tudo era estendal de morte
sem porta de entrada sem porta de saída
sem tempo sem norte sem vida
sem ruas sem movimento
sem fímbria de céu ou de mar.
O nada entrou no coração
que deixou de bater no peito de muitos mil
ao peso de cinquenta quilos de urânio
e toneladas de glória americana
erguendo até ao cume da barbárie
a bandeira mais cruel da natureza humana.
Uma fria luz de prata atravessou o mundo
perfurou a mente e as ideias
em seco lamento de gemido sem remédio
como latido de cão atirado ao vento.
E o mundo dormiu suavemente…
e ainda hoje não acordou.
Entre milhares de bombas e estrondosos hinos
o mundo de olhos cegos e ouvidos moucos
ainda dorme…
nada mais ouvindo que o silêncio dos assassinos.

 

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por Augusta Clara às 18:07



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