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Jardim das Delícias


Terça-feira, 30.04.19

GUINÉ- IRKUTSK - Adão Cruz

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Adão Cruz  GUINÉ- IRKUTSK 

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(Adão Cruz)

 

 

   Não chovia, mas o céu ameaçava desfazer-se em água. Era plúmbeo, presumivelmente a oeste, e carregado de negro do lado oposto. Uma faixa mais clara nascia por cima de Irkutsk e desfibrava-se ao longo do rio Angorá. Mais parecia um quadro de Fiódor Vasiliev ou de Ivan Aivasovsky.
 
Como a vida tem tantas formas de circularidade, sentei-me num banco de jardim à beira do rio, e dei ordens à memória para me buscar aquele rapaz soviético que, há muitos anos, num ardente dia de sol, as nossas tropas aprisionaram no norte da Guiné. Era de Kiev, mas tinha nascido em Irkutsk, na Sibéria.
 
Técnico de máquinas automáticas, oferecera-se, como voluntário e internacionalista, para ajudar os guerrilheiros do PAIGC a combater as tropas colonialistas.
 
Na pequena sala onde funcionava a secretaria do nosso aquartelamento, estava o prisioneiro como que pregado a uma cadeira. Tinha na sua frente o capitão da nossa Companhia, o capitão da Companhia de intervenção que o capturou, dois ou três sargentos e outros tantos alferes, e eu.
 
Os lábios do jovem soviético nascido em Irkutsk estavam gretados de sede e de sol. Um sorriso feito de água, terra, fogo e ar, iluminado por um sol negro de melancolia, denunciava um grande medo dos homens que tinha na sua frente.
 
O capitão foi buscar um copo de água e entornou-a lentamente a uma mão travessa da boca do rapaz. Os olhos quase saltaram das órbitas. Pedi ao capitão que me desse o copo, enchi-o de água e raiva e dei-o a beber ao prisioneiro. Valeu-me a firmeza com que o fiz e o facto de ser médico.
 
Se algum dia a minha vida pudesse ser música!…
 
Desconfiado, levou o copo à boca…
 
Ainda hoje eu não sei falar de tudo o que treme nas mãos de uma criança!
 
O céu arrependeu-se de chover. Seguimos para o lago Baikal, a maior reserva de água doce do mundo. Segundo os cálculos, daria para matar a sede à humanidade durante oitocentos anos. Quando senti nas mãos a água fria das margens lembrei-me de um copo de água lá nos confins da Guiné.
 
Eu não sou capaz de crescer para as palavras, mas dava tudo para cruzar os tempos que ainda são tempo, e mostrar ao mundo a dimensão que o homem é, e a pequenez que usa por força da fraqueza.
 

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por Augusta Clara às 11:10

Quinta-feira, 25.04.19

Adão Cruz

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por Augusta Clara às 17:56

Sábado, 20.04.19

KYRIE - José Carlos Ary dos Santos

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José Carlos Ary dos Santos  KYRIE

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(Artur Bual)

 

Em nome dos que choram,
Dos que sofrem,
Dos que acendem na noite o facho da revolta
E que de noite morrem,
Com a esperança nos olhos e arames em volta.
Em nome dos que sonham com palavras
De amor e paz que nunca foram ditas,
Em nome dos que rezam em silêncio
E falam em silêncio
E estendem em silêncio as duas mãos aflitas.
Em nome dos que pedem em segredo
A esmola que os humilha e os destrói
E devoram as lágrimas e o medo
Quando a fome lhes dói.
Em nome dos que dormem ao relento
Numa cama de chuva com lençóis de vento
O sono da miséria, terrível e profundo.
Em nome dos teus filhos que esqueceste,
Filho de Deus que nunca mais nasceste,
Volta outra vez ao mundo!

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por Augusta Clara às 19:18

Domingo, 24.03.19

Karin Meyn

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Karin Meyn

 

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por Augusta Clara às 15:25

Domingo, 17.02.19

Os vampiros - Adão Cruz

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Adão Cruz  Os vampiros

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(Adão Cruz)

 

A cidade está comida por enormes vampiros
varrida de poesia flores e frutos
e canções quentes dos filhos da cidade.
Ainda que os dentes sejam de cifrões
os vampiros matam com bombas tiros e orações.
Já não regressam as manhãs na cidade exterminada
coberta pela nuvem de vampiros devoradores
que tudo comem e não deixam nada.
A cidade dos pobres está comida por vampiros
vindos das cavernas podres da cidade civilizada
guiados por deuses e generais
benzidos por papas e cardeais
que tudo comem e não deixam nada.
E os pobres arrastam a vida muito aquém da vida
onde um mar de nada definha o pensamento
e um rio de cinza cobre a alegria de viver.
Eis que os pobres se dão conta de um futuro em liberdade
onde um mar de sonho e utopia
restitui a vida ao pensamento e à razão.
Mas os vampiros conhecem bem os buracos da prisão
e tudo fazem para os fechar
com grades de fé e religião.
A cidade está comida por enormes vampiros
vindos do céu e do inferno
devorando a mente e abandonando o corpo no deserto
como criança sem asas.

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por Augusta Clara às 14:55

Quinta-feira, 24.01.19

Ao redor do nevoeiro - Adão Cruz

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Adão Cruz  Ao redor do nevoeiro

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(Adão Cruz)

 

Hoje sou eu que vou ao teu encontro
por dentro deste nevoeiro denso que tudo esconde.
Não sei onde estás nem sinto os teus cabelos de incenso.
Sei que moras para lá do tempo entre dálias e gerânios
entre memórias e sonhos de um segredo...
mas o coração diz-me para seguir em frente e não ter medo.
Sem saber ao certo quem sou levo comigo a razão
único caminho que rasga o nevoeiro e rompe as algemas
e me deixa ver a luminosa transparência do teu corpo
para lá das algas e dos peixes verdes dos poemas.
Tu estás do outro lado de um beijo
e eu quero abraçar-te pela cintura
neste apagado incêndio dos sentidos
ainda que seja demasiado tarde
para a verde ternura de um desejo.
Hoje sou eu que vou ao teu encontro
em meu corpo de terra antiga que já não seduz.
Vou dar um passo em falso no nevoeiro
para lá dos olhos sem luz.
Assim o decidi ao ver-te perdida
na altura em que o nevoeiro sem sentido
caía pesadamente sobre a rua.
Mas não eras tu…
era uma chama de lábios e lume
ardendo em estranho leito nupcial
de um qualquer tempo já perdido.
Foi então
que no ventre do nevoeiro inventei a noite entre lençóis de neve
mordidos de uma luz oblíqua que não era minha nem tua
e se perdia na pele branca de um qualquer corpo que eu não sentia.
Era como se um rio cantasse
entre a lua as águas e o nada…
e fosse demasiado tarde
para ser música no violino da madrugada

 

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por Augusta Clara às 23:10

Segunda-feira, 14.01.19

O menino de brilho nos olhos - Adão Cruz

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Adão Cruz  O menino de brilho nos olhos

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(Adão Cruz)

 

O menino corria
corria atrás do sol no correr de cada dia
e no doce brilho dos olhos toda a alma se lhe via.
O menino corria
corria atrás da lua que se erguia entre estrelas e magia
e no brilho dos olhos toda a alma luzia.
O menino corria
corria atrás do vento que fugia para lá do tempo
e nos olhos do menino o vento se perdia.
O menino corria
corria atrás da chuva
e quanto mais água caía
mais o brilho dos olhos se acendia.
O menino dormia
dormia no reino dos sonhos e da fantasia
e nos olhitos dormidos o brilho se escondia.
O menino acordava
acordava no alvor de cada dia
e a vida renascia no abrir dos olhos
onde a alma luzia.
Até que um dia…
Uma nuvem negra
muito negra
tombou do céu e se fez gigante
de longas barbas e olhar perfurante
com um relâmpago em cada mão.
Roubava o brilho dos olhos
e nas entranhas do trovão se desfazia.
O menino tremia
tremia sem saber o que acontecia.
O menino chorava
chorava sem saber a razão.
O menino fugia
fugia
mas algo lhe dizia que de nada valia.
Chamou as pombas rouxinóis e cotovias
sardões caracóis e libelinhas
enlaçou-se de gavinhas
abraçou as árvores beijou a terra
e tudo o que nele vivia.
Mas ninguém lhe respondia
todos o olhavam com tristeza e melancolia.
Perdera o menino o brilho dos olhos
porque neles a inocência morria.

 

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por Augusta Clara às 16:40

Quinta-feira, 10.01.19

Maria Helena Vieira da Silva

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Maria Helena Vieira da Silva

 

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por Augusta Clara às 21:22

Terça-feira, 08.01.19

Paraíso - Adão Cruz

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Adão Cruz  Paraíso

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(Adão Cruz)

 

Não há portas do paraíso
Nem caminhos para lá chegar
Mas entre lágrimas e riso
Ninguém quer acreditar.
No fim sobram os passos
Sem mais caminho para andar.

 

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por Augusta Clara às 14:57

Sexta-feira, 04.01.19

OUARZAZATE (Secreta ironia) - Adão Cruz

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Adão Cruz  OUARZAZATE (Secreta ironia)

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(Adão Cruz)

As franjas da memória abrem-se na manhã fria da solidão

como torvelinho de água nas despojadas pedras do tempo.

Eis que nos damos conta de uma longa viagem

a qualquer cidade para lá do horizonte

quando um mar de cal viva queima os sentimentos

no estribo de um velho comboio sem princípio nem fim.

Eis que nos damos conta das lágrimas contidas num mar de cinza

cobrindo a alegria de viver

quando se apaga o sol que brilha entre as mãos.

Eis que no crescer da angústia uma infinda tristeza afoga a razão

entranhando no sangue a sombra espessa da desilusão.

O coração tomba perdido na poeira da cidade

preso à orla do deserto de Ouarzazate como criança sem asas.

Na terra sem trilhos e sem regresso aos olhos

onde se abre o sorriso de todas as manhãs

eis que nos damos conta de não fazermos parte do mundo.

E cai o sofrimento

no profundo silêncio das noites sem nome suspensas das estrelas.

E resta a saudade

ardendo em fogo lento como ramo seco da primeira folha verde.

 

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por Augusta Clara às 16:36



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