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Jardim das Delícias


Sábado, 15.05.21

Palestina - Adão Cruz

o balanço das folhas3a.jpg

 

Adão Cruz  Palestina

Palestina 5a.jpg

 

(Adão Cruz)

 

Não há sol nos céus da Palestina
não há luz nos olhos da Palestina
roubaram o sorriso à Palestina.
São de sangue as gotas de orvalho da madrugada
e o vento só é vento quando as balas assobiam
roubaram as manhãs à Palestina.
O céu de chumbo esmaga as almas e os ossos
e é de lágrimas a chuva quando cai
não há sol nos céus da Palestina.
Do ventre da lua cheia de aço e de amargura
nasce a cada hora um menino com bombas à cintura
mataram a infância na Palestina.
Rasgam as mães os seios com arroubos de ternura
para alimentar a raiva
por cada filho que perdem outro nasce da sepultura
semearam a dor na Palestina.
Nas casas esventradas
rompem por entre as pedras leitos de sofrimento
onde à noite se acoitam os amantes
queimando a dor na paixão de um momento
fizeram em pedaços o amor na Palestina.
Cada instante é uma vida na vida da Palestina
cada momento uma taça de vingança clandestina
cada gesto um vulcão de raiva que nem a morte amansa
roubaram a paz à Palestina.
Na sombra do dia ou na calada da noite
cravam os vampiros nazis seus dentes de ferro
no coração da Palestina
não há sangue que farte a fúria assassina
sangraram cobardemente a Palestina.
Para atirar contra os tanques uma pedra
agiganta-se o ódio a cada bater do coração
por não haver sangue de tanto sangue vertido
outra força não há para erguer a mão...
e dar à Palestina algum sentido.

 

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por Augusta Clara às 21:16

Quinta-feira, 01.04.21

Hino ao 1º. de Abril - Jorge de Sena

ao cair da tarde 5b.jpg

 

Jorge de Sena  Hino ao 1º. de Abril

do conde1.jpg

 

(Adão Cruz)
 
 
 
Os milicos milicazes
nunca foram maus rapazes.
Quando matam, quando esfolam,
quando capam, quando amolam,
quando todos se rebolam
prós ianques que os engrolam,
ou quando cantam de galo,
ou relincham de cavalo,
ou vão puxando o badalo
mais o saco do gargalo,
ou quando vendem a terra
e as riquezas que ela encerra,
ou quando rolham quem berra
ou mesmo quem embezerra,
ou quando as serras napalmam,
e com fogo tudo acalmam,
ou quando bancos empalmam
e corruptos se desalmam
é tudo sempre por bem.
De Pelotas a Belém
não duvide nunca alguém
seja fortudo ou pelém,
que os milicos milicazes
nunca foram maus rapazes.
1/4/70
(in 40 Anos de Servidão, Moraes Editores)

 

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por Augusta Clara às 13:00

Segunda-feira, 22.03.21

Sem palavras - Eva Cruz

ao cair da tarde 5b.jpg

 

Eva Cruz  Sem palavras

miki de goodboom, à espera de godot1.jpg

(Miki de Goodboom)

 

Sons de silêncio
nas cores perfumadas dos lilases
ao longe o estalar da casca de um pinheiro
na tranquilidade dos guizos do rebanho que pasta.
Cantar da água pela borda fora
entre manchas de mil verdes
na beleza nua da música a preto e branco
em claves de sol e de cor
e de dor de não ser capaz de a tocar…
Um pombo rolo canta e desafia a timidez da poesia.
Abraçar sonhos solitários
quando na boca morre a palavra da cidade metafísica
ou apenas do pequeno recanto
onde vive o perfume de uma rosa
ou o encanto da mariposa de meados de Abril.
Canta solitário o verdilhão
a canção simples da sedução
em voo ondulante cortejando a fêmea
e sem palavras
no mais calado silêncio
nasce no coração da Primavera a poesia.

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por Augusta Clara às 16:21

Sábado, 20.03.21

Acordei esta noite - Adão Cruz

a noite fez-se para amar 1a.jpg

 

Adão Cruz  Acordei esta noite 

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(Adão Cruz)

 

Acordei esta noite com o gotejar da chuva
monótono
sonolento.
Dormia comigo a saudade e comigo acordou
amargando horas sem raízes
no tecer de angústias e desânimos.
Pura fantasia a textura dos sentimentos!
Os galos cantavam ao longe no romper da madrugada
e a claridade incerta da janela
abria mansamente os meus olhos que sonhavam.
Ousei tocar a tua mão branca
sabendo que tocava o lado esquecido da vida.
Tinhas morrido
já na véspera o sabia
mas esqueceu-mo o dormir.
Fugi para a cidade
vagueei pelas ruas adormecidas
até os galos calarem o seu cantar
e por baixo de um céu de chumbo
levei meus passos para o lado do mar.
As ondas abriam-se nos rochedos negros
e eu não tive medo
deixei que as pernas me pesassem ao longo da praia
arrastando na areia os ossos do meu segredo.

 

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por Augusta Clara às 21:41

Segunda-feira, 22.02.21

O moinho - Adão Cruz

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Adão Cruz  O moinho

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(Afão Cruz) 

 

Se eu soubesse dar às palavras que tenho dentro de mim
o cantar deste regato
 
Se entre as pedras do meu leito saltitassem estas águas
que me fizeram criança
 
Se fosse de menino este chão que tenho dentro de mim
numa caixinha de esperança
 
E de sonho fosse o moinho que mói o trigo da ilusão
não queria outro moinho para a farinha do meu pão.

 

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por Augusta Clara às 18:00

Segunda-feira, 15.02.21

Não entendo este mundo - Adão Cruz

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Adão Cruz  Não entendo este mundo

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(Adão Cruz)

 

Não entendo este mundo moribundo
este mundo escuro sem sol e sem luar
já não entendo esta onda de sismos e cifrões
esta dor de milhões de cabeças
rolando como esferas para o fundo dos abismos.
Não entendo este mundo dilacerado e sem vida
não aguento este frio de quatro paredes
este jogo perdido no cemitério da história
este profundo alarido
este diabólico mistério de morte concebido
esta vida sem sentido
a que chama mercado a argentária escória.
Não entendo este mundo de olhos vendados
este silêncio absorto e abstracto
no assalto impune a soberanas nações
este mundo de vidas sem direitos nem justiça
este mar de sangue nas garras dos algozes
este rasgar de corações
este martírio tatuado na pele dos inocentes
por tanques e canhões.
Não entendo este mundo
ameaçado por mísseis e aviões
não entendo tantas chagas do cancro da guerra
este perigo sistémico diariamente assente
na inelutável corrida para a desordem suprema.
Já não sou capaz de aguentar o peso
deste criminoso superlucro e mais-valia
brilhando como a luz do inferno na ponta dos punhais.
Não entendo este mundo
escorraçado para as bermas da fome
pela infame corrida para o inglório podium
dos vencedores da ganância enlouquecida.
Não entendo este caminho do caos e da fatalidade
esta ensanguentada bandeira erguida para o nada
este constante apunhalar da liberdade
este mundo apodrecido
na secura do grande rio da esperança.
Já não acredito no sonho do poeta
quando subiu a colina para admirar o céu
e o céu desabou no obscurantismo da mente e da razão
e a poesia morreu…
na globalização da morte e da destruição.

 

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por Augusta Clara às 17:47

Sábado, 13.02.21

Não há poeta - Adão Cruz

ao cair da tarde 5b.jpg

 

Adão Cruz  Não há poeta

 

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(Adão Cruz) 

 

Não há poeta para a réstia de sol
de um rosto engelhado de luz.
Não há poeta para o poema de um momento
entre a singeleza do pensamento
feito suspiro de terra seca
e um estuário de rugas
cavadas de longas madrugadas.
Não há poeta para a liberdade de criar sem algemas
a majestade de um só verso
feito sorriso de cristal.
Não há poeta para tão serena harmonia
da assilabada amargura do peso do tempo.
Não há poeta para a nudez da vida
perdida para lá de um rosto apagado de ilusões.
Não há poeta para uma flor aberta
nos olhos do silêncio entre a vida e a morte.

 

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por Augusta Clara às 17:22

Quinta-feira, 04.02.21

Les Angles - Adão Cruz

ao cair da tarde 5b.jpg

Adão Cruz  Les Angles

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(Adão Cruz)

Deslizar na brancura de Les Angles
é quase um sonho.
Um sonho cego mudo paralítico
sem a cor das pinceladas do céu franjado de arco-íris
cavalgando os altos cirros velozes e frios
incapaz de desfibrar o complexo estroma
que nos enlaça e entrelaça
num abraço de fogo e água
amor e raiva e mágoa
voando sobre o abismo serôdio de um beijo alheio
ridículo-lascivo criptogâmico-adolescente
que torna fria a madrugada e sem sol o acordar.
Alguma coisa eu perdi
lá no céu aqui na terra ou no mar
para não ser capaz de sonhar
com olhos palavras e pernas para andar.
Deslizar na brancura de Les Angles
é um sonho morto…doem muito os sonhos mortos!
Talvez em Villefranche de Conflent nas margens de La Têt.
Em Villefranche de Conflent encontrei-me com Chagall
eu mal o conhecia ele de mim nem sabia.
Enquanto o Nuno corria atrás do petit train jaune
eu voava atrás do sonho
mas Chagall nada me dizia.
Mal o conhecia
gostava dele
da frescura e da audácia
da sua enganosa realidade
mas naquele dia…!
Amores flutuando nos ares
silhuetas bizarras
criações poéticas
não me tocavam
soavam a falso.
Apenas uma frase me deixou pensativo
o nosso universo interior é a realidade
talvez mais real do que o mundo visível
mais real do que as pedras do que o frio e a pele arrepiada.
Sempre pensei que a infância marcara a minha vida
Mas onde vai a infância se bem corresse!
Nunca dela pensara fugir
ao contrário de Chagall.
Alguma coisa eu perdi lá no céu aqui na terra ou no mar
alguma coisa eu perdi que faz falta ao sonho para sonhar.

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por Augusta Clara às 18:43

Quarta-feira, 03.02.21

Um gesto de silêncio - Adão Cruz

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Adão Cruz  Um gesto de silêncio

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(Adão Cruz)

 

Todos nós temos os nossos desertos
pequenos ou grandes
e todos nós temos os nossos labirintos
grandes ou pequenos
simples ou complexos.
Os caminhos e os percursos
entre os nossos desertos e os nossos labirintos
mais rectos ou mais sinuosos
são ao fim e ao cabo os caminhos da nossa vida.
E esses caminhos são feitos predominantemente de silêncio.
A grande força da nossa vida reside no silêncio
o silêncio das nossas meditações
das nossas reflexões
das nossas decisões
dos nossos segredos e intimidades
dos nossos medos e coragens
dos nossos sonhos e entusiasmos
das nossas alegrias
das nossas mágoas e frustrações.
O silêncio é a primeira voz que um homem ouve
quando está dentro de si.
O silêncio é o respirar do nosso íntimo
a dialéctica da nossa personalidade
o único espaço onde a mentira não cabe.
O silêncio é o relógio oculto e secreto das nossas horas.
Nós somos a nossa própria teia
e só o silêncio nos deixa ver e separar
os emaranhados fios que a tecem.
A mágica sensatez do silêncio
é o fio-de-prumo da nossa calibração.
São imensas as verdades que podemos conhecer
só por ficarmos estendidos a pensar calmamente
porque as verdades estão em nós
e só o silêncio nos permite desvendá-las.
Tantas vezes o silêncio tem vontade de fugir
e necessidade de gritar…
de gritar as verdades que descobre
mas como o silêncio não tem palavra de se ouvir
vai enformando os mais variados actos da vida
os gestos e as artes da vida que só nele vivem.
Assim nascem assim se criam e se desdobram
todas as nossas inúmeras expressões vivenciais
que mais não são do que as vozes ampliadas
dos nossos próprios silêncios.

 

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por Augusta Clara às 12:26

Sexta-feira, 15.01.21

Para o Adriano - Adão Cruz

ao cair da tarde 5b.jpg

 

Adão Cruz  Para o Adriano

 

 

adriano correia de oliveira.jpg

 

“E de súbito um sino”
um cravo vermelho
“Raiz” de vida no céu de chumbo
aberto em dia limpo e perfumado.
“E a carne se fez verbo”
“Por aquele caminho” da esperança
às portas da cidade
“E o bosque se fez barco”
por aquele mar de sonho
na “Trova do vento que passa”.
 
Todo o mel escorria por entre “As mãos”
e todos os frutos do “Regresso”
eram versos de “Uma canção (sem) lágrimas”
na “Canção da nossa tristeza”.
Graças a ti cravo vermelho
que venceste a solidão
veio o tempo ao nosso encontro
e a manhã abriu o coração
na “Fala do homem nascido”.
“O sol perguntou à lua”
quando “A noite dos poetas” se fez de estrelas
que desceram aos cantos do jardim
 
se eram cravos vermelhos
ou a “Canção tão simples”
da tua voz sempre divina
numa “Cantiga de amigo”.
O mundo tinha o sabor a maçã
não havia cárceres nem torturas
apenas o calor de uma fogueira
na praça do entusiasmo.
Os olhos de todos nós
eram cravos vermelhos
dormindo um sono de criança
entre “As mãos” da revolução.
“Como hei-de amar serenamente”
esta voz da “Roseira brava”
e os cabelos trigueiros desta seara
dourada pelo sol e pela lua
a “Cantar para um pastor”
a canção de Abril que encheu a rua.

 

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por Augusta Clara às 17:58



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