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Jardim das Delícias


Segunda-feira, 22.02.21

O moinho - Adão Cruz

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Adão Cruz  O moinho

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(Afão Cruz) 

 

Se eu soubesse dar às palavras que tenho dentro de mim
o cantar deste regato
 
Se entre as pedras do meu leito saltitassem estas águas
que me fizeram criança
 
Se fosse de menino este chão que tenho dentro de mim
numa caixinha de esperança
 
E de sonho fosse o moinho que mói o trigo da ilusão
não queria outro moinho para a farinha do meu pão.

 

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por Augusta Clara às 18:00

Segunda-feira, 15.02.21

Não entendo este mundo - Adão Cruz

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Adão Cruz  Não entendo este mundo

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(Adão Cruz)

 

Não entendo este mundo moribundo
este mundo escuro sem sol e sem luar
já não entendo esta onda de sismos e cifrões
esta dor de milhões de cabeças
rolando como esferas para o fundo dos abismos.
Não entendo este mundo dilacerado e sem vida
não aguento este frio de quatro paredes
este jogo perdido no cemitério da história
este profundo alarido
este diabólico mistério de morte concebido
esta vida sem sentido
a que chama mercado a argentária escória.
Não entendo este mundo de olhos vendados
este silêncio absorto e abstracto
no assalto impune a soberanas nações
este mundo de vidas sem direitos nem justiça
este mar de sangue nas garras dos algozes
este rasgar de corações
este martírio tatuado na pele dos inocentes
por tanques e canhões.
Não entendo este mundo
ameaçado por mísseis e aviões
não entendo tantas chagas do cancro da guerra
este perigo sistémico diariamente assente
na inelutável corrida para a desordem suprema.
Já não sou capaz de aguentar o peso
deste criminoso superlucro e mais-valia
brilhando como a luz do inferno na ponta dos punhais.
Não entendo este mundo
escorraçado para as bermas da fome
pela infame corrida para o inglório podium
dos vencedores da ganância enlouquecida.
Não entendo este caminho do caos e da fatalidade
esta ensanguentada bandeira erguida para o nada
este constante apunhalar da liberdade
este mundo apodrecido
na secura do grande rio da esperança.
Já não acredito no sonho do poeta
quando subiu a colina para admirar o céu
e o céu desabou no obscurantismo da mente e da razão
e a poesia morreu…
na globalização da morte e da destruição.

 

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por Augusta Clara às 17:47

Sábado, 13.02.21

Não há poeta - Adão Cruz

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Adão Cruz  Não há poeta

 

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(Adão Cruz) 

 

Não há poeta para a réstia de sol
de um rosto engelhado de luz.
Não há poeta para o poema de um momento
entre a singeleza do pensamento
feito suspiro de terra seca
e um estuário de rugas
cavadas de longas madrugadas.
Não há poeta para a liberdade de criar sem algemas
a majestade de um só verso
feito sorriso de cristal.
Não há poeta para tão serena harmonia
da assilabada amargura do peso do tempo.
Não há poeta para a nudez da vida
perdida para lá de um rosto apagado de ilusões.
Não há poeta para uma flor aberta
nos olhos do silêncio entre a vida e a morte.

 

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por Augusta Clara às 17:22

Quinta-feira, 04.02.21

Les Angles - Adão Cruz

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Adão Cruz  Les Angles

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(Adão Cruz)

Deslizar na brancura de Les Angles
é quase um sonho.
Um sonho cego mudo paralítico
sem a cor das pinceladas do céu franjado de arco-íris
cavalgando os altos cirros velozes e frios
incapaz de desfibrar o complexo estroma
que nos enlaça e entrelaça
num abraço de fogo e água
amor e raiva e mágoa
voando sobre o abismo serôdio de um beijo alheio
ridículo-lascivo criptogâmico-adolescente
que torna fria a madrugada e sem sol o acordar.
Alguma coisa eu perdi
lá no céu aqui na terra ou no mar
para não ser capaz de sonhar
com olhos palavras e pernas para andar.
Deslizar na brancura de Les Angles
é um sonho morto…doem muito os sonhos mortos!
Talvez em Villefranche de Conflent nas margens de La Têt.
Em Villefranche de Conflent encontrei-me com Chagall
eu mal o conhecia ele de mim nem sabia.
Enquanto o Nuno corria atrás do petit train jaune
eu voava atrás do sonho
mas Chagall nada me dizia.
Mal o conhecia
gostava dele
da frescura e da audácia
da sua enganosa realidade
mas naquele dia…!
Amores flutuando nos ares
silhuetas bizarras
criações poéticas
não me tocavam
soavam a falso.
Apenas uma frase me deixou pensativo
o nosso universo interior é a realidade
talvez mais real do que o mundo visível
mais real do que as pedras do que o frio e a pele arrepiada.
Sempre pensei que a infância marcara a minha vida
Mas onde vai a infância se bem corresse!
Nunca dela pensara fugir
ao contrário de Chagall.
Alguma coisa eu perdi lá no céu aqui na terra ou no mar
alguma coisa eu perdi que faz falta ao sonho para sonhar.

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por Augusta Clara às 18:43

Quarta-feira, 03.02.21

Um gesto de silêncio - Adão Cruz

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Adão Cruz  Um gesto de silêncio

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(Adão Cruz)

 

Todos nós temos os nossos desertos
pequenos ou grandes
e todos nós temos os nossos labirintos
grandes ou pequenos
simples ou complexos.
Os caminhos e os percursos
entre os nossos desertos e os nossos labirintos
mais rectos ou mais sinuosos
são ao fim e ao cabo os caminhos da nossa vida.
E esses caminhos são feitos predominantemente de silêncio.
A grande força da nossa vida reside no silêncio
o silêncio das nossas meditações
das nossas reflexões
das nossas decisões
dos nossos segredos e intimidades
dos nossos medos e coragens
dos nossos sonhos e entusiasmos
das nossas alegrias
das nossas mágoas e frustrações.
O silêncio é a primeira voz que um homem ouve
quando está dentro de si.
O silêncio é o respirar do nosso íntimo
a dialéctica da nossa personalidade
o único espaço onde a mentira não cabe.
O silêncio é o relógio oculto e secreto das nossas horas.
Nós somos a nossa própria teia
e só o silêncio nos deixa ver e separar
os emaranhados fios que a tecem.
A mágica sensatez do silêncio
é o fio-de-prumo da nossa calibração.
São imensas as verdades que podemos conhecer
só por ficarmos estendidos a pensar calmamente
porque as verdades estão em nós
e só o silêncio nos permite desvendá-las.
Tantas vezes o silêncio tem vontade de fugir
e necessidade de gritar…
de gritar as verdades que descobre
mas como o silêncio não tem palavra de se ouvir
vai enformando os mais variados actos da vida
os gestos e as artes da vida que só nele vivem.
Assim nascem assim se criam e se desdobram
todas as nossas inúmeras expressões vivenciais
que mais não são do que as vozes ampliadas
dos nossos próprios silêncios.

 

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por Augusta Clara às 12:26

Sexta-feira, 15.01.21

Para o Adriano - Adão Cruz

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Adão Cruz  Para o Adriano

 

 

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“E de súbito um sino”
um cravo vermelho
“Raiz” de vida no céu de chumbo
aberto em dia limpo e perfumado.
“E a carne se fez verbo”
“Por aquele caminho” da esperança
às portas da cidade
“E o bosque se fez barco”
por aquele mar de sonho
na “Trova do vento que passa”.
 
Todo o mel escorria por entre “As mãos”
e todos os frutos do “Regresso”
eram versos de “Uma canção (sem) lágrimas”
na “Canção da nossa tristeza”.
Graças a ti cravo vermelho
que venceste a solidão
veio o tempo ao nosso encontro
e a manhã abriu o coração
na “Fala do homem nascido”.
“O sol perguntou à lua”
quando “A noite dos poetas” se fez de estrelas
que desceram aos cantos do jardim
 
se eram cravos vermelhos
ou a “Canção tão simples”
da tua voz sempre divina
numa “Cantiga de amigo”.
O mundo tinha o sabor a maçã
não havia cárceres nem torturas
apenas o calor de uma fogueira
na praça do entusiasmo.
Os olhos de todos nós
eram cravos vermelhos
dormindo um sono de criança
entre “As mãos” da revolução.
“Como hei-de amar serenamente”
esta voz da “Roseira brava”
e os cabelos trigueiros desta seara
dourada pelo sol e pela lua
a “Cantar para um pastor”
a canção de Abril que encheu a rua.

 

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por Augusta Clara às 17:58

Quarta-feira, 30.12.20

A FEDERAÇÃO NACIONAL DOS MÉDICOS e o SINDICATO DOS MÉDICOS DO NORTE editaram uma AGENDA 2021 com um quadro do ADÃO CRUZ na capa e um poema também seu na contracapa.

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por Augusta Clara às 01:05

Segunda-feira, 14.12.20

Almas grandes - Adão Cruz

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Adão Cruz  Almas grandes

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(Adão Cruz)

 

   Há almas grandes, almas pequenas e almas…sem alma. Eu penso que quem sente necessidade vital da escrita ou de qualquer outra forma de expressão artística, seja autor, leitor ou contemplador, procura nela o mais sublime sentimento humano, o amor. Não é fácil, porque tenham de inato aquilo que tiverem, os sentimentos vivem-se, constroem-se, estruturam-se, apuram-se e afinam-se. Para o bem… e para o mal, infelizmente.
 
Quem quer que o consiga perceber talvez possa estar no caminho das almas grandes. E o que será, no meu entender, uma alma grande? Qualquer um de nós pode ser uma alma grande, uma alma pequena ou uma alma…sem alma.
 
Sem introduzir aqui quaisquer conceitos ou critérios de moralidade ou natureza mística, eu julgo que uma alma grande é a que consegue subir até àquela espécie de interface que separa a natureza antropocêntrica, mais ou menos egoísta do ser humano e a sua dimensão universal, ainda que esta não seja mais, como sempre tenho dito, do que um belo dia de primavera nos olhos de um prisioneiro. Uma paisagem onde a mente consegue vislumbrar o verdadeiro e autêntico sentimento do cósmico, do verdadeiro e autêntico sentimento do ser e do existir, do verdadeiro e autêntico sentimento do real e incompreendido sentido da vida, do verdadeiro e autêntico sentimento de irmandade humana, do verdadeiro e autêntico sentimento poético e artístico do ser humano, bem como a mais elevada relação do Homem com a dignidade, a honestidade e a fraternidade. Quem ama a arte da vida e a vida da arte procura dar à sua obra ou à sua paixão, muitas vezes de forma mais consciente ou menos consciente, toda a sua alma, tudo o que é, toda a sua vida, toda a sua estrutura mental e cultural.
 
Por isso eu penso que este amor, o único que enriquece e enobrece todos os nossos processos de humanização, o que mantém limpa e transparente a nossa consciência, o que afina todas as nossas emoções e sentimentos, o que nos aproxima de todos os mecanismos de identificação com a verdade, sim, é ele o difícil mas compensador caminho da harmonia que poderá definir as almas grandes.

 

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por Augusta Clara às 15:00

Segunda-feira, 30.11.20

PORTUGUÊS LEVEZINHO - Joaquim José Magalhães dos Santos

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Joaquim José Magalhães dos Santos  PORTUGUÊS LEVEZINHO

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(Adão Cruz)

 
METAPLASMOS (B)
Já que lhes falei de "pôr",
Vou-lhes falar de "tirar"...
Sabem que de METAPLASMOS
É que lhe' stou a falar.
Umas vezes acrescenta,
Outras toca a ir buscar.
Se se tira do início,
De AFÉRESE vamos tratar.
Ao falarmos à vontade,
Nós dizemos STOU, não é?
Mas ESTOU é que está certo,
AFÉRESE é o que é!
ENAMORAR era dantes...
Mas hoje é "só" NAMORAR...
Deu-se a AFÉRESE do E...
Foi só pra simplíficar...
NOJO já foi ENOJO
Mas tanto NOJO metia
Deu-lhe a AFÉRESE no E...
Já aí anda á luz do dia!!!
E... no meio? Acontece?
Também do meio se tira?
Se a SÍNCOPE dá na gente...
Na palavra não admira!
Pois se a LUA já foi luNa
E se meNsa é hoje MESA,
Uma SÍNCOPE lhes deu!
Assim mesmo! À Portuguesa!
Até os pobres dos CÃES
Já foram CANES, outrora,,,
Deu a SÍNCOPE ao triste N
E o que temos? CÃES agora...
Mas o bom é que estas SÍNCOPES
Não dão só à gente boa!
MALU veio a dar em MAU...
A SÍNCOPE não perdoa!!!
E então no fim das palavras
Estas quedas não se dão?
E por que não se dariam?
Não há qualquer proibição!!!
APÓCOPES lhes chamamos
E não nos dão protecção!
Pois se até o triste SANTO
Se vê reduzido a SÃO!
E mesmo o velhinho BONUM
Não é hoje mais que BOM!
Os METAPLASMOS reduzem
Tudo sem tom nem som!
Mas não se julgue... Oh! Não!
Por aqui se ficam os cortes!
Perante fúrias assim,
Nem há fracos nem há fortes...~
Há uma D. HAPLOLOGIA
Que até nos faz gaguejar!
Caso especial de SÍNCOPE!
SEMIMÍNIMA = SEMÍNIMA,
E BONDADOSO = BONDOSO...
Ávida! Voraz! Gulosa!
Apetite... monstruoso!
IDOLOLATRIA fica
Reduzida a IDOLATRIA
E VAIDADOSO a VAIDOSO!
Quem pode sobreviver
A alguém assim tão guloso?!
 
20 de Novembro de 2020

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por Augusta Clara às 14:00

Sexta-feira, 09.10.20

Dizem que é louca - Adão Cruz

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Adão Cruz  Dizem que é louca

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(Adão Cruz)

 

Dizem que é louca
mas não é.
Ela apenas foge dos comedores de cabeças
que vivem dentro de nós.
Dizem que é louca
mas não é.
Ela apenas foge da ferida aberta
no mais fechado segredo
dos brancos lençóis do nosso íntimo prazer.
Dizem que é louca
mas não é.
Ela apenas foge dos vampiros da mente
devoradores de sonhos e sentimentos
que habitam cobardemente
os cantos e esquinas da nossa cidade interior.
Dizem que é louca
mas não é.
Ela apenas foge do terror
de ver entrar a vida pela porta de saída
para os abismos da dor.
Dizem que é louca
mas não é.
Loucos somos nós.
Sorrimos
bocejamos
e calmamente nos sentamos
todos os dias
cegos e mudos
à mesa do café.

 

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por Augusta Clara às 17:20



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