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Jardim das Delícias


Domingo, 17.02.19

Os vampiros - Adão Cruz

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Adão Cruz  Os vampiros

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(Adão Cruz)

 

A cidade está comida por enormes vampiros
varrida de poesia flores e frutos
e canções quentes dos filhos da cidade.
Ainda que os dentes sejam de cifrões
os vampiros matam com bombas tiros e orações.
Já não regressam as manhãs na cidade exterminada
coberta pela nuvem de vampiros devoradores
que tudo comem e não deixam nada.
A cidade dos pobres está comida por vampiros
vindos das cavernas podres da cidade civilizada
guiados por deuses e generais
benzidos por papas e cardeais
que tudo comem e não deixam nada.
E os pobres arrastam a vida muito aquém da vida
onde um mar de nada definha o pensamento
e um rio de cinza cobre a alegria de viver.
Eis que os pobres se dão conta de um futuro em liberdade
onde um mar de sonho e utopia
restitui a vida ao pensamento e à razão.
Mas os vampiros conhecem bem os buracos da prisão
e tudo fazem para os fechar
com grades de fé e religião.
A cidade está comida por enormes vampiros
vindos do céu e do inferno
devorando a mente e abandonando o corpo no deserto
como criança sem asas.

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por Augusta Clara às 14:55

Sexta-feira, 01.02.19

Discurso na secção de perdidos e achados - Wislawa Szymborska

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Wislawa Szymborska  Discurso na secção de perdidos e achados

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(fotografia de Carlos R.)

Perdi umas quantas deusas a caminho do sul para o norte
E muitos deuses a caminho do oriente para o ocidente.
Apagaram-se-me de vez algumas estrelas, abre-se-lhes o céu!
Afundaram-se-me uma ilha, outra ilha.
Nem sei bem onde deixei as minhas garras,
quem veste o meu pêlo, quem mora na minha carapaça.
Morreram-me os irmãos quando rastejava da água para a terra
e só um ossinho festeja em mim o aniversário.
Pulava para fora da pele, não poupava vértebras nem pernas,
inúmeras vezes perdia os sentidos
Há muito fechei a tudo isto o terceiro olho,
abri disso barbatana, encolhi os galhos.

Sumiu-se, perdeu-se, o vento levou.
Eu própria me admiro, quão pouco de mim restou:
do género por enquanto humano, pessoa singular
que ontem no eléctrico um guarda-chuva deixou ficar.

 

(tradução do polaco de ELZBIETA MILEWSKA e SÉRGIO DAS NEVES)

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por Augusta Clara às 20:19

Quinta-feira, 24.01.19

Ao redor do nevoeiro - Adão Cruz

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Adão Cruz  Ao redor do nevoeiro

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(Adão Cruz)

 

Hoje sou eu que vou ao teu encontro
por dentro deste nevoeiro denso que tudo esconde.
Não sei onde estás nem sinto os teus cabelos de incenso.
Sei que moras para lá do tempo entre dálias e gerânios
entre memórias e sonhos de um segredo...
mas o coração diz-me para seguir em frente e não ter medo.
Sem saber ao certo quem sou levo comigo a razão
único caminho que rasga o nevoeiro e rompe as algemas
e me deixa ver a luminosa transparência do teu corpo
para lá das algas e dos peixes verdes dos poemas.
Tu estás do outro lado de um beijo
e eu quero abraçar-te pela cintura
neste apagado incêndio dos sentidos
ainda que seja demasiado tarde
para a verde ternura de um desejo.
Hoje sou eu que vou ao teu encontro
em meu corpo de terra antiga que já não seduz.
Vou dar um passo em falso no nevoeiro
para lá dos olhos sem luz.
Assim o decidi ao ver-te perdida
na altura em que o nevoeiro sem sentido
caía pesadamente sobre a rua.
Mas não eras tu…
era uma chama de lábios e lume
ardendo em estranho leito nupcial
de um qualquer tempo já perdido.
Foi então
que no ventre do nevoeiro inventei a noite entre lençóis de neve
mordidos de uma luz oblíqua que não era minha nem tua
e se perdia na pele branca de um qualquer corpo que eu não sentia.
Era como se um rio cantasse
entre a lua as águas e o nada…
e fosse demasiado tarde
para ser música no violino da madrugada

 

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por Augusta Clara às 23:10

Segunda-feira, 14.01.19

O menino de brilho nos olhos - Adão Cruz

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Adão Cruz  O menino de brilho nos olhos

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(Adão Cruz)

 

O menino corria
corria atrás do sol no correr de cada dia
e no doce brilho dos olhos toda a alma se lhe via.
O menino corria
corria atrás da lua que se erguia entre estrelas e magia
e no brilho dos olhos toda a alma luzia.
O menino corria
corria atrás do vento que fugia para lá do tempo
e nos olhos do menino o vento se perdia.
O menino corria
corria atrás da chuva
e quanto mais água caía
mais o brilho dos olhos se acendia.
O menino dormia
dormia no reino dos sonhos e da fantasia
e nos olhitos dormidos o brilho se escondia.
O menino acordava
acordava no alvor de cada dia
e a vida renascia no abrir dos olhos
onde a alma luzia.
Até que um dia…
Uma nuvem negra
muito negra
tombou do céu e se fez gigante
de longas barbas e olhar perfurante
com um relâmpago em cada mão.
Roubava o brilho dos olhos
e nas entranhas do trovão se desfazia.
O menino tremia
tremia sem saber o que acontecia.
O menino chorava
chorava sem saber a razão.
O menino fugia
fugia
mas algo lhe dizia que de nada valia.
Chamou as pombas rouxinóis e cotovias
sardões caracóis e libelinhas
enlaçou-se de gavinhas
abraçou as árvores beijou a terra
e tudo o que nele vivia.
Mas ninguém lhe respondia
todos o olhavam com tristeza e melancolia.
Perdera o menino o brilho dos olhos
porque neles a inocência morria.

 

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por Augusta Clara às 16:40

Terça-feira, 08.01.19

Paraíso - Adão Cruz

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Adão Cruz  Paraíso

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(Adão Cruz)

 

Não há portas do paraíso
Nem caminhos para lá chegar
Mas entre lágrimas e riso
Ninguém quer acreditar.
No fim sobram os passos
Sem mais caminho para andar.

 

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por Augusta Clara às 14:57

Sexta-feira, 04.01.19

OUARZAZATE (Secreta ironia) - Adão Cruz

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Adão Cruz  OUARZAZATE (Secreta ironia)

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(Adão Cruz)

As franjas da memória abrem-se na manhã fria da solidão

como torvelinho de água nas despojadas pedras do tempo.

Eis que nos damos conta de uma longa viagem

a qualquer cidade para lá do horizonte

quando um mar de cal viva queima os sentimentos

no estribo de um velho comboio sem princípio nem fim.

Eis que nos damos conta das lágrimas contidas num mar de cinza

cobrindo a alegria de viver

quando se apaga o sol que brilha entre as mãos.

Eis que no crescer da angústia uma infinda tristeza afoga a razão

entranhando no sangue a sombra espessa da desilusão.

O coração tomba perdido na poeira da cidade

preso à orla do deserto de Ouarzazate como criança sem asas.

Na terra sem trilhos e sem regresso aos olhos

onde se abre o sorriso de todas as manhãs

eis que nos damos conta de não fazermos parte do mundo.

E cai o sofrimento

no profundo silêncio das noites sem nome suspensas das estrelas.

E resta a saudade

ardendo em fogo lento como ramo seco da primeira folha verde.

 

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por Augusta Clara às 16:36

Quarta-feira, 02.01.19

Com Fúria e Raiva - Sophia de Mello Breyner Andresen

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Sophia de Mello Breyner Andresen  Com Fúria e Raiva

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Com fúria e raiva acuso o demagogo
E o seu capitalismo das palavras

Pois é preciso saber que a palavra é sagrada
Que de longe muito longe um povo a trouxe
E nela pôs sua alma confiada

De longe muito longe desde o início
O homem soube de si pela palavra
E nomeou a pedra a flor a água
E tudo emergiu porque ele disse

Com fúria e raiva acuso o demagogo
Que se promove à sombra da palavra
E da palavra faz poder e jogo
E transforma as palavras em moeda
Como se fez com o trigo e com a terra

(Obra Poética III, Caminho)

 

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por Augusta Clara às 16:33

Quarta-feira, 05.12.18

Agonia - Cesare Pavese

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Cesare Pavese  Agonia

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(Goli Mahallati)

Irei pelas ruas até cair morta de cansaço
saberei viver sozinha e reter nos olhos
cada rosto que passa e continuar a ser a mesma.
Esta frescura que sobe e me busca as veias
é um despertar que em manhã nenhuma sentira
tão real: sinto-me simplesmente mais forte
que o meu corpo e um arrepio mais frio acompanha a manhã.

Longe vão as manhãs em que tinha vinte anos.
E amanhã, vinte e um: amanhã sairei para a rua,
lembro-me de cada pedra da rua e das nesgas de céu.
A partir de amanhã as pessoas ver-me-ão outra vez
de pé e caminharei direita e poderei parar
e mirar-me nas montras. Nas manhãs do passado,
era jovem e não sabia, nem sabia sequer
que era eu que passava — uma mulher, dona
de si mesma. A rapariguinha magra que fui
despertou dum pranto que durou anos:
agora é como se esse pranto nunca tivesse existido.

E desejo só cores. As cores não choram,
são como um despertar: amanhã as cores
voltarão. Cada mulher sairá para a rua,
cada corpo uma cor — e até as crianças.
Este corpo vestido de vermelho claro
após tanta palidez voltará à vida.
Sentirei à minha volta deslizarem os olhares
e saberei que sou eu: olhando à volta,
ver-me-ei no meio da multidão. Em cada nova manhã,
sairei para a rua em busca das cores.,

(in TRABALHAR CANSA, tradução e introdução de Carlos Leite, Cotovia)

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por Augusta Clara às 14:00

Terça-feira, 04.12.18

Os olhos do poeta - Manuel da Fonseca

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Manuel da Fonseca  Os olhos do poeta

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(Adão Cruz)

 

O poeta tem. olhos de água para reflectirem todas as
cores do mundo,
e as formas e as proporções exactas. mesmo das coisas
que os sábios desconhecem.
Em seu olhar estão as distâncias sem mistério que há
entre as estrelas.
e estão as estrelas luzindo na penumbra dos bairros da
miséria,
com as silhuetas escuras dos meninos vadios
esguedelhados ao vento.
Em seu olhar estão as neves eternas dos Himalaias
vencidos
e as rugas maceradas das mães que perderam os filhos
na luta entre as pátrias
e o movimento uiulante das cidades marítimas onde se
falam todas as línguas da terra
e o gesto desolado dos homens que voltam ao lar com
as mãos vazias e calejadas
o a luz do deserto incandescente e trémula, e os gelos
dos pólos, brancos, brancos,
e a sombra das pálpebras sobre o rosto das noivas que
não noivaram
e os tesouros dos oceanos desvendados maravilhando
como contos-de-fada à hora da infância
e os trapos negros das mulheres dos pescadores esvoaçando como bandeiras aflitas
e correndo pela costa de mãos jogadas pró mar amaldiçoando
a tempestade:
— todas as cores, todas as formas do mundo se agitam
e gritam nos olhos do poeta.
Do seu olhar, que é um farol erguido no alto de um
promontório.
sai uma estrela voando nas trevas
tocando de esperança o coração dos homens de todas
as latitudes.
E os dias claros, inundados de vida, perdem o brilho
nos olhos do poeta
que escreve poemas de revolta com tinta de sol na noite
de angústia que pesa no mundo.

(Poemas Completos, Forja)

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por Augusta Clara às 16:10

Segunda-feira, 19.11.18

Morreu a esperança - Adão Cruz

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Adão Cruz  Morreu a esperança

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(Adão Cruz) 

 

Não tem sonhos nem lhe bate o coração
não a beija o sol nem a paz da lua.
Batida pela chuva e varrida pelo vento agreste
senta-se nos bancos vazios dos jardins
a ver passar os homens que procuram encontrar-se
a ver mulheres que descarnam outros fins.
Já não chega ser gente de cansaço e solidãosem manhãs de luz nem flores brancas nascendo da erva mansa
nem o despertar das sombras adormecidas
nem um raio de sonhadora esperança.
Na noite pegada ao corpo de tantos rostos saqueados
de tantas mãos caídas de tantos sonhos amputados
o punho cerrado não vive aqui.Morreu a esperança despojada e nua
invernosa e fria.
Deixou-a a primavera e o gume quente do verão
perdida nos escuros recantos do fim do dia.

 

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por Augusta Clara às 16:16



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