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Jardim das Delícias


Sábado, 25.06.22

A Amizade e a Vida - Adão Cruz

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Adão Cruz  A Amizade e a Vida

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(Adão Cruz)

Se a amizade vive longe da vida
e a vida longe da amizade
não sei onde fica a vida.
Sei que ela vive no caminho do nosso encontro
no perfume das flores do jardim de todos nós
na poesia do olhar com que nos vemos.
A vida só é poema
quando damos as mãos nos caminhos da vida
e descobrimos que nós e o sol
somos irmãos naturais.
A vida só é poema
quando a amizade nos ensina
que a neve pode ser pintada de cores quentes
e o mar cabe dentro de uma gota de orvalho.

 

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por Augusta Clara às 16:08

Quinta-feira, 23.06.22

Poema superdesenvolvido - Ruy Belo

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Ruy Belo  Poema superdesenvolvido

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(Paulo Ossião) 

 

É tão suave ter bons sentimentos
consola tanto a alma de quem os tem
que as boas acções são inesquecíveis momentos
e é um prazer fazer bem
 
Por isso se no verão se chega a uma esplanada
sabe melhor dar esmola que beber a laranjada
Consola mais viver assim no meio de muitos pobres
que conviver com gente a quem não falta nada
 
E ao fim de tantos anos a dar do que é seu
independentemente da maneira como se alcançou
ainda por cima se tem lugar garantido no céu
gozo acrescido ao muito que se gozou
 
Teria este (se não tivesse outro sentido)
ser natural de um país subdesenvolvido
 
(in TODOS OS POEMAS, II, Assírio & Alvim)

 

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por Augusta Clara às 14:53

Sexta-feira, 08.04.22

Hiroshima - Adão Cruz

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Adão Cruz  Hiroshima

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(Adão Cruz)
 
 
Nos limites da razão
onde os homens produzem monstros
todos nos sentimos escombros
do maior terrorismo da História humana.
Nasceu a manhã mais cruel da mais inocente madrugada
a manhã mais negra do que a noite do absurdo.
O inferno rasgou o sol e a lua
os rostos e os braços
arrancou as árvores
secou os rios e as fontes
enchendo a cidade de sangue e corpos em pedaços.
Um mar de gente… no corpo nu da solidão
gente só…no ventre da multidão
olhos vidrados de lágrimas e pânico
correndo… fugindo…
para onde… para o nada…
para o abismo da escuridão
sobre restos de sonhos e pedaços de vida
espalhados pelo chão
onde a dor fincou as garras
abafando os gritos em catedrais de cinzas.
O fim de tudo entrou pelas portas e janelas
e comeu tudo…
comeu as casas que caíram
as mãos que deixaram de brincar
comeu os olhos que deixaram de olhar
e as bocas que deixaram de respirar.
Tudo era dentro e tudo era fora
na amplidão do desespero
não havia mães nem filhos nas entranhas da aflição
não havia rumo nem caminho
no deserto infindo da maldição.
Tudo se fez pó
não ficou pedra sobre pedra
e nem pedras havia no chão
já o chão não era chão
mas o fundo abismo de uma cratera
onde tudo era estendal de morte
sem porta de entrada sem porta de saída
sem tempo sem norte sem vida
sem ruas sem movimento
sem fímbria de céu ou de mar.
O nada entrou no coração
que deixou de bater no peito de muitos mil
ao peso de cinquenta quilos de urânio
e toneladas de glória americana
erguendo até ao cume da barbárie
a bandeira mais cruel da natureza humana.
Uma fria luz de prata atravessou o mundo
perfurou a mente e as ideias
em seco lamento de gemido sem remédio
como latido de cão atirado ao vento.
E o mundo dormiu suavemente…
e ainda hoje não acordou.
Entre milhares de bombas e estrondosos hinos
o mundo de olhos cegos e ouvidos moucos
ainda dorme…
nada mais ouvindo que o silêncio dos assassinos.

 

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por Augusta Clara às 18:07

Quarta-feira, 05.01.22

Chuva densa em tardes de chumbo - Adão Cruz

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Adão Cruz  Chuva densa em tardes de chumbo

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Bate a chuva densa
na face fria colada ao vidro da janela
nas tardes de chumbo
e as gaivotas de pedra e cal
em cima dos telhados
são cordas de lágrimas
correndo nos vidros embaciados.

 

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por Augusta Clara às 04:03

Segunda-feira, 06.12.21

Tempo ... - Adão Cruz

a noite fez-se para amar 1a.jpg

Adão Cruz  Tempo ...

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(Adão Cruz)

 

Na luz do tardio amanhecer
no claro-escuro do fim da tarde
no descer da rua
no virar da esquina
no entrar da porta…
já não importa se o tempo vai se o tempo vem.
Tudo hoje é rua
tudo hoje é esquina
tudo hoje é porta de um tempo que se não tem

 

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por Augusta Clara às 21:58

Quinta-feira, 25.11.21

Eu sou maior do que eu - Adão Cruz

ao cair da tarde 5b.jpg

Adão Cruz   Eu sou maior do que eu

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(Adão Cruz)

 

A noite passou
já as estrelas se apagaram
novo sol não tarda
já doura o fio dos montes
e o fantasma é um lençol no meio do chão
porque eu sou o vencedor de todos os fantasmas.
Vai ser quente o dia
apesar do ar frio da noite
vem comigo
olha aquelas duas palmeiras que viçosas
tão altas na mira do céu
e eu sou maior do que o céu.
O desvio termina aqui
o caminho é novo ainda que não permita grande correr
não temas
tudo há-de ser como eu quiser
porque eu sou maior do que eu.
Por cima do teu corpo há um leito de espuma
que eu bebo de um trago
porque eu sou maior do que o mar
e mais fundo do que o meu ser.
Brota das entranhas um mundo novo
onde o coração pulsa à transparência
que nasce da sombra da noite
porque eu sou o alvorecer de todas as manhãs.
A sombra da floresta é apenas sombra
onde a medo o sol penetra
e cria fantasmas nas árvores e monstros nos charcos
mas eu sou o guardião do templo do sol.
A nova estrada é de ilusão
não tem altos nem baixos
o caminho da cidade é o caminho do centro da cidade
ali à mão
mas a cidade sou eu.
O mar de ondas verdes e fundas
quebradas em catedrais de espuma nas rochas negras e nuas
refulge de prata os abraços frios da alma
mas eu sou maior do que o mar
e da alma há muito me perdi.
O sol brilha na areia escaldante
onde o teu corpo se deita num leito de espuma
espargida de mil gotas
e o céu azul beija o mar ao longe
onde os olhos cansados sempre teimam repousar.
No sono da tarde
vai-se quebrando o pensamento em pedaços de luz e sombra
que o vento preso à cidade resolve levar para bem longe
como plácidas gaivotas
porque eu sou escravo e não senhor do pensamento.
 
 

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por Augusta Clara às 16:58

Sexta-feira, 05.11.21

Ouço o silêncio - Adão Cruz

a noite fez-se para amar 1a.jpg

Adão Cruz  Ouço o silêncio

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(Anne Magill)

Ouço o silêncio dos olhos que se fecham na falta de
esperança
Amo o silêncio das cores vivas e do sonho que nos tece a
alma entre a vida e a morte
Dói-me o silêncio negro dos gritos proibidos e sinto o
dourado silêncio dos gestos da noite que nos abrem os olhos
Amargo o silêncio das horas sem brilho e vivo o silêncio do
mar que risca na areia a força vencida
Assumo o silêncio sagrado da liberdade e da vida e o silêncio
de um céu de fogo que nos abre a cova na terra fria

 

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por Augusta Clara às 19:18

Quinta-feira, 28.10.21

Homens entulho - Adão Cruz

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Adão Cruz  Homens entulho

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(Adão Cruz)

 

Para além de nós há o mundo
e sempre ignoramos o mundo
esquecemos as valas comuns que toquei ao de leve
muito ao de leve
não fosse os mortos magoar
nas margens verdes do Dniepre
regadas de lágrimas
onde cresceram flores sobre o chão de Babi-yar
umas de sal e água no mar quente de Bissau
bordando a lodo o cais de Pidjiguiti
outras de sangue esguichado
das cabeças à tona de água
em último respiro
outras de terra ensopada em rios de morte
no ventre de um Wiriyamu fuzilado
na penugem de Chinteya
nas balas de Vaina
no esventrar de Zostina
nos braços de um vulcão de raiva
em cada taça de vingança clandestina
que nem a morte amansa
nos túmulos da Palestina.
Sangue de Cristo
In Nomine Patris.
Mártires sem martirológio
corpos fecundos
erguei bem alto os ossos descarnados
que a morte é de acordar
e semear flores na aposta de outros mundos
erguei os rostos mirrados dos famintos da Terra
dos homens-entulho da grande vala comum
cavada no peito dos Humilhados e Ofendidos
pelos homens sem rosto
aberta no ventre dos Condenados da Terra
pelos homens sem alma.

 

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por Augusta Clara às 16:45

Terça-feira, 19.10.21

A Palavra - Adão Cruz

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Adão Cruz  A Palavra

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(Adão Cruz)

Mal-aventurada palavra
bem-aventurada palavra
espectaculosa ou mal-entendida
repentina
abandonada
terrosa ou etérea.
Penoso viver do lado direito
com obtuso cérebro
que irradia uma luz cor-de-rosa
de banal bom-senso
ridícula
religiosa e fria
estranho conúbio de cálculo e histeria.
Do lado esquerdo
vestígios de terra seca
retocados de sol e água
húmida palavra
secreta transição
da estreiteza da vida
para a infinita margem do sonho.
(palavras tépidas
impuras
laterais
insalubres
umbrosas
sepulcrais).
(Monumentais
desdobráveis
descobríveis
maduras de oiro e trigo
e absurdo desejo da verdade do céu azul
e do imenso tossir
na poeira dos ideais insubmissos).
(Jactância lodosa
leitosa
cuspida em translúcidos horizontes
respirando asfixia
na secura de todas as fontes).
Dúctil criatura de aço e pés pequenos
e largo sonho de vibrações
das manhãs de rosto alvo
sem distâncias nem delírios.
Bem-aventurada palavra
(mal-aventurada palavra)
viva
(morta)
sensual
(fria)
erecta
(impotente)
ondeante
(informe)
famélica
(obesa)
...palavras frementes.
"Eu temo muito o mar
o mar enorme
solene
enraivecido
turbulento...”
Se minha amada um longo olhar me desse
de seus olhos que ferem como espadas
eu domaria o mar que se enfurece..."
com a força das palavras estranguladas.

 

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por Augusta Clara às 16:48

Quarta-feira, 13.10.21

Lágrima de Inverno - Adão Cruz

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Adão Cruz  Lágrima de Inverno

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(Adão Cruz) 

Aquece-nos o sol de Inverno
nascido de um amor criança
de muitos invernos de pés frios.
Dia pequenino e preguiçoso
suspiro de angústia e carícia
nascido nas entranhas das raízes.
A noite acende a beleza nua
escurecem as pupilas
por entre os lábios do desejo
no olhar tépido da lua.
As mãos da solidão abrem a madrugada
as árvores celebram o nascer do dia
e na lareira adormecida
um ramo seco aquece o frio da manhã vazia.

 

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por Augusta Clara às 16:07



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