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Jardim das Delícias


Sexta-feira, 03.04.20

Delicadamente - Adão Cruz

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Adão Cruz  Delicadamente

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(Adão Cruz)

 

Delicadamente ela abriu a blusa
e levantou os olhos decidida.
Era uma mulher de guerra combatida
daquelas cuja face conta a história.
Mansamente
baixou a medo as alças do soutien
inclinou a cabeça e fechou os olhos
à espera da minha mão.
Depois comemos pão de centeio
molhado num golpe de azeite
bebemos um capitoso vinho
e fomos à procura de uma paisagem com cegonhas.

 

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por Augusta Clara às 17:02

Quarta-feira, 01.04.20

Habemus pacem - Adão Cruz

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Adão Cruz  Habemus pacem

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(Adão Cruz)

 

Magnífica surpresa
nesta saga de poetas para as cinzas nocturnas.
Há um labirinto de ismos que se entrecruzam de pontes
sobre um rio seco
ou um rio desviado para lá de mim.
Um lago de silêncio com a cidade ao longe
regateando simbolismos de esferas ocas
semeadas pelo parque monumental
de outros ismos já mortos
à espera de uma ressurreição
sob o reflexo de mil janelas
empoleiradas nos altos muros da cidade virtual
em serena ode à quietude universal.
Ali na esquina há fumo branco
e o estribilho feroz de um surrealismo macabro
de um débil concretismo experimentalista
hermeticamente grosseiro
gritando aos ares habemus pacem.
Na deserta anatomia do silêncio
onde outrora a poesia já morou
grita bem alto o histórico fóssil da verdade
em pedaços de vida fumegante
e monstruosas resmas de páginas em silêncio.
Montanhas de nomes a apodrecer
entre escombros de pensamentos
que embrulharam a consciência adormecida
durante séculos inglórios
emoldurados de paz e de vida.
Lida a vida a vida inteira
em semânticas fraudes simbolísticas
este atalho de fim de mundo
nada encurta e tudo alonga.
Verdadeiro a correr e a cantar
esgueirando pela rua a frágil seara do corpo
só o paraplégico
fazendo cavalo na cadeira de rodas.
Verdadeiro
apenas aquele gajo sujo
de vanguardas audazes
colado à soleira numa caixa de cartão
mostrando os dentes que não tem
em arremedo de sorriso de ilusão.
Por isso o poeta é um descalabro
à procura de se erguer.

 

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por Augusta Clara às 16:06

Sábado, 29.02.20

In limine - Adão Cruz

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Adão Cruz  In limine

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(Adão Cruz)

 

Pelos caminhos de prantos e sorrisos
dentro de um tempo farto de horas sem minutos
a vida vai colhendo flores que murcham
por não serem simples flores ou flores simples
sem exigências de estufa ou jardim
flores de terra húmida
céu por cima e sol de permeio.
Em tudo o que me é vida
interfere a vergonha de ser adulto.
Descortino as janelas
que me disseram haver dentro dos homens
e só vejo muralhas.
Nada de crianças.
Os homens comeram as crianças
os homens comeram-se crianças
os homens pariram-se adultos.
Os pongídeos chegaram a homens.
Quinze milhões de anos
para o homem ser bicho…!
Bicho erecto
rastejo de púrpura.
Eu nasci na erva e dormi no feno
e acordei com a voz dos melros e rouxinóis
e saltitei com os pardais
vesti-me de sol e despi-me de luar
estreei o mundo no abraço das árvores e no beijo dos rios.
Meus olhos dormidos casavam a noite e o dia
no mesmo silêncio de sonho-menino.
A vida viveu em mim
crescendo todos os tamanhos
e medindo todos os céus.
Também eu fui criança
e matei em mim a criança que procuro
ao pensar que eram de amor
as mãos que a mataram.
Passei a vida a correr tropeçando nas sombras
arrumei ao canto da luz mil horas vazias
sangradas a curricular futuros
para ser gente na praça dos homens.
Pisei os passos pequeninos nos avessos da verdade
e palmilhei léguas vagarosas a tossir poeira.
Vestido de ausências
fui renascendo de amor pela vida fora
nos infinitos da fantasia
que outros foram matando lentamente
com fruído prazer.

 

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por Augusta Clara às 22:06

Quinta-feira, 27.02.20

Todos somos feitos de cordas - Adão Cruz

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Adão Cruz  Todos somos feitos de cordas

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(Adão Cruz)

 

Todos somos feitos de cordas
qual cérebro qual coração!
Cordas de violino
cordas de guitarra
cordas de enforcar
cordas daquelas que amarram cruelmente os barcos ao cais
e os fazem soluçar.
Já viram coisa mais triste do que os barcos a soluçar
presos às argolas do cais?
Felizes os que têm por amarra
as cordas de um violino
ou as cordas de uma guitarra.
Lá para os lados da evasão
no caminho de Santiago
em dias de vibração
uma floresta de cordas
uma floresta de sons
explode em fogo de artifício
nos dedos de Uriarte
e as cordas que nos prendem
por mais duras que sejam
tocam sempre uma canção.

 

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por Augusta Clara às 17:54

Segunda-feira, 17.02.20

Tu vens - Adão Cruz

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Adão Cruz  Tu vens

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(Adão Cruz)

 

Tu vens
eu acredito que vens
neste céu de cabelos soltos e seios ao vento
nesta fome de corpo e pensamento.
Tu vens
eu sei que vens
é hora de vires
nesta vespertina voragem de felicidade
neste céu da cor da angústia.
Tu vens construir a Primavera
em teu vestido branco de espuma
dominar meu indómito cabelo
com jogos simples dos teus dedos.
Eu quero acreditar que tu vens
pegar docemente nas minhas mãos cegas
e delas fazer uma flor de acácia
com que amacias os lábios
e abres o cofre dos teus seios de fogo.
Tu vens
eu sei
por isso sou feliz no meu silêncio

 

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por Augusta Clara às 16:18

Quinta-feira, 13.02.20

No coração da manhã - Adão Cruz

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Adão Cruz  No coração da manhã

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(Adão Cruz)

 

Abro a janela de par em par
para entrar o rio
e o cio do amanhecer.
O sol desnuda as telas
e as cores que fizeram a noite
mergulham no frio
das águas fundas do rio.
Pelos tectos de penumbra
das vidas que vivem na sombra
às escondidas da madrugada
voam pedaços de nevoeiro
e gaivotas bailando.
Sobem no ar gemidos e dores
Vapores, desejos e cores
das gargantas secas da noite acabada.
Retomo os pincéis
e a tortura das tintas sem cor
e a dor de não conceber a textura
onde pintei o amor.
Nada mais quero além do sol e do rio
e a fecunda sensação de não ter frio.

 

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por Augusta Clara às 17:00

Segunda-feira, 03.02.20

Daqui te escrevo - Adão Cruz

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Adão Cruz  Daqui te escrevo

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(Adão Cruz)

 

Daqui te escrevo
onde o mar não existe
onde as mãos do silêncio
não tardam a entrar
no silêncio da tarde.
Daqui te escrevo
nesta tarde de silêncio
onde a memória da tarde
arde em silêncio
no mar das tuas mãos.
Daqui te escrevo
onde o deserto é imenso
e a sede do mar cresce em silêncio
no silêncio da tarde.
Daqui te escrevo
onde o mar não existe
e o deserto é imenso.
Daqui te escrevo
desta tarde sem fim
onde arde a cidade sem mar.
e o deserto sem cidade.
Daqui te escrevo
onde arde em silêncio
na tarde das tuas mãos
todo o silêncio da tarde.

 

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por Augusta Clara às 18:58

Sábado, 25.01.20

Na palma da mão - Adão Cruz

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Adão Cruz  Na palma da mão

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(Adão Cruz)

 

Na palma da mão tenho sonhos de liberdade e silêncio
para enfrentar a morte.
A música treme na palma da mão
como incerteza de futuro e paisagem.
Quem dera adivinhar a cor desta canção cinzenta
que se dissolve no ar que respiro.
Neste verão diferente do outro
eu quero vestir a primavera
sem medo dos tiranos e da moral burguesa.
Quero escolher as palavras do poema
que faz chorar os olhos azuis
e abrir o sonho à luz do meio-dia.
Quero renascer dos versos
que dentro de mim acendem as estrelas
e clamam por outros seres e outros mundos.
Quero seguir quem me chama para outros mares
onde o sol sempre nasce e ilumina.
Creio que a terra ainda é minha
e de espirais de estrelas o meu regresso.
O sol arde nas nuvens
e o mar verde leva-me para habitar contigo
onde quer que estejas.
Não sei aprender a morrer
fora das linhas desta mão incerta
onde as flores de verão deixaram raízes no inverno
que hão-de desabrochar na manhã de sol em que partirei.

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por Augusta Clara às 16:47

Segunda-feira, 20.01.20

Mãos de hoje que foram de sempre - Adão Cruz

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Adão Cruz   Mãos de hoje que foram de sempre

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(Adão Cruz)

 

Na noite que já não é noite de madrugadas
perpassa em doce silêncio por entre os dedos dormentes
uma brisa dolente
esquecendo as mãos na paz adormecida.
Por entre os frágeis dedos da quietude e do silêncio
vagueia agora em suave melancolia
o magro regato da secura da vida
arrastando em seu leito rugoso
a triste canção de um tempo sem cor nem movimento.
O lento gesto do abrir destas mãos de tantos anos vividas cai agora em pesado silêncio por entre as malhas da sombra
no impiedoso vazio das mãos cheias de nada.
Foi-se embora a madrugada das manhãs perdidas
no tempo em que o sol sorria entre os sonhos
e as mãos cantavam a força da vida
com ondas do mar por entre os dedos frementes.
No penoso abrir e fechar de mãos
deste plangente gesto do fim do dia
feito canção de tão gélido silêncio
apenas a saudade se aninha em negro fundo
para morrer sozinha.


 

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por Augusta Clara às 22:24

Segunda-feira, 06.01.20

A tua mão - Adão Cruz

a noite fez-se para amar 1a.jpg

 

Adão Cruz  A tua mão

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(Adão Cruz)

 

 

Como simples aves
damos as asas a caminho do sol
para fugir às lágrimas que a terra espreme.
A luz incendeia a vontade de fugir
mas a mão serena abre o coração à esperança
onde a angústia cresce
por entre músicas perdidas e restos de flores.
Eu continuo o caminho dos lábios que deixaram de suspirar
e dos olhos que pararam de girar
confundidos entre lágrimas e risos.
Eu sigo o longo caminho das sombras
onde as plantas não falam
nem as fontes nem os pássaros.
Mas a mão apertada
mesmo que incrédula
murmura baixinho
que os prados se estendem a nossos pés.
As brandas ondas do mar
deslizam suavemente sobre a areia
cobrindo de espuma o teu corpo sonâmbulo
que à noite desperta
por entre o labirinto dos meus sonhos.
E pelos claustros do vento impaciente
os cabelos de fogo vencem a idade
em que o coração treme sem casa para morar.
 

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por Augusta Clara às 01:06



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