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Delícias são tudo o que nos faz felizes: um livro, a magia dum poema ou duma música, as cores duma paleta ... No jardim o sol não raia sempre mas pulsa a vida, premente.

O documento que atesta a atribuição do PRÉMIO ATHOS LAZZARI, da Citta di Cattolica, ao livro de poesia de Adão Cruz ENTRE AS MÃOS E O SONHO


Adão Cruz Primeiro de Maio

(Silvia Molinari)

Os livros de Adão Cruz , Contos do Ser e Não Ser e Entre as Mãos e o Sonho




PREMIO SPECIALE POESIA ATHOS LAZZARI para ENTRE AS MÃOS E O SONHO, de Adão Cruz

Neste DIA MUNDIAL DA POESIA chega a notícia de que o livro de poemas de Adão Cruz, ENTRE AS MÃOS E O SONHO, recebeu, conjuntamente com os autores de outros dois livros, o PREMIO SPECIALE POESIA ATHOS LAZZARI. Este prémio está integrado num evento intitulado PREMIO LITTERARIO INTERNAZIONALE CITTA’ DI CATTOLICA (uma cidade italiana na costa do Adriático) que atribui vários outros prémios.

ENTRE AS MÃOS E O SONHO, a poesia de Adão Cruz a sair em Dezembro pela Europa Editora


Adão Cruz Poesia

Noite de Poesia na Taberna do Doutor
O primeiro aniversário da Taberna do Doutor foi festejado com uma sessão de leitura da poesia de Adão Cruz a quem o nome do restaurante foi dedicado.
Aqui fica um breve resumo fotográfico do evento, a par de quatro dos muitos poemas que nessa noite ali foram lidos.
Preso à cidade
Preso à cidade nesta inquietante angústia das sombras ao redor de um tudo-nada que nos prende e constrange cai dos telhados o pó cinzento de uma neblina estranha que definha as ruas e arrasta as horas na lentidão dos passos.
Lá atrás uma réstia de luz presa ao vidro de um candeeiro partido sob as janelas podres lembra que se alma houvesse seria presa fácil de um qualquer rígido corpo enjoado de farsas e falácias amontoadas no lixo ao longo das ruas.
A noite caiu de forma estranha sobre a cidade sem corpo definhada de luz e consciência deixando atrás de si os últimos passos de uma existência presa a todas as obscurantistas ordens estabelecidas.
Até o vento se foi para não arrastar a neblina estranha e para não incomodar o pesado silêncio que se prende ao corpo e às paredes como mortalha do tempo e pegajoso crude que desfaz essa réstia de luz presa ao vidro de um qualquer candeeiro partido.
Ainda ontem era dia nos braços repartidos do trabalho e nas carnes que não conheciam o exílio recusando morrer fora dos sonhos e da vida no meio da tempestade e o vento varria o silêncio para libertar o corpo e a mente da neblina estranha das noites pegajosas.
Havia certezas por entre os tremores da indecisão havia sorrisos verdades e ilusões e havia brisas sonâmbulas calando os medos e no fundo do silêncio corriam rios arrastando as paredes negras e todas as sombras dos candeeiros partidos.
Preso à cidade na tristeza que nos envolve e nos liberta por momentos o pensamento cai dos telhados a poeira do tempo que cala as ruas e prende as horas na lentidão dos passos e abre no chão quadriculado um espelho negro com um menino tocando o céu azul rodeado de pássaros e flores e rios cristalinos e nos estende a mão num gesto de paz que nos acalma e nos perdoa e carinhosamente e sigilosamente nos devolve ao nada por um caminho celular oculto irrepetível.
Não sou poeta nem nada
Não sou poeta nem nada nem noite de luar nem sopro de
vento nem pirilampo errante nem grão de espiga
Serei louco
O louco não tem número está fora da cidade dos homens
Não sou luz da serra nem sombra nem luz nem sombra da
noite no alvor da madrugada não sou coisa nem nada
Talvez louco
O louco não tem número o limite da soma é o vazio
Não sou murmúrio de rio nem cigarro viciado nem ponta de
cio nem lua patética crescendo e fugindo do tempo que passa
não sou quebra‑luz nem gavinha entrelaçada num abraço de
frio
Sete raios de sol queimaram o sonho sete chuvas de esperma
o fecundaram
Já não sou resina nem merda nem urina nem sangue nem
seiva
Morreram Afrodites e leões de pelo fulvo quando se
inventou a alma…e eu não sou mais do que rescaldo
Já não sou poeta nem nada
Sou mesmo louco
Ouço o silêncio
Ouço o silêncio dos olhos que se fecham na falta de
esperança
Amo o silêncio das cores vivas e do sonho que nos tece a
alma entre a vida e a morte
Doi‑me o silêncio negro dos gritos proibidos e sinto o
dourado silêncio dos gestos da noite que nos abrem os olhos
Amargo o silêncio das horas sem brilho e vivo o silêncio do
mar que risca na areia a força vencida
Assumo o silêncio sagrado da liberdade e da vida e o silêncio
de um céu de fogo que nos abre a cova na terra fria
Ao redor do nevoeiro
Hoje sou eu que vou ao teu encontro por dentro deste nevoeiro denso que tudo esconde, mas não sei onde estás nem sinto os teus cabelos de incenso.
Sei que moras para lá do tempo, entre dálias e gerânios entre memórias e sonhos de um segredo, mas o coração diz-me para seguir em frente e não ter medo.
Sem saber ao certo quem sou levo comigo a razão, único caminho que rasga o nevoeiro e rompe as algemas, e me deixa ver a luminosa transparência do teu corpo para lá das algas e dos peixes verdes dos poemas.
Tu estás do outro lado de um beijo, e eu quero abraçar-te pela cintura neste apagado incêndio dos sentidos, ainda que seja demasiado tarde para a verde ternura de um desejo.
Hoje sou eu que vou ao teu encontro em meu corpo de terra antiga que já não seduz, logo que possa dar um passo dentro do nevoeiro para lá dos olhos sem luz.
Assim o decidi ao ver-te quase nua, na altura em que o nevoeiro sem sentido caía pesadamente sobre a rua, mas não eras tu… era uma chama de lábios e lume, ardendo em estranho leito nupcial de um qualquer tempo já perdido.
No ventre do nevoeiro, inventei a noite entre lençóis de neve mordidos de uma luz oblíqua, que não era minha nem tua, e se perdia na pele branca de um qualquer corpo que eu não sentia.
Era como se um rio cantasse entre a lua e as águas e o nada… e fosse demasiado tarde para ser música no violino da madrugada.
Filipa Melo Grão de sal em bocas impuras
(Crítica ao seu último livro)
Sol, 12 de Junho de 2014
A poesia nasceu de um espanto, disse Aristóteles. Com base na ilusão, surge um objecto que figura uma interpretação da vida e da reação do poeta perante os estímulos e a provocação. Medo, defesa e elaboração estão na raiz poética desde os tempos primitivos, negociando com o amor e a morte do corpo. Neste caso, o poeta dedicou-se a condensar fragmentos do mundo em movimento primitivo e, para tal, deu a sua própria vida à linguagem. Hoje, diz-se e diz-nos: «filhos não te são nada, carne da tua carne são os poemas/ que escreveste contra tudo, pais e filhos,/ lugar e tempo, […] filha é a palavra carregada que arrancas aos dicionários quando dormem,/ essa palavra escolheu-te e tu escolheste as roucas linhas/ onde hás-de ter o trabalho artesanal da morte».
Agora, o poeta está nu, no final da vida como no começo do mundo (ou na poesia da juventude) e por isso pede «que um qualquer erro de ortografia ou sentido/ seja um grão de sal aberto na boca do bom leitor impuro». Mais irónica, livre, fulgurante e moderna do que nunca, a metapoesia de Herberto Helder é a confissão magnífica de quem «queria fechar-se inteiro num poema/ lavrado em língua ao mesmo tempo plana e plena».
A Morte Sem Mestre é uma elegia, um lamento confessional, alimentado pela mensagem fúnebre dos poemas antigos, «tão fortes eram que sobreviveram à língua morta» e ainda vibram «entre os objectos técnicos no apartamento,/ rádio, tv, telemóvel,/ relógios de pulso». O poeta continua a cantar o presente das coisas mesmas, ainda em busca de uma luz de dentro, iluminando e despedaçando tudo. O acaso, o hermético, o concreto uniram-se após décadas de experiência da palavra, garimpando poesia como «um organismo internamente coerente e bastante» (ao JL, 1964). O que espanta é o arrojo, a vitalidade furiosa e orgânica deste livro, escrito aos 83 anos do poeta, e na sua melhor forma.
Herberto Helder: Magnífico poeta obscuro
A poesia inédita de Herberto Helder surge de novo em edição limitada. A restrição imposta pelo poeta resulta afinal num marketing infalível.
Quantos serão agora os felizardos? A Porto Editora, nova chancela de Herberto Helder (por três décadas foi a Assírio & Alvim), não o revela, mas é provável que só 5000 exemplares de A Morte Sem Mestre cheguem aos leitores. O novo livro de poesia inédita traz um CD com cinco poemas ditos pelo poeta madeirense. O design da capa reproduz o modo como encaderna os volumes da sua biblioteca, em papel de embrulho e com os títulos manuscritos a caneta de feltro vermelha. Por «vontade expressa» do autor de 83 anos, a sua poesia continua a ter só primeiras edições, integradas, após correcções, em volumes de obra completa e definitiva. O próximo sairá até ao final do ano, incluirá Servidões (de 2013 e cujo ebook está, «durante 30 dias», à venda na Wook) e talvez já A Morte Sem Mestre.
Há mais de 40 anos que Herberto Helder não dá entrevistas. A fotografia que publicamos é a mais recente, entre meia dúzia ainda acessíveis. Diz-se que é um misantropo radical, não atende telefonemas e impede os outros de falarem de si. O que se diz aumenta a aura mítica do auto-recluso, o maior poeta português vivo.
Entre a estreia em 1958, com O Amor em Visita, e o lançamento de A Faca Não Corta o Fogo, em 2008, as primeiras edições da poesia de Herberto Helder dificilmente se esgotavam. Serviam para o poeta avaliar o seu público, mas sobretudo para confirmar a obra, o que justificava a ausência de reedições. Todavia, em Servidões, o livro mais confessional, esta opção adivinha-se como compromisso com o valor ético da arte: «disseram: mande um poema para a revista onde colaboram todos/ e eu respondi: mando se não colaborar ninguém, porque/ nada se reparte: ou se devora tudo/ ou não se toca em nada». Nos últimos três livros, a expressão do poeta é cada vez mais directa, mais nua, menos rasurada. Na epígrafe de A Morte Sem Mestre, diz: «Tudo quanto neste livro possa parecer acidental/ é de facto intencional.» Nos 28 poemas que se seguem, confirma o abandono do mundo, a ascese de uma identidade restrita às margens da poesia e de uma poesia votada à linguagem, não ao diálogo. De acordo com o que disse ao JL, em 1964: «Um artista consciente saberá que o êxito é prejuízo. […] Decepcionar é garantir o movimento.»
Seremos poucos com primeiro acesso aos seus poemas, talvez em nome da preservação do universo interior do poeta, onde reside a justificação para tão vital recusa da visibilidade. Mas os tempos, cada vez menos permeáveis ao que é singular, secreto e intocado, corrompem qualquer viabilidade dos gestos rebeldes à margem da comunicação e do marketing. Thomas Pynchon, o mais esquivo autor norte-americano, aceitou participar, em 2004, em dois episódios de The Simpsons, dando a própria voz à sua caricatura, que surgiu com um saco enfiado na cabeça. Como tantas vezes alertou Mário Cesariny: «Já não há escândalo.»
Adão Cruz Uma forma de pensar
(Adão Cruz)
A arte e a poesia são irmãs gémeas, mas a poesia é, por assim dizer, a irmã mais gémea, a gémea por excelência. E isto porque a poesia, ou melhor dizendo, o sentimento poético percorre transversalmente qualquer forma de expressão artística, e qualquer forma de expressão artística só será obra de arte se contiver dentro de si o sentimento poético. Como sempre tenho dito, a poesia é um sentimento como outro qualquer, como o sentimento do amor, por exemplo. O facto de vermos alguém de braço dado ou alguém numa cena aparentemente amorosa, não é garantia de que entre eles haja amor, pois este sentimento pode não existir ou existir em grau que vai do frágil e superficial ao mais profundo. Com o sentimento poético acontece provavelmente o mesmo. Não é por termos à frente dos olhos uma obra aparentemente bem feita ou um poema aparentemente bem escrito que podemos dizer que ali está a poesia. Pode não estar e muitas vezes não está, sendo difícil que, desta forma, estejamos perante uma obra de arte. Custa-me dizer isto, mas cada vez mais gosto muito de poucas coisas. O que por aí se passa em relação à poesia é, quanto a mim, uma tristeza, porque fazer poesia, descobrir o sentimento poético não é encastelar versos uns em cima dos outros ou escrever frases labirínticas que ninguém entende, e, com isso tudo, encher as prateleiras das livrarias. O sentimento poético aproxima-se muito do místico sem lá chegar, felizmente. É um sentimento quase indefinível, é um estado de hipersensibilidade, um desejo de ser-se de outra maneira, uma necessidade de sair do não autêntico, um quase sentir a verdade total e o amor universal.
Passando à pintura, podemos dizer que a montante da obra está o artista. Este deita mão de todos os elementos que tem para criar a obra. Desde as suas capacidades inatas, os seus conhecimentos adquiridos, as suas habilidades e experiências, a sua “Arte”, a sua filosofia, a sua visão do mundo e das coisas, até aos elementos físicos como as tintas e os pincéis. Mas o elemento principal, o que está acima de todos os outros é o sentimento poético. Não é um elemento que o artista possa chapar na obra como faz com uma pincelada. Ele tem de existir dentro do artista, ele está na essência e na vivência do artista, e como faz parte da sua alma nasce espontaneamente na obra de forma consciente, subconsciente ou mesmo inconsciente. Sem sentimento poético dificilmente uma obra será uma obra de arte, e muito provavelmente não passará de um entretenimento superficial dos sentidos.
A jusante do artista está a obra, como um todo indivisível e indissociável. E para que a obra adquira grandeza, todos os processos formais devem ser ofuscados pelo seu próprio efeito. Por isso, desnudar esses processos formais, tentar dissecar, escalpelizar, descodificar, fatiar uma obra pode ser muito nefasto, pode ser um fenómeno redutor que empobrece a obra, pode massificar e estereotipar o pensamento, pode tapar os olhos do espectador e pode anular toda a hermenêutica, isto é, a capacidade de gerar forças interpretativas. Que se faça em termos académicos e investigacionais, vá que não vá. Em termos de fruição da obra é profundamente negativo. O próprio título pode ser a primeira fatia. Quase como num bolo de aniversário. Quando entra a faca lá vai o encanto contido na expressão inicial dos convivas: “Que lindo bolo!”.
A este respeito, um amigo meu dizia-me ontem, uma obra de arte é como um filme sem legendas. Num filme sem legendas, se o espectador não conhece a língua, imagina histórias muito diferentes daquela que o filme pretende contar. Claro que, embora nem sempre, a intenção e a finalidade de um filme é mesmo contar aquela história e não outra. Na obra de arte pode não haver histórias, e se as há, elas deverão ser tantas quantos os olhos que a contemplam.
"Magnífica obra comemorando os noventa anos da BIAL, com prefácios de João Lobo Antunes e Manuel Sobrinho Simões. Noventa Pinturas de autores com obras publicadas pela BIAL e Noventa Poemas de autores médicos, antigos e contemporâneos"
Com estas palavras nos apresenta Adão Cruz, médico cardiologista, pintor e poeta, colaborador deste blogue, o belo livro em que a BIAL incluiu peças da sua arte poética e da sua pintura
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