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Jardim das Delícias


Terça-feira, 22.10.19

Um adeus catalão - Pedro Ferré

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Pedro Ferré  Um adeus catalão

 

Público, 22 de Outubro de 2019

   Num momento de paixão e de dor profunda – para não falar de revolta –, onde os mais vivos sentimentos vêm à flor da pele, exijo-me a mim próprio um mínimo de serenidade. Pretendo também advertir o leitor que, pese embora o meu discurso remeta para factos, não me conseguirei furtar às minhas posições ideológicas, o que inevitavelmente sempre acontece a todos os cronistas, ainda que muitos o pretendam escamotear. Acresce que neste momento se vive sob uma enorme pressão internacional do Estado do Reino de Espanha que, através das suas embaixadas, compele os meios de opinião pública a que seja veiculado o ponto de vista oficial de tudo quanto está a ocorrer, tentando abafar as razões profundas do sentimento de desprezo ou mesmo de repressão sentido pela nação catalã. Mas, porque o espaço não é muito e da paciência do leitor não se deve abusar, tentarei ser minimalista nas razões que pretendo expor nas seguintes linhas.

1. Em primeiro lugar, principalmente a partir da brutal repressão sobre o referendo de 1 de Outubro de 2017, ordenada pelo Estado e aceite sem reservas pelo nacionalismo espanhol (não esqueçamos como as forças da Guardia Civil eram aplaudidas à saída de certos quartéis com palavras de ordem como “A por ellos”, isto é, “Vamos a eles”), a Espanha mais profunda, incluindo muitos militantes e políticos do PSOE, sustentava as suas razões baseando-se em questões históricas, civilizacionais e políticas. Historicamente esquecia-se que a formação do Reino de Espanha fora sempre uma questão muito complexa. Pela força das armas, Castela foi-se sobrepondo aos restantes territórios peninsulares, criando-se, durante séculos, a ideia de uma mítica Espanha (que nação sem profundas questões identitárias sente a necessidade de constantemente se afirmar como nação ou mesmo afirmar, como o próprio presidente do Governo Mariano Rajoy, que “Espanha era a nação mais antiga da Europa"?). Ao mesmo tempo era forjado um dos mais chamativos argumentos, afirmando-se que a Catalunha nunca fora independente. Será que alguém de boa-fé pode esquecer que a Catalunha nasceu, ao contrário das restantes nações peninsulares, por uma actuação estrangeira, constituindo-se como a Marca Hispânica carolíngia (séc. VIII) e que dela derivaram os condados catalães subordinados ao Conde de Barcelona? Será que alguém de boa-fé pode esquecer que, quando a Catalunha se juntou ao reino de Aragão, o fez mediante o casamento de uma infanta aragonesa e do Conde de Barcelona, em 1150, e que desde essa data até 1410 a dinastia da casa de Barcelona reinou sobre Aragão, Valência, Maiorca, Perpinhão, Rossilhão, Córsega, etc.?

2. Acresce que, a propósito do chamado Procés, isto é, o recente processo de autodeterminação catalã, se tentou passar a ideia de que este sentimento era fruto de um conjunto de ideólogos contemporâneos que, aproveitando-se da recente crise da Europa, apelava de forma egoísta à separação, esquecendo por ignorância ou má-fé que, desde o último monarca da dinastia catalã, no reino de Aragão, o partido ‘catalanista’ procurou sempre retomar o poder – preocupado, primeiro, com o apogeu bélico e, mais tarde, económico – de Castela. Assim, e seguramente muito portugueses não o saberão, um príncipe português, o Condestável D. Pedro, filho do infante D. Pedro e de uma catalã (Isabel de Urgell), morreu em Granollers (Barcelona) a 29 de Julho de 1466, por ter sido chamado pelas instituições barcelonesas para defender a monarquia de linhagem catalã, no reino de Aragão, contra a dinastia castelhana dos Trastámaras. Mesmo quando os reinos de Aragão e de Castela se aproximaram politicamente, com o casamento de D. Fernando de Aragão e de D. Isabel de Castela, em 1469, as leis e a moeda, por exemplo, continuaram separadas (a conquista da América, por exemplo, era empresa exclusivamente castelhana) até que, em 1714, Felipe V arrasa Barcelona e, de facto, cria, pela força das armas, uma Espanha com as fronteiras que de certo modo corresponderão às dos nossos dias. Pelo exposto, a “nação mais antiga da Europa” vê, deste modo, drasticamente reduzido o período da sua existência. Cabe, por fim, destacar que, desde o século XV até aos nossos dias, o sentimento de autodeterminação catalã foi uma constante: a chamada “Guerra dos Segadores”, contemporânea dos sucessos ocorridos em Portugal, em 1640 (que conduziram este país à sua definitiva independência, recordo), chegou a proclamar, em 1641, a República da Catalunha; ou ainda a guerra de Sucessão (1710-1714), cujo fim, como já disse, correspondeu a uma das mais dramáticas repressões sobre a sociedade catalã; sem esquecer, também, um sentimento secessionista ao longo dos séculos XIX e XX que culmina, na segunda República Espanhola (1931-1936), com uma brevíssima independência de horas em 1934, por Lluís Companys, anulada pelas tropas fiéis ao unionismo.

3. Após breves tópicos de História, na qual, como se viu, este sentimento identitário tem profundas raízes, comecemos a centrar-nos em questões mais recentes. De facto, após uma pacificação alcançada após a morte de Franco e de certa forma reforçada pela Constituição de 1978 (redigida em condições muito especiais e com limitações contextuais óbvias), a Catalunha recupera uma importante autonomia que fazia supor anos, senão séculos de profunda acalmia e quase desaparecimento dos ideários independentistas. Mas eis que, uma vez mais, a Espanha ultranacionalista desequilibrará os pratos da balança. Um novo Estatuto da Catalunha, aprovado pelo Parlamento catalão, retocado pelo Parlamento de Espanha, mas ratificado finalmente pelo povo catalão em 2006 por uma maioria que rondava os 75%, foi submetido a fiscalização sucessiva pelo Partido Popular (PP) através do Tribunal Constitucional. Desse pedido formulado pelo PP, contra a votação das Cortes de Espanha e do povo catalão, em 2010 (após numerosas delongas provocadas por interferências políticas da direita espanhola), num momento em que as forças mais conservadoras constituíam maioria no Tribunal Constitucional, foram declarados inconstitucionais 14 artigos, várias disposições adicionais, para além de outros artigos submetidos a interpretação.

Eis a génese da crise actual. Sentindo-se a Catalunha minimizada e desautorizada pelo Estado, que procurou (como sempre) que a Justiça se encarregasse de uma questão política, boa parte do catalanismo federalista e até unionista começou a engrossar as fileiras dos partidários da independência. Note-se que nesta primeira ‘judicialização’ da política, feita em 2006, o Estatut é drasticamente reescrito e que as propostas de Rajoy pretendiam proibir para a Catalunha artigos já aprovados em estatutos de outras regiões autónomas. Porque esta afirmação é tão grave, remeto o leitor mais interessado, ou incrédulo, a comprovar o que agora aqui escrevi em https://www.publico.es/…/rajoy-da-otros-territorios-niega.h….

Porque não posso entrar em minúcias, destacarei apenas dois pontos rejeitados pelo TC. Um deles, desrespeitando a meu ver a própria Constituição de 1978, nega à Catalunha o direito de ser nação dentro de um Estado. Ora, a Constituição clarifica, no seu artigo 2.º, que “garantiza el derecho a la autonomía de las nacionalidades y regiones que la integran y la solidaridad entre todas ellas”. Pergunto: será que pode haver nacionalidades sem nações? Outro dos artigos retocados (o 6.º) retira o vocábulo preferente da primitiva redacção “A língua própria da Catalunha é o catalão. Desse modo, o catalão é a língua de uso normal e preferente das Administrações públicas e dos meios de comunicação públicos da Catalunha”. Sendo a questão linguística um dos elementos mais estruturantes e simbólicos da sociedade catalã, o fogo estava ateado. Se nem na sua terra a língua veicular deveria ser preferentemente (e sublinho o preferentemente pois nem se exigia que figurasse como língua única), qual o destino da língua catalã? Recordo, a quantos ainda considerem, por mentalidades essencialmente economicistas e baseadas em métricas, que a dimensão de falantes de catalão não merece atenção, que existem mais falantes de catalão do que de croatas, dinamarqueses, albaneses, finlandeses, eslovacos, noruegueses, letões, etc.

4. Pelo exposto, se os desejos de autodeterminação são históricos, sendo a inserção da Catalunha em Espanha uma questão de difícil solução, a violência policial, totalmente desproporcionada, exercida a 1 de Outubro de 2017 e a sentença do Supremo Tribunal a nove políticos catalães encarregaram-se de fracturar ainda mais drasticamente a relação entre a Catalunha e Espanha. O diálogo, base de qualquer sociedade democrática, nunca foi desejado (especialmente pelo lado espanhol), cerrando fileiras com a justificação da defesa da Constituição. E eis que chegamos ao cerne de um problema que fragiliza a unidade da Espanha (ao contrário do que os partidos ‘constitucionalistas’ afirmam). A Constituição de 1978, como já aflorei, foi a mais virtuosa das constituições possíveis naquele momento. Ainda o franquismo estava vivo (mas será que chegou a morrer?), as forças armadas não davam suficientes garantias de se submeterem ao poder político (e dará a Guardia Civil, neste momento, essas garantias? Depois de ouvir o discurso profundamente político do general Garrido, intolerável em qualquer democracia avançada, como não se cansa de afirmar a propaganda oficial do Reino de Espanha, fiquei com muitos receios); os comunistas e até os socialistas eram vistos com enorme desconfiança e as nações espanholas continuavam a suscitar os discursos mais acalorados. Como seria possível ir mais longe? Por essa razão, a aprovação dessa Constituição foi um feito memorável, sendo, sem dúvida, um marco na história da civilização europeia do último quartel do século XX.

Onde reside então a minha reserva quando, hoje, não faço parte dos grupos que a sacralizam? A própria Bíblia ensina que há um tempo para tudo e que a jurisprudência foi feita para servir o bem público e regular uma sociedade enquanto objecto funcional: a partir de certo momento poderá ser uma peça perniciosa e causa motora dos maiores problemas políticos. Repare-se como, por razões de política interna e eleitoralista, o PSOE não pretende provocar alterações na Constituição, tendo-se até esquecido dos seus fundamentos ("valores") republicanos e federalistas. A Monarquia tornou-se inquestionável e o federalismo foi metido na gaveta. Se é certo que para alterar a Constituição são necessárias maiorias qualificadas, certo é também que não se tem visto este partido batalhar pelos seus próprios princípios sendo, deste modo, uma das forças com papel mais conservador na preservação do espírito e da letra do texto constitucional. Pois bem, a hora exige mudanças. E o que poderia não ter passado de um aprofundamento da autonomia mediante a criação de estados federados, hoje terá de ir mais longe: permitir constitucionalmente o recurso ao referendo.

5. As contradições do PSOE e do Partido dos Socialistas da Catalunha têm tido um papel extremamente negativo na problemática relação entre Espanha e Catalunha. Se do PP e do Cidadãos (para já não falar do Vox), pela sua posição ideológica contra a nação catalã, a sua língua e a sua cultura, ainda que profundamente nociva e irresponsável para a unidade de Espanha, nada haverá a dizer, pois é um comportamento coerente com as suas convicções, o volte face do PSOE, que a 1 de Outubro de 2017 condenou a brutalidade das forças da ordem vindas de Espanha para a Catalunha (ver, por exemplo, o título de caixa alta do periódico eldiario.es: “Pedro Sánchez critica las cargas policiales en Catalunya y emplaza a Rajoy al diálogo como solución"), contrasta com a total falta de diálogo com as forças independentistas (neste preciso momento em que escrevo, nega-se até a falar, telefonicamente, com Quim Torra, segundo a imprensa insuspeita).

Contudo, estas contradições já vêm de longe e, exceptuando o efeito antecipador de Zapatero e Maragall nas questões catalãs, se os políticos espanhóis têm uma característica é a de andar sempre atrás dos acontecimentos para, em momentos mais extremos, perder a arte da política e, ou magnificar a repressão, ou judicializar os problemas. Lamentavelmente, chegam sempre atrasados. E se o PP agravou esta já tão inquinada situação, infelizmente, o PSOE, ou melhor, Pedro Sánchez, não quis ou não pôde (intervenções dos barões do partido?) resolvê-la. Porque se a sentença emanada do Supremo resulta da irresponsabilidade dos políticos, que passaram a este Tribunal o ónus da decisão, por outro, a pressão sobre o Poder Judicial para castigar os presos (os cidadãos, intoxicados por uma imprensa profundamente unionista, exigiam um castigo exemplar), ao não conseguir encontrar razões para a mais alta das penas (rebelião), procuraram os juízes fundamentar, de forma muito forçada e perigosa (para a democracia de toda a Espanha e não só da Catalunha), uma sedição (transformando em manifestações com tumultos aquilo que eram simples manifestações). Deste modo, não se aplicaram as penas mínimas, correspondentes às de desobediência (que, de facto, existiu). Numa palavra, os políticos eximiram-se das suas responsabilidades; os juízes, por pressões e por convicções ideológicas, penalizaram escandalosamente presos políticos (expressão censurada em Espanha nos órgãos de comunicação social oficiais, sim, disse bem, censurada, mesmo antes da sentença). Espanha ficou jurídica e politicamente mais pobre e ainda mais dividida.

6. Dizia que, no momento em que escrevo, Sánchez não atende o telefone a Torra; o PP e Cidadãos juntam-se a Vox e vai-se exigindo ao Governo de Espanha a Lei de Segurança Nacional ou a aplicação, mais uma vez, do 155 (os mais radicais), com a consequente abolição da autonomia catalã. Por outro lado, a campanha eleitoral espanhola, com os mais vis interesses partidários, é seriamente responsável por não se tentar resolver, ou pelo menos mitigar, a crise que se vive na Catalunha. Os meios de comunicação extremam com alarmismo as manifestações dos jovens anti-sistema (alguns também independentistas), escamoteando as centenas de milhares de pessoas que se movimentam em manifestações pacíficas. O governo catalão entra em contradições, perturbado pelos excessos de certas cargas policiais dos próprios Mossos d'Esquadra (a polícia catalã): alguns do consellers consideram a actuação da Polícia Autonómica excessiva, outros calam por razões políticas esta evidência, outros ainda são incapazes de distinguir o trigo do joio e condenar abertamente os desordeiros e, mais preocupante, muitos jovens já se perguntam o que fazer, pois se com manifestações pacíficas a Catalunha não é ouvida (e até é condenada) por Espanha, será que terão de ir mais longe?

7. Espanha, convertendo-se cada vez mais na Sérvia do Ocidente, não conseguiu ainda perceber o problema. O seu nacionalismo cego faz com que esconda a cabeça, qual avestruz, e diga que o nacionalismo é propriedade privada dos outros: os que não querem ser nacionalistas espanhóis. Mas, na realidade, o problema espanhol, o seu nacionalismo radical, é bem simples: só a sua insegurança faz com que odeie a diversidade, imponha aos diversos territórios a cultura e a língua castelhanas como traço identitário e abomine a diversidade hispânica, reduzindo-a ao nível do folclore. E por essa razão, Espanha gostaria de acabar com o que chamam a escola catalã e encerrar o canal de televisão autonómico TV3, fonte da pretensa e falsa xenofobia da Catalunha, que é uma das regiões mais internacionalistas e cosmopolitas da Península. Seriam, assim, esta “escola” e este canal os responsáveis pela criação de seres “abduzidos” (esta é a expressão usada pelo pensamento dominante espanhol) por uma ideologia catalanista, bem como pela “fractura” da sociedade catalã (curiosa preocupação que só incide sobre os que se sentem espanhóis, não sendo capaz de se colocar nunca na pele dos que se sentem “fracturados” pelo facto de não quererem ser espanhóis). Curiosamente, eu, que sou o produto de uma escola espanhola, na qual a cultura catalã, a língua catalã e a literatura catalã eram uma página em branco, e que fui criado sob o espírito das glórias do espanhol D. Pelágio, do Cid Campeador, do Império de Carlos V, dos Terços de Flandres e da Armada Invencível, “abduzido” pela grandeza de uma Espanha una e não plural, no entanto aqui escrevo constatando, tarde demais, a grandiosidade de uma Península Ibérica, diversa, tão peculiar, que poderia ter sido imensa. Portugal saiu a tempo, pois hoje corria o risco de se ver protelado no uso da sua língua, entre muitas outras coisas. Quanto tempo se manterá a Catalunha subjugada?

Como palavras finais, defino-me como independentista à força, principalmente depois do 1 de Outubro e desta sentença. Explico: foi a Espanha que me expulsou, não fui eu que me quis ir embora.(Pedro Ferré)

 

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por Augusta Clara às 17:09

Terça-feira, 15.03.16

A cerveja no topo do dolo - Marcos Cruz

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Marcos Cruz  A cerveja no topo do dolo

 

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   Antes, a análise política nos media era bem mais profunda, a fasquia do argumentário estava alta e o leitor/espectador, regra geral, sentia a necessidade de se informar, de trabalhar o seu eu político para acompanhar a discussão das matérias. Depois, já com o fim do milénio à vista, alguns órgãos de comunicação social, e não só tabloides, também jornais de referência, entenderam que se Maomé não ia à montanha era preciso levar a montanha a Maomé, pelo que, postas as coisas em palavras francas, baixaram consideravelmente o nível. Veio a política pop, aquela que se faz parecer democrática, na medida em que todos se sentem capazes de a discutir, mas afasta, talvez como nenhuma outra, as pessoas dos assuntos que afectam mais as suas vidas. A “gaffe” passou a ter honras de manchete, qual sardinha que um dia acorda e é marisco, o fait-divers suplantou a premência noticiosa do grande facto, a escolha da gravata do político tornou-se mais importante que o seu ideário. Um dos ícones do novo paradigma era então meu chefe: Carlos Magno. Independentemente de estarem sanados os conflitos que tivemos e de hoje nos cumprimentarmos com amabilidade, manda a verdade que o descreva como um surfista da análise política, alguém que contribuiu conscientemente para um strip que reduziu a esfera política não à sua essência mas, bem pelo contrário, ao seu artifício. Ele e outros cavalgaram essa onda e, no seio de uma opinião pública lisonjeada com a promessa de maior participação (ou “interactividade”, era a palavra), ajudaram a legitimar uma nova concepção de política, destituída dos pressupostos de nobreza e representatividade que a distinguiam. A partir dali, tendia a ser tacitamente aceite que os políticos se representassem a si mesmos e aos seus interesses, como acontece com os clubes de futebol, que há muito já se livraram da responsabilidade de promover o desporto. Para a análise, em consequência ou conformidade, sobravam os aspectos tácticos e, menos, estratégicos (os dias passaram a ser mais curtos), desvalorizados que haviam sido os da substância política – no que ela contém de ética, cultura, ideologia, etc. – quer do discurso quer da acção. A aferição da qualidade de um político deixou de se prender tanto com os seus valores (não materiais, entenda-se) e tornou-se mais vinculada ao conhecimento que ele revela do xadrez em que se move e à habilidade com que dentro dele verga os adversários e rechaça os seus ataques. Muitas vezes, observando esta autodesresponsabilização do jornalismo, a cada dia mais enredado na política dos interesses, promovendo orgulhosamente o trânsito de dois sentidos entre o seu espaço e o dos políticos (com claro prejuízo da política), falei na necessidade de dar às pessoas instrumentos – fossem eles notícias, reportagens ou os então glorificados conteúdos – para compreender, discutir e co-criar a realidade, em vez de as anestesiar com programas que as tornavam menos e menos exigentes, atentas, profundas, responsáveis e interventivas. Em resposta, era-me sistematicamente despejado aquele chavão: "Deve dar-se às pessoas o que elas querem".

Hoje, ao ver Marcelo na presidência da República, é inevitável lembrar-me desse tempo.

 

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por Augusta Clara às 15:00

Quinta-feira, 05.11.15

Partidas simultâneas - Alexandre Abreu

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Alexandre Abreu  Partidas simultâneas

 

 

 Expresso Diário, 4 de Novembro de 2015

 

A esquerda tem pela frente tempos de grande exigência, que terá de enfrentar com inteligência e responsabilidade

   Se, como parece provável, António Costa for em breve indigitado para formar governo com apoio parlamentar do PS, BE e CDU, os tempos que se seguirão serão de enorme exigência para a esquerda portuguesa. Não somente devido à urgência de reconstruir uma sociedade assente na justiça social e na decência, nem apenas em virtude dos constrangimentos que se colocarão à governação – mas também devido à necessidade de prosseguir simultaneamente objectivos políticos com tensões entre si. Esta exigência será enorme para toda a esquerda, mas sê-lo-á ainda mais para a esquerda à esquerda do PS, que não poderá deixar de prosseguir pelo menos três objectivos fundamentais.

O primeiro objectivo consiste em concretizar uma alteração profunda de política dentro dos constrangimentos do euro, da dívida existente e das regras orçamentais europeias tal como têm sido aplicadas, dando-se como assente que um programa de governo apoiado pela esquerda ampla não promoverá rupturas com estes constrangimentos. Escrevi sobre isto na semana passada, tendo então referido uma parte do muito que pode ser feito dentro destes parâmetros – ao nível da mais justa distribuição dos apoios e sacrifícios associados ao orçamento de estado, ao nível das alterações estruturais sem impacto orçamental directo (nomeadamente na regulação das relações laborais) e mesmo, por vias indirectas, ao nível dos impactos macroeconómicos diferenciados de diferentes formas de atingir a mesma meta orçamental. Mas não deixa de ser um objectivo muito exigente - e tanto mais quanto possa ocorrer uma deterioração das condições externas.

O segundo objectivo consiste em demonstrar a viabilidade política de um governo apoiado por uma maioria parlamentar que englobe o PS e os partidos à sua esquerda. Esta solução governativa constitui uma ameaça tanto maior para a direita e para as elites que esta representa quanto a geometria que consubstancia venha a consolidar-se no futuro. É por isso que a direita aposta tudo em que corra mal, através da dissidência de uma ou mais das bases de apoio desta solução política. E fará tudo – na comunicação social, na presidência da república e onde mais puder exercer pressão – para corroer a solidez desta aliança, deturpando palavras e intenções e promovendo a dissidência. É exactamente por esse motivo que a solidez desta aliança é crucial, e que a lealdade de todas as partes é fundamental.

O teste último do sucesso desta aliança, enquanto elemento de contestação duradoura ao domínio da direita, consistirá na capacidade de evitar rupturas traumáticas. Se a aliança se desfizer em resultado de tacticismos de curto prazo ou num ambiente de recriminação mútua – em suma, se as condições da separação constituírem um argumento favorável àqueles que, no seio destes três partidos, se opõem a este mesmo entendimento -, então a direita terá ganho. É por isso que é tão importante, no momento actual, alcançar um acordo político que encoraje a cooperação, dissuada a dissidência e, se absolutamente necessário, permita uma separação harmoniosa – e que o faça para um conjunto amplo de condições políticas e económicas.

Quanto ao terceiro objectivo, que dos três é o único que não é comum ao PS, decorre da consciência, à esquerda do PS, de que o euro, a dívida e as regras orçamentais europeias são impedimentos fundamentais ao desenvolvimento económico e à autonomia política nacionais. Contribuir para abolir esses constrangimentos é, por isso, um objectivo político de que a esquerda não pode demitir-se. Mas trata-se de um processo gradual, de consciencialização e mobilização de uma maioria social, que não deve sobrepor-se aos outros dois objectivos. Tenho alguma legitimidade para dizê-lo, visto que me conto há alguns anos entre os que têm procurado contribuir activamente para esse processo, inclusive quando essa posição era muito minoritária.

Nenhum destes objectivos é secundário ou dispensável para a esquerda, mas é evidente que existem algumas tensões entre eles. Daí a enorme exigência dos tempos que correm. Porém, é possível responder à altura, com base na compreensão das prioridades em cada momento e das diferentes temporalidades de cada um dos objectivos.

No curto prazo, é indispensável melhorar as condições de vida das pessoas e marcar a diferença face à governação da direita. No médio prazo, nada é tão importante quanto demonstrar a viabilidade e solidez políticas de um governo assente na esquerda ampla, construindo a confiança e resistindo às tentativas de desestabilização. O resto, podemos estar certos, virá a seu tempo.

 

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por Augusta Clara às 08:00

Sábado, 11.05.13

Francisco Louçã em "O Tabu" da SIC Notícias

 

Francisco Louçã  Os anunciados cortes nas pensões, a divisão-convergência do governo, a emissão de dívida

 

 

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por Augusta Clara às 10:00

Sábado, 11.05.13

Adelino Maltez no Jornal das 9 da SIC Notícias

 

O politólogo José Adelino Maltez analisa a situação política do país

 

 

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por Augusta Clara às 08:00

Segunda-feira, 18.02.13

Sugestões de um não-candidato - Joaquim Magalhães dos Santos

 

Joaquim Magalhães dos Santos  Sugestões de um não-candidato

 

   Se são precisas cem pessoas para governar um país… Se são precisas dez pessoas para governar uma cidade… Se são precisas cinco pessoas para governar uma vila… Se são precisas três pessoas para governar uma aldeia… Cos diabos… Eu já não digo que seja difícil… Mas será impossível encontrar, em todo o País, vá… cinquenta mil, setenta mil pessoas sérias, competentes, dedicadas, aptas, não sedentas de Poder, não gananciosas, não escravas de interesses próprios ou das corjas multinacionais, que possam governar honestamente, isentamente este pobre Povo?

Olhem em volta! Que lhes parece? Há? Arranja-se? Estamos assim tão despidinhos? Tão nuzinhos?

Quem resolver ir para a frente, quem se decidir… que veja de quem se rodeia! Já há uns bons milhares que estão excluídos! Os que lá estão e os que se empurram para pôr as patas nos escadotes que levam aos poleiros. Mas também – cuidadinho, muito cuidadinho com a vara de porcos que na sombra os alimenta e os empurra, talvez esses os mais perigosos de todos! Os de cá de dentro e os de lá de fora! Sabido é e cada vez é mais verdade que “O Capital não tem pátria…”

As multidões – mesmo que não sejam completamente analfabetas, sabem ler apenas os nomes dos “clubes do seu coração” ou as orações das suas religiões. Desde sempre foram conduzidas ou ateadas por minorias. Cuidado, pois, com as minorias que vão tomar as rédeas do movimento! Minorias populistas, manipuladoras da populaça, dos mais baixos instintos do Pôbo, vândalas, destruidoras cegas, estão, mais direta ou mais indiretamente, ao serviço dos “mesmos de sempre”, que, acachapados, só estão à espera de que “eles pousem…”

O “Movimento” não poderá-não deverá” surgir só numa cidade, não deverá descer de Bragança nem subir de Tavira. Há-de ser quanto possível colectivo, quanto possível harmonioso, tanto quanto possível sincrónico. Podendo ser… não violento! Mas isso de estender a outra face… Tá queto! Quanto às hienas dos últimos sessenta anos – presídio com elas! As cavalgaduras – exílio! Todas elas –hienas e cavalgaduras e outra bichice, com os seus bens confiscados e a reverterem para tanta e tanta obra que bem precisada está de tantos e tantos milhões vergonhosamente arrecadados.

Não me parece que a “coisa” vá lá com eleições nem (para já, para os tempos mais próximos) com partidos e muito menos com partidarites, quantas delas responsáveis pelo desgraçado estado em que isto está. Escolham-se cinco/sete homens bons, descomprometidos, sem padrinhos nem afilhadinhos, e eles que escolham, a nível nacional, quem nos governará. O resto virá por reflexo ou por acréscimo.

E pronto! Estas são as sugestões que posso e sei dar.

Portanto, se alguém estiver disposto a dar-lhes algum seguimento, já sabe: aos dez milhões de Portugueses que somos (alguns só o são porque assim está escrito no bilhete de identidade…), tirem alguns milhares de porcos e de hienas e de vampiros que não merecem o nome de seres humanos e, com o que resta – ainda há-de ser que chegue, se não vai-se a Barcelos, a Bisalhães ou às Caldas fazer-se o que falte –, constitua-se equipa que governe o país de modo a contentar a maioria, a deixar a maioria viver desafogada, a deixar a maioria viver nessa coisa desconhecida de tantos e tantos que é a DIGNIDADE.

 

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por Augusta Clara às 12:00

Quarta-feira, 06.02.13

A História pode dar alguma ajuda - IX - Carlos Leça da Veiga

 

Carlos Leça da Veiga  A História pode dar alguma ajuda - IX

 

 

I – “Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades”

 

Para muitos, a sentença contida na epigrafe encerra a verdade da evolução social, porém, o que, na realidade, tem acontecido é que as vontades, face aos problemas complexos das relações inter-humanas, desde tempos imemoriais, na sua essência profunda, continuam, por formas diferentes, a serem idênticas. Lutam, hoje como ontem, pela justiça social mas esse seu objectivo, que é, também, o seu próprio motor, ao longo dos tempos, vai conquistando novas facetas. Essa eterna vontade de justiça – a luta em seu favor – é que tem feito mudar os tempos e, por necessário, o mundo.

O autodinamismo que caracteriza o devir das relações sociais e que, na realidade, no longo decorrer dos anos, tem dado passos em frente na busca dessa justiça social, apesar disso, não tem sido o bastante para obstar, com a suficiência mais necessária, às adversidades impostas por muitos dos fenómenos sociais em que a mudança, feita por justaposição, consegue tomar a dianteira, permite-se induzir a alienação e, quase inevitavelmente, provoca injustiça. As vontades empenhadas na construção dum mundo melhor – mais justo e de bem-estar social – não mudam; o que muda são as expressões dialécticas das suas manifestações e, tem de reconhecer-se, são essas mesmas peculiaridades que dão ao tempo as colorações mais diversas. 

Milénios sobre milénios, o enunciado de quanto possa ser entendido como justiça social, como o de tantas outras vontades, pensamentos, intenções, interpretações e necessidades humanas – mau grado a imposição violenta de imensos retrocessos – tem sofrido uma evolução muitíssimo favorável e disso, mesmo contra a maré, têm sido beneficiários um número crescente de Homens e Mulheres. A vontade não muda. Mudaram as ciências positivas; mudaram as ciências sociais. Os saberes viraram costas aos deuses. Os obreiros desses saberes – fossem quais fossem – esquecido o Olímpio, deram novos mundos ao mundo e, por isso mesmo, pode falar-se de progresso.

Sem querer, nem poder, esquecer-se a existência de bolsas humanas de miséria extrema, apesar de tudo – para as vitimas, isso não será grande consolação – em espaços mundiais muito alargados, por força da vontade humana, seja como for, têm-se alterado, no melhor sentido, os relacionamentos sociais de produção.

Tanto a consciência individual, como aquela colectiva que, sem esmorecerem, prosseguem na exigência do direito inalienável a uma justiça social, essas consciências, aparecem focadas, cada vez mais, na defesa duma outra redistribuição social – directa e indirecta – do rendimento alcançado pelo esforço laboral de todos, desde que o seu calculo seja ponderado, como deve ser, por uma justiça com equidade.

 

II – “Muda-se o ser, mudam-se as confianças”

 

Se os tempos parecem mudar, o que, felizmente, tem mudado e tem tido um reflexo sócio-cultural cada vez mais profícuo foi – é – no mundo, ter passado a haver um número maior de Homens e Mulheres que, de passo em passo, por força das suas vontades renovadas, assumiram mudar o seu ser e, também, como consequência, a mudar a sua confiança. Nesses novos moldes passaram a perspectivar, dum modo mais adequado, mais ambicioso e mais firme o entendimento do significado da justiça social e, até, de como saber conquistá-la. Ao esforçarem-se por exigi-la – foi o que mudou no mundo – fazem que, com isso, de facto, só as aparências sejam outras.

O objectivo mantém-se – a estratégia é a mesma – a táctica é que varia e, como assim, quantas vezes, as aparências até podem pintar a realidade.

A estratificação social que é imposta pela redistribuição viciada da renda obtida pelo trabalho se, ao longo dos milénios, tem gerado uma soma imensa de atropelos sociais e, consequentemente, de injustiça social tem, por igual, aberto horizontes mais vastos e melhor fundamentados para o aperfeiçoamento – a tal contradição favorável – da trilogia política fundadora da contemporaneidade: Liberdade, Igualdade e Fraternidade.

A quantidade dos estímulos altera a qualidade das respostas e essa mesma retroage avolumando a soma dos primeiros, uma conclusão fundamental que, com mais outras três, desde o século XIX, tem permitido antever-se a certeza dum caminhar inexorável – mesmo que imensamente lento – para vir a conseguir-se a justiça social. Nos termos mais latos, poder passar-se do regime da troca para o do uso.

Infelicidade nossa, só muito lentamente, e quantas vezes com recuos indesejáveis, é que a justiça social consegue antever luz no fundo do túnel. Num número incontável de vezes – e isso é uma cruz difícil de carregar – tem de viver-se na desilusão de não ter conseguido dar em frente o passo mais desejado.

Em todos os casos, seja como for, no cômputo geral, deu-se.

Mesmo aqueles episódios que, a seu tempo, foram rotulados de pouco penetrantes, de muito limitados, nada influentes e bastante efémeros, até esses, pela sua soma – é inevitável – acabam por jogar em favor da busca da justiça social e do seu indissociável bem-estar social. 

Na História da Humanidade, o combate por essa justiça, mesmo quando tem de ter recuos, não pode é aceitar que, em quaisquer momentos, possa prevalecer o espírito de retirada.

Tudo somado, quem tem ganho?

Sobretudo, mais interessante, quem tem perdido?

 

III – “Todo o mundo é composto de mudanças”

 

Por muitos desânimos possíveis de enumerarem-se, o que não pode ignorar-se – deve, até, reavivar-se – é que, pelo menos, muitas das transformações mundiais dos últimos cinquenta anos – os tais passos em frente – foram bastante positivas para grandes camadas da população vitimas, desde há muitos anos, dum exploração económica insaciável.

Se é verdade conhecer-se uma soma infindável de acontecimentos políticos completamente inaceitáveis – reprováveis – surgidos na consequência do choque decisivo da descolonização – um dos maiores fenómenos políticos da História sócio-política da Humanidade – o que é verdade é que, na sua consequência, foi alterada e de que maneira, a distribuição das riquezas no mundo, pese embora, todos o sabem, em muitos casos, comporte os piores privilégios sociais.

Quantos milhões, por terem alterado o seu estatuto nacional – mesmo com tudo quanto de inconveniente possa verificar-se – diga-se o que quiser dizer-se, deram passos muito significativos para a sua vontade de afirmação politica no concerto internacional dos Estados o que, para populações secularmente mal tratadas – o tão desprezado terceiro mundo – foi um passo muito importante que conduziu às maiores repercussões políticas mundiais. Disso são exemplos eloquentes as emergências económicas, um fenómeno transformador do mundo e das suas vontades estratégicas que, anos atrás, era duma dimensão inimaginável e, de sobremaneira, julgado impossível para populações que a tradição ocidental considerava inaptas e incapazes. As economias chamadas emergentes – os BRICAS –  mau grado ainda transportarem assimetrias sociais enormes, só passaram a frutificar – a realidade é essa – fora do mundo chamado ocidental. Aqui, os impérios chegaram ao fim e, com bom senso, ninguém pense num regresso. As vontades mudaram; mudou o mundo.

 

IV – “Tomando sempre novas qualidades”

 

Com bastante certeza vai ser-me apontada uma acusação de incongruência – de disparate – ao dizer, como o faço, que a matéria atrás exposta foi-me despertada por uma efeméride política portuguesa, o 18 de Janeiro de 1934. Foi um acontecimento revolucionário que a História, muito justamente, consagra como a Revolta da Marinha Grande, embora, seja sabido que, numa escala muito mais diminuta, esse mesmo espírito revolucionário fez sentir-se em Lisboa, Coimbra, Leiria, Barreiro, Almada, Martingança, Silves, Vila Boim (Elvas), Algoz, Tunes e Funcheira.

Há setenta e nove anos, fruto duma vontade política revolucionária, surgiu uma qualidade nova na vida portuguesa que, se esteve na origem da Revolta do 18 de Janeiro ficou, para sempre, como uma das suas consequências mais marcantes. Esteve em causa uma decidida vontade política de querer travar o passo à ditadura salazarista mas, dessa feita, com a peculiaridade de ser obra de trabalhadores – operários sindicalizados – ao invés das tentativas anteriores (Chaves, 11/9/1926; Porto, 3/2/1927 e Lisboa, 7/2/1927) cometidas sob comando militar. O 18 de Janeiro, não tinha a coloração reviralhista, antes – assim consta – a anarco-sindicalista.

Para a generalidade dos observadores – erro deles – foi um episódio descolorido, irreflectido e inconsequente cometido à revelia do interesse político duns tantos supostos detentores de toda a verdade.

A História, como sempre, pode dar alguma ajuda quando dá conta seja tanto das vitórias como, por igual, dos desaires. No caso do 18 de Janeiro houve um desaire mas, tal como entendo as coisas, foi aparente, ou seja, mais uma das tais aparências com que, quantas vezes, tem sido pintada – mas mal – muito da História da evolução humana.

Se o salazarismo depois da Revolução de 3 a 9 de Fevereiro de 1927, no Porto e em Lisboa, fez os seus primeiros fuzilamentos (Largo do Rato, em Lisboa), reforçou a sua perseguição aos oposicionistas e deu inicio à sua policia política, depois do 18 de Janeiro, teve de apresentar mais uma outra feição desprezível do seu comportamento como fosse a da sua obstinação política, a do seu carácter maldoso e, em definitivo, a do seu comportamento radicalmente ditatorial. Exibiu a sua tremenda intolerância à Democracia, aos direitos do Trabalho e, também – facto esclarecedor – a sua imensa brutalidade repressiva. O Campo de Concentração do Tarrafal, uma consequência do 18 de Janeiro, é o seu exemplo mais significativo.

Naquele ano de 1934 o salazarismo dava passos no sentido de erradicar, em definitivo, todos os vestígios de Democracia que o regime republicano de 1910, apesar de tudo, tinha permitido florescer, por desígnio, o do livre associativismo sindical.

A Confederação Geral de Trabalho, a Federação Autónoma Operária e a Comissão Intersindical forma mandadas encerrar para serem substituídas pela organização corporativa da sociedade que, para a área especifica do trabalho, tal como mandavam as normas salazaristas, passaria a ter sindicatos feitos à medida dos interesses ditos nacionais, isto é, todos o compreenderam, aqueles dos possidentes. De associações livres passaram para grupos comandados pela batuta do regime político.

Dos acontecimentos da Marinha Grande fica como lição da História que uma pequena parte da População, quando sentiu estar a ser defraudada pela repressão política do chamado Estado Novo, entendeu dever rebelar-se e, com autonomia, sem olhar a inconvenientes, talvez, mesmo sem saber medir as consequências mas – isso é notável – convicta e intransigente nas suas convicções políticas não hesitou, com heroísmo, em dar um passoem frente. Procedeubem? 

Deixou um exemplo digno do maior respeito e admiração. Nos dias que correm, quem não lhe sente a falta?

Que merece exaltar-se o valor democrático da sua acção revolucionária, disso não pode haver quaisquer dúvidas. É inquestionável que os intervenientes deixaram uma valiosa memória de insubmissão e, sobretudo, a dum arrojo assinalável na sua luta contra a política repressiva da ditadura salazarista. Por força do exemplo deixado, só deve dizer-se terem procedido bem.

 

V –  “Continuamente vemos novidades diferentes das nossas esperanças” 

 

Se os revolucionários da Marinha Grande não mudaram o mundo, deram um contributo valioso para a mudança das vontades que, essas, á medida do decorrer dos tempos e, também, dos seus acontecimentos mais significativos, só passaram a ser diferentes na sua forma e, muito significativo, no aumento dos aderentes.

Agora, nos dias em curso, para limitar-se drasticamente o exercício democrático da cidadania e, declaradamente, para querer eternizar-se a cadeia da exploração económica da população, já são outros os recursos técnicos da repressão. Nos tempos actuais, a opção da reacção neoliberal – veremos se resulta – é a de usar a asfixia económica da maioria da população. O terrorismo económico, agora em serviço, é uma arma poderosa e o seu uso, pela maioria parlamentar deste início da segunda década do século XXI, está a liquidar a esperança de melhores dias como, por exacto, o 25 de Abril trouxe aos portugueses.

Instalar a opressão política, ontem como hoje, para os possidentes continua a manter-se como o propósito mais necessário para garantir a sua dominação política, para mais quando, com isso, sabem estar a prestar, com agrado desmedido, um serviço de subserviência aos seus patrões da finança internacional.

Na aparência das coisas, para muitíssimos, tudo parece diferente dos anos trinta do século passado, porém, será necessário recordar-lhes estarem, como no transacto, a dar-se passos repressivos sobre a População – outra vez, os tais passos atrás – só que desta vez, tal é a hipocrisia do Governo nacional, ao invés dos passados anos trinta, é feita a exaltação das práticas democráticas do regime.

Quaisquer dessas modalidades de intimidação aparecem associadas aos ditames – bem aceites pela maioria parlamentar – das políticas, económicas e financeiras impostas pelas exigências do capital financeiro alienígena mas que, nos dias de hoje, sem qualquer rebuço, são apresentadas como salvadoras duma iminente catástrofe financeira nacional. Agora, há uma sofisticação que sabe exercer a violência doutra maneira mas, não esquecer, continua a ser violência. Usa-se o terrorismo político como arma de intimidação. Anuncia-se a iminência duma falência financeira – duma banca rota – para que a população atemorizada aceda, de braços cruzados, ao exercício da vontade política dos possidentes, tanto dos de dentro como, em especial, dos de fora.

Entre impor o corporativismo e, a seu par, encerrar-se uma organização sindical ou, como agora, mandar entregar-se o viver nacional às ordens da finança internacional há – disso não tenho dúvidas – uma diferença considerável, porém, o que está em causa é, como no salazarismo, voltar a roubar direitos sociais e financeiros aos que vivem do seu trabalho e, sem qualquer explicação válida, dar réditos volumosos aqueles que beneficiam do capital financeiro. 

Para um caso, como para o outro, a resposta só pode ser a da revolta e, jamais, a da resignação.

Se em 1934 podia dar-se como certo que as Forças Armadas estavam, ainda, muito ligadas ao Movimento do 28 de Maio de 1926 e, assim, como em 1926 e 1927, também não dariam apoio aos revoltosos da Marinha Grande, agora, as coisas parecem diferentes. O espírito do 25 de Abril, apesar de tudo, ainda tem muito crédito entre os militares. Foi uma sua obra revolucionária referendada de imediato pela adesão entusiástica, efervescente e transbordante da População que, se nesta deixou uma lembrança sentida e difícil de apagar-se, também, nas Forças Armadas prossegue como um património de cujo orgulho, sabe-se, ninguém deseja abdicar. Cabe à População mudar o rumo das suas manifestações e saber dirigir-lhes um pedido da ajuda que, de facto e de razão, só deles pode vir.

Se está em causa a destruição do 25 de Abril, está em causa, principal e decididamente a defesa da Soberania Nacional, a do respeito pela Constituição, a da manutenção da Democracia e, importantíssimo, a da sobrevivência humanamente digna de muitos milhares de desempregados, de pensionistas e de reformados que, todos eles, sem qualquer protecção social, estão completamente vitimados pela frieza e pela soberba duma maioria parlamentar que, tem de dizer-se, é nazi de sua índole.

 

VI – “Se a queixume se socorre, lança no fogo mais lenha, não há mal que lhe não venha”

 

Dia após dia, sucedem-se queixumes sem fim – aliás justíssimos – sobre os acontecimentos da vida política portuguesa que, por decisão deliberada do Governo, estão a empurrar a população para um imenso empobrecimento e com esse procedimento desonesto poder colocá-la às ordens discricionárias dos interesses do capital financeiro.

Se afirmar-se uma oposição ao Governo nada tem de incorrecto, o que verdadeiramente importa é apresentarem-se projectos de solução que apontem para um outro modo do viver democrático que, institucionalmente, recuse e impeça a actual asfixia financeira e politica da população.

Tem de exigir-se o possível e o exequível, desde que seja bastante para colocar um fim à liquidação, em curso, das justas posições políticas e sociais conquistadas pela população no pós-25 de Abril.

No mais fundamental, o que está em causa por ser imensamente transformador, é propor-se a construção duma Democracia constitucionalmente muito mais aperfeiçoada que, como tal, garanta uma constante participação cívica conseguida por intermédio duma intimidade institucional efectiva com que, de facto, seja possível definir-se, momento a momento, a vontade política nacional. Tem de exigir-se que qualquer eleitor tenha o direito de ser eleito e sem qualquer intermediação partidária. Têm de assegurar-se, em definitivo, os direitos sociais e, também, ao contrário dos dias de hoje, importa ficar-se com a certeza que o texto constitucional contem os mecanismos necessários a uma rigorosa separação das Órgãos de Soberania que, cada qual e no seu conjunto, definem as funções do poder do Estado.

Do modelo constitucional em curso, dele, já basta poder dizer-se não estar a corresponder às exigências sociais da população. Não dá as garantias sociais que a população mais necessita e tudo porque, em larga medida, prossegue na conformidade inaceitável de quanto foi modelado nos idos dos séculos XIII pela Magna Carta do Reino da Inglaterra e mais tarde, no final do século XVIII, pelas duas Constituições do Estado Francês.

Desde o discurso parlamentar que ninguém suporta, àquele das vozes populares mais sofridas passando, por igual, pela verborreia insuportável dos comentadores, só são ouvidos queixumes mas, jamais, uma qualquer alternativa com possibilidades de ser bem sucedida. Só há arrufos de partidocratas inconsequentes; só há sonhos para coligar o impossível; só há fugas para a frente feitas para desculpar os mais reles oportunismos e, muito grave, face ao vazio real duma oposição parlamentar vê-se nascer um indigno colaboracionismo político.

Em São Bento há uma legitimação activa e constante duma Governação que, dia a dia, comete atentados sucessivos contra a Soberania, a Independência Nacional e pratica uma insensibilidade social profundamente desumana.

O arrojo político está a fazer sentir-se cada vez mais

“Tentar outra vez; falhar outra vez; falhar melhor”, ensinou Samuel Beckett.

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por Augusta Clara às 14:00

Sexta-feira, 07.12.12

Interrogações - Joaquim Magalhães dos Santos

   Fui comprar 100 gramas de pontos de interrogação. Enganaram-se e deram-me um quilo. Vá lá que não me cobraram mais pelo acréscimo!

E, já que estou tão abonado de ???... há que gastá-los!

Como penso muito nessa coisa em que, atualmente, toda a gente pensa, (que não tem outro remédio…), vou começar por ela:

 

Incompetentes? Burros? Maus? Desumanos? Insensíveis? Autómatos? Hipócritas? Cínicos! Filhos de profissionais do sexo? Com eles à frente, que será de Portugal, a muito breve prazo? Com tanta gente em idade ativa a ficar ou a ir para a inatividade, eles têm soluções para impedir essa catástrofe? Têm? Se têm (???), põem-nas em prática? São assassinos a fogo lento? Requintados? As atuações desses fantoches não fazem de Portugal o palhaço da Europa, do Mundo? Se é certo e garantido que a maior parte – graaaande percentagem - da população portuguesa é amorfa, acéfala, átona, desprovida de capacidade de reação, não haverá uma minoria ativa, pensante, revoltada, que se mexa, que acabe com este estado de coisas, com este crime continuado, com este assassínio permanente? Não há quem tome o freio nos dentes? Quem dê um imenso par de coices? Os porcos alegam que estão lá porque foram lá postos pela vontade do Pobo? Pois alegam, mas legal é o mesmo que legítimo? É legítimo, é justo o que eles estão a fazer, a fazer a todo um Povo? Não pertenceria ao Supremo Magistrado da Nação pôr cobro às várias bandalheiras de que os cães são autores e  beneficiários? Mas… alguém se convence de que esse palhaço boçal, que só nos faz rir com um ranger de dentes, pode ou quer agir contra os seus comparsas? Não é ele cúmplice deles? Conivente com eles? Não faz ele parte da quadrilha? Não está mais do que provado que foram dadas – em campanhas eleitorais – garantias que não foram cumpridas, que foram cinicamente atiradas não para a gaveta (a mesma onde, há largos anos, foi escondido o Socialismo), mas para o caixote do lixo que já foi despejado em alguma lixeira e incinerado? Não  foram ditas escandalosas mentiras que são garantidamente mentiras? As mentiras estão patentes e os mentirosos desmascarados e alguma limpeza foi feita? Os títulos de Dr. e de Doutor não eram prestigiados e significativos de mérito e de garantia de qualidade? Se é certo que desde sempre – muito antes de a corja chegar ao poder – houve bestas quadradas que exibiram legalmente esses títulos, não repugna que, hoje, integrem a matilha governamental  fulanos que usam o Dr. (mesmo ainda antes de “conseguirem” a ridícula “licenciatura”), que são Doutores (por extenso) e que se revelam perniciosamente incompetentes? Sabendo-se, como se sabe, das escandalosas despesas que a corja faz em seu benefício, e sabendo-se, como se sabe, de como tanta e tanta e taaaaanta gente “vive” esganada, na véspera da mais esfomeada morte, ninguém protesta, ninguém se mexe, ninguém reage? Roubam e invocam a lei em sua defesa? E toda a gente vai nisso? Há quem queira legislar contra o enriquecimento ilícito, contra a corrupção, contra a bandalheira generalizada, e as leis não saem, não são aprovadas, quando o são já estão cheias de buracos estratégicos por onde se escapulem os tais filhos de trabalhadoras do sexo, e nós damos conta disso e não temos maneira de reagir, de combater isso, de condenar isso, de mandar os filhos de trabalhadoras do sexo para o meato das trabalhadoras do sexo que os pariram? Banqueiro já foi título merecedor de respeito, pois foi? E hoje? Ser Professor Doutor era prestigioso, não era? E hoje? A começar pelo filho de uma trabalhadora do sexo mor, inquilino de um palácio lá pra Lisboa, quantos filhos de uma trabalhadora do sexo têm e exibem esse título e não passam de descendentes de rameiras, prostiputas, meretrizes, cabras, vacas, putas? Não será que muitos não se revoltam contra a cáfila porque têm uma secreta inveja por “eles” terem tido a esperteza de trepar ao poleiro de onde se desfruta a paisagem do gado ovino e se pode consoladamente sobre ele aliviar a tripa?  Não será que muitos não se revoltam contra corruptos e corrupção porque só lamentam não terem funções em que possam fazer favores remuneráveis?

 

Nem metade dos cem gramas gastei e tantas perguntas fiz!

Ainda me restam 950 grs (novecentos e cinquenta gramas) de pontos de interrogação.

E há tantas perguntas por fazer!

Por favor, Amigos e Companheiros, utilizem-nos!

Dou-os de graça!

E se derem resposta a algumas das perguntas que deixo ali pra cima… não sou só eu que agradeço! Não vou dizer que seja todo um Povo… Há os tais amorfos, acéfalos, átonos… Mas… se ajudássemos a construir um País a sério… não sei… podia ser que déssemos forma aos amorfos, cabeça aos acéfalos, tónus aos átonos…

Experimentem!

Deem resposta(s)!

Pelas alminhas!

                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                 Magalhães dos Santos

S. João da Madeira

6 de Dezembro de 2012

                                                                          . 

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por Augusta Clara às 16:00



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