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Jardim das Delícias


Sexta-feira, 13.11.15

Os bárbaros estão a chegar - Carlos de Matos Gomes

 

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Carlos de Matos Gomes  Os bárbaros estão a chegar

 

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   "Um governo de esquerda vai levar-nos a um novo resgate"- João Salgueiro

“Prefiro mil vezes os credores aos comunistas” - António Barreto

“Anticomunista, obrigada!” – Clara Ferreira Alves

Li, não sei onde, nem quando, talvez a propósito das invasões francesas, quando investigava para “A Estrada dos Silêncios”, uma história muito interessante sobre a necessidade do medo. De ter medo e de transmitir o medo. De uma sociedade cujos sacerdotes não sabem, nem podem viver sem o medo. Sem pregarem o medo.

Num local e num tempo que já não recordo, ao receberem a notícia de que um bando de bárbaros estava a preparar-se para invadir a sua cidade, ou vila, os habitantes entraram em pânico. “Os bárbaros estão a chegar! E agora? O que faremos?!” Tocaram os sinos a rebate. Parou tudo e as pessoas passaram a viver desaustinadamente, alimentando-se desse pânico. Nada valia a pena, porque os bárbaros estavam para chegar e seria um caos. Só que os anunciados invasores não apareceram. Era boato, ou desistiram de invadir aquela cidade. E o que antes era pânico tornou-se perplexidade: “Mas então os bárbaros não estão a chegar? E agora? O que faremos?”

O verdadeiro medo não está no novo, mas naquilo que deixamos para trás quando somos obrigados a mudar. É este o medo da direita representada pela PAF.

E, quando não somos obrigados a mudar, demoramos muito a decidir, ou a aceitar a mudança. É o caso de Cavaco Silva, perdido no seu labirinto de incapacidades e de congénita mesquinhez, sem saber o que fazer se os bárbaros estiverem a chegar, nem se, afinal, não houver bárbaros.

O que os textos destes representantes da intelligentsia nacional revelam é que eles vivem do medo. Nada de extraordinário numa civilização em que o poder assenta no convencimento da existência de um pecado original que diferencia ricos dos pobres, senhores e servos, no castigo terreno em nome de Deus para os recalcitrantes e no temor do Inferno após a morte.

 

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por Augusta Clara às 08:00

Terça-feira, 10.11.15

Unidos como os dedos da mão - José Goulão

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José Goulão  Unidos como os dedos da mão

 

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Mundo Cão, 8 de Novembro de 2015

   Hoje é um dia especial, um dia capaz de relançar a esperança das pessoas em Portugal. Não lhe chamemos histórico, não toquemos trombetas como é usual e burocrático fazer quando alguma coisa de importante acontece e ainda está apenas em estado de embrião – forte, é certo – mas submetido a uma gestação sob tempestades de calúnias e mentiras, a um nascimento ameaçado por golpes de malfeitores, a um crescimento à mercê de anunciadas barragens de fogo sem quartel.

O edifício político inovador em Portugal resultante do acordo entre o Partido Socialista, o Bloco de Esquerda e o Partido Comunista Português, ao qual está agregado o Partido Ecologista Os Verdes, é uma afirmação de vitalidade democrática num país onde a democracia tem estado sequestrada pelos que se olham como seus eternos proprietários. Os partidos citados têm maioria absoluta na Assembleia da República, um programa de governo que promete estabilidade durante a legislatura, o que significa legitimidade total e absoluta para governar nos termos da fórmula por eles acordada.

O processo beneficia de uma transparência onde se reflectem a vontade e a soberania populares. Portanto, qualquer outra solução governativa que venha a ser sugerida ou forçada pelo ainda chefe de Estado será ilegítima, corresponderá a um golpe contra a democracia. Sobre isto não resta qualquer dúvida, por muito que a mafia ainda governante se desmultiplique em manobras e mensagens inspiradas pelo terrorismo político e também sopradas pelos círculos autoritários e austeritários de Bruxelas ao serviço das quadrilhas económicas e financeiras internacionais.

A nova realidade política em Portugal é dominada por gente séria, que sabe o que quer para o país, que põe os portugueses acima dos negócios, que finalmente privilegia o que a une sobre o que a divide, que preza a soberania nacional. Toda uma situação que tem um potencial único para travar e começar a inverter as consequências trágicas da política de caos, desmantelamento e parasitismo a que os portugueses, com excepção das minorias servidas pelo governo cessante, têm estado submetidos.

O acordo político de governo agora estabelecido em Portugal é um marco na história dos últimos anos na União Europeia: uma machadada na imposição do regime de arco da governação, uma negação do bipartidarismo que passo-a-passo, baseado em manipulações também através de sistemas eleitorais, tem vindo a ser imposto como um disfarce mal-amanhado de um sistema de partido único pan-união. A nova realidade portuguesa é um exemplo de genuinidade democrática, uma afirmação livre da vontade popular que enfrenta corajosamente um sistema que se entreteve a destruir paulatinamente os mecanismos democráticos, procurando eternizar-se sem jamais ser questionado, qual ditadura light.

Hoje é um dia especial em Portugal. Abre-se uma porta que parecia irremediavelmente fechada. Honra às forças políticas e aos dirigentes que tiveram a ousadia – num ambiente de propaganda intimidatória interna e externa – de pensar em primeiro lugar nos portugueses, na restauração da dignidade do seu trabalho, dos seus salários e pensões, de direitos antes adquiridos e entretanto roubados, na reactivação do tecido económico nacional. De ousarem, em suma, travar o passo à austeridade, tenebroso sistema organizado para violação dos direitos humanos. O que surge, para muitos ilusionistas da política, como uma “aberração” ou uma opção “fora do tempo” pode ser, afinal, um tempo novo para Portugal, uma declaração de dignidade perante a indignidade europeia reinante.

A reacção está a ser e será ainda muito mais tremenda, intimidatória, avassaladora em termos de chantagens europeias e de propaganda, porque conhecemos o estado de sabujice e de manobrismo censório a que o sistema até agora reinante reduziu a comunicação social.

É importante ter a noção disso e de que a democracia, para o ser de facto, só pode ser fruto do combate diário e solidário dos democratas que se revêem nesta solução. A mudança potenciada pela nova realidade não poderá consumar-se apenas no hemiciclo e nos gabinetes de São Bento. Tem de ser tecida por todos nós, sobrepondo sempre, dia-a-dia, o que nos une ao que nos divide, formando uma barreira sólida, ombro-com-ombro e em todo o país, contra os interesses poderosos que manipulam e instrumentalizam a direita política.

O objectivo de devolver aos portugueses muita da dignidade perdida não foi atingido nem cabe unicamente ao governo fruto do entendimento entre PS, Bloco, PCP e Verdes. Apenas se concretizará com o empenho de todos nós, com muita coragem e toda a determinação frente aos que querem travar a mudança.

Hoje é um dia especial, um dia de partida para tempos melhores que estão apenas prometidos e que só o serão se formos capazes de lutar e agir unidos, unidos como os dedos da mão…

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por Augusta Clara às 08:00

Quinta-feira, 05.11.15

Partidas simultâneas - Alexandre Abreu

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Alexandre Abreu  Partidas simultâneas

 

 

 Expresso Diário, 4 de Novembro de 2015

 

A esquerda tem pela frente tempos de grande exigência, que terá de enfrentar com inteligência e responsabilidade

   Se, como parece provável, António Costa for em breve indigitado para formar governo com apoio parlamentar do PS, BE e CDU, os tempos que se seguirão serão de enorme exigência para a esquerda portuguesa. Não somente devido à urgência de reconstruir uma sociedade assente na justiça social e na decência, nem apenas em virtude dos constrangimentos que se colocarão à governação – mas também devido à necessidade de prosseguir simultaneamente objectivos políticos com tensões entre si. Esta exigência será enorme para toda a esquerda, mas sê-lo-á ainda mais para a esquerda à esquerda do PS, que não poderá deixar de prosseguir pelo menos três objectivos fundamentais.

O primeiro objectivo consiste em concretizar uma alteração profunda de política dentro dos constrangimentos do euro, da dívida existente e das regras orçamentais europeias tal como têm sido aplicadas, dando-se como assente que um programa de governo apoiado pela esquerda ampla não promoverá rupturas com estes constrangimentos. Escrevi sobre isto na semana passada, tendo então referido uma parte do muito que pode ser feito dentro destes parâmetros – ao nível da mais justa distribuição dos apoios e sacrifícios associados ao orçamento de estado, ao nível das alterações estruturais sem impacto orçamental directo (nomeadamente na regulação das relações laborais) e mesmo, por vias indirectas, ao nível dos impactos macroeconómicos diferenciados de diferentes formas de atingir a mesma meta orçamental. Mas não deixa de ser um objectivo muito exigente - e tanto mais quanto possa ocorrer uma deterioração das condições externas.

O segundo objectivo consiste em demonstrar a viabilidade política de um governo apoiado por uma maioria parlamentar que englobe o PS e os partidos à sua esquerda. Esta solução governativa constitui uma ameaça tanto maior para a direita e para as elites que esta representa quanto a geometria que consubstancia venha a consolidar-se no futuro. É por isso que a direita aposta tudo em que corra mal, através da dissidência de uma ou mais das bases de apoio desta solução política. E fará tudo – na comunicação social, na presidência da república e onde mais puder exercer pressão – para corroer a solidez desta aliança, deturpando palavras e intenções e promovendo a dissidência. É exactamente por esse motivo que a solidez desta aliança é crucial, e que a lealdade de todas as partes é fundamental.

O teste último do sucesso desta aliança, enquanto elemento de contestação duradoura ao domínio da direita, consistirá na capacidade de evitar rupturas traumáticas. Se a aliança se desfizer em resultado de tacticismos de curto prazo ou num ambiente de recriminação mútua – em suma, se as condições da separação constituírem um argumento favorável àqueles que, no seio destes três partidos, se opõem a este mesmo entendimento -, então a direita terá ganho. É por isso que é tão importante, no momento actual, alcançar um acordo político que encoraje a cooperação, dissuada a dissidência e, se absolutamente necessário, permita uma separação harmoniosa – e que o faça para um conjunto amplo de condições políticas e económicas.

Quanto ao terceiro objectivo, que dos três é o único que não é comum ao PS, decorre da consciência, à esquerda do PS, de que o euro, a dívida e as regras orçamentais europeias são impedimentos fundamentais ao desenvolvimento económico e à autonomia política nacionais. Contribuir para abolir esses constrangimentos é, por isso, um objectivo político de que a esquerda não pode demitir-se. Mas trata-se de um processo gradual, de consciencialização e mobilização de uma maioria social, que não deve sobrepor-se aos outros dois objectivos. Tenho alguma legitimidade para dizê-lo, visto que me conto há alguns anos entre os que têm procurado contribuir activamente para esse processo, inclusive quando essa posição era muito minoritária.

Nenhum destes objectivos é secundário ou dispensável para a esquerda, mas é evidente que existem algumas tensões entre eles. Daí a enorme exigência dos tempos que correm. Porém, é possível responder à altura, com base na compreensão das prioridades em cada momento e das diferentes temporalidades de cada um dos objectivos.

No curto prazo, é indispensável melhorar as condições de vida das pessoas e marcar a diferença face à governação da direita. No médio prazo, nada é tão importante quanto demonstrar a viabilidade e solidez políticas de um governo assente na esquerda ampla, construindo a confiança e resistindo às tentativas de desestabilização. O resto, podemos estar certos, virá a seu tempo.

 

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por Augusta Clara às 08:00

Sábado, 22.08.15

Atrocidade política - José Goulão

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José Goulão  Atrocidade política

 

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   Mundo Cão, 22 de Agosto de 2015

   A mais grave das atrocidades políticas entre as que continuam a ser cometidas em Portugal, com a banalidade de quem bebe um copo de água, está a ficar soterrada sob o chorrilho de intrigas e boçalidades proferidas neste período pré-eleitoral, no qual a discussão se trava em reles tons futeboleiros.

Quando o deputado e candidato governamental Carlos Peixoto disse o que lhe vai na alma fascista, vertendo em palavras a essência da política do governo em relação aos reformados, pensionistas e idosos do país – emigrantes incluídos – as centrais de propaganda, atentas às inconveniências que podem perturbar o desejado andamento do circo eleitoral, chutaram rapidamente o assunto para a secção das fofocas.

No entanto, o que Carlos Peixoto disse, deitando as culpas do estado a que o país chegou para cima da “peste grisalha”, é um acto político relevante, grave e criminoso, que não pode cair no silêncio e no esquecimento. A declaração de Peixoto é todo um programa político governamental, é a exposição crua de uma mentalidade de governo, vale por mil discursos de ministros, milhões de arengas de deputados, biliões de promessas mentidas ao domicílio de cada eleitor.

“Peste grisalha” representa, no cenário político português, o mesmo que a “praga” de que o primeiro ministro britânico Cameron se queixa a propósito dos refugiados que pretendem encontrar na Europa o abrigo para as guerras levadas aos seus países por essa mesma Europa. São expressões de mentes segregacionistas, da mesma massa de que se fazem os exterminadores para quem cada ser humano é descartável e se reduz à expressão simples de um cifrão.

A “peste grisalha” a quem o candidato governamental Peixoto deseja que seja breve o caminho para os cemitérios ou para os fornos crematórios, é culpada de uma coisa, sim senhoras e senhores: a de ter conseguido que o país ainda exista apesar dos desmandos das cliques governamentais que o assaltaram. Essa “peste grisalha” ainda aturou décadas de vigência dos transtornos psicopatas fascistas, recebeu como bónus alguns meses do ar livre de Abril para, logo depois, voltar a ser perseguida pelo extenso bando de cleptocratas que, desde a chamada do FMI e o aprisionamento do socialismo na gaveta aos aios da senhora Merkel, mais não fez do que sugá-la. Essa “peste grisalha” assistiu à oferta de bens públicos e nacionalizados aos que sempre saquearam o país, à venda ao desbarato das riquezas e empresas que também lhe pertenciam; observou, com impotência absoluta, a desgraçada entrada na CEE e a criminosa invasão do euro que nos destruiu os campos, os mares e a indústria; e agora é obrigada a pagar parte de leão dos desvarios de uma dívida incobrável pela qual não é responsável, dívida essa que resulta de um regime em que a democracia apodreceu em forma de cleptocracia.

“Peste grisalha” é um autêntico programa de governo, repito. Vale por uma agenda real que se sobrepõe a toda a qualquer promessa dirigida aos portugueses menos jovens pelos candidatos do arco governamental. O conceito de “peste grisalha” é um dos que ficará depois de esfumados os ecos das romarias eleitorais de uma democracia virtual. O conceito de “peste grisalha” é uma atrocidade política, é certo, mas é a única declaração de princípios de quem não tem quaisquer outros princípios, palavra de ordem sagrada para os que pretendem continuar com as atrocidades governamentais.

As acusações à “peste grisalha” ficam até agora, por muito infames que sejam, como os únicos lampejos de verdade apresentados aos eleitores por todas as áreas que se dizem vocacionadas para governar, as mesmas para quem um euro é um euro e uma pessoa é um estorvo, a não ser que já se tenha rendido a beijar o chão pisado pelos donos disto tudo.

 

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por Augusta Clara às 16:30

Sexta-feira, 26.06.15

Os grumetes das naus e as regras da casa - Carlos de Matos Gomes

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Carlos de Matos Gomes  Os grumetes das naus e as regras da casa

 

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   Há poucos dias, a propósito da recusa da Grécia em aceitar os diktat da troika, de o governo grego não fazer aos gregos o que o seu governo faz aos portugueses, Passos Coelho disse esperar que o governo de Atenas «respeite as medidas» da moeda única e da União Europeia e resmungou que a Grécia tem gozado dentro da «casa europeia» de solidariedade e de «alguma excepcionalidade». Quanto às declarações do ministro das finanças grego, que disse não reconhecer a troika como interlocutora válida, Passos Coelho vincou que «todos têm de respeitar as regras que existem na casa».

Cavaco Silva, tal como Passos Coelho, entende que «a Europa não pode ceder a chantagens no caso grego», que a Grécia tem de cumprir as regras da casa. Portugal, não é a Grécia, como têm repetido o presidente da República e o primeiro ministro. Portugal cumpre as regras da casa. Ora, a propósito das regras da casa, existem regras que são para respeitar e regras que são para rejeitar. Tem sido assim ao longo dos tempos e a essa luta contra «as regras da cas» chama-se processo histórico.

Algumas das «regras da casa» que a tomada de consciência dos povos tornou obsoleta, por violadora de princípios básicos, está registada em várias obras de circulação relativamente restrita. Entre elas pesquei-as no livro do historiador Fábio Pestana «Por mares nunca dantes navegados: a aventura dos Descobrimentos», onde ele descreve algumas regras da casa nas embarcações portuguesas na época dos gloriosos descobrimentos e em algumas instituições eclesiásticas.

«Quando não havia mulheres a bordo, os grumetes, que na hierarquia se situavam abaixo dos marinheiros, eram obrigados a satisfazer sexualmente a marujada. As relações realizavam-se pela força bruta, ou pelo peso das hierarquias, que obrigava os mais humildes a satisfazer as vontades dos seus superiores, a despeito de serem crianças entre 9 e 16 anos. Quando tentavam resistir à sodomização, eram estuprados com violência. Por medo ou vergonha, dificilmente se queixavam aos oficiais, até porque, muitas vezes, eram os próprios oficiais que permitiam ou praticavam tal violência. Em suma, imperava a lei e a moral do mais forte.» Também eram estas as regras em certas casas eclesiásticas, «onde os jovens, além de aprenderem as ciências e a piedade, eram iniciados em práticas sexuais homoeróticas, chamadas "relaxações".»

 

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por Augusta Clara às 10:00

Terça-feira, 23.06.15

Demasiado lampeiros para serem sérios - José Pacheco Pereira

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José Pacheco Pereira  Demasiado lampeiros para serem sérios

 

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Público, 20 de Junho de 2015

 

   Então como é? O país está mal ou não está? Está. Então deixem-se de salamaleques politicamente correctos.

A língua portuguesa está cheia de palavras certíssimas para designar quase todas as cambiantes do comportamento humano. Escritores como Vieira, Bernardes, Camilo, Eça e Aquilino, levaram-na tão longe, que em português tudo se pode dizer, todas as infinitas flutuações das pessoas encontram uma ágil palavra para as designar.

Agora que a nossa bela língua está a ser atacada por todos os lados, na sua ortografia, na sua complexidade vocabular, na sua riqueza expressiva, é sempre bom encontrar um refúgio nos falares antigos, ou naqueles que pouco a pouco estão a ser esquecidos por falta de uso. A semana passada falei de “tresvaliar”, palavra de Sá de Miranda, e esta semana Fernando Alves na TSF fez uma crónica sobre “surdir”, palavra usada por Camilo (sempre ele) e Eça, tudo palavras esquecidas.

O que se passa hoje é como se, invisivelmente, se estivesse a realizar uma das funções essenciais que Orwell atribuía ao Big Brother, que era tirar todos os anos algumas palavras de circulação, porque sabia que é mais fácil controlar pessoas cujo vocabulário é restrito e que, por isso, tem dificuldades em expressar-se com clareza e riqueza e, em consequência, dominam menos o mundo em que vivem. O incremento de formas de expressão quase guturais como os SMS e o Twitter, apenas dá expressão a um problema mais de fundo que é desertificação do vocabulário, fruto de pouca leitura, e de um universo mediático muito pobre e estereotipado. Salva-nos o senhor Vice-Primeiro Ministro Portas que anda para aí a dizer que as “exportações estão a bombar”, convencido que ninguém o acha ridículo no seu afã propagandístico. Viva o Big Brother!

Tudo isto vem a propósito da palavra que mais me veio à cabeça – bem sei que uma cabeça muito deformada pelo “ressabiamento” por este governo não me ter dado um cargo qualquer – quando ouvi o debate parlamentar com o Primeiro-ministro na sexta-feira passada. Como ele está lampeiro com a verdade! Lampeiro é a palavra do dia.

Lampeiros com a verdade, neste governo e no anterior, há muitos. Sócrates é sempre o primeiro exemplo, mas Maria Luís Albuquerque partilha com ele a mesma desenvoltura na inverdade, como se diz na Terra dos Eufemismos. E agora Passos deu um curso completo dentro da nova tese de que tudo que se diz que ele disse é um mito urbano. Não existiu. Antes, no tempo do outro, era a ”narrativa”, agora é o “mito urbano”.

 

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por Augusta Clara às 08:00

Sábado, 21.03.15

As máximas vergonhas de Portugal. A moral da UE. A desgraça do estar-vivo nisto - António Pinho Vargas

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António Pinho Vargas  As máximas vergonhas de Portugal. A moral da UE. A desgraça do estar-vivo nisto

 

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   Portugal podia ter tido a crise-pretexto para sacar dinheiro às populações, podia ter o governo mais à direita que existiu, podia ter desempregados na desgraça e velhos maltratados e jovens emigrantes em grande quantidade, podia ter o mais ridículo presidente, podia até não ter Syrisas nem Podemos, nem nada. Podia mas não devia. Mas, ainda por cima, ter toda esta pouca vergonha que se sucede, caso após caso, episódio após episódio, que nos faz desconfiar de que nos antros do poder, de todos os poderes financeiros, políticos e judiciais, circula uma grande uma enormíssima quantidade de vigaristas, de esquecidos das próprias vigarices, de irrevogáveis e quejandos, de inúmeros casos de tráfico de dinheiro em direcção aos próprios bolsos, que nos faz ver claramente visto que "as reformas" dos discursos eram apenas conversa fiada para justificar tudo o que foi feito quando, afinal, a reforma que devia ter sido feita era varrer toda esta gente que se tem em alta consideração - mesmo quando mente descaradamente - e ela, essa gente, é que era o problema principal do país: as elites financeiras, políticas e económicas, com umas pouquíssimas excepções. Ninguém tem vergonha de nada, e por isso, tudo junto, um e outro dia, sem parar, torna-se verdadeiramente insuportável.

Ninguém se pode admirar que eu vá sabendo das coisas pelos jornais - chega perfeitamente - e não veja televisão. Não quero ver o espectáculo desta miséria, nem a miséria deste espectáculo, que mais parece um polvo, no sentido mafioso do termo, a falar por múltiplas bocas. Mas até uma máfia deve mostrar alguma competência; se não mostra nenhuma deixa de ser digna do seu nome: máfia.

Nem isso conseguem ser: é uma "coisa" mais desorganizada, mais incompetente, mais idiota, mais inculta - mas quão inculta nos seus fatos de bom corte e cabeças ocas e vazias - do que os famosos italianos. 

Como foi possível que o enorme dinheiro que veio da Europa para cavaco parecer competente e que foi parar aos primordiais bolsos corruptos e hoje apenas se possa contemplar quando vemos umas auto-estradas? Todo o resto foi mal gasto, mal aplicado, gasto em boas roupas enquanto houve dinheiro para ir ao bar pós-moderno da moda ou, provavelmente em mais casos, desapareceu talvez nas Ilhas Caimão, ou em Cabo Verde ou nos milhares de offshores do, mais que alguma vez foi, imoral capitalismo actual. Não há ponta por onde se pegue. Perante as medidas do governo grego, justas e urgentes para muitos dos que lá vivem, a Europa, ou melhor dizendo, aquela associação de malfeitores conhecida pelo nome de "credores" tremem: ai que o nosso dinheirinho que tão generosamente lhes oferecemos, para ser gasto em aviões, submarinos e privatizações futuras, vai servir para pagar a electricidade de quem não tem dinheiro para a pagar. Bandidos! Comunistas! O dinheiro é nosso e das nossas ilustres instituições financeiras. Enquanto levámos estes países para a desgraça colectiva dizíamos: "estão no bom caminho", "as reformas vão no bom caminho". Agora, dinheiro tão ilustre, tão fino, tão puro na sua original sujidade intrínseca, nas mãos de umas velhotas gregas na desgraça? Pode lá ser!.

É esta a "moral" da UE.

APV

 

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por Augusta Clara às 08:00

Sexta-feira, 30.01.15

PT e TAP: O milagre da filosofia - Carlos Matos Gomes

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Carlos Matos Gomes  PT e TAP: O milagre da filosofia

 

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   Instado (boa palavra!) pela bancada parlamentar do BE a impedir a venda da PT Portugal, o primeiro-ministro reiterou que a filosofia deste Governo passa por não interferir em matéria privada.

Instado (esta é minha) pela opinião pública a não privatizar a TAP, Passos Coelho reiterou que a filosofia deste Governo é transformar a matéria pública em privada, para depois não interferir nela e assim manter a sua pureza ideológica e ser filosoficamente coerente.

A filosofia (como Passos Coelho chama à sua governação) do governo para a TAP é fazer dela uma PT com dois claros objectivos: proporcionar à TAP o indesmentível e claro sucesso que a PT tem sido, em particular nos últimos dias, e deixar de interferir nela, do género eles que voem para onde quiserem e não me chateiem.

O caderno de encargos da venda da TAP é entre o confuso e o obtuso, como já era o da falecida PT, mas, segundo Passos Coelho, garante tudo o que a TAP actualmente é, como se prometeu com a PT, quartel-general em Portugal. Voos preferenciais para as rotas da emigração portuguesa e os destinos de interesse estratégico, manutenção das aeronaves segundo os manuais, tripulações competentes, enfim, uma companhia de bandeira como a que hoje existe, decente e até, segundo a última versão de Passos Coelho, sem despedimentos nos primeiros 30 meses daquele tempo, em que, segundo a filosofia de Passos Coelho, segundo a filosofia deste governo, já não interferirá em matéria privada.

Ninguém acredita que apareça um comprador que cumpra estas condições (ou compra e não cumpre, ou cumpre e não compra) e o início do processo da venda da TAP a 8 meses de eleições é mais do que uma intenção duvidosa: é uma confissão de intenções ocultas. Ninguém nem os sindicalistas da TAP que assinaram o acordo com o governo a prometer estas solenes garantias por parte do comprador da companhia acreditam nas promessas. Ou então estudaram filosofia na escola de Passos Coelho. Ou, tal como ele nos quer fazer acreditar, não devem ter ideia do que é uma companhia privada, comprada por fundos apátridas e gerida por mercenários pagos por cada escalpe feito. Ou então esperam receber uns restos dos despojos.

Seguindo a filosofia que Passos Coelho, instado, desenvolveu quanto à não interferência em matéria privada, conviria que ele explicasse aos cidadãos (e aos sindicatos) o que vai o governo fazer, sem intervir, claro, se o novo dono privado da TAP fizer como o dono da PT (e o da CIMPOR) tudo o que lhe apetecer ao contrário do que assinou? Lava como Pilatos as mãos. Salmodia que o governo é liberal e não se mete com negócios de empresas privadas e manda os ofendidos irem para tribunal.

É uma resposta de acordo com a filosofia do governo. Onde o ministro da saúde também filosofa quando diz aos familiares de um paciente abandonado numa maca e ali acabado de falecer: têm toda a razão, mas é um assunto privado, vão para os tribunais! O governo não interfere em matéria privada, como a das urgências.

Espera, o citado filósofo do ministério da saúde, que os tribunais ressuscitem os mortos, tal como Pedro Passos Coelho espera e promete que os tribunais, ao fim de umas décadas de trabalhos, reconstruam uma TAP, que entretanto já deve ter perdido até o nome, que viu serem vendidos dezenas de vezes os aviões, os edifícios, os serviços, as rotas, dispersas as tripulações.

Depois de muito instado, Passos Coelho reconheceu que vai começar a fazer milagres!

Quanto aos sindicatos que assinaram o acordo e estão à espera dos restos do saque com a prometida participação (10%?) no capital da empresa, devem reconhecer que acreditam em milagres…

 

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por Augusta Clara às 08:00

Sexta-feira, 23.01.15

Juntos, afinal, não podemos - Carlos Matos Gomes

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Carlos Matos Gomes  Juntos, afinal, não podemos

 

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   É o título do artigo de Rosa Pedroso Lima, no Expresso de 17 de janeiro a propósito das disputas entre fações de um movimento político que já se tinham desprendido de outras, que, por sua vez, já eram resultado de detritos de outras. São pessoas conhecidas e experientes na matéria. São por princípio bem intencionadas e voluntariosas. Acredito que pretendem o melhor para Portugal e para o mundo. Têm, do que sei, brilhantes capacidades intelectuais. A grande questão é que correspondem áquilo que Millôr Fernandes escreveu na apresentação (julgo) de O Pasquim: cada exemplar é um número e cada número é um exemplar.

Estas pessoas, sem dúvida respeitáveis, pertencem a uma espécie muito comum numas certas esquerdas: são bonsais de grandes líderes. Têm tudo para ser grandes, os genes, as ideias, o projecto único de salvação, só lhes falta a grandeza, a dimensão, o volume. São seres únicos, infelizmente o ambiente não lhes proporcionou as condições para crescerem e se afirmarem. E têm ainda uma outra característica: são insolúveis. Não servem para fazer cimento. Incorporam a água e transformam-se imediatamente em pedra. Também são incuráveis. Têm a vantagem de ser previsíveis. Já repetiram tantas vezes o mesmo número que é fácil perceber que quando se apresentam para fazer uma união, quando afirmam que podemos trabalhar juntos, quando propõem uma aliança, um bloco, é certo que cada um traz as suas granadas de efeitos especiais prontas a lançar.

São dissidentes militantes. Anarquistas (se há um governo sou contra) que tentam contrariar a sua natureza. Ao vê-los à porta, o diabo diria, com o cinismo dos velhos, peguem nas brasas e vão fazer o vosso inferno noutro lugar.

Estas pessoas são do melhor que qualquer organização pode desejar para a dirigir, desde que essa não seja um navio que necessite de tripulação, ou um corpo de bombeiros, nem uma equipa médica, ou qualquer empresa cuja actividade obrigue a realizar uma tarefa com princípio, meio e fim. Serão adequados para escalar o Everest, por exemplo, ou saltar de paraquedas, ou fazer bolas de sabão, o problema é porem-se de acordo sobre quem criou o mundo assim. Só representam um perigo quando são levados a sério.

Num momento em que a sociedade portuguesa necessita, como alguém disse, de um programa de emergência para evitar maiores danos e criar as condições para uma recuperação, convinha deixar estas estrelas do universo nos seus solilóquios, sem as incomodar, dispensando-as de se misturarem com quem terá de deitar mãos à obra. É que elas não podem, nem juntas, e ainda menos sós.

 

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por Augusta Clara às 08:00

Terça-feira, 23.12.14

Teremos perdido de vez a capacidade do riso? - António Pinho Vargas

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António Pinho Vargas  Teremos perdido de vez a capacidade do riso?

 

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         Não seria caso para grande admiração face às desgraças do mundo e do nosso mundo. Há muitos filósofos ainda vivos que admiro mas aquele que parece ser o único capaz de me fazer rir é Peter Sloterdijk. Vejamos esta passagem: "A crítica moderna da ideologia [a crítica iluminista contra as velhas crenças] separou-se funestamente das poderosas tradições do riso do saber satírico que mergulham as suas raízes filosóficas no kinismós antigo [de Diógenes, por exemplo]. A crítica moderna da ideologia arvora a peruca da seriedade e enverga até o fato e a gravata, mesmo no marxismo, e sobretudo na psicanálise, para não lhe faltar em matéria de respeitabilidade burguesa. Despojou-se da sua essência crítica para conquistar o seu lugar nos livros como "teoria". Abandonou a forma viva de uma polémica calorosa para se acoitar às posições de uma guerra fria das consciências" (Crítica da Razão Cínica. p. 44 da tradução portuguesa do meu velho amigo Manuel Resende, que não vejo há mais de 20 anos).

Julgo que o lado mais negro da situação actual em Portugal, para além das verdadeiras desgraças e dos dramas que temos de passar - que tiram a vontade de rir ao mais pintado - reside no facto de quase só haver riso quando ele é estabelecido à priori, como já instituído, nos programas de humor. Perde em espontaneidade e em eficácia. Faz lembrar as gargalhadas pré-gravadas de programas de humor americanos, não vá o público não perceber as piadas, não perceber que "aquilo" era para ter piada. Na maior parte dos casos não tem piada nenhuma. Mas, por aqui, a maior parte deles não me faz rir, por uma razão simples. Ando tão mal disposto que já não os vejo sequer. Tornei-me cinzento sendo que a minha música, se é capaz de alguma coisa, é de fazer chorar, pela via misteriosa das emoções que desencadeia em alguns.

Para além do inesquecível dia 15 de Setembro de 2012, a outra iniciativa que recordo organizada pelo grupo "Que se lixe a troika" - que no seu próprio nome tinha a data marcada - foi a das gargalhadas quando ouviam uma gravação de Cavaco. Este foi um acto subversivo. Aqui reside um assunto sério: o marxismo de fato e gravata tornou-se previsível e sempre sério, nas suas lutas dentro de limites muito bem traçados. Se ganhou "credibilidade", como estes agora gostam de dizer, se "enquadrou as lutas", como dizem outros, perdeu seguramente em capacidade de "subverter". Subverter é uma arte difícil de praticar. Mas para dar um exemplo que me diz respeito, pensar que a música portuguesa é subalterna e algum dia poderia deixar de o ser, mereceria da vossa parte uma enorme gargalhada como resposta e alguns comentários: "O tipo está maluco? Alguém o poderá levar a sério?" Na verdade seria totalmente merecida essa gargalhada cínica. Terei talvez enlouquecido de facto com "a teoria".

Este governo e uma boa parte da oposição seria igualmente bem tratada dessa forma: à gargalhada subversiva. Enquanto que noutros países, Espanha e Grécia, a austeridade desencadeou alterações de vulto do panorama partidário, em Portugal apenas se vislumbra timidamente. Peppe Grilo, por sinal, no país da comédia napolitana por excelência, foi o único que não se aguentou provavelmente porque não tinha substância política nem grande sentido de humor. A fixidez em Portugal talvez derive, ou seja um efeito secundário, do marxismo de fato e gravata descrito por Sloterdijk. O "fato e gravata" de Sloterdijk é uma metáfora de "ser teoria" e não tem nada de literal. Um marxismo que prossegue na sua luta com algumas palavras de ordem com dezenas de anos. Gritadas com a máxima convicção. Há um lado meu que sente sincera admiração nesses momentos. Mas há outro que vê a ineficácia, o adiamento 'sine die' de qualquer transformação, no meio do que é dito com sincera e militante convicção pelos sindicatos, por exemplo. No entanto o empobrecimento está consumado.

Mas nunca se riem e o riso - tipo "que se lixe a troika" - talvez fosse mais subversivo do que aquela repetição séria, para não falar de algumas ameaças que pudemos ouvir várias vezes: "Se não vai a bem, vai a mal". Não foi, nem a bem nem a mal. Mas valera não o terem dito se não tinham meios para avançar para o "ir a mal". Foi apenas retórica da ocasião e, nesses casos, quem se ficou a rir foi Passos e Portas, este, o maior comediante que aqui existe. Voltou a rir-se com a prescrição dos submarinos. De cada vez que ele fala, com o seu fato de estadista, se nos desatássemos todos a rir, talvez ele não achasse graça nenhuma e mais não mereceria. O facto de termos de o continuar a levar a sério é o máximo exemplo da degradação da nossa vida pública e o sinal da nossa incapacidade de subverter o horrível-cómico que nos afecta. Horrível porque os vários tipos de sofrimentos reais não tem graça nenhuma, tal como o empobrecimento de todo um país e de meio continente, com as conhecidas excepções milionárias. Cómico porque consegue continuar a actuar como que se fosse sério, o que é cómico em si mesmo. Espero sinceramente que perca a vontade de rir nas próximas eleições. Não faço ameaças - tipo "vai a mal" - porque todos sabemos (julgo) que não seria verdade. Tenho apenas uma expectativa de uma mudança qualquer.

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por Augusta Clara às 08:00



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