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Jardim das Delícias


Domingo, 20.12.15

Mondo perdido - Adriana Costa Santos

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Adriana Costa Santos  Mondo perdido

 

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Chegada à Paz (Visão), 19 de Dezembro de 2015

No campo de refugiados há um rapaz que ajuda discretamente nas limpezas. Também é refugiado, só que não sabe.

   Mondo é o rapaz que limpa as casas de banho do campo. Reparei nele quando nos faltou e a sujidade se arrastou por três dias. Também é refugiado, mas não sabe. O problema é que, ao contrário dos que agora chegam, ele tem já quatro anos de história aqui, esquecido pelo mundo e pelas gentes, sem sonhos nem dignidade.

Quando, em 2011, as primaveras árabes incendiavam o norte de África e o Médio Oriente, chegaram-nos imagens de barcos sobrelotados de migrantes fugidos da guerra a dar à costa em Espanha, Malta e Itália. Mondo tinha vinte anos e apanhou um desses, que o levou da Tunísia até ao caos de Lampedusa.

Após doze horas de viagem numa modesta embarcação com mais de setenta pessoas, o combustível chegou ao fim e os migrantes ficaram perdidos no meio do mar. Um navio de pescadores cruzou-se no seu caminho e rapidamente se afastou, com medo daqueles olhares desesperados. Esperaram várias horas, até a polícia marítima italiana os resgatar e levar até à costa.

Na primeira semana, foi transportado de Lampedusa para Roma, onde permaneceu três dias, e dali passou para Bari. Contou-me que os migrantes eram deixados à sua sorte e autogoverno num edifício do Estado. Assistiu e sobreviveu a cenas de violência, à falta de higiene, a incêndios nos quartos, mortes e deportações. Um dia, conheceu um seu compatriota que seria deportado para a Tunísia na manhã seguinte. "Se quiseres sair deste centro", revelou-lhe, "tens de mentir, não há outra hipótese. Tens de dizer que és menor".

Mondo assim fez, fugido da sua terra em chamas, sem qualquer documento que o comprovasse, afirmou em tribunal que tinha apenas 17 anos, tendo sido logo encaminhado para uma "Casa-Família" em Lecce, lar que partilhou com tantos outros jovens na sua situação. Voltou a fazer o 9º ano, trabalhou em restaurantes a lavar pratos, arrumou carros e pediu dinheiro na rua. Quando fez 18 anos teve de abandonar a casa e fazer-se à vida.

Conta-me que viveu na rua e que conheceu as pessoas erradas. "Meti-me em problemas de que não tinha capacidade de sair". Um dia bebeu demais e invadiu uma casa. Quando a polícia o encontrou, disse que só procurava um sítio para dormir. Acredito que tenha omitido os verdadeiros contornos da história, com medo de perder a minha confiança, mas não quis interromper a sua narrativa. Em tribunal, foi condenado a seis meses de prisão. Cumpriu a pena e saiu em liberdade. Voltou a pedir nas ruas e, passado pouco tempo, voltou à prisão por roubar. Foi obrigado a abandonar o país.

Passou pela França, Alemanha e agora está na Bélgica. Sobreviveu de esmolas, sopa dos pobres, má vida, duches públicos e centros de acolhimento. Hoje tem 25 anos e vive numa casa abandonada com outros três "Sans Papiers", imigrantes ilegais, sem papéis, sem dignidade, sem família, sem sonhos, sem vida.

Quando, em setembro, o antigo campo de refugiados começou a crescer, Mondo passou por lá à procura de comida e roupas. Estava na Bélgica há pouco tempo e dormia na rua. Deram-lhe um lugar numa das tendas. Foi começando a ajudar, apanhou lixo e traduziu de árabe para francês. Com o encerramento do campo, passou diretamente a trabalhar aqui no Hall Maximilian e tornou-se, sem nunca ninguém o ter nomeado, no responsável da limpeza.

Quando cheguei, disseram-me para ter cuidado com ele, que era ladrão. Era esse o dia do seu aniversário. Veio apresentar-se, com um discurso sedutor, soube que ele falava italiano e escrevi "Parabéns Mondo" num papel com várias cores para lhe oferecer. Parti do princípio que não podia confiar nele, mas nunca o dei a entender. Muita gente ali o tratava com desprezo.

Defendi-o. Ou tínhamos provas e o mandávamos embora, ou o deixávamos ficar, sem lhe roubar o bocadinho de dignidade que ainda lhe resta. Comecei a perceber que ele levava comida e roupas na mochila, mas resolvi ficar calada. Um dia foi apanhado em flagrante e um dos coordenadores do campo chamou-o à parte. "Já há muito tempo que sei que vens aqui para roubar", disse-lhe, "sei bem as dificuldades por que passas, mas a nossa tolerância chegou ao fim e esta situação tem de acabar. Deixo-te agora duas hipóteses: nunca mais apareces e vais roubar para outro lado, ou te tornas digno de confiança e ficas connosco, vamos dar-te roupa e a comida de que precisares, amigos e uma família com que poderás sempre contar".

Mondo decidiu ficar. Uma vez por mês tem direito a escolher roupa e sapatos para si e, todas as semanas, o responsável da comida dá-lhe um saco de mercearias para ele levar para casa. É dos primeiros a chegar e dos últimos a sair, anda sempre com uma coluna portátil a tocar música e limpa o centro com um sorriso constante.

Tem os braços cheios de pequenos cortes. Quando reparei, explicou-me que não sabia por que o fazia, que simplesmente acontecia, quando estava mais revoltado. "Estes já são antigos. Desde que cheguei a Bruxelas, só o fiz uma vez", revela-me com o sorriso de sempre, "os mais profundos, fi-los na prisão em Itália".

A sua mãe vive na Tunísia. De cada vez que falam, pergunta-lhe entre lágrimas se ele consegue comer e implora-lhe para que nunca volte. Antes de fugir para a Europa, Mondo tirou um curso profissional de cabeleireiro, abriu o seu próprio salão na garagem de casa e lá trabalhou dois anos, até que a violência e a instabilidade levaram a família a fechar as portas, com medo de morrer no meio dos disparos. Usou o dinheiro que lhe restava para apanhar o barco em busca da liberdade e da paz. Em troca, deixou para trás todas as hipóteses de dar sentido à sua vida, para lá da sobrevivência.

Mondo é um filho da injustiça do mundo em guerra, que não distingue pessoas de números, um delinquente a quem nunca foi dada uma oportunidade de escolher o caminho certo. Talvez seja este o início de uma história mais bonita ou talvez o campo feche e Mondo volte a roubar, sem hipóteses de trabalho legal e de uma vida digna.

Um dia revelei-lhe que tinha medo do escuro. Riu-se muito, respondeu-me que não tinha medo de nada. "Na casa onde eu estou, não há eletricidade, daqui a umas horas o sol põe-se e eu volto para dormir, na total escuridão". "Mas não te preocupes", disse-me, "já estou habituado".

Apesar das dificuldades por que têm passado, os refugiados desta nova vaga não se viram ainda em situações de total perda de esperança no mundo que habitamos. Abandonaram os seus países há pouco tempo, têm tido cama, roupa e comida, ainda não precisaram de pôr os seus princípios de lado. Precisam de ajuda e de recomeçar, mas na via da legalidade. Espero que os Estados europeus o percebam a tempo e que não os deixem cair. Que lhes deem espaço para a integração, para participarem na nossa sociedade e economia como iguais. Que o trabalho seja mais eficaz do que aquele que foi feito com o meu amigo Mondo, o miúdo ilegal.

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por Augusta Clara às 08:00

Sexta-feira, 19.09.14

Entrevista com o arqueólogo Cláudio Torres, conduzida por Paulo Barriga

 

Cláudio Torres fala sobre os estilhaços da Primavera Árabe

 

 

 

Diário do Alentejo, 12 de Setembro de 2014

 

   A fragmentação da Síria e do Iraque. O eternizar da guerra na Palestina. O choque de interesses no Médio Oriente entre a Arábia Saudita, Israel e Irão. A criação do nono Estado Islâmico. A barbárie que todos os dias nos entra em casa pela janela televisiva. A ameaça de ataques terroristas na Europa. E, mais recentemente, a grande campanha de jovens jihadistas pela reconquista do território do Al Andaluz, que corresponde na generalidade à Península Ibérica, são os pontos de partida para esta grande entrevista com Cláudio Torres, arqueólogo, diretor do Campo Arqueológico de Mértola (CAM). Um verdadeiro laboratório sobre o passado árabe na Ibéria que hoje está financeiramente “bastante mal”, embora sempre preparado para “novas aventuras”.

 

Entrevista Paulo Barriga

Enquanto investigador das culturas do mundo árabe e mediterrânico, como observa o desmembramento e até a anarquia que se instalou em alguns países, após a chamada Primavera Árabe?

Não creio que seja correto falar do mundo árabe em geral quando nos referimos aos últimos acontecimentos políticos que têm agitado o norte de África e o Próximo Oriente. Se pode ter havido alguma contaminação inicial entre os acontecimentos que eclodiram na Tunísia e, de certa forma, a explosão urbana no Egito, é o único caso que pode servir de exemplo às revoltas incluídas mais tarde na chamada Primavera Árabe. Senão vejamos: a Argélia, apenas emergente de uma longa guerra colonial, continua ainda a manter um equilíbrio precário e onde o fundamentalismo religioso tem sido mais ou menos controlado pelo exército. Marrocos, para já, mantem-se dominado por um regime musculado. O caso da Líbia assemelha-se mais ao que se passou no Iraque e Afeganistão, onde, cavalgando e alimentando descontentamentos populares, foram os interesses petrolíferos a justificar a intervenção estrangeira. Neste caso, onde inicialmente foram criados e fortemente armados grupos de guerrilha fanatizada, estes três países foram praticamente destruídos para que as grandes empresas petrolíferas americanas e inglesas recuperassem o controlo sobre o ouro negro destas antigas colónias que, por acidentes históricos, tinham escapado da sua esfera de influência. A Síria e o Líbano, vistos inevitavelmente em conjunto, são outro caso diferente que está certamente relacionado com as feridas deixadas pela Guerra Fria. Tem sido um campo de batalha entre as grandes potências em que o jogo no terreno tem pertencido à Arabia Saudita e a Israel, por um lado, e ao Irão, pelo outro.

Em termos estruturais, pelo menos em termos culturais, é possível constituírem-se sociedades democráticas, ao jeito europeu, nos países islâmicos da bacia do Mediterrâneo?

Também aqui há casos muito diferentes. A Tunísia, o Líbano e a Turquia que, por razões históricas, estão mais próximos da cultura europeia, já construíram referentes que certamente vão permitir uma melhor assimilação dos chamados valores da democracia ocidental. Os outros países são casos muito diferentes. Ou porque têm, eles próprios, um poderoso mosaico de culturas, como o Irão, a Síria, e o Egito e mesmo os farrapos em que foi retalhado o Iraque. Os casos da Argélia e de Marrocos são parecidos no seu esforço recente de recuperar a sua identidade histórica ligada indissociavelmente à cultura amazigh-berbere.

Hoje em dia quase que existe uma espécie de muro a separar os hemisférios Norte e Sul do Mediterrâneo. De onde advém esta falta de compreensão e de adaptação mútuas entre povos que durante milénios partilharam o mesmo caldeirão cultural?

Historicamente os habitantes das margens norte e sul do Mediterrâneo sempre pertenceram às mesmas famílias e à mesma cultura. Depois do desmembramento do Império Romano e da formação na Europa e no Magreb de vários países, o Mediterrâneo continuou a ser a grande plataforma comum para os intercâmbios comerciais e culturais até aos movimentos militares da Reconquista, a partir do século XII. Sob a capa de um movimento religioso, Roma tenta reconstituir o império assimilando todo o Mediterrâneo e cristianizando o Sul muçulmano. É neste contexto que decorre a Idade Média e que se afirma no Sul, como reverso da medalha, o Império Otomano. A sua derrota nos tempos modernos motiva a ocupação colonial de todo o Sul, transformando todos estes países em simples apêndices da Europa capitalista. A violência desta ocupação é bem patente na Guerra da Argélia que praticamente se arrastou até aos nossos dias. Não podemos esquecer que a ocupação política, económica e cultural de todos estes países pelas potências coloniais, sobretudo Inglaterra, França e Estados Unidos, durou praticamente até aos nossos dias. Não é portanto de admirar que os movimentos de libertação colonial ainda não tenham chegado ao fim.

Estamos a falar de uma barreira cultural e religiosa difícil de transpor, ou o que está em causa, de facto, são razões de ordem económica?

São razões de ordem económica, naturalmente. Só que ainda é muito pesado o envolvimento cultural e sobretudo religioso. O domínio cultural, devido sobretudo à imprensa e televisão, é praticamente absoluto ao contrário do facto religioso que tem vindo a transformar-se numa poderosa arma identitária. O Islão desempenha hoje, no mundo moderno, o papel do cristianismo primitivo na afirmação e sobrevivência de populações humilhadas e escravizadas.

Este novo pseudo-Estado, autodenominado Estado Islâmico do Iraque e do Levante, é para levar a sério?

Não só levado a sério, como compreendido e inserido no seu contexto. É a abertura, a porta de acesso ao paraíso tão desejado e esperado. É um sonho, uma esperança para populações desesperadas a quem foram arrancadas as raízes e muitas vezes a própria razão de viver.

 

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por Augusta Clara às 14:00



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