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Jardim das Delícias


Terça-feira, 05.04.16

A Europa à mercê de um padrinho do terrorismo - José Goulão

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José Goulão  A Europa à mercê de um padrinho do terrorismo

 

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Mundo Cão, 3 de Abril de 2016

 

   É provável que ao estabelecerem o recente e vergonhoso acordo com o regime turco sobre os refugiados os dirigentes europeus não se tenham apercebido do longo e trágico alcance da sua medida oportunista. Ao colocarem-se ao dispor do poder de chantagem de Recep Tayyp Erdogan, o presidente da Turquia, deixaram não apenas a União Europeia, mas todo o continente, à mercê de um dos principais patronos do terrorismo islâmico, um ditador que vem seguindo metodicamente uma via de poder absoluto e cujas ondas de choque não serão contidas no interior das fronteiras do seu país.

Erdogan não é um político, é um homem que crê ter uma missão superior. “A democracia é um eléctrico que apanhamos para nos levar até onde queremos, e depois descemos”, disse há 20 anos este homem que chefia um regime de índole totalitária, em relação ao qual a NATO não manifesta qualquer reserva, antes pelo contrário. Agora que chegou à presidência turca, em eleições adulteradas e nas quais dispôs do incentivo de dois milhões de euros doados pela ditadura da Arábia Saudita, Erdogan já suprimiu da comunicação social as vozes incómodas e, do palácio branco das mil e uma noites que fez erguer, prepara-se para consolidar a ditadura islâmica interna e institucionalizar, sem quaisquer limites, a marginalização da minoria curda.

De Erdogan sabemos, por exemplo, que tem um convívio habitual e familiar com Yassin al-Qadi, o príncipe saudita conhecido, pela própria ONU, como o “banqueiro da al-Qaida”, ligação que chegou a ser denunciada pela justiça e a polícia turcas, o que custou o saneamento imediato de todos os envolvidos; sabemos que tem dado guarida à logística do terrorismo no Médio Oriente, “moderado” ou “radical”, assegurando condições para o treino, armamento e infiltração na Síria, ou o transbordo aéreo para outros países, da Líbia ao Iémen, de milhares de mercenários islamitas que tanto podem servir o “Exército Livre da Síria”, como a Al-Nusra, heterónimo da al-Qaida, como o Estado Islâmico e os seus heterónimos, conforme calha ou lhe convém; e também sabemos que a Turquia é o entreposto privilegiado, com envolvimento de navios fretados por Bilal, filho de Erdogan, do petróleo roubado pelo Estado Islâmico, sobretudo no Curdistão iraquiano, e de cujo contrabando tira proveito para financiar os seus massacres.

O que talvez muitos desconheçam sobre Erdogan é de onde vem o seu espírito de missão. Ele é oriundo da milícia Milli Gorus, a organização dos “lobos cinzentos” fascistas a que pertencia, por exemplo, Ali Agca, que tentou assassinar o Papa João Paulo II em 1981. Os supremacistas formados nessa milícia pan-turca consideram-se herdeiros dos hunos de Átila e do espírito duro e insensível do lobo das estepes da Ásia Central, características de uma raça pura e superior que adoptou os Islamismo como instrumento de expansão e afirmação. Entre esta maneira de pensar e o arianismo de Hitler descubra as diferenças.

O espírito pan-turco tem-se manifestado regularmente na História do país pelos massacres de não-turcos, como os cometidos pelo sultão Abdulhamid II, no final do século XIX, e pelos “jovens turcos” – apesar do seu carácter secular – contra os arménios e outras comunidades de cristãos, entre 1915 e 1923. Erdogan crê chegado o seu momento, e o alvo preferencial são agora os curdos.

Foi a este homem, aliás com as costas sempre bem protegidas pela NATO, que os dirigentes da União Europeia entregaram a Europa em troca da contenção dos refugiados e do seu repatriamento à força, violando essas coisas anacrónicas como são o direito internacional e os direitos humanos. Erdogan exigiu a Bruxelas três mil milhões de euros por ano para conter os refugiados da guerra da Síria, mantendo o poder discricionário de lhes abrir ou fechar as fronteiras europeias quando lhe interessa, e a verba foi garantida. Os chefes europeus asseguraram-lhe ainda que vão acelerar a integração turca na União e suprimiram os vistos de circulação com a Turquia. Os operacionais da al-Qaida ou do Estado Islâmico passam, deste modo, a mover-se muito mais facilmente, por exemplo, entre o Oriente e Bruxelas, ou Paris, ou qualquer recanto europeu.

Aliás nota-se que o regime turco dispõe já de um agudo poder premonitório sobre acontecimentos trágicos na Europa. O diário Star, órgão oficial do erdoganismo, encheu a capa com a manchete “A Bélgica Estado terrorista” na manhã de 22 de Março, isto é, em simultâneo com os atentados de Bruxelas. A acusação do jornal baseia-se no facto de a Bélgica acolher comunidades curdas e autorizar as suas manifestações contra a opressão turca.

Enquanto impõe a austeridade feroz contra os povos europeus, a União Europeia passa a entregar três mil milhões de euros por ano ao fascista Erdogan, a fundo perdido e sem garantias. Juncker, Donald Tusk e os chefes dos governos da União não podem garantir-nos, a partir de agora, que esses três mil milhões não sirvam para financiar atentados cometidos pelos protegidos de Erdogan, chamem-se Estado Islâmico, al-Qaida ou “moderados”, algures, a qualquer momento, em qualquer lugar da Europa.

Pelo que somos forçados a concluir que a famosa “guerra contra o terrorismo” nos principais Estados europeus serve, em primeiro lugar, para impor, paulatinamente, uma sociedade policial.

 

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por Augusta Clara às 15:40

Domingo, 27.03.16

Lá vamos outra vez - Adriana Costa Santos

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DR

 

Visão, 24 de Março de 2016

 

Hoje, mais do que nunca, precisamos de calma e inteligência para pensar a paz e não cair na armadilha do ódio.

 

   Estamos em guerra. Bruxelas amanheceu ao som dos gritos e da destruição, das ambulâncias e do caos de um previsto imprevisível. Caíram as cinzas e os destroços, envolvendo-nos no silêncio do medo e no golpe surdo do choque e da insegurança.

Primeiro, fomos todos meter-nos nas nossas casas, aguardámos inquietos revelações atabalhoadas, relatos e números de mortos e feridos, telefonámos uns aos outros até que as redes móveis deixaram de funcionar. Depois veio a reação, armada em coragem. Saímos à rua como quem não tem medo, cheios de medo, a partilhar caras tristes e mensagens coloridas de esperança no chão, acendemos velas, decorámos com flores e cores, abraços, música, a noite a cair... E hoje voltamos a acordar com medo.

Apetece-me chorar. Lá vamos nós ter de explicar outra vez que os refugiados fogem da mesma violência, do mesmo medo que hoje sentimos. Sublinhar que aqueles que hoje reivindicaram os atentados matam gente todos os dias, até sem bombas, devagar e cruelmente, no país de onde vêm os milhares que chegam à procura de paz na nossa terra. Que os muçulmanos que vivem na Europa e no mundo não são responsáveis pelo que aconteceu. Que a questão não está em serem muçulmanos ou cristãos, árabes, negros, brancos, belgas ou franceses, que está na loucura de qualquer assassino. É esta a loucura do ódio, que não podemos deixar entrar nas nossas vidas.

Quando cheguei à Place de la Bourse, na tarde de terça-feira, cruzei-me com dezenas de refugiados que conheço. Felizmente, passam despercebidos, é provável que nem os jornalistas que lá andavam pudessem saber. Felizmente, não têm uma braçadeira amarela no braço que os distinga dos outros, como chegou a ser sugerido por uma das freguesias de Bruxelas. Felizmente, ainda não chegou o dia em que já não podemos andar na rua como iguais, partilhar a cidade e a tristeza que de ela hoje se apoderou, demonstrar-nos solidários como humanos que somos, independentemente da história que torna cada um de nós único. É disso que tenho medo, mais do que do terrorismo, do dia em que entremos em guerra uns com os outros.

O Omar tem três filhos pequenos, está em Bruxelas há seis meses, ainda à espera do direito de asilo para poder recomeçar e, eventualmente, obter autorização e apoio para trazer a família para a paz. Telefonou-me de manhã para saber se eu estava bem, pediu-me para ficar por casa até a cidade respirar fundo e à tarde encontrámo-nos na Bourse, juntos pela mesma causa, enquanto nas redes sociais se espalhava a ignorância e o ódio. Foi assim que decidimos reagir, sabendo que só deste modo poderemos ultrapassar o trauma e pensar à frente, com humanidade e clareza.

Já lá vai quase um mês que o campo de refugiados fechou. O Hall Maximilian vai transformar-se em apartamentos para alguém vender e alguém comprar. É assim que funciona a realidade, mesmo no mundo dos sonhadores. Desde então, só tenho notícias pelo Facebook ou por aqueles com quem me cruzo por acaso. A todos pergunto como está a correr o processo de obtenção do direito de asilo. As respostas são desmotivadoras, num tom de quem foi obrigado pela vida a ser paciente. Já faltou menos, digo sempre, vai tudo correr bem.

Hoje os encontros foram ainda mais cinzentos: "se eu já tinha pouca esperança, depois disto, só pode piorar", disse-me Mustafa, o neurocirurgião iraquiano, que trabalhava comigo no campo, refugiado voluntário dos Médicos do Mundo.

Andámos meses em prevenção do terrorismo, a cidade foi povoada de tanques e militares, constantes controlos policiais discriminatórios a todos os homens de aspeto árabe, cultivámos medo e insegurança, restringimos liberdades e sentimos o frio da desconfiança. Tivemos medo uns dos outros e não foi por isso que conseguimos evitar os atentados. Acabámos por dar força aos terroristas, aumentando a nossa fragilidade. Sucumbimos ao seu poder de nos mergulhar no medo e no ódio.

Entretanto a Europa fechou as fronteiras e atentou aos direitos humanos com um acordo de trocas e baldrocas com a Turquia. Pessoas em desespero continuam a chegar às ilhas gregas, com a diferença de que agora são recambiadas, em troca de outras, mais convenientes ao egoísmo das democracias europeias. É triste saber que tudo isso acontece aqui ao lado. Que há, na nossa paz europeia, crianças a ser atacadas por gás lacrimogéneo, mães a dar à luz em linhas de comboio, bebés que morrem na terra e no mar, homens que se imolam em protesto, pessoas enterradas na indignidade, presas num mau remédio que escolheram para fugir ao terror. E continuam a lançar-se bombas na Síria.

Agora estamos em guerra. Com o "Estado Islâmico" ou com a barba do vizinho, no Facebook ou no autocarro, com os refugiados e com os que lá ficam. Até podia dizer que já não nos lembramos de que há milhares de pessoas a morrer no mediterrâneo. Infelizmente sim, só que a confusão cresce de tal forma, com a inteligência a ser fintada pelo medo, que até os mais informados participam na islamofobia que se instala e gritam do seu refúgio, por trás das teclas, que não queremos muçulmanos na Europa. É urgente parar para refletir e pensar a paz em conjunto, deixar de perder tempo com bodes expiatórios e concentrarmo-nos na origem do problema, para o podermos combater.

Hoje, mais do que nunca, precisamos de calma e inteligência. Precisamos de força pela união e solidariedade, de olhar mais à frente e de nos informarmos, para que a manipulação da violência não nos tolde o pensamento.

 

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por Augusta Clara às 08:00

Terça-feira, 22.03.16

O Muro da nossa vergonha no Bósforo - Francisco Louçã

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21 de Março de 2016

   Juntou-se o mal e a caramunha. A União Europeia concluiu o seu acordo com a Turquia para a expulsão de refugiados a partir do dia de ontem, garantindo um generoso financiamento e esperando sobretudo que este muro assim erguido na fronteira da Europa permita aliviar a pressão política na Alemanha e noutros países do centro do continente. A Turquia conseguiu dinheiro, conseguiu pressionar o processo de adesão e, mais do que tudo, conseguiu ser reconhecida como potência regional, com luz verde para reforçar o seu regime militarizado e censório. Quanto aos refugiados, ficarão entregues ao governo turco e serão colocados em campos de aprisionamento.

A consternação de alguns dos governos foi bastante evidente. Não só Hollande teve que convocar Renzi, Costa, Tsipras e outros aliados para um encontro no fim de semana passado em Paris, como houve governantes que se sentiram obrigados a registar uma reserva em relação ao acordo, com a diplomacia de duplas palavras que tem sempre feito a tradição e a fragilidade da União. Costa, por exemplo, veio declarar que a solução é aceitável mas insuficiente.

Não é nem suficiente nem aceitável.

Não é suficiente, pois os refugiados viverão condenados. E teremos desde este início da primavera uma nova vaga de refugiados porque a guerra continua (e o governo da Turquia procura agravar os riscos militares, porque é do seu interesse fazê-lo). Os refugiados ainda virão por outras rotas do Mediterrâneo. Os pedidos de asilo são a resposta a guerras e não um capricho de viajantes.

Não é aceitável, porque viola a lei internacional e a lei europeia. É por isso expressivo que tenha sido retirada a seguinte frase da proposta original do acordo: “Os migrantes que sejam enviados para a Turquia serão protegidos de acordo com as normas internacionais para o tratamento dos refugiados e respeitando os princípios de não-repulsão”. Além disso, a afirmação da automaticidade do envio de todos os refugiados irregulares (todos são irregulares até terem sido regularizados), indica que se trata de um princípio universal de deportação e que os pedidos de asilo não serão considerados pelas autoridades europeias, antes de os expulsar para a Turquia.

É certo que a União espera alterações na legislação turca, que estarão a ser negociadas. Mas a política é o que é, e a forma como a polícia ou as autoridades turcas tratam os seus cidadãos ou os refugiados é muito expressiva do risco que se agiganta.

A Amnistia Internacional criticou este acordo precisamente pela sua ilegalidade: “As garantias de respeito escrupuloso da lei internacional são incompatíveis com o regresso para a Turquia de todos os migrantes irregulares que cheguem às ilhas gregas a partir de domingo. A Turquia não é um país seguro para os refugiados e migrantes, e qualquer processo de regresso baseado nessa suposição será errado, ilegal e imoral”. As Nações Unidas indicaram a mesma reserva.

Pelo seu lado, a Comissão Europeia e os seus assessores esforçam-se por apresentar este acordo como uma solução decente. Não podiam fazer de outra forma. Mas chama a atenção que este acordo tão conveniente seja declarado temporário (mesmo que nunca se indique qual é o limite de tempo).

Em suma, a União procedeu como costuma. Paga para fingir que o problema não existe, elogia a solução em que ninguém acredita, viola a sua própria lei em nome da conveniência e dá a mão a um regime militarizado, desprezando as regras internacionais e o princípio do respeito pelas pessoas que fogem de uma guerra e pedem asilo.

A Europa da nossa vergonha é este fantasma que prefere o Muro no Bósforo, esperando que ninguém consiga saber como são tratadas as famílias refugiadas e que nenhuma destas pessoas que procura asilo tenha a força suficiente para levar a tribunal o seu caso, pondo em causa o acordo, ou para organizar a resposta dos seus à ameaça ou condenação que lhes é imposta.

 

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por Augusta Clara às 08:00

Quarta-feira, 09.03.16

Europa: deitem abaixo essas cercas - Gauri van Gulik

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Gauri van Gulik  Europa: deitem abaixo essas cercas

 

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Público, 7 de Março de 2016

 

A velha Cortina de Ferro mantinha as pessoas dentro, a nova mantém as pessoas fora.

 

   A 5 de Março de 1946, no ginásio de uma pequena faculdade do Missuri, Winston Churchill avisou: "De Estetino no Báltico a Trieste no Adriático, uma cortina de ferro desceu sobre o continente". Passados 70 anos desde que Churchill fez aquele discurso, uma nova cortina de ferro está a estender-se na Europa. Feita de arame farpado e de políticas de asilo falhadas. Pode ser vista nos enclaves espanhóis de Ceuta e de Melila no Mediterrâneo e em Idomeni, no Norte da Grécia, onde na semana passada a polícia anti-motim da Macedónia disparou gás lacrimogéneo contra famílias de refugiados desesperados que tentavam passar a fronteira da Grécia.

A velha Cortina de Ferro mantinha as pessoas dentro, a nova mantém as pessoas fora.

Os Estados membros da União Europeia construíram mais de 235 km de cercas nas fronteiras externas da UE: entre a Hungria e a Sérvia, Grécia e Turquia, Bulgária e Turquia, e, na semana passada, entre a Áustria e a Eslovénia. Países vizinhos como a Turquia tornaram-se em guardas fronteiriços da Europa, forçando migrantes e refugiados a recuarem, às vezes disparando contra eles.

Com quase todas as fronteiras terrestres da Europa seladas, mais de um milhão de refugiados e migrantes que se lançaram rumo à Europa em 2015 arriscaram a vida nas travessias por mar. Mais de 3770 pessoas morreram a tentar atravessar o Mediterrâneo em 2015, e mais 410 morreram já este ano. São vítimas directas da nova Cortina de Ferro da Europa e do que ela representa: a Fortaleza Europa. Em contraste, 138 pessoas morreram a tentarem passar o Muro de Berlim ao longo dos 28 anos em que este existiu.

Para aqueles que conseguem sobreviver à travessia, o sofrimento está longe de chegar ao fim, antes têm frequentemente de caminhar durante dias a fio, viajando através de numerosos países, a dormir ao relento, ao frio, até alcançarem a segurança num país com um sistema de asilo que funciona.

A Amnistia Internacional entrevistou refugiados em fuga da guerra e da perseguição no Afeganistão, na Eritreia, no Iraque e na Síria. Preferiam não ter partido das suas casas, mas a maior parte teve de fugir para salvar a vida.

Como nos disse um homem oriundo do Afeganistão, sentado na Praça da Vitória, em Atenas, junto com a mulher grávida: "A minha família foi ameaçada pelos taliban. A minha mulher está grávida de oito meses. Não temos escolhas nenhumas... não sabemos o que nos vai acontecer a seguir".

É por isso que a nova Cortina de Ferro da Europa é tão irreflectida e de improvável sucesso como o foi a antiga. Enquanto houver violência e guerra, as pessoas vão continuar a vir. Até pode parecer que fechar fronteiras é uma resposta forte e firme dos políticos, mas verdade é que é ingénua e falta-lhe visão.

Sem dúvida que os números de pessoas a chegarem à Europa são altos. Mas apesar da retórica sobre "enxames" usada pelos políticos, o facto é que a Europa está a esquivar-se às suas responsabilidades internacionais, debilitando a Convenção sobre os Refugiados e deixando países mais pobres a carregar o peso da crise de refugiados. A verdade é que 85% dos 20 milhões de refugiados que existem no mundo vivem em países em desenvolvimento.

Governos totalmente dissociados de muitos dos seus próprios povos, os quais querem que os refugiados sejam bem acolhidos, andam a jogar à política do medo. Falam em "defender" as fronteiras mesmo quando estamos a ver famílias inteiras com pessoas de todas as idades, de bebés a idosos, nas costas da Europa.

Tal como com a antiga Cortina de Ferro, as cercas e muros de hoje são um sinal de políticas falhadas. E isto está a criar uma crise humana na Grécia, agora mesmo. Enquanto não existem soluções estruturais iminentes, a Europa está a pressionar os países dos Balcãs a fecharem aquela rota. Os países dos Balcãs estão a encerrar totalmente as suas fronteiras ou a abri-las só a sírios e iraquianos. Com o sistema de relocalização de refugiados da Grécia para outros países da UE a funcionar pouco e mal, aquele país está a transformar-se muito depressa numa armadilha, deixando dezenas de milhares de refugiados encurralados em condições de desespero e sem nenhuma informação sobre o que lhes vai acontecer.

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por Augusta Clara às 08:00

Terça-feira, 02.02.16

O reino da Dinamarca está podre. O resto da Europa também - José Vítor Malheiros

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José Vítor Malheiros  O reino da Dinamarca está podre. O resto da Europa também

 

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Uma Europa indiferente ao sofrimento não é o lugar da cultura mas o lugar da barbárie.

 

Público, 2 de Fevereiro de 2016

 

   No fundo, sabemos há muito que é assim, mas tentámos - nós, os europeístas do coração e da cabeça, os que sempre nos sentimos herdeiros e cidadãos de uma Europa plural e sem fronteiras, os que sonhámos uma Europa humanista de justiça, de cultura e progresso - encontrar razões para acreditar numa alternativa, numa reviravolta, numa crise de consciência, num renascimento. Mas a crise das dívidas soberanas primeiro e a crise dos refugiados depois tornou tudo mais claro, mais brutal, mais simples, e apagou qualquer réstea que pudesse haver de esperança.

A União Europeia (podia dizer, como digo muitas vezes, “esta” União Europeia, mas não vale a pena continuar a alimentar a ilusão de que “esta” União Europeia se pode transformar em “outra” União Europeia, pela simples razão de que não existe nenhuma liderança política que assuma claramente e com coragem que defende uma agenda radicalmente diferente para a UE) não representa a Europa dos valores e dos direitos humanos que sonhámos, nem a Europa do bem-estar para todos que ambicionámos. Nem para nós, portugueses, nem para os gregos, nem para os milhões de desgraçados que a ela tentam aceder para fugir da guerra, das violações, da tortura, da fome, da miséria. E, se a União Europeia não serve nem as necessidades do espírito nem as do corpo, se em vez de se ser uma referência de humanidade e um contributo para a paz volta a ser, como foi durante o século XX, o exemplo da desumanidade, o facho da hipocrisia e da desigualdade, se volta a fechar os olhos aos crimes que se cometem à frente dos seus olhos, não merece sobreviver, não deve sobreviver.

Independentemente do número de bibliotecas, de universidades e de orquestras que possa possuir, uma Europa indiferente ao sofrimento não é o lugar da cultura mas o lugar da barbárie. Uma Europa egoísta e classista, uma Europa de castas e de privilégios não é a Europa das Luzes nem da democracia. É uma Europa de mercadores e de mercenários que deve ser recusada e combatida.

Uma União Europeia que, perante um gigantesco problema humanitário, causado por guerras que ela própria patrocinou por subserviência cega às forças mais reaccionárias dos Estados Unidos, sem saber bem no que se estava a meter ou apenas para que as suas empresas de armamento pudessem aumentar a facturação, decide fechar as portas da cidade e aumentar o volume da música para não ouvir os gritos do outro lado das muralhas é uma Europa que nos avilta.

Como classificar a decisão da Dinamarca de confiscar bens aos refugiados que perderam tudo menos a vida? Que palavras se podem usar para classificar esta infâmia? Como o permitiria a UE se tivesse uma réstia de dignidade? Como classificar a prática de uma empresa de segurança britânica de pintar de vermelho as portas das casas onde vivem refugiados? Ou as múltiplas medidas e declarações xenófobas de políticos europeus que não são apenas oriundos da extrema-direita?

A União Europeia, como sempre faz, começou por enterrar a cabeça na areia para ver se o problema desaparecia por magia. E, quando o problema se intensificou, não só foi absolutamente incapaz de definir uma estratégia continental para o resolver - que não poderia passar apenas pelo acolhimento dos que fogem mas deveria incluir também uma estratégia internacional para solucionar o problema na sua origem - como decidiu responsabilizar os países situados na fronteira europeia. A Grécia foi acusada de ser a causa do problema, de não controlar as suas fronteiras, de deixar entrar demasiados refugiados, de não ser a guardiã de Schengen que os tratados exigem.

A posição de Bruxelas em relação à Grécia é simples e clara: a Grécia deve evitar a entrada de mais refugiados usando todos os meios possíveis. Todos? Disparar sobre os refugiados, bombardear os seus barcos, afogar todas as crianças? Bruxelas não o diz com esta clareza mas os eufemismos da burocracia não deixam margem para dúvidas. Bruxelas quer uma solução final para o problema dos refugiados.

E nós, cidadãos desta União Europeia? O que dizemos? Vamos continuar a tolerar o totalitarismo e a desumanidade da União Europeia?

 

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por Augusta Clara às 12:30

Segunda-feira, 01.02.16

Europa perde o rasto de 10 mil crianças registadas como refugiados - José Goulão

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José Goulão  Europa perde o rasto de 10 mil crianças registadas como refugiados

 

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Foto de Darko Vjinoviv (AP)

 

 

 

Mundo Cão, 31 de Janeiro de 2016

 

  Dez mil crianças que chegaram à Europa fugidas dos conflitos no Médio Oriente despareceram sem deixar rasto, podendo muitas delas estar a ser exploradas como escravas sexuais e laborais no âmbito de uma sofisticada “rede criminosa pan-europeia”, admite a Europol, agência policial da União Europeia. Os desaparecimentos ocorrem já depois de as crianças serem registadas pelas autoridades dos Estados europeus.

Mais de cinco mil das crianças desparecidas foram registadas em Itália; pelo menos mais mil na Suécia. A Europol começa agora a aperceber-se de gangs para “exploração do fluxo migratório” actuando, designadamente, na Alemanha e na Hungria, conhecimento decorrente da ocorrência frequente de “conflitos cruzados” entre grupos de criminosos que estão particularmente activos na chamada “rota dos Balcãs”. “Há prisões na Hungria e na Alemanha onde a maioria dos detidos são membros de redes de exploração de refugiados”, revela Brian Donald, director da Europol, agência de polícia europeia.

Segundo Donald, cerca de 27 por cento de um milhão de refugiados entrados na Europa durante 2015 são crianças, o que significa 270 mil. “Nem todas viajam sozinhas”, acrescenta, mas o número das que chegam nessa situação e estão dadas como desaparecidas é aproximadamente dez mil, de acordo com “perspectivas conservadoras”. Donald admite que muitas ter-se-ão reunido a membros da família, outras não, mas em todos os casos “não sabemos onde estão, o que fazem ou com quem”.

O jornal britânico The Observer, o único dos chamados “jornais de referência” europeus que dedica especial atenção a esta tragédia humanitária, relata, por exemplo, o caso das mil crianças chegadas em Setembro passado ao porto sueco de Trelleborg. Todas elas desapareceram durante o mês seguinte e um relatório oficial revelado há uma semana reconhece que as autoridades têm “muito pouca informação sobre o que acontece depois de desaparecerem”. No Reino Unido duplicou em 2015 o número de crianças desaparecidas depois de registadas pelos serviços de asilo.

“Estamos perante a forma mais tenebrosa de tráfico de seres humanos e constatamos que, na prática, a resposta comunitária a tal fenómeno está muito longe de corresponder à sua gravidade”, afirma um funcionário da Comissão Europeia em Bruxelas. “Nunca como agora foi tão forte a fiscalização dos cidadãos e a cooperação entre os serviços de informações mas, ao que parece, as prioridades são outras que não a preocupação com as mais vulneráveis das vítimas de conflitos nos quais a União Europeia tem inegáveis responsabilidades”, sublinha a mesma fonte.

Maryian Berket, responsável da Organização para a Cooperação e Segurança na Europa (OSCE), reconhece exactamente isso: “os menores desaparecidos das regiões de conflito são, de longe, a população mais vulnerável”, afirma.

O director da Europol revelou que agência já possui provas de que um dos destinos das crianças desaparecidas depois de registadas é o circuito das redes de exploração sexual de menores. Ainda segundo Brian Donald, os motivos mais fortes para as guerras de gangs exploradores de refugiados são as disputas de menores para a escravatura sexual e laboral.

“Aqueles que estão nas nossas bases de dados como responsáveis por tráfico de seres humanos começam agora a aparecer também como envolvidos em tráfico de refugiados”, admite o director da Europol. Fontes em Bruxelas salientam que a existência prévia dessas informações e a falta de protecção inerente à condição de refugiado em busca de asilo devia ter suscitado a adopção de medidas prévias pelas autoridades. “Era inevitável que as redes de tráfico de seres humanos iriam tirar proveito do maná oferecido pela vaga de refugiados”, afirma um alto quadro do Conselho Europeu. “Como é possível falar-se tanto na defesa do nosso civilizado modo de vida e permitir-se que milhares de crianças que buscam refúgio no espaço da União encontrem trágicos destinos depois de registadas pelas autoridades em países europeus?”, interroga-se.

Brian Donald admite que a estrutura criminosa “sofisticada” tem vindo a desenvolver-se durante os últimos 18 meses, o período em que o fluxo migratório atingiu a maior intensidade, visando precisamente “tirar partido” dessa circunstância.

O chefe da Europol considera agora que é indispensável a “vigilância da comunidade” perante este fenómeno. “Estas crianças estão na comunidade e se são vítimas de abuso são-no dentro da comunidade”, diz. “Elas não se esfumaram no ar e foram levadas para o meio da floresta; estão no interior da comunidade. As populações devem estar alerta para isso”.

 

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por Augusta Clara às 08:00

Domingo, 20.12.15

Mondo perdido - Adriana Costa Santos

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Adriana Costa Santos  Mondo perdido

 

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Chegada à Paz (Visão), 19 de Dezembro de 2015

No campo de refugiados há um rapaz que ajuda discretamente nas limpezas. Também é refugiado, só que não sabe.

   Mondo é o rapaz que limpa as casas de banho do campo. Reparei nele quando nos faltou e a sujidade se arrastou por três dias. Também é refugiado, mas não sabe. O problema é que, ao contrário dos que agora chegam, ele tem já quatro anos de história aqui, esquecido pelo mundo e pelas gentes, sem sonhos nem dignidade.

Quando, em 2011, as primaveras árabes incendiavam o norte de África e o Médio Oriente, chegaram-nos imagens de barcos sobrelotados de migrantes fugidos da guerra a dar à costa em Espanha, Malta e Itália. Mondo tinha vinte anos e apanhou um desses, que o levou da Tunísia até ao caos de Lampedusa.

Após doze horas de viagem numa modesta embarcação com mais de setenta pessoas, o combustível chegou ao fim e os migrantes ficaram perdidos no meio do mar. Um navio de pescadores cruzou-se no seu caminho e rapidamente se afastou, com medo daqueles olhares desesperados. Esperaram várias horas, até a polícia marítima italiana os resgatar e levar até à costa.

Na primeira semana, foi transportado de Lampedusa para Roma, onde permaneceu três dias, e dali passou para Bari. Contou-me que os migrantes eram deixados à sua sorte e autogoverno num edifício do Estado. Assistiu e sobreviveu a cenas de violência, à falta de higiene, a incêndios nos quartos, mortes e deportações. Um dia, conheceu um seu compatriota que seria deportado para a Tunísia na manhã seguinte. "Se quiseres sair deste centro", revelou-lhe, "tens de mentir, não há outra hipótese. Tens de dizer que és menor".

Mondo assim fez, fugido da sua terra em chamas, sem qualquer documento que o comprovasse, afirmou em tribunal que tinha apenas 17 anos, tendo sido logo encaminhado para uma "Casa-Família" em Lecce, lar que partilhou com tantos outros jovens na sua situação. Voltou a fazer o 9º ano, trabalhou em restaurantes a lavar pratos, arrumou carros e pediu dinheiro na rua. Quando fez 18 anos teve de abandonar a casa e fazer-se à vida.

Conta-me que viveu na rua e que conheceu as pessoas erradas. "Meti-me em problemas de que não tinha capacidade de sair". Um dia bebeu demais e invadiu uma casa. Quando a polícia o encontrou, disse que só procurava um sítio para dormir. Acredito que tenha omitido os verdadeiros contornos da história, com medo de perder a minha confiança, mas não quis interromper a sua narrativa. Em tribunal, foi condenado a seis meses de prisão. Cumpriu a pena e saiu em liberdade. Voltou a pedir nas ruas e, passado pouco tempo, voltou à prisão por roubar. Foi obrigado a abandonar o país.

Passou pela França, Alemanha e agora está na Bélgica. Sobreviveu de esmolas, sopa dos pobres, má vida, duches públicos e centros de acolhimento. Hoje tem 25 anos e vive numa casa abandonada com outros três "Sans Papiers", imigrantes ilegais, sem papéis, sem dignidade, sem família, sem sonhos, sem vida.

Quando, em setembro, o antigo campo de refugiados começou a crescer, Mondo passou por lá à procura de comida e roupas. Estava na Bélgica há pouco tempo e dormia na rua. Deram-lhe um lugar numa das tendas. Foi começando a ajudar, apanhou lixo e traduziu de árabe para francês. Com o encerramento do campo, passou diretamente a trabalhar aqui no Hall Maximilian e tornou-se, sem nunca ninguém o ter nomeado, no responsável da limpeza.

Quando cheguei, disseram-me para ter cuidado com ele, que era ladrão. Era esse o dia do seu aniversário. Veio apresentar-se, com um discurso sedutor, soube que ele falava italiano e escrevi "Parabéns Mondo" num papel com várias cores para lhe oferecer. Parti do princípio que não podia confiar nele, mas nunca o dei a entender. Muita gente ali o tratava com desprezo.

Defendi-o. Ou tínhamos provas e o mandávamos embora, ou o deixávamos ficar, sem lhe roubar o bocadinho de dignidade que ainda lhe resta. Comecei a perceber que ele levava comida e roupas na mochila, mas resolvi ficar calada. Um dia foi apanhado em flagrante e um dos coordenadores do campo chamou-o à parte. "Já há muito tempo que sei que vens aqui para roubar", disse-lhe, "sei bem as dificuldades por que passas, mas a nossa tolerância chegou ao fim e esta situação tem de acabar. Deixo-te agora duas hipóteses: nunca mais apareces e vais roubar para outro lado, ou te tornas digno de confiança e ficas connosco, vamos dar-te roupa e a comida de que precisares, amigos e uma família com que poderás sempre contar".

Mondo decidiu ficar. Uma vez por mês tem direito a escolher roupa e sapatos para si e, todas as semanas, o responsável da comida dá-lhe um saco de mercearias para ele levar para casa. É dos primeiros a chegar e dos últimos a sair, anda sempre com uma coluna portátil a tocar música e limpa o centro com um sorriso constante.

Tem os braços cheios de pequenos cortes. Quando reparei, explicou-me que não sabia por que o fazia, que simplesmente acontecia, quando estava mais revoltado. "Estes já são antigos. Desde que cheguei a Bruxelas, só o fiz uma vez", revela-me com o sorriso de sempre, "os mais profundos, fi-los na prisão em Itália".

A sua mãe vive na Tunísia. De cada vez que falam, pergunta-lhe entre lágrimas se ele consegue comer e implora-lhe para que nunca volte. Antes de fugir para a Europa, Mondo tirou um curso profissional de cabeleireiro, abriu o seu próprio salão na garagem de casa e lá trabalhou dois anos, até que a violência e a instabilidade levaram a família a fechar as portas, com medo de morrer no meio dos disparos. Usou o dinheiro que lhe restava para apanhar o barco em busca da liberdade e da paz. Em troca, deixou para trás todas as hipóteses de dar sentido à sua vida, para lá da sobrevivência.

Mondo é um filho da injustiça do mundo em guerra, que não distingue pessoas de números, um delinquente a quem nunca foi dada uma oportunidade de escolher o caminho certo. Talvez seja este o início de uma história mais bonita ou talvez o campo feche e Mondo volte a roubar, sem hipóteses de trabalho legal e de uma vida digna.

Um dia revelei-lhe que tinha medo do escuro. Riu-se muito, respondeu-me que não tinha medo de nada. "Na casa onde eu estou, não há eletricidade, daqui a umas horas o sol põe-se e eu volto para dormir, na total escuridão". "Mas não te preocupes", disse-me, "já estou habituado".

Apesar das dificuldades por que têm passado, os refugiados desta nova vaga não se viram ainda em situações de total perda de esperança no mundo que habitamos. Abandonaram os seus países há pouco tempo, têm tido cama, roupa e comida, ainda não precisaram de pôr os seus princípios de lado. Precisam de ajuda e de recomeçar, mas na via da legalidade. Espero que os Estados europeus o percebam a tempo e que não os deixem cair. Que lhes deem espaço para a integração, para participarem na nossa sociedade e economia como iguais. Que o trabalho seja mais eficaz do que aquele que foi feito com o meu amigo Mondo, o miúdo ilegal.

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por Augusta Clara às 08:00

Terça-feira, 24.11.15

Vazio e medo em Bruxelas - Adriana Costa Santos

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Adriana Costa Santos  Vazio e medo em Bruxelas

 

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Chegada à Paz (Visão), 23 de Novembro de 2015

É urgente pensar no que se vai fazer aos refugiados. Agora evitamos a fome e protegemo-los do frio. Amanhã vai ser preciso deixá-los juntar-se a nós e abrir portas para que encontrem o seu lugar no mundo.

   Hoje não há sol em Bruxelas, as ruas estão desertas, o país está em alerta máximo por ameaça iminente de um ataque terrorista e a única coisa que mexe são as gotas da chuva que me caem na ponta do nariz. Há militares e polícias imóveis a cada esquina, tanques nas avenidas sem gente, sem luzes e sem comércio. O céu cinzento condiz com as caras dos poucos que por aqui passam, tal como eu, a tentar manter a normalidade.

Não há metro e os autocarros estão apinhados, tipo lata de sardinhas, e de vidros embaciados. Não há supermercados, nem lojas, nem museus, nem turistas, nem confusão, nem os bêbados das seis da tarde. Há grades e portas fechadas a sete chaves. Vejo cinzento e verde seco, caras sisudas e sirenes barulhentas que rompem o silêncio do medo. Será este o ambiente da guerra? Que história tão triste.

Antes de tudo isto, estive várias vezes a trabalhar em Molenbeek, o bairro esquecido da cidade de Bruxelas e que, por isso mesmo, agora é famoso. Aquilo a que os jornais chamam "fábrica de jihadistas" é uma zona onde muitos imigrantes árabes encontraram uma comunidade com algum sabor a casa. Sem oportunidades, sem igualdade, com pobreza e desemprego, num apartheid de consentimento mútuo. Tanto os recém-chegados encontraram familiaridade num bairro de maioria árabe e, por isso, decidiram fixar-se ali, como o Estado belga os terá deixado excluídos, discriminados, no seu cantinho da cidade.

Molenbeek é uma personificação a céu aberto, para quem quiser visitar, do falhanço europeu na integração efetiva das suas comunidades de imigrantes. Com 40% de população jovem, pelas suas ruas cheias de cores e cheiros exóticos passeiam rapazes sem trabalho, sem escola, sem dinheiro e sem perspetivas. Sem futuro. Nasceram cá, mas na casa errada. Sentem a injustiça e a revolta num quotidiano vazio. Não têm nada que fazer e, o que mais assusta: não têm nada a perder.

É neste bairro que se situa o depósito de doações do campo de refugiados, é para lá que toda a roupa e comida são encaminhadas, triadas e organizadas, para depois serem distribuídas no Hall Maximilian. Precisam muito de ajuda e, quando tinha menos trabalho, passava por lá para dar uma mãozinha ao meu colega Gille, o coordenador da incansável equipa que se ocupa daquele caótico armazém. Pude constatar que era um bairro pobre, mas nunca ninguém me deu razões para ter medo. É um bairro de maioria árabe, como tantas outras ruas e praças em Bruxelas. Como aquela em que eu vivo.

Na semana passada, estava no elétrico a escrevinhar qualquer coisa no meu caderno, quando entrou um homem de barba comprida e se sentou à minha frente, a falar ao telefone. Como comecei a aprender árabe com os refugiados, pus-me discretamente a ouvir, para ver se apanhava alguma coisa. O homem terminou o telefonema e começou a falar comigo. Perguntou-me o que é que eu escrevia, se era um diário e se eu descrevia a minha viagem até casa. Apressou-se a dizer que estava a brincar, mas respondi-lhe que estava a escrever um artigo. Admirado, respondeu: "Muito bem, pode então escrever aí que acabou de conhecer um marroquino de Molenbeek, está a ver onde é? Um bairro muito falado, nos últimos dias, infelizmente pelos piores motivos. Também sou muçulmano e venho de lá, mas não tenha medo de mim".

Ri-me, à falta de uma resposta melhor, "claro que não", disse-lhe. "Devo dizer-lhe, menina, que, por vir de lá, sei muito bem qual é o problema. Escreva se quiser. Os jovens são filhos de imigrantes, muitos deles marroquinos como eu, mas nasceram cá. Se forem para Marrocos, são estrangeiros. Se ficarem na Bélgica, estrangeiros são. Não fazem parte de nenhuma pátria, não sentem pertença a lado nenhum. Não têm valores a que se agarrar. Não têm educação, abandonam as escolas cedo e não há ninguém que os demova. Sentem-se discriminados, injustiçados. Não têm hipóteses de trabalho, nem dinheiro, nem casa própria, carro, namorada... Nada. Eu estou lá, eu conheço muitos jovens assim e tenho medo por eles. Estão perdidos, revoltados e são presas fáceis para os que querem espalhar o mal. Basta um discurso bonito e apelativo, uma família que lhes prometa acolhimento e inclusão e estão prontos para dar a vida, depois de lhes oferecerem uma", conta-me. "É triste vê-los partir por uma causa que nada tem a ver com o Islão". É triste, mais uma vez concluo, não terem nada a perder.

Desisti de escrever sobre o assunto que tinha em mãos e segui o conselho daquele senhor. Agradeci-lhe por me ter abordado e pedi-lhe que não deixasse de contar a sua história. "As pessoas precisam de saber isso, precisamos todos de refletir e, só assim, alterar o rumo das coisas", disse-lhe, antes de sair para o frio da cidade.

Depois daquele encontro, percebi que nada é mais pertinente na questão em que me debruço, a crise de refugiados, do que falar em integração. A Europa falhou e o "Estado Islâmico" ganha terreno, entre aqueles que nós não conseguimos acolher. Temos cada vez mais medo e estamos, infelizmente, cada vez mais próximos do drama de que os refugiados fogem. O melhor seria cortar o mal pela raíz e promover a união pela força, opondo-nos ao terror que se aproveita das brechas da nossa sociedade.

Hoje o ambiente é de guerra, de vazio e medo. Há uma metralhadora a cada virar de esquina, a tensão sente-se no ar e nas praças desertas, nos olhares dos poucos proprietários corajosos que resolveram abrir os seus cafés e agora fixam o infinito assustador, através das montras. "Eles conseguiram", não me sai da cabeça. Temos medo, temos terror, temos frio. A cidade parou. Molenbeek está no mesmo sítio, tal como a majestosa Grand Place, agora cercada por militares. As ruas e praças estão lá também, tristes e vazias. O Primeiro-Ministro veio pedir às pessoas que ficassem em casa, mas não tenho televisão e andei por aí, por isso só soube ao fim do dia.

O campo de refugiados do Hall Maximilian fechou, os serviços mínimos estão assegurados, há uma equipa que distribui sanduíches, roupas e cobertores do lado de fora. Quando lá cheguei, disseram-me para voltar para casa e esperar por atualizações, que estavam a tratar de tudo com um número reduzido de voluntários. Vamos lá ver como isto evolui.

Uma nova insegurança surgiu no meu pensamento: a de a situação se inverter. Já vários campos de refugiados foram alvos de atentados na Europa, às mãos de um extremismo xenófobo que usa o mesmo veículo para crescer. O medo. Mas não nos deixemos consumir por ele, só temos de nos proteger. Por agora fico em casa, a ver o que acontece.

Devemos estar preparados para o perigo de um crescimento da desconfiança e da xenofobia, sem perder motivação e energia. Se a inserção social dos refugiados já não parecia fácil no contexto da semana passada, neste momento, a dificuldade cresce a cada minuto de silêncio das ruas de Bruxelas.

Aproveitemos esta triste oportunidade para ponderar as políticas de integração. Os motivos de muitos dos jovens europeus que se juntam ao "Estado Islâmico" vão muito para além da religião, tal como me disse o marroquino do elétrico.

É então hoje, mais do que nunca, urgente pensar no que se vai fazer à gente que chega, aqui refugiada, à espera de uma vida. Agora evitamos a fome e protegemo-los do frio, amanhã vai ser preciso deixá-los juntar-se a nós e abrir portas para que encontrem o seu lugar no mundo. Manter a esperança de que Europa não é só sinónimo de paz frágil, mas também de pertença e de inclusão. De união.

Orgulhamo-nos das nossas liberdades e direitos, mas não queremos partilhá-las com quem não as tem. Acredito que não devemos subestimar o choque cultural, mas também que este, quando ultrapassado, nos tornará a todos mais ricos, mais sábios e cosmopolitas. Mais capazes e mais fortes, com mais vontade de preservar aquilo que é nosso. A nossa paz e harmonia é feita de pessoas que se sentem a fazer parte, de pessoas com casa, trabalho, vida e história. Pessoas resolvidas e incluídas. Que têm algo a perder.

 

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por Augusta Clara às 08:00

Quinta-feira, 19.11.15

Mulheres sem nome nem voz - Adriana Costa Santos

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Adriana Costa Santos  Mulheres sem nome nem voz

 

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Chegada à Paz (Visão), 5 de Novembro de 2015

A voz das refugiadas e a minha voz, todas as vozes dizem que Anan é o nosso futuro

 

   A pequena Anan tem sete anos. Não para quieta. Quando lhe digo que não pode vir para o pé de mim, trepa o balcão e passa para o meu lado. Nunca está com os pais, vejo-os poucas vezes. Passo por ela no corredor e salta para o meu colo, dando-me um abraço tão forte, que não sou capaz de a pôr no chão. Vai ter comigo para a levar à casa de banho e anda às minhas cavalitas para todo o lado. Adora mexer-me no cabelo e pede-me sempre que lhe faça uma trança igual à minha.

Penso no seu futuro com um sorriso, acredito que vai ser ela uma mulher entre as pioneiras da grande transformação já iniciada neste mundo da desigualdade. Desejo que alcance todos os seus objetivos. Espero que nunca deixe de ser desobediente. Eu também sou, à minha maneira. E não passei, até hoje, por metade das mudanças repentinas de vida que ela, em sete anos de história, já sofreu.

Às primeiras horas do dia, apareceu-me no centro uma mãe síria com três crianças, perdida e enfraquecida pela história, pela injustiça, pela guerra e pelos milhares de quilómetros que percorreu nos últimos dias. Não tive tempo de lhe conhecer o nome. O marido morreu, ela resolveu partir sozinha e trazer os filhos para a paz. Percebi que foi atravessando fronteiras em carros particulares, até que o último a deixou na Bélgica. O condutor esperou que os passageiros saíssem do carro e arrancou, com a bagagem e todo o dinheiro dos refugiados, deixando esta mulher no meio da estrada, ferida e sem chão, sem teto, sem norte. Levei as crianças ao médico e ela ficou numa sala, resguardada da confusão, para se recompor. Tremia de frio e medo. Não voltei a vê-la.

Na sala de espera dos Médecins du Monde, à tarde, está uma senhora de olhos negros, brilhantes, com um bonito lenço dourado a cobrir-lhe os cabelos. Há de ter quarenta e poucos anos, espera por um filho de dez, que está a ser visto pelo médico, e tem ao seu lado outro, da minha geração. Vieram os três do Iraque.

"Fizemos a mesma viagem que todos os que estão aqui", revela-me, "com a pequena diferença de que, para mim, sendo mulher, foi mais doloroso correr e trepar, passar por barreiras de arame farpado, andar à chuva e ao frio. Não estou habituada a estas coisas. Foi muito doloroso. O mais pequenino fez metade da viagem com febre e eu doente fiquei, só de o ver assim".

Por ficarem para trás nos grandes grupos, a senhora e os filhos foram várias vezes apanhados pela polícia e estiveram presos, por uma noite, na Bulgária e na Sérvia. Mas a mulher sem nome sorri, tranquila, quando conclui: "agora já cá estamos, já passou".

Tenho muito pouco contacto com mulheres, neste centro de refugiados. Por questões culturais, a sua vida social é anulada. Os homens é que tratam das necessidades da família e são raras as que encontro uma segunda vez. Comunicamos por olhares e sorrisos, aproximo-me sempre a pretexto de me meter com os bebés, a quem faço festinhas na cabeça e digo uma das poucas palavras que sei em árabe: habibi, meu querido. As mães agradecem com ternura e afastam-se rapidamente, sempre de olhos no chão.

Há uns dias encontrei uma senhora a chorar, na casa de banho. Não pensei muito e dei-lhe um abraço. Sorriu, surpreendida, e limpou logo as lágrimas, respirando fundo. Não sei como se chama e também não a voltei a ver.

Um dia destes, estava na Cruz Vermelha e uma mãe explicou-me, por gestos, que precisava muito de umas cuecas. Piscou-me o olho, à procura de cumplicidade, mas eu, como ela só falava árabe, e tendo todo o cuidado de dizer que precisava de roupa, de um modo geral, para não a comprometer, pedi a um colega meu que lhe explicasse que tínhamos de ir ao Hall Maximilian buscar o que ela queria. Quando ele reproduziu em árabe o que eu disse, a senhora ficou tão embaraçada que acabou por lhe dizer que só queria tomar um duche. Continuava a piscar-me o olho, enquanto se dirigia para a casa de banho. Peguei num papel e desenhei rapidamente um mapa para lhe dar, na esperança de a encontrar mais tarde e poder resolver-lhe o problema. Nunca voltou a aparecer.

Quando tento interagir com as mães de família que visitam o centro, peço sempre a amigos que sirvam de intérprete e é interessante ver como eles se dirigem, imediatamente, aos maridos para colocar as minhas questões. "Posso entrevistar a tua mulher?", perguntam primeiro. Infelizmente, são muitas vezes os homens quem acaba por responder. Custa-me esta condição subalterna em que as encontro, mas não deixo de fazer a minha parte, sem julgar nem me cansar, grão a grão vai-se mudando qualquer coisa. Que fique dito e escrito, que sou tão defensora dos direitos das mulheres, como da tolerância e do respeito pela diferença. Acredito que, com tempo e paciência, podemos mudar as ideias, educando-nos uns aos outros.

Também faz parte do meu trabalho dar o exemplo. Mostrar como, "apesar de" ser mulher, me comporto, ensinar a todos com que me relaciono que temos de nos aceitar uns aos outros como iguais, independentemente das nossas diferenças.

Com o passar do tempo, fiz amigos e constituí aqui uma família provisória, uma necessidade também por estar longe da minha. A verdade é que, muitas vezes, sinto que estou a receber mais do que aquilo que dou. Tenho aprendido tantas coisas sobre a vida, o mundo e as pessoas, sobre a comunicação e as relações humanas, que devo um grande agradecimento aos que agora fazem parte dos meus dias.

Os rapazes da minha idade, os meus companheiros, ajudantes e tradutores incansáveis, não aumentaram só o seu nível de inglês e francês, aprenderam também como é ser rapaz e rapariga neste novo mundo. Agora também eles podem ensinar isso àqueles que chegam.

Nada pode ser exigido à força, à pressa, repito-me, é preciso tempo para a adaptação, para que a integração aconteça, no verdadeiro sentido do termo. Ponho-me na pele deles e parto para a reflexão mais básica: e se fosse ao contrário? Se eu tivesse de fugir para um dos seus países, com os costumes da minha terra e o estilo de vida que adquiri ao longo da minha história? É certo que iria ser difícil adaptar-me, ninguém me perguntaria se eu era ou não a favor disto e daquilo, e isso, nestas circunstâncias , pouco interessa.

Se queremos ensinar a respeitar, defendo que devemos respeitar primeiro. Faço isto e o resultado tem sido incrível. Sorrio, converso, desafio, interpelo, tomo a iniciativa... E já não encontro os olhares com que fui recebida nos primeiros dias, de desconfiança e fascínio, de algum desprezo e curiosidade, até de provocação. Agora recebo sorrisos e as minhas vontades são respeitadas. Somos todos feitos do mesmo, raparigas, mulheres, rapazes e homens. Os recém-chegados aprendem isso mais rapidamente, com os que já lá estavam.

É isto o que penso e que vejo, apresento-a na humildade de quem sente, sem estudar a teoria. A História escreve-se devagar, com letrinhas de criança como as que Anan desenha no meu caderno. Mas escreve-se, sempre. E a minha escrita continua, talvez para daqui a uns dias ter mais histórias de mulheres guerreiras. Ainda não desisti de lhes dar um nome e uma voz.

 

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por Augusta Clara às 14:00

Domingo, 15.11.15

O frio que todos sentimos - Adriana Costa Santos

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Adriana Costa Santos  O frio que todos sentimos

 

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Chegada à Paz (Visão), 14 de Novembro de 2015

Hoje, há pessoas a dormir na rua, que passaram o dia em filas para ouvirem dizer que se tinha acabado a comida, as camas, as roupas, o direito de asilo, a esperança e a paciência

   Este homem acabou de chegar. Chama-se Ahmed. Conseguiu acolhimento na Cruz Vermelha, mas está muito nervoso porque ficou num quarto sozinho com desconhecidos e a sua mãe e irmãs foram colocadas noutro, onde também dormem homens. Ele tem medo, mas peço-lhe que seja compreensivo. O caos está à vista de todos, os dias estão cada vez mais frios e difíceis de passar. Caiu a noite e o importante, agora, é que todos tenhamos um teto e um cobertor. Ao amanhecer as prioridades serão outras, logo se vê.

Ahmed tem 31 anos e era soldado no exército iraquiano, quando o tentaram assassinar e acabou ferido numa perna. Passado pouco tempo, partiu para a Turquia com a mãe e duas irmãs mais novas. Trabalhou, durante seis meses, para ganhar dinheiro e pagar o resto da viagem. Foram de barco até à Grécia e de autocarro para a Macedónia, tendo parado ali uma semana, porque ele não conseguia caminhar.

Mais à frente, no meio da multidão que percorria a estrada entre a Sérvia e a Hungria, perdeu a irmã, de 23 anos. A rapariga apareceu, três dias depois, no hospital, vítima de um acidente de que não se recorda. Esperaram que ela recuperasse e apanharam um táxi até à Áustria. Ali, estiveram presos durante sete dias. Foram então encaminhados para um centro, em que seriam registados os seus dados e impressões digitais, mas conseguiram aproveitar uma distração do funcionário para escapar e correr até à estação mais próxima, onde apanharam um comboio para o Luxemburgo. Se se tivessem registado teriam que ficar na Áustria. Aquele não era o seu destino: para além dos entraves legais que são colocados ao pedido de asilo, a estada na prisão mostrou-lhes que não queriam lá ficar.

Gastaram nos bilhetes o último dinheiro que tinham. Em desespero, Ahmed pediu ajuda num grupo do Facebook, em que os refugiados vão trocando informações e pedidos: precisava de um transporte para a Bélgica. A resposta não tardou, um homem contactou-o, oferecendo-se para os levar de carro, mas, à hora combinada, exigiu ter sexo com uma das irmãs. Envolveram-se numa briga e Ahmed levou uma facada.

Encaminharam-se para o hospital e, há males que vêm por bem, o seu principal problema foi resolvido: preferiram "livrar-se" de Ahmed, não o atender e levá-los a todos de ambulância para a Bélgica. Chegando a Bruxelas, deixou a mãe e irmãs na fila e foi tratado pelos Médecins du Monde. Está incomodado com a questão dos quartos, mas aliviado por aqui estar. A viagem chegou ao fim e a sua família está a salvo. Amanhã vou tentar ajudá-lo, prometo, e desejo-lhe uma noite descansada.

São nove da noite e estou sentada em frente à Cruz Vermelha. Tenho frio, mas quero desenhar um retrato à vista, longe do conforto do sofá de minha casa, onde posso descalçar as botas, respirar fundo e deixar de ser forte, estar triste à vontade, detestar o mundo. Aqui, posso limitar-me a descrever a dura realidade que observo, sem interrupções, do passeio em que me sento, do outro lado da estrada.

À entrada do grande edifício da Cruz Vermelha, há uma fila de refugiados que esperam ainda por um local para dormir. Quando aqui passei, ao fim da manhã, contavam-se mais de quatrocentas pessoas, numa serpente sem fim. Sacos de plástico e malas cheias de recordações, homens, mulheres e crianças, expressões de desespero e cansaço, olhos tristes, algumas carinhas alegres, principalmente entre rapazes da minha idade, sempre numa espera mais leve, com mais energia e poder de encaixe. Agora vejo uma fila com menos de cem homens. Melhorou, é positivo, mas não chega.

Embrulhados em cobertores cinzentos, mais de uma dezena de refugiados já desistiu e veio dormir na relva atrás de mim. Há um casal deitado em cima de uma mesa de piquenique, como se fosse um beliche, com as crianças por baixo. Outras pessoas dormem encostadas à parede do edifício, à procura de calor.

Nos últimos três dias, chegaram cerca de mil novos refugiados a Bruxelas. A situação está cada vez mais grave, o governo não intervém e os meios de que dispúnhamos no Hall Maximillian tornaram-se insuficientes, os espaços, os serviços, a comida e as roupas escasseiam e é possível observar que até os voluntários estão a ficar cada vez mais ansiosos, menos serenos. Esta realidade era já esperada, sabíamos que a situação só estava "controlada" por pouco tempo.

Desde que escrevi aqui pela última vez, recebemos uma avalanche de pessoas que exigiu de todos nós o triplo da organização e das horas de trabalho, na procura de espaços para as alojar, na distribuição de comida, esperança e cobertores.

Inicialmente, os refugiados foram divididos por três espaços públicos, onde dormiriam no chão, mas protegidos do frio. Separámo-nos em equipas e eu fiquei numa estação de comboios, a famosa Gare du Nord. Depois de fechar o Hall Maximilian, encaminhámo-nos para lá com um grande grupo de afegãos e sírios, distribuímos sopa, sanduíches e mantas. Passado pouco tempo veio a polícia, pediram-nos para retirar toda a gente, porque a estação tinha de fechar durante a noite. Dormiram ao ar livre e isso tirou-me o sono.

Nos dias seguintes, foram enviadas mensagens a todas as famílias belgas que antes receberam refugiados, a pedir uma ajuda de emergência. Neste momento, o meu amigo Mohamed acaba de chegar de uma igreja aqui perto. Foi lá deixar cinco famílias. Outras foram levadas para a universidade e as pessoas que restam ainda estão aqui à porta. Talvez a Cruz Vermelha arranje camas para mais umas dezenas.

Entre uma solução e outra, só hoje consegui ter tempo para escrever. Espero na próxima semana poder organizar-me melhor, mas os últimos dias e noites foram difíceis de viver. Desejo ansiosamente que os Estados europeus se mobilizem para tomar decisões sérias, o inverno é rigoroso e os nossos esforços serão insuficientes. A esperança que tenho é alimentada por todos aqueles que encontro com vontade de ajudar. Somos muitos e temos energia e ideias, mas pouco mais.

Hoje, há pessoas a dormir na rua, que passaram o dia inteiro em filas, para que finalmente chegasse a sua vez e lhes dissessem que tinham acabado os atendimentos no centro de imigração, a comida, as camas, as roupas, o direito de asilo, a esperança e a paciência.

A pequenina Tere aperta a minha mão com força. Está divertida a mergulhar as galochas nas folhas secas caídas das árvores, não percebeu bem o que se está a passar. Ainda bem. Já não escrevo mais porque a tenho ao colo, não me posso envolver demasiado, tenho de manter a distância, não posso perder a serenidade, mas não consigo conceber a hipótese de ela dormir na rua. Voltei para casa quando os pais a chamaram e me deu um beijinho à pressa. Conseguiram um lugar na Cruz Vermelha.

O cansaço cresce entre todos os que trabalham comigo. As emoções são fortes, o trabalho é duro, se não fosse a esperança e a solidariedade que vivemos, não sei como faríamos, refugiados também nesta realidade paralela, de mãos atadas numa Europa de olhos fechados.

 

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por Augusta Clara às 08:00



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