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Jardim das Delícias


Sábado, 05.03.16

Pronunciamento de generais contra Hollande - José Goulão

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José Goulão  Pronunciamento de generais contra Hollande

 

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Mundo Cão, 5 de Março de 2016

 

   Generais franceses na reserva publicaram uma carta aberta contra o chefe de Estado, François Hollande, acusando-o de ter “capitulado” na sua actuação contra a chamada “selva de Calais”, os miseráveis campos montados por refugiados fugidos às guerras no Médio Oriente e que esperam a oportunidade de atravessar a Mancha com destino ao Reino Unido. De acordo com Le Figaro, o jornal de direita que dá letra de forma à carta, muitos outros generais, entre os cerca de mil que estão na reserva, são da mesma opinião.

A generalidade da comunicação social francesa não esconde que este pronunciamento militar está alinhado com as posições da extrema-direita fascista contra os refugiados, uma vez que a carta serve de igualmente de protesto contra a detenção de um outro general, Christian Piquemal, ex-comandante da Legião Estrangeira francesa, por ter participado numa manifestação xenófoba não autorizada promovida por Pegida, uma filial do grupo de choque alemão e que gravita no universo dos bandos de assalto controlados pela Frente Nacional de Marine Le Pen. “Em vez de visar um soldado, general e patriota, convém estabelecer a ordem em Calais”, advertem os generais na carta. Estabelecer a ordem, segundo os subscritores, “inclui erradicar a selva – pode existir uma selva na República? – e o envio de todos os clandestinos para os países de origem”.

Nos países de origem dos refugiados, como se sabe, existem guerras nas quais têm participado activamente muitos generais franceses, tanto no âmbito da NATO como por decisão directa dos presidentes franceses Nicolas Sarkozy e François Hollande. A carta dos generais é omissa quanto a essa causa do problema – limita-se a defender o reenvio dos refugiados para o caos e a morte pelos quais o seu país tem elevada quota-parte de responsabilidade – preferindo destacar a “ironia” do facto de o general Piquemal “ter sido detido em nome da ordem pública, enquanto imigrantes ilegais continuam livres”.

Entre os signatários da carta estão o general Coursier, ex-comandante da Região Militar de Lille (que integra Calais), e os também generais Antoine Martinez e Jean du Vernier, além de Yvan Flot, ex-deputado da Frente Nacional pela região de Calais.

A designada “selva de Calais” é um vasto descampado entretanto ocupado por milhares de refugiados, em situação de degradação humilhante, e que pretendem alcançar o Reino Unido, onde o governo de David Cameron lhes fecha as portas, agora ainda com maior firmeza porque se considera forçado a cumprir a agenda da extrema-direita para tentar ganhar o referendo sobre a permanência na União Europeia.

A política da administração Hollande, interpretada no terreno pelo seu primeiro-ministro Manuel Valls, conhecido há muito pelas inclinações xenófobas, tem sido a de reprimir e desmantelar os acampamentos informais e desapoiados existentes na “selva”, ao mesmo tempo que manobra a crise em sintonia com as dificuldades do governo de Londres. A actuação que os generais qualificam de “capitulação” caracteriza-se pelo desmantelamento violento dos acampamentos de refugiados – a exemplo do que Valls está habituado a fazer com comunidades de ciganos em todo o país – sem ter conseguido ainda passar à prática o objectivo de os reenviar para os países de origem. Não se pode fugir ao artigo da Constituição que “determina a integridade do território”, lê-se no pronunciamento dos generais. “Os imigrantes ilegais entram massivamente em França e instalam-se em lugares como Calais”, acrescentam os militares, enquanto os habitantes de Calais vivem em “situação desastrosa, com medo de bandos mafiosos”.

Um dos promotores da iniciativa, Nicolas Stoquer, presidente da Confederação France Armée, explica que “foi a urgência da situação de crise que os empurrou a proceder de maneira descomplexada”.

Colocado perante o texto da carta, um diplomata francês em Bruxelas lamentou que os generais não se tenham pronunciado, em devido tempo, contra a participação das forças armadas francesas em guerras “sem razão e sem fim que estão na base da crise dos refugiados, o que prova também a incongruência das instituições europeias”. Antes dessas guerras, acrescentou, a Europa não sabia “o que era uma crise provocada pela afluência de refugiados”.

 

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por Augusta Clara às 18:00

Sábado, 17.10.15

Faz lá Esperança, Camarada! - José Eduardo Agualusa

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José Eduardo Agualusa  Faz lá Esperança, Camarada!

 

 

 

Rede Angola.info, 16 de Outubro de 2015

 

   Só quem já perdeu o coração é capaz de não se comover com a onda de solidariedade para com os presos políticos, que cresce a cada dia, transformando-se em algo maior, num autêntico movimento pró-democracia – como vem sonhando Luaty Beirão.  A vigília em Lisboa, na noite da passada quarta-feira, mostrou isso mesmo. Muita gente anónima, muitos rostos conhecidos, angolanos, portugueses, brasileiros, caboverdianos – como Rafael Marques, Waldemar Bastos, Kalaf Epalanga, Bob da Rage, Mayra Andrade, Maria Gadu, Gregório Duvivier – e toda aquela gente solidária, gritando “Liberdade já!”, e avançando em direcção ao futuro. Foi bonito estar ali, como deve ter sido bonito estar em Luanda, nas vigílias pacíficas, entretanto interrompidas pela estúpida brutalidade do regime.

A democracia parece-me uma inevitabilidade histórica. Quando nasci, há mais de meio século, eram poucos os países no mundo que viviam em democracia. Na América Latina, na Ásia e em África os regimes autoritários eram maioria absoluta. Mesmo na velha Europa, a democracia começava depois dos Pirenéus e terminava na Alemanha Ocidental. Hoje, são poucos os países que ainda não vivem em democracia, ainda que em alguns essa democracia seja muito frágil e rudimentar. A noção de que a democracia é inevitável explica que mesmo certas ditaduras, como a nossa, se fantasiem de democracias.

O endurecimento do regime acontece num momento de colapso económico, precipitado pela queda do preço do petróleo, sim, mas que é resultado, na verdade, de uma vasta soma de erros governativos e estratégicos, ao longo de décadas, somados a uma corrupção descontrolada. As grandes empresas estrangeiras e outras forças políticas e económicas que até aqui têm apoiado José Eduardo dos Santos estão agora à procura de alguém mais habilitado para gerir de forma pacífica a convulsão destes dias. José Eduardo dos Santos é hoje tão incómodo e prejudicial para o seu próprio partido, quanto era Jonas Savimbi para a Unita na época em que foi morto. Savimbi foi morto, como se sabe, graças ao empenho direto de militares e militantes do movimento que comandava. O mais provável é que também José Eduardo dos Santos acabe por cair, mais cedo ou mais tarde, defenestrado pelos seus próprios camaradas.

A ausência, ontem, dia 15 de Outubro, de José Eduardo dos Santos no discurso sobre o estado da nação, na cerimónia de abertura da Assembléia Nacional, parece-me significativa. José Eduardo foi substituído, à última hora, por Manuel Vicente. O próprio Jornal de Angola não foi informado de tal substituição, anunciando em título, “O  Presidente Fala Hoje do Estado da Nação”.

Manuel Vicente regressou ao tema do caos e da desordem em alguns países africanos, sugerindo uma vez mais que tal “desordem”, terá sido provocada por forças externas na sequência dos movimentos de democratização. Sobre os presos políticos nem uma palavra. E, no entanto, a grande luz do sorriso irónico de Luaty esteve por ali, o tempo todo, numa reafirmação de esperança e redenção.

Luaty, nosso herói. Estamos juntos. Liberdade já!

 

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por Augusta Clara às 08:00

Terça-feira, 30.07.13

Como estamos empobrecidos, aburguesados e silenciados – e o que fazer acerca disso - John Pilger

 

John Pilger  Como estamos empobrecidos, aburguesados e silenciados – e o que fazer acerca disso

 

 

   Conheço o meu carteiro há mais de 20 anos. Consciencioso e bem-humorado, ele é a encarnação do serviço público no seu melhor aspecto. Noutro dia, perguntei-lhe: "Por que é que você se posta frente a cada porta como um soldado numa parada?" 

"Novo sistema", respondeu. "Já não me pedem para simplesmente postar as cartas através da porta. Tenho de abordar cada porta de um certo modo e enfiar as cartas através dela de um certo modo". 

"Porquê?" 

"Pergunte-lhes". 

Do outro lado da rua estava um jovem solene, com prancheta na mão, cujo trabalho era seguir carteiros e ver se eles cumprem as novas regras, sem dúvida como preparativo para a privatização. Eu disse ao seguidor de carteiros que o meu era admirável. A sua cara permaneceu imutável, excepto por um momentâneo piscar confuso. 

Em "Admirável mundo novo revisitado", Aldous Huxley descreve uma nova classe condicionada à normalidade que não é normal "porque eles estão tão bem ajustados ao nosso modo de existência, porque sua voz humana foi silenciada tão prematuramente nas suas vidas, que nem mesmo lutam ou sofrem ou desenvolvem sintomas como acontece com o neurótico". 

A vigilância é normal na Era da Regressão – como revelou Edward Snowden. Câmaras por toda a parte são normais. Liberdades subvertidas são normais. A discordância pública efectiva é agora controlada pela polícia, cuja intimidação é normal. 

A corrupção de nobres palavras como "democracia", "reforma", "bem-estar" e "serviço público" é normal. Primeiros-ministros que mentiram abertamente acerca de lobbystas e objectivos de guerra são normais. A exportação de armas britânicas no valor de 4 mil milhões de libras [€ ], incluindo munições para controle de multidão, para o estado medieval da Arábia Saudita, onde a apostasía é um crime capital, é normal. 

A destruição deliberada de instituições públicas eficientes e populares, como a Royal Mail, é normal. Um carteiro já não é mais um carteiro, a fazer o seu trabalho decente; ele é um autómato a ser observado, um ítem de formulário a ser assinalado. Huxley descreveu esta regressão como insana e o nosso "perfeito ajustamento àquela sociedade anormal" como sinal de loucura. 

Estaremos nós "perfeitamente ajustados" a isto? Não, ainda não. O povo defende hospitais do encerramento, o Reino Unido íntegro força agências bancárias a fecharem e seis corajosas mulheres escalam o mais alto edifício da Europa para mostrar a devastação provocada no Árctico pelas companhias de petróleo. Aqui, a lista começa a desvanecer-se. 

No festival de Manchester deste ano, a épica peça "A máscara da anarquia", de Percy Bysshe Shelley – com todos os 91 versos escritos em cólera após o massacre de Lancashire, em 1819, do povo que protestava contra a pobreza – é uma peça teatral aplaudida e absolutamente divorciada do mundo externo. Em Janeiro último, a Comissão da Pobreza da Grande Manchester revelou que 600 mil habitantes de Manchester estavam a viver em "extrema pobreza" e que 1,6 milhão, ou aproximadamente a metade da população da cidade, estavam "a deslizar para pobreza mais profunda". 

A pobreza foi aburguesada (gentrified). O Parkhill Estate, em Sheffield, era outrora um edifício de habitação pública – pouco apreciado por muita gente devido ao seu brutalismo Le Corbusier, à fraca manutenção e falta de instalações. Com o programa Heritage Grade II, ele foi renovado e privatizado. Dois terços das velhas habitações renasceram como apartamentos modernos vendidos a "profissionais", incluindo designers, arquitectos e um historiador social. No gabinete de vendas podem-se comprar canecas e almofadas de designer. Esta fachada não apresenta nem um indício de que, devastada pelos cortes de "austeridade" do governo, Sheffield tem uma lista de espera para habitação social de 60 mil pessoas. 

Parkhil é um símbolo dos dois terços da sociedade que é a Grã-Bretanha de hoje. O terço aburguesado vai bem, alguns deles extremamente bem, um terço luta para sobreviver a crédito e o resto desliza para a pobreza. 

Embora a maioria dos britânicos seja da classe trabalhadora – que se considere desse modo ou não – uma minoria aburguesada domina o parlamento, a administração superior e os media. David Cameron, Nick e Ed Milliband são os seus autênticos representantes, com apenas diferenças técnicas menores entre os seus partidos. Eles estabelecem os limites da vida e do debate político, ajudados pelo jornalismo aburguesado e da indústria da "identidade". A maior transferência de sempre da riqueza, para cima, é um dado. A justiça social foi substituída pela "justeza" ("fairness") sem significado. 

Enquanto promove esta normalidade, a BBC concede um prémio de quase um milhão de libras a um funcionário superior. Embora se considere como o equivalente nos media à Igreja da Inglaterra, a corporação agora tem uma ética comparável àquela das companhias de "segurança" G4S e Serco as quais, diz o governo, cobraram a mais por serviços públicos dezenas de milhões de livros. Em outros países isto se chama corrupção. 

Tal como a liquidação das companhias de água, gás, água e das ferrovias, a venda do Royal Mail está a ser obtida com subornos e a colaboração da liderança sindical, pouco importando o seu protesto vocal. Ao abrir a sua série de documentários de 1983, "Questions of Leadership", Ken Loach mostra líderes sindicais a exortarem as massas. Os mesmo homens são mostrados a seguir, mais velhos e enfeitados, adornados com arminho na Casa dos Lordes. Na recente homenagem pelo Aniversário da Rainha, o secretário-geral da [central sindical] TUC, Brendan Barber, recebeu o seu título de nobreza. 

Por quanto tempo os britânicos podem assistir aos levantamentos por todo o mundo e pouco mais fazer do que chorar o defunto Partido Trabalhista? As revelações de Edward Snowden mostram a infraestrutura de uma polícia de estado a emergir na Europa, especialmente na Grã-Bretanha. Contudo, o povo está mais consciente do que nunca; e os governos temem a resistência popular – razão pela qual os que dizem a verdade são isolados, caluniados e perseguidos.

Mudanças grandiosas quase sempre começam com a coragem de pessoas que põem em causa suas próprias vidas contra todas as adversidades. Não há outra saída agora. Acção directa. Desobediência civil. Infalível. Leiam Percy Shelley – "Vocês são muitos; eles são poucos". E tenham êxito.

 
25/Julho/2013

 

O original encontra-se no New Statesman e em johnpilger.com/... 

Este artigo encontra-se em http://resistir.info/ .

 

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por Augusta Clara às 08:00

Sábado, 08.12.12

Main basse sur la ville de Bombay - Cléa Chakraverty

 

Tiranos e tiranetes pelo mundo fora. Quem mudou o nome de Bombaim?

 

Jusque dans la mort, le patron du parti ultranationaliste Shiv Sena aura réussi à ridiculiser la démocratie indienne. Bombay(Mumbai), la ville qui « ne dort jamais », et ses vingt et un millions d’âmes se sont pourtant bel et bien endormies ce samedi 17 novembre. Tandis que Bal Thackeray s’éteignait à 86 ans, entouré de sa famille, la capitale commerciale de l’Inde s’est comme arrêtée de respirer.

Centres commerciaux, magasins de proximité, échoppes ambulantes, écoles, cinémas: aucun établissement n’a résisté à l’annonce officielle de sa mort. Concerts et mariages ont été annulés. Un vent de panique a également saisi les aéroports : les quelques taxis circulant exigeaient cinq fois la course ; certains ont été passés à tabac par des collègues furieux de les voir travailler. Les seuls transports disponibles furent les trains et les bus... afin de se rendre aux funérailles. Dans la rue, des partisans du Shiv Sena circulaient à moto, s’assurant que les boutiques étaient bien fermées.

Thackeray n’était pourtant ni un Prix Nobel de la paix, ni une star de Bollywood, encore moins un joueur de cricket. Né en 1926, caricaturiste de presse dans les années 1960, il a convaincu les syndicats ouvriers par son humour, ses idées populistes et son discours radical. Face aux discriminations, réelles ou supposées, que subissaient les travailleurs marathes (originaires du Maharashtra, la région où se situe Bombay), la violence constituait le seul recours. Ses dessins de presse rencontraient un vif succès. Il se lança alors en politique. En 1966, cinq cent mille personnes se sont rendues au parc Shivaji, rassemblement constitutif de la création du parti Shiv Sena, où « le tigre » a été incinéré devant près de deux millions de personnes ce dimanche 18 novembre.

Dans les années 1970, il entreprit une campagne de haine à l’encontre des communistes, qui se solda par le meurtre du charismatique et brillant syndicaliste Krishna Desai, puis contre les Indiens du Sud, nouvellement immigrés à Bombay et occupant des postes d’employés, jalousés par de nombreux Maharashtriens. Le Shiv Sena, « l’armée de Shivaji » (du nom du guerrier et fondateur de l’Empire marathe du XVIIe siècle), était en marche. Thackeray prit pour cible le Pakistan, puis la population musulmane, prônant le discours du mouvement fondamentaliste hindou, hindutva. En décembre 1992, lorsque les émeutes interreligieuses éclatèrent, ses discours incendiaires semblent avoir été suivis à la lettre [Rapport de la commission d’investigation, Srikrishna Commission, suite aux mouvements de contestation à Bombay qui eurent lieu entre 1992 et 1993.]]

Dans les années 2000, les immigrés du nord de l’Inde (Bihar, Uttar Pradesh), chauffeurs de rickshaw ou de taxi, vendeurs de lait et de légumes, devinrent les boucs émissaires de l’idéologie de Thackeray et de sa famille. Le patriarche a créé un parti de goût douteux. Se faisant appeler « suprêmo » ou « le tigre », il était toujours représenté accompagné d’une image de tigre menaçant (symbole du parti), portant des lunettes opaques, assis sur un trône. Il ne cachait pas non plus sa fascination pour Adolf Hitler.

En Inde, toute bonne entreprise est évidemment dynastique. Ainsi, en 2010, M. Aditya Thackeray, 20 ans, étudiant en licence d’histoire à la prestigieuse université de Bombay et petit-fils du fondateur du parti, a réussi à faire interdire de son cursus le roman « Such a Long Journey », de Rohinton Mistry, sous prétexte que les « Maharashtriens y étaient malmenés » (The Guardian, 19 octobre 2010). L’auteur, les médias et de nombreux enseignants, en Inde comme à l’étranger, ont eu beau protester : l’ouvrage n’est désormais plus au programme.

Le Shiv Sena est devenu rapidement incontournable dans la gestion de la ville. Grâce à un puissant jeu d’alliances, il tient aujourd’hui un tiers des sièges municipaux. Avec ses partisans, il a même réussi, en 1995, à rebaptiser officiellement la ville en Mumbai. Telle fut l’emprise de Thackeray sur la ville jusque dans sa mort. Deux jours avant son trépas, très affaibli, il a vu défiler à son chevet les plus grandes stars de cinéma de Bollywood. Respect ? Amitié ? Peut-être. Mais, surtout, l’assurance de tournages et une relative sécurité, toutes deux impossibles sans l’accord des syndicats tenus par... le Shiv Sena lui-même [1].

Les médias, eux, se sont gardés de tout commentaire pouvant être perçu comme négatif. Les discussions en public se font à voix basse, le regard en coin. Lundi 19 novembre, les réseaux sociaux Twitter et Facebook paniquent : Mlle Shaheen Dhada, une étudiante de 21 ans, et une amie ont été frappées, puis arrêtées pour avoir critiqué l’engouement exagéré autour de la mort du chef du parti. Si elles ont été relâchées contre caution, la clinique de l’oncle de l’une d’entre elles a été vandalisée par des travailleurs du parti, les Shiv Sainiks. Coïncidence ? Mlle Dhada porte un nom musulman. Si les agresseurs de son oncle ont finalement été appréhendés, la police locale a tout de même reproché à Mlle Dhada d’avoir failli « provoquer des émeutes religieuses ». Un raisonnement similaire circule dans les médias et parmi les habitants. On loue la mort naturelle du vieux politicien, de crainte qu’une vague d’assassinats plonge la ville dans de nouvelles émeutes sanglantes.

Aujourd’hui, les spéculations vont bon train concernant la succession de Thackeray. D’un côté, son fils Uddhav est à la tête du Shiv Sena. De l’autre, son neveu Raj Thackeray a fondé le Maharashtra Navnirman Sena (MNS ou armée de réformation maharashtrienne), issu d’une scission avec le Shiv Sena. On présente ce dernier comme le réel successeur idéologique du « tigre ».

Le lendemain des funérailles, le porte-parole du Shiv Sena assurait que jamais l’appel « à la grève générale » n’avait été donné — l’opération ville morte serait ainsi née spontanément. Aujourd’hui, Bombay semble émerger d’un cauchemar. Les activités quotidiennes reprennent, comme si rien n’avait eu lieu. Pourtant, une indéfinissable sensation de malaise persiste. L’exécution du condamné à mort Mohammed Ajmal Amir Kasab, seul survivant du groupe terroriste Lashkar e-Taiba ayant participé aux attentats de novembre 2008 [2], est déjà officiellement célébrée, par certains, comme un hommage à la mémoire de Thackeray. Et il est difficile d’ignorer les centaines de portraits du fondateur du Shiv Sena qui ornent encore chaque coin de rue.

 

vendredi 23 novembre 2012

Notes

[1] Lire Maximum City, de Suketu Mehta, Buchet-Chastel, Paris, 2004.

[2] Wendy Kristianasen, « Plongée au cœur de l’Inde musulmane », Le Monde diplomatique, janvier 2009.

 

(publicado num dos blogs do Diplo - Planète Asie)

 

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por Augusta Clara às 16:00



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