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Delícias são tudo o que nos faz felizes: um livro, a magia dum poema ou duma música, as cores duma paleta ... No jardim o sol não raia sempre mas pulsa a vida, premente.
Paulo Moura (em Istambul) Profissão repórter
(Fotografias de Antoine Rambourg)
Uma multidão começara a subir a rua Tarlabasi, arrastando ferros, grades, sinais de trânsito, para erguer barricadas. Seguiam em direcção à praça Taksim, embora soubessem que toda a área estava cercada por milhares de polícias.
De repente, surgiu entre os prédios o vulto branco de um dos blindados Toma, equipados com canhões de água. Atrás, uma fila de polícias, de capacetes e escudos. Soam as as primeiras explosões, as bombas de gás lacrimogéneo rodopiam no ar, rolam pelo pavimento.
A multidão foge pela rua abaixo, em direcção a, percebe-se subitamente, um outro contingente da polícia, que está à espera. Alguns manifestantes tentam esconder-se, outros enveredam por ruas perpendiculares.
A minha opção é uma escadaria que sobe rumo à rua Istiklal, a mais movimentada de Istambul. O gás está por todo o lado, o que torna a respiração muito difícil. O meu ridículo equipamento — uma máscara de cirurgia e uns óculos de natação — de pouco ou nada servem. Com o esforço de subir a escadaria a correr, a sensação é de desmaio iminente.
De repente explode uma granada de gás a uns 3 metros dos meus pés. Vejo o fumo a espalhar-se e tento fugir por uma viela estreita, mas é neste momento que percebo que a bomba foi lançada em minha honra. Vejo um grupo de polícias a correr para mim. Apercebo-me ainda de que não está mais ninguém à volta.
Sinto uma pancada forte que me atira ao chão. Não percebo se é um encontrão, um murro ou uma bastonada. A seguir, uma avalanche de violência. Grito “Press! Press!”, enquanto um instinto qualquer me leva a encolher-me e a proteger a cabeça com as mãos.
Durante uns instantes quase perco os sentidos, mas logo depois apodera-se de mim uma aguda e estranha lucidez. Verifico que um primeiro polícia me arrancou brutalmente a máscara e os óculos, certamente para facilitar a entrada do gás nos meus pulmões. Sinto um segundo homem dar-me um pontapé, outro ferir-me um braço com uma bastonada, outro ainda desferir-me golpes nas pernas e joelhos.
A cada um que veio bater-me gritei que era jornalista, em vão. Pelo menos dois dos agressores não estavam fardados. Usavam jeans e sapatilhas, t-shirt branca. E escudos e bastões, para luta corpo-a-corpo. Na verdade, dadas as circunstâncias, duvido que alguém lhes dê luta, o que torna a sua missão bem mais simples.
De súbito alguém grita: “Repórter?” E estende-me a mão. Ajuda-me a levantar e leva-me até à entrada do hotel Mármara, onde outros jornalistas se refugiaram. Não sei quem é este homem, a quem os polícias obedeceram, quando os mandou afastar. Antoine, o fotógrafo francês que estava comigo, espera-me. Viu tudo da janela do hotel, e registou.
Uma equipa que está a fazer um documentário sobre a candidatura de Istambul aos Jogos Olímpicos de 2020 também apanhou o momento.
Nas imagens pode ver-se como lutei destemidamente contra as forças da repressão (exactamente como fazem os cidadãos turcos quando são apanhados assim nas malhas da autoridade).
Em jeito de conclusão, direi que estes polícias tiveram muita sorte. Se eu não estivesse um pouco atordoado pelo gás, tê-los-ia corrido todos à chapada.
Ao Vivo em Istambul
Dia 16 de Junho
Alguém chamado Pedro Feijó enviou esta mensagem:
São seis da manhã cá e acabo de chegar a casa. Foi uma das noites mais inacreditáveis da minha vida e tenho um favor a pedir-vos: por favor divulguem tudo o que puderem sobre a resistência na Turquia. Hoje fui expulso de um parque com uma carga policial. Hoje fui empurrado para um hotel com dezenas de feridos. Hoje fui fechado em salas com gás lacrimogéneo por todo o lado, sem conseguir abrir os olhos de tanto arder,sem conseguir respirar. Hoje levei com um canhão de água com químicos só por estar em frente a um hotel sem estar a ameaçar o quer que seja. Hoje estive nas ruas com o povo de istambul. Hoje construí barricadas com eles, hoje atirei de volta as cápsulas de gás para cima da polícia, hoje fugi lado a lado pelas ruelas com medo da Polis. Hoje passei por Gezi durante a noite e já bulldozers a destruir tudo: o nosso parque, as nossas tendas, as nossas coisas. Hoje vi pessoas quase a asfixiarem, vi feridas abertas nos corpos. Hoje senti um tiro raspar-me as calças. Hoje fui tirado à bruta de dentro de um taxi pela polícia e revistado de cima a baixo, tudo o que estava dentro da mochila, e ofendido por ter um panfleto de Gezi como separador de um dos livros. Hoje volto a casa com uma raiva deste grupo de pessoas, deste grupo de caras, deste grupo de gravatas,destes Tayyips, e desta gente que veste o uniforme enquanto despe a consciência. Hoje chego a casa estoirado, a sentir que não durmo há dias, mas com a energia para correr todas as ruas desta cidade. Hoje chego a casa com mais força para lutar. Principalmente porque sei que não estou sozinho. Mas também sei que se a mensagem não passar aí para fora estamos perdidos. Estou num país onde um homem tem o direito de mandar espancar brutalmente milhares de cidadãs só porque ocuparam um parque. Sei que não podem vir para cá, mas por favor levem-nos para aí.
Em Reflections on a revolution
The Turkish authorities have crossed all boundaries tonight, cracking down on protesters with an unprecedented use of violence. They have fired tear gas into the Divan Hotel where protestors had set up an infirmary to treat the wounded. There is footage of a TOMA water cannon shooting water through the entrance of a hospital gate. There are reports of dozens of children who fled the Gezi Park after it was attacked, and where subsequently subjected to large amounts of tear gas while inside the surrounding buildings like the Divan Hotel. From all sides protestors are reporting that the water used by the TOMA water cannons has been treated with some kind of chemical that burns the eyes and the skin. #occupygezi #istanbul #occupyturkey #WeAreGezi
https://www.facebook.com/video/video.php?v=10151688828621508 http://vagustv.wpengine.com/?p=123
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O esquerda.net entrevistou Mehmet Ali Uzelgun, o investigador do ISCTE que participou nos primeiros dias do protesto da praça Taksim e assistiu de perto aos confrontos com a polícia e à resposta da sociedade turca numa poderosa onda de solidariedade e protesto.
Participaste no movimento que originou o maior protesto social na Turquia nos últimos anos. Como foram esses dias antes da repressão?
Em primeiro lugar, há que dizer que o primeiro-ministro quase tornou numa questão pessoal este projeto de construir um centro comercial num dos últimos espaços públicos de Istambul. O plano foi rejeitado pelo conselho regional de proteção da natureza e cultura e a resposta dele foi “nós rejeitamos essa rejeição”. Foi então que as pessoas que queriam “rejeitar a rejeição da rejeição” começaram a juntar-se e a construir uma unidade para esta luta.
Na segunda-feira (27 de maio), um grupo de pouco mais de cem pessoas juntou-se para uma ação de ocupação no parque Gezi junto à praça Taksim. Eram na maioria estudantes e pessoas que exigiam ter uma palavra a dizer nas decisões que se tomam em seu nome com implicações na vida da cidade. Queriam apenas que a sua voz fosse ouvida. Foi a estes que o primeiro-ministro chamou "marginais” e “bêbados".
Ao contrário do que julga o governo, estas pessoas não eram simplesmente "os amigos das árvores", mas sim pessoas politizadas: feministas, objetores de consciência, e gente libertária sem filiação partidária.
Quando fui para o parque Gezi na quarta-feira de manhã haveria cerca de cem pessoas a dormir ali em tendas. Éramos duzentas ou trezentas pessoas que ali estávamos a debater com um copo de chá na mão. Nesses primeiros três dias da ocupação, a polícia apareceu sempre por volta das 5 da manhã e com grande brutalidade: agrediam as pessoas, queimavam as tendas, prendiam alguns e os outros tinham de fugir. Foi impressionante ver nas redes sociais as pessoas a gritarem "por favor, deixem-nos levar os nossos pertences!". Os polícias batiam sempre, mas as pessoas não atiravam pedras nem procuravam confrontá-los. Enfim, aconteceu o que era normal na Turquia: a polícia reprime e as pessoas recuam.
Foi isso que se viu nos primeiros três dias e a cada dia que passava, a par da violência, aumentava também o número de manifestantes. Na manhã de quinta-feira (30 de maio) a praça já tinha mais gente, incluindo artistas bastante famosos. Eu estava convencido que a polícia não voltaria lá. Mas na manhã seguinte voltaram com a mesma violência e prenderam muita gente. Um rapaz foi barbaramente agredido e teve de ser operado no hospital. A repressão conseguiu fechar o parque e expulsar de lá as pessoas. Penso que esse foi o dia chave, tudo aconteceu nesse dia.
Logo aí decidi que não ia abandonar aquele protesto. Felizmente não fui o único, veio gente de toda a cidade apoiar-nos, dezenas de milhares, talvez mais de cem mil pessoas. A reação popular não era apenas contra as sucessivas imposições do governo sem querer saber da opinião das pessoas, era contra a repressão brutal contra os manifestantes pacíficos. E à medida que os manifestantes chegavam e davam força ao protesto, começaram a responder à polícia. Era sobretudo gente de esquerda, mas também todo o tipo de gente que queria dizer “basta” desta regime opressor. Nessa altura, o movimento ganhou a força necessária para se transformar numa revolta popular. E já depois das duas da manhã, recuperámos a praça Taksim. Creio que foi aí que o protesto ganhou outra dimensão, a de um levantamento popular.
Como é que um protesto local conseguiu ganhar esta dimensão e ser o rastilho para despoletar a tensão social no país?
... com acompanhamento musical do pianista Davide Martell
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