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Jardim das Delícias


Terça-feira, 18.06.13

Profissão repórter - Paulo Moura (em Istambul)

 

Paulo Moura (em Istambul)  Profissão repórter

 

(Fotografias de Antoine Rambourg)

 

   Uma mul­ti­dão começara a subir a rua Tar­labasi, arra­s­tando fer­ros, grades, sinais de trân­sito, para erguer bar­ri­cadas.  Seguiam em direcção à praça Tak­sim, emb­ora soubessem que toda a área estava cer­cada por mil­hares de polícias.

De repente, surgiu entre os pré­dios o vulto branco de um dos blinda­dos Toma, equipa­dos com can­hões de água. Atrás, uma fila de polí­cias, de capacetes e escu­dos. Soam as as primeiras explosões, as bom­bas de gás lac­rimogé­neo rodopiam no ar, rolam pelo pavimento.

A mul­ti­dão foge pela rua abaixo, em direcção a, percebe-se subita­mente, um outro con­tin­gente da polí­cia, que está à espera. Alguns man­i­fes­tantes ten­tam esconder-se, out­ros enveredam por ruas perpendiculares.

A minha opção é uma escadaria que sobe rumo à rua Istik­lal, a mais movi­men­tada de Istam­bul. O gás está por todo o lado, o que torna a res­pi­ração muito difí­cil. O meu ridículo equipa­mento — uma más­cara de cirur­gia e uns óculos de natação — de pouco ou nada servem. Com o esforço de subir a escadaria a cor­rer, a sen­sação é de des­maio iminente.

De repente explode uma granada de gás a uns 3 met­ros dos meus pés. Vejo o fumo a espalhar-se e tento fugir por uma viela estre­ita, mas é neste momento que percebo que a bomba foi lançada em minha honra. Vejo um grupo de polí­cias a cor­rer para mim. Apercebo-me ainda de que não está mais ninguém à volta.

Sinto uma pan­cada forte que me atira ao chão. Não percebo se é um encon­trão, um murro ou uma bas­ton­ada. A seguir, uma avalanche de vio­lên­cia. Grito “Press! Press!”, enquanto um instinto qual­quer me leva a encolher-me e a pro­te­ger a cabeça com as mãos.

Durante uns instantes quase perco os sen­ti­dos, mas logo depois apodera-se de mim uma aguda e estranha lucidez. Verifico que um primeiro polí­cia me arran­cou bru­tal­mente a más­cara e os óculos, cer­ta­mente para facil­i­tar a entrada do gás nos meus pul­mões. Sinto um segundo homem dar-me um pon­tapé, outro ferir-me um braço com uma bas­ton­ada, outro ainda desferir-me golpes nas per­nas e joelhos.

A cada um que veio bater-me gritei que era jor­nal­ista, em vão. Pelo menos dois dos agres­sores não estavam far­da­dos. Usavam jeans e sap­atil­has, t-shirt branca. E escu­dos e bastões, para luta corpo-a-corpo. Na ver­dade, dadas as circunstân­cias, duvido que alguém lhes dê luta, o que torna a sua mis­são bem mais simples.

De súbito alguém grita: “Repórter?” E estende-me a mão. Ajuda-me a lev­an­tar e leva-me até à entrada do hotel Már­mara, onde out­ros jor­nal­is­tas se refu­gia­ram. Não sei quem é este homem, a quem os polí­cias obe­de­ce­ram, quando os man­dou afas­tar. Antoine, o fotó­grafo francês que estava comigo, espera-me. Viu tudo da janela do hotel, e registou.

Uma equipa que está a fazer um doc­u­men­tário sobre a can­di­datura de Istam­bul aos Jogos Olímpi­cos de 2020 tam­bém apan­hou o momento.

Nas ima­gens pode ver-se como lutei destemi­da­mente con­tra as forças da repressão (exac­ta­mente como fazem os cidadãos tur­cos quando são apan­hados assim nas mal­has da autoridade).

Em jeito de con­clusão, direi que estes polí­cias tiveram muita sorte. Se eu não estivesse um pouco ator­doado pelo gás, tê-los-ia cor­rido todos à chapada.

 

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por Augusta Clara às 08:00

Segunda-feira, 17.06.13

Taksim Gezi Parkı Direnişi - Hasta Siempre, Comandante Che Guevara

 

Hasta Siempre, Comandante

 

 
 

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por Augusta Clara às 21:00

Domingo, 16.06.13

Médicos turcos presos por tratarem manifestantes feridos

 
 
Em Istambul prenderam-se médicos por tratarem manifestantes feridos
 
   O que se está a passar já é às claras: o ataque às democracias onde quer que existam e a todos aqueles que as defenderem. Vê-se, por este exemplo, que nem nas suas funções profissionais as pessoas são respeitadas. Onde é que se pode tolerar que os médicos sejam presos por tratarem feridos? Só no nazismo, com certeza! Ou nós, povos dos vários países nos unimos e somos solidários uns com os outros, ou ele, o nazismo, vai mesmo alastrar.

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por Augusta Clara às 21:30

Domingo, 16.06.13

O inferno em Istambul, agora

 

Ao Vivo em Istambul

 

 

Dia 16 de Junho

 

Alguém chamado Pedro Feijó enviou esta mensagem:

 

São seis da manhã cá e acabo de chegar a casa. Foi uma das noites mais inacreditáveis da minha vida e tenho um favor a pedir-vos: por favor divulguem tudo o que puderem sobre a resistência na Turquia. Hoje fui expulso de um parque com uma carga policial. Hoje fui empurrado para um hotel com dezenas de feridos. Hoje fui fechado em salas com gás lacrimogéneo por todo o lado, sem conseguir abrir os olhos de tanto arder,sem conseguir respirar. Hoje levei com um canhão de água com químicos só por estar em frente a um hotel sem estar a ameaçar o quer que seja. Hoje estive nas ruas com o povo de istambul. Hoje construí barricadas com eles, hoje atirei de volta as cápsulas de gás para cima da polícia, hoje fugi lado a lado pelas ruelas com medo da Polis. Hoje passei por Gezi durante a noite e já bulldozers a destruir tudo: o nosso parque, as nossas tendas, as nossas coisas. Hoje vi pessoas quase a asfixiarem, vi feridas abertas nos corpos. Hoje senti um tiro raspar-me as calças. Hoje fui tirado à bruta de dentro de um taxi pela polícia e revistado de cima a baixo, tudo o que estava dentro da mochila, e ofendido por ter um panfleto de Gezi como separador de um dos livros. Hoje volto a casa com uma raiva deste grupo de pessoas, deste grupo de caras, deste grupo de gravatas,destes Tayyips, e desta gente que veste o uniforme enquanto despe a consciência. Hoje chego a casa estoirado, a sentir  que não durmo há dias, mas com a energia para correr todas as ruas desta cidade. Hoje chego a casa com mais força para lutar. Principalmente porque sei que não estou sozinho. Mas também sei que se a mensagem não passar aí para fora estamos perdidos. Estou num país onde um homem tem o direito de mandar espancar brutalmente milhares de cidadãs só porque ocuparam um parque. Sei que não podem vir para cá, mas por favor levem-nos para aí.

 

 

Em Reflections on a revolution

 

The Turkish authorities have crossed all boundaries tonight, cracking down on protesters with an unprecedented use of violence. They have fired tear gas into the Divan Hotel where protestors had set up an infirmary to treat the wounded. There is footage of a TOMA water cannon shooting water through the entrance of a hospital gate. There are reports of dozens of children who fled the Gezi Park after it was attacked, and where subsequently subjected to large amounts of tear gas while inside the surrounding buildings like the Divan Hotel. From all sides protestors are reporting that the water used by the TOMA water cannons has been treated with some kind of chemical that burns the eyes and the skin. #occupygezi #istanbul #occupyturkey #WeAreGezi
https://www.facebook.com/video/video.php?v=10151688828621508 http://vagustv.wpengine.com/?p=123

 

 

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por Augusta Clara às 04:18

Sexta-feira, 14.06.13

Relato de Istambul: "Em três dias, as pessoas aprenderam a tomar as ruas"

 

O esquerda.net entrevistou Mehmet Ali Uzelgun, o investigador do ISCTE que participou nos primeiros dias do protesto da praça Taksim e assistiu de perto aos confrontos com a polícia e à resposta da sociedade turca numa poderosa onda de solidariedade e protesto.

 

Participaste no movimento que originou o maior protesto social na Turquia nos últimos anos. Como foram esses dias antes da repressão?

Em primeiro lugar, há que dizer que o primeiro-ministro quase tornou numa questão pessoal este projeto de construir um centro comercial num dos últimos espaços públicos de Istambul. O plano foi rejeitado pelo conselho regional de proteção da natureza e cultura e a resposta dele foi “nós rejeitamos essa rejeição”. Foi então que as pessoas que queriam “rejeitar a rejeição da rejeição” começaram a juntar-se e a construir uma unidade para esta luta.

Na segunda-feira (27 de maio), um grupo de pouco mais de cem pessoas juntou-se para uma ação de ocupação no parque Gezi junto à praça Taksim. Eram na maioria estudantes e pessoas que exigiam ter uma palavra a dizer nas decisões que se tomam em seu nome com implicações na vida da cidade. Queriam apenas que a sua voz fosse ouvida. Foi a estes que o primeiro-ministro chamou "marginais” e “bêbados".

Ao contrário do que julga o governo, estas pessoas não eram simplesmente "os amigos das árvores", mas sim pessoas politizadas: feministas, objetores de consciência, e gente libertária sem filiação partidária.

Quando fui para o parque Gezi na quarta-feira de manhã haveria cerca de cem pessoas a dormir ali em tendas. Éramos duzentas ou trezentas pessoas que ali estávamos a debater com um copo de chá na mão. Nesses primeiros três dias da ocupação, a polícia apareceu sempre por volta das 5 da manhã e com grande brutalidade: agrediam as pessoas, queimavam as tendas, prendiam alguns e os outros tinham de fugir. Foi impressionante ver nas redes sociais as pessoas a gritarem "por favor, deixem-nos levar os nossos pertences!". Os polícias batiam sempre, mas as pessoas não atiravam pedras nem procuravam confrontá-los. Enfim, aconteceu o que era normal na Turquia: a polícia reprime e as pessoas recuam.

Foi isso que se viu nos primeiros três dias e a cada dia que passava, a par da violência, aumentava também o número de manifestantes. Na manhã de quinta-feira (30 de maio) a praça já tinha mais gente, incluindo artistas bastante famosos. Eu estava convencido que a polícia não voltaria lá. Mas na manhã seguinte voltaram com a mesma violência e prenderam muita gente. Um rapaz foi barbaramente agredido e teve de ser operado no hospital. A repressão conseguiu fechar o parque e expulsar de lá as pessoas. Penso que esse foi o dia chave, tudo aconteceu nesse dia.

Logo aí decidi que não ia abandonar aquele protesto. Felizmente não fui o único, veio gente de toda a cidade apoiar-nos, dezenas de milhares, talvez mais de cem mil pessoas. A reação popular não era apenas contra as sucessivas imposições do governo sem querer saber da opinião das pessoas, era contra a repressão brutal contra os manifestantes pacíficos. E à medida que os manifestantes chegavam e davam força ao protesto, começaram a responder à polícia. Era sobretudo gente de esquerda, mas também todo o tipo de gente que queria dizer “basta” desta regime opressor. Nessa altura, o movimento ganhou a força necessária para se transformar numa revolta popular. E já depois das duas da manhã, recuperámos a praça Taksim. Creio que foi aí que o protesto ganhou outra dimensão, a de um levantamento popular.

Como é que um protesto local conseguiu ganhar esta dimensão e ser o rastilho para despoletar a tensão social no país?

 

 

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por Augusta Clara às 09:00

Sexta-feira, 14.06.13

A canção revolucionária italiana "Bella Ciao" cantada ontem na Praça Taksim, em Istambul ...

 

... com acompanhamento musical do pianista Davide Martell

 

 

 
Erdogan fez um ridículo apelo às mães de Istambul no sentido de retirarem os seus filhos do Parque. O resultado foi o contrário: as mulheres acorreram em grande número, dando as mãos e formando um cordão à volta dos manifestantes, protegendo-os das cargas da polícia, manifestando assim a sua solidariedade.
 

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por Augusta Clara às 08:00

Sexta-feira, 14.06.13

Praça Taksim, Istambul

 

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por Augusta Clara às 02:48



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