Saltar para: Posts [1], Pesquisa e Arquivos [2]
Delícias são tudo o que nos faz felizes: um livro, a magia dum poema ou duma música, as cores duma paleta ... No jardim o sol não raia sempre mas pulsa a vida, premente.
Rogério Edgardo Xavier Amar como quem morde
(Egon Schiele)
Corri à tua boca blasfema
ávido do fogo que tivesses
e à ousadia dos dedos,
pedi liberdade.
Escutei as pedras que disseste
e fui lobo na tua guerra.
Fui a boca, o sexo, a terra.
Fui o escuro e o medo, a lanterna, a faca,
a língua, a palavra, o mar, o céu, a diferença.
Dei-me à tua boca blasfema e tomei-te.
Não precisei de licença.
Edgardo Xavier.
Publicado RDL, 2016.
Rogério Edgardo Xavier Desafio
(Priscila Read)
Ainda o sol nem se adivinha
afastas os mistérios e vens,
de sombras e mornidão,
à minha carne adormecida.
Sei-te as mãos e a vontade
e por ti me atiço e ergo, pedra de culto,
feitiço, raiz, revolta, boca ávida.
És em mim a sede da mistura,
a força do enlace, a porta do cio,
o raspar das palavras por todos os segredos.
E em mim há fogo derramado
do teu poço e do meu mundo
da terra em que me afundo, do meu mar.
De amor gemo até acabar
veleiro abandonado na tua língua.
(Edgardo Xavier, Publicado RDL, 2015)
Rogério Edgardo Xavier Sem aviso
(Henri Matisse)
Vem sem avisar
Como uma surpresa boa
Vem num dia pleno
Com olhar doce e sereno
Das horas sem mágoa
Traz-me
Vivo
O teu coração
(Edgardo Xavier, Publicado RDL, 2010)
Rogério Edgardo Xavier Estátua
(Robert Mapplethorpe)
Sou uma estátua de mármore
Lisa
Fria
Cega
Até que me acordes
E me bebas
Devagar
Até que pouses em mim
Lânguido e líquido
O teu olhar azul de mar
Profundo
(in O Canto da Pedra, Papiro Editora, 2009)
Rogério Edgardo Xavier Lâmina
(Jiro Yoshihara)
No fogo lento da tua boca
ainda escorre a lascívia da antiga luta.
Uivam os que na serra trazem o luar nos gestos
e espadas prontas a ferir
os corpos num serôdio tempo exausto.
Ainda podemos florir.
Ainda nos buscamos para lá dos tormentos
na sede presa dos sexos
e ainda beijo a tua imobilidade na cinza dos sentidos.
Ainda com esperança respiro o teu silêncio.
Ainda espero.
Edgardo Xavier
Publicado RDL, Agosto de 2013.
Rogério Edgardo Xavier Assim
(Adão Cruz)
Queria escrever sobre o lado bom da velhice mas concluí, rapidamente, que isso não existe. Nem corpo nem memória. Com sorte os olhos ainda são capazes de ver coisas que mais ninguém vê e que só podemos dividir com netos crianças. As nervuras de uma folha, olha que linda à luz; a pele das maçãs vermelhas, repara como nenhuma é igual a outra e estas formigas? Já reparaste como parecem ter a certeza do caminho? Agora sente como é bom fazer um carinho ao musgo e como este céu tem imagens verdadeiramente notáveis. Tudo, menino, é magnífico quando aprendemos a olhar. Até o orvalho. Repara como cada gota de água pode espelhar o mundo. Fim do intervalo. Agora é mais só conosco. A dor no joelho, a falta de forças, o saber que a saúde tem tendência a piorar. Podemos, sempre, olhar para trás mas sentimos que as histórias já se misturam, que os rostos se diluíram que, se ainda é cedo para morrer, começa a ser tarde para viver. Vale a pena pensar. Sair da quietude deste banco e correr, sim correr até te encontrar, outra vez, no tempo em que não te conhecia mas já te amava. E, depois, sem esforço, sentir que me queres e me abraças mesmo que já não estejas.
Edgardo Xavier
Publicado RDL, Out. de 2013
Rogério Edgardo Xavier Esquecimento
(Helen Snyder)
Esquecimento. Já as feridas sararam e pedras caíram nas mágoas do caminho. Sem datas, sem dores ou sem evocações, a vida é um rio manso onde se espelha o tédio. O único acidente, marcado a vermelho na lisura da minha alma, és tu. Enquanto te recordar o mundo será, sempre, um paraíso de aventura e eu estarei vivo a defender-te do tempo.
Edgardo Xavier.
Publicado RDL 2012.
Rogério Edgardo Xavier Baselitz, o tosco?
(Georg Baselitz)
Era tosco. A mãe teve-o num lugar inóspito em precariedade total. Por falta de água limpou-o como pode e vestiu-o de ternura. Quando se achou só para tomar a sua parte do mundo não sabia os códigos de boa conduta social e tudo lhe pareceu com racionalidade discutível. O desacerto fez com que a comunicação do seu pendor artístico se traduzisse com uma terna raiva, à revelia do que a maioria pensava, sabia, acreditava ou fazia. Só pelo coração se lia a sua obra arrancada da matéria com desacerto desesperado. Dizia tudo ao contrário e o amor crescia por dentro das atitudes, avesso do que parecia, tão grande, tão terno, tão puro que até mesmo a porção pobre do que lhe coube se tornou ouro. A obra que sangrava contra a suavidade falsa era, afinal, limpa, doce, terna. Sem verdade factual eu gostaria de, assim, explicar Georg Baselitz, Pintor e Escultor alemão, nascido em 1938. Isto porque ninguém costuma aceitar resultados sem conhecer os dados da fonte, sem conferir as parcelas, sem pedir a confirmação a peritos dos EUA onde ele é conhecido como neorrealista. Por cá dizem que é pós-moderno. Eu prefiro dizer que, à margem das etiquetas, ele tem uma genuína forma de amar.
Edgardo Xavier
Publicado RDL, 2015.
Rogério Edgardo Xavier A Esperança
(Eduardo Arguelles)
A seu lado o homem, cansado, roncava. Encolhida no seu canto da cama, Odília, de olhos abertos, preenchia a insónia revendo o que, nos últimos anos, lhe acontecera. Casou cedo, no tempo em que era Lili para os pais permissivos que lhe faziam todas as vontades. Nem os estudos secundários terminou. Na verdade nenhum tempo sobrou para isso. A vida era frenética, as descobertas exigiam-lhe que saísse de um para outro namoro, de uma experiência para um desafio e deste para o meio da teia em que, afinal, foi apanhada. Casou grávida de gémeos e, ainda que desencantada e infeliz, teve mais uma criança doente. Aquele que lhe pareceu ser o príncipe encantado era só um sapo que, por não estar encantado, ficaria sapo muito tempo. Sabia trabalhar e ganhar dinheiro, não sabia nem queria aprender a amar porque, dizia, não tinha temperamento. O conto de fadas acabou na função de mãe, esposa, dona de casa. Não tinha tempo, também ela, para sequer perceber quão fundo era o buraco em que, voluntariamente, se metera. Aprendeu tudo o que não lhe ensinaram e intuiu o resto. A maternidade oferece às mães o jeito completo e, às esposas submissas, uma conformada raiva interior. Poderia abandonar tudo e levar os filhos com ela mas, perdidos os pais, sem curso nem emprego, a liberdade seria um insuportável pesadelo. As prisões nem sempre têm grades. Ela, incautamente, escolheu o seu destino para os dez anos seguintes. A esperança era o crescimento das crianças. A esperança era continuar os estudos ou aprender uma profissão. A esperança era conseguir que ele a amasse. A esperança…
Edgardo Xavier
Publicado RDL, 2015.
Rogério Edgardo Xavier Vagaroso é o tempo morno
(Gustav Klimt)
Depois de tantos anos a correr a vida mudou. Correr é olhar mas não ver, é temer o relógio, é dizer, à margem do tempo interior, a razão da falta ou do atraso ou da ausência. Correr pela sorte, pela clemência e chegar antes ao lugar onde a vida se mostra longínqua para lá dos vidros. E agora sem pressa, sem horas nem mandos? Agora, na incerteza dos primeiros passos, sem laços que não sejam os teus, livre de regras, aprendo a olhar de mais perto, com outro interesse e vagar. Quem disse que um jardim é um conjunto de relva, árvores e flores? - Quem disse, por certo ainda corre, ainda engole à pressa o bocado e sai para o pesadelo do dia. Trânsito, poluição, agonia. Traições, más gestões, crueldade sorridente e, pendente a incerteza. Será que me despedem? Fico ainda na Empresa?
O meu é por certo um jardim novo. As árvores têm personalidade, jeito diferente, harmonia. Algumas têm ninhos e pássaros, cantoria. Outras, austeras, mostram-me a aragem no alto, libertam perfume, folhas e flores. Cada coisa em seu tempo e espaço, com lugares marcados para todos. A baba seca de um caracol diz dos seus passeios, a teia de uma mínima aranha me conta da esperança e as formigas limpam e transformam invisíveis mundos que são partes do nosso e nunca antes o soubemos. Insetos e aves, o jogo de sombras no muro, o bonito que é o trevo em flor, o musgo a revelar que ali, à sombra, Deus também esteve. Protegidas as begónias, cansadas de ter tudo, talvez pudessem sonhar com um futuro sem leis. Vida agreste da erva, imponderáveis e surpresas. As carências aguçam o jeito, a fome e o frio se não matarem fortificam. Poderá alguém como as begónias ser feliz fora dos vidros?
E sinto o dia. Tomo-lhe o pulso e vejo como a luz me diz do seu caminho, como o sol o anima e o calor torna ousadas as lagartixas. E, sabendo hoje destas coisas novas e da necessidade de as respeitar e à sua tranquilidade já não piso a relva e evito retirar as pedras dos canteiros. É que, debaixo delas, há ainda outra vida que não é inteligente mas que sofre ou morre se eu quiser. E eu não quero.
Edgardo Xavier
Sintra, 23 de Março de 2015
A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.