Saltar para: Posts [1], Pesquisa e Arquivos [2]

Jardim das Delícias


Domingo, 11.10.15

Insulto género mulher - Fernanda Câncio

fernanda câncio.png

 

Diário de Notícias, 9 de Outubro de 2015

 

   "Mulher é a pior coisa que se pode chamar a um homem." O sarcasmo é de um entrevistado (homossexual) na primeira reportagem que fiz sobre discriminação dos homossexuais, em 1993, nos EUA, acerca da respetiva exclusão das Forças Armadas e da ideia de que os homossexuais seriam "medrosos" e "incapazes" - "como mulheres", em suma.

Passaram 22 anos, e muita coisa passou: o Massachusetts, onde fiz a reportagem, foi a segunda jurisdição do mundo a legalizar o casamento das pessoas do mesmo sexo, em 2003; em 2011 Obama acabou com a exclusão dos homossexuais das FA e em 2012 assumiu a causa do casamento. No mundo civilizado (há um mundo não civilizado, lamento) a luta pela igualdade independentemente da orientação sexual deixou de ser de "maluquinhos"; tornou-se institucional. E a homofobia - que engloba todas as formas de discriminação em função da orientação sexual - é hoje um labéu temido.

Ainda bem. E ainda bem que ontem, perante a indignação nas redes sociais face à atuação de José Rodrigues dos Santos no Telejornal de quarta - lançou uma peça sobre os novos deputados fazendo referência ao mais velho dentre eles (Alexandre Quintanilha, homossexual) como "eleito ou eleita" -, a RTP se apressou a publicar um comunicado assumindo o ocorrido como "erro" e pedindo desculpas. Denota isso algo de muito importante: a RTP e Rodrigues dos Santos (tenha este feito o que fez deliberadamente ou não) querem certificar que não são homofóbicos.

Infelizmente, esta atitude contrasta com a adotada no caso da promoção (decerto deliberada) do mesmo canal sobre as comemorações da República. Aí, a estátua da dita - feminina - é mimoseada, por voz off masculina em tom grosseiro, com uma série de dichotes sexistas. Como no caso Quintanilha, houve indignação nas redes e queixas à RTP, e esta retirou a promo do ar e até do YouTube. Mas, ao contrário do que se passou com Quintanilha, nenhum comunicado a reconhecer o disparate e a pedir desculpa.

O contraste é tanto mais curioso quando a homofobia é uma derivação do sexismo, vulgo machismo - como bem o meu entrevistado de há 22 anos frisou. Mas, de algum modo, apesar de a luta das mulheres pela igualdade ser muito mais antiga do que a luta contra a homofobia, é como se esta tivesse elidido aquela. A ponto de tanta gente, a propósito do caso Quintanilha, afirmar que chamar mulher a um homem é "insultuoso" sem se dar conta do implícito insulto às mulheres (como se reagiria se alguém, apelidado de homossexual, se dissesse insultado?). A ponto de a RTP correr a pedir (e bem) desculpa pelo "erro" do pivô mas não pela promo. Donde se conclui que se o apodo de homofóbico preocupa o canal público, o de machista fá-lo encolher os ombros: "Lá estão as histéricas das feministas." Afinal, para a RTP (e muitos dos que reclamam?), faz todo o sentido pedir desculpa por ter chamado, mesmo sem intenção, mulher a um homem; é que, como se constata, as mulheres não lhe merecem respeito.

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

por Augusta Clara às 08:00

Terça-feira, 25.08.15

A RTP para mim acabou - Cruz Pereira

ao cair da tarde 5b.jpg

 

Cruz Pereira  A RTP para mim acabou

 

touros.jpg

 

 

         Não sou aficionado, mas ligo a televisão e vejo o canal público (que pago com os meus impostos) a dar tourada ! E já vai na 5ª este ano, com um “share” de cerca de 300.000. Não gosto e nunca gostei de ver. Nem o espectáculo, nem a faena, nem a orquestra, nem o tribalismo. Muito menos posso ver os cavaleiros. Gajos (e agora também gajas) de jaqueta brilhante montados/as num cavalo a espetar farpas que se transformam em bandeirinhas que acenam ao público. Degradante. O cavaleiro é o cobarde da tourada, é o puto/a que insulta e depois foge. As mesmas caras de sempre de olhar bovino. Caras de gente laranja, de bigodes falsamente aristocráticos, as famílias da "tradição" falidas, os betos e os que querem passar por betos, as calças caqui, os penteados, as patilhas…
Não vou continuar a contribuir para isto. Temos que questionar as coisas. É isto a cidadania. Há qualquer coisa de profundamente degradante nas touradas. Não é só o sofrimento do animal, é o espanto com que ele observa os animais da bancada. A incredulidade de estar perante a maldade do mundo. O toiro leva nos olhos uma tristeza de estar assistindo à vileza do humano. Porte imponente, músculos fortes, cornos pontiagudos, nobreza de carácter, mas os olhos. É nos olhos do toiro que nós vemos a sua ingenuidade. Uma criança perdida no meio da multidão.
O animal vive a vida de forma natural. Passa anos a comer ervinhas, a ver pores-do-sol, a esfocinhar amorosamente com outros animais. Vive a vida em liberdade, em campos abertos de luz, por onde pode correr, parar, dormitar, ficar só a ver. Ficar só a viver. Recebe arco-íris com uma chuvinha que lhe molha a língua e as dentolas, afasta borboletas e mosquitos com um espirro, ressona e acorda os pássaros da árvore onde está encostado. O animal não reflecte sobre o mundo, mas vive-o. Sobretudo, sente-o. Os elementos da natureza são-lhe prazenteiros. É-lhe natural ir beberricar aquela água, comer este molhe de ervas, cagar ou mijar onde lhe apetecer. O céu é-lhe natural, as nuvens e o Sol, os caminhos de terra, as plantas, os passarinhos. Aquela brisa que vem em Agosto com cheiro a cereais. Ele levanta a cabeça, fecha os olhos e sente-a. Não pensa sobre ela, mas sabe-a.

touros1.jpg

 


De repente, uma arena! Um cubículo de areia com milhares de “pessoas” e vozes e urros! De repente, o horror. Chamam-no, assustam-no, dão-lhe palmadas na cabeça, espetam-lhe ferros frios no lombo. Encosta-se às tábuas, sente a madeira, procura um caminho para voltar para o campo. Está cercado. Cornetas, luzes, gritos. Rios de sangue escorrem-lhe pelo corpo. O peso das bandarilhas coloridas enquanto corre. Não entende aquilo, não sabe o porquê. Cansado, ofegante, em pânico, investe contra o carrossel de homens e cavalos que o rodeiam. Baixa a cabeça, com as patas tenta furar o chão como se pudesse abrir um alçapão que o fizesse cair da arena para um prado onde corresse e lambuzasse as bochechas de outro toiro. Um campo aberto a céu aberto. Sem cornetas, sem pessoas, sem gritos, sem bandarilhas coloridas, sem bigodes quase aristocráticos, sem ferros frios no lombo, sem rios de sangue pelo corpo, sem maldade. O último sonho do toiro antes de morrer. Para mim, a RTP acabou.

Nota de edição: Leiam, também, aqui o texto escrito por um ex-repórter de touradas.

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

por Augusta Clara às 14:00

Terça-feira, 04.02.14

Humilhados e ofendidos nem sempre estão do mesmo lado - Augusta Clara

 

 

Augusta Clara  Humilhados e ofendidos nem sempre estão do mesmo lado

 

(Adão Cruz)

   Ontem no programa dos Humilhados e Ofendidos uns estavam de um lado, outros do outro.

Foi no "Prós e Contras", pois. Do lado dos "Ofendidos" contra a estupidez e as aberrantes práticas que muitos estudantes universitários denominam praxes quero realçar a participação da jornalista Fernanda Câncio, sempre certeira nas análises e corajosa a apontar o que é preciso deixar claro.

Do lado dos "Humilhados", nos Prós, estavam os que são a favor da degradação em que se sentem bem e, também, aqueles que, quanto a isso, nem sim nem não. Neste último grupo campeou, como sempre, o Prof. Vera Cruz de cuja opção não se teria entendido literalmente nada não fosse a emética manha já usada noutros debates.

Não se percebe como num programa em que é suposto definirem-se bem os campos a RTP insiste em convidar um "nim".

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

por Augusta Clara às 17:00

Quarta-feira, 12.06.13

SOMOS TODOS GREGOS - Comunicado da Comissão de Trabalhadores da RTP

 
 
COMUNICADO Nº 21/13
 
SOMOS TODOS GREGOS
 
   O Governo grego anunciou hoje, de forma fulminante e sem aviso prévio, que a partir da meia noite será encerrada a estação pública de rádio e televisão. Calam-se hoje todas as emissões de uma estação que apenas fora silenciada, temporariamente, durante a ocupação nazi.
 
O argumento do Governo grego para justificar este autêntico golpe de mão é bem conhecido em Portugal: a ERT custa muito dinheiro. Na verdade, não havia ali um problema de financiamento, estando este garantido por uma contribuição audiovisual. A Grécia ficará a ser, por agora, o único país da União Europeia sem rádio e televisão públicas.
 
Os trabalhadores da ERT estão fechados nas instalações da estação, com o propósito declarado de continuarem a emitir. Os trabalhadores das outras estações declararam uma greve de seis horas em solidariedade com os colegas da ERT. Não queremos para nós uma RTP encerrada. Somos todos gregos, porque nos solidarizamos com os nossos colegas da ERT e porque temos os olhos postos na sua luta e nos ensinamentos que dela se devem extrair.
 
O Secretariado da Comissão de Trabalhadores da RTP
 
comissao.trabalhadores@rtp.pt
 
Lisboa, 11 de junho, de 2013

Autoria e outros dados (tags, etc)

por Augusta Clara às 08:00



Pesquisar

Pesquisar no Blog  

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Comentários recentes


Links

Artes, Letras e Ciências

Culinária

Editoras

Filmes

Jornais e Revistas

Política e Sociedade

Revistas e suplementos literários e científicos