Saltar para: Posts [1], Pesquisa e Arquivos [2]

Jardim das Delícias


Quinta-feira, 03.10.13

Dia de chuva - Cecília Meireles

 

 

Cecília Meireles  Dia de chuva

 

(Shadi Ghadirian, fotógrafa iraniana)

 

 

As espumas desmanchadas

sobem-me pela janela,

correndo em jogos selvagens

de corça e estrela.

 

Pastam nuvens no ar cinzento:

bois aéreos, calmos, tristes,

que lavram esquecimento.

 

Velhos telhados limosos

cobrem palavras, armários,

enfermidades, heroísmos...

 

Quem passa é como um funâmbulo,

equilibrado na lama,

metendo os pés por abismos...

 

Dia tão sem claridade!

só se conhece que existes

pelo pulso dos relógios...

 

Se um morto agora chegasse

àquela porta, e batesse,

com um guarda-chuva escorrendo,

e, com limo pela face,

ali ficasse batendo

— ali ficasse batendo

àquela porta esquecida

sua mão de eternidade...

 

Tão frenético anda o mar

que não se ouviria o morto

bater à porta e chamar...

 

E o pobre ali ficaria

como debaixo da terra,

exposto à surdez do dia.

 

Pastam nuvens no ar cinzento.

Bois aéreos que trabalham

no arado do esquecimento.

 

(in Cecília Meireles, Antologia Poética, Relógio d'Água)

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

por Augusta Clara às 17:00



Pesquisar

Pesquisar no Blog  

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Comentários recentes


Links

Artes, Letras e Ciências

Culinária

Editoras

Filmes

Jornais e Revistas

Política e Sociedade

Revistas e suplementos literários e científicos