Saltar para: Posts [1], Pesquisa e Arquivos [2]

Jardim das Delícias


Segunda-feira, 01.05.23

Primeiro de Maio - Adão Cruz

a cor do sonho1.jpg

 

Adão Cruz  Primeiro de Maio

silvia molinari, aguarela4a.jpg

(Silvia Molinari)

 

Primeiro e único
Verdadeiro
Maio acordado
Maio maduro
Penoso
Duro
Nunca vergado.
Floresta de braços e abraços
Festa dor do Maio primeiro
Carne e alma
Seio fecundo
Onde corre o leite
Que alimenta o mundo.
Ir e voltar
Voltar a ir e a vir
Entre a dor e a alegria
Penoso caminho da vida inteira
Para prender um braço de sol
Entre a noite e o dia.
Mãos crispadas
Calejadas
Calor que os filhos aquece
Na esperança de outros sóis
Calar da fome que os adormece
Entre o antes e o depois
Da luta que não esmorece.
Maio de medos e canções
Maio de sempre
Maduro Maio
No fundo dos corações
Terra e vida
Vida dos que amam a terra
Antes morta que vencida.
Na palma da mão
Aberta e solidária
Festa da alegria
Maio dor e lágrimas
Renascido Maio
Nunca Maio da agonia.
Sol inteiro roubado
Sol do acordar de Maio
Vermelho e quente
Sol que é de todos
Maio de sol nascente.

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

por Augusta Clara às 23:12

Quarta-feira, 29.10.14

Eu vi uma rosa - Manuel Bandeira

 ao cair da tarde 5b.jpg

 

Manuel Bandeira  Eu vi uma rosa

silvia molinari,2a.jpg 

(Silvia Molinari)

 

 

 

Eu vi uma rosa

— Uma rosa branca —

Sozinha no galho.

No galho? Sozinha

No jardim, na rua.

 

Sozinha no mundo.

 

Em tomo, no entanto,

Ao sol de mei-dia,

Toda a natureza

Em formas e cores

E sons esplendia.

 

Tudo isso era excesso.

 

A graça essencial,

Mistério inefável

— Sobrenatural —

Da vida e do mundo,

Estava ali na rosa

Sozinha no galho.

 

Sozinha no tempo.

 

Tão pura e modesta,

Tão perto do chão,

Tão longe na glória

 Da mística altura,

 

Dir-se-ia que ouvisse

Do arcanjo invisível

As palavras santas

De outra Anunciação.

 

(in Manuel Bandeira, Antologia, Relógio d'Água)

Petrópolis, 1943

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

por Augusta Clara às 19:00

Segunda-feira, 12.05.14

A nostalgia da Serra - Eva Cruz

 

Eva Cruz  A nostalgia da Serra

 

 

(Silvia Molinari)

 

 

A nostalgia da Serra

traz o cuco na Primavera

chega com os piscos

e as primeiras andorinhas.

Canta ao longe ainda o medo

depressa se envaidece

e repete atrevido

cucu... cucu

cuco ramalheiro quantos anos tens (de) solteiro

cucu... cucu

Raquel imita-lhe a voz

e procura nos galhos

as maçãzinhas de cuco

e o cuspe branco que vai deixando.

Todos os anos volta

para de novo ensaiar

e desafiar o sol que já vai alto.

Raquel gosta de acordar tarde nos matos

entre os rebentos verdes das carvalhas.

No adeus da juventude

Raquel envelhece de Primavera

e regressa em tempo de cuco

sem maçãzinhas nos ramalhos

nem seiva branca

só esperança de velhos meninos

no cuco ramalheiro.

 

(in Era uma vez, Future Kids, Campo das Letras)

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

por Augusta Clara às 19:00

Quinta-feira, 21.03.13

Floriram por engano as rosas bravas- Camilo Pessanha

(Silvia Molinari)

 

Floriram por engano as rosas bravas

No inverno: veio o vento desfolhá-las...

Em que cismas, meu bem? Porque me calas

As vozes com que há pouco me enganavas?

 

Castelos doidos! Tão cedo caístes!...

Onde vamos, alheio o pensamento,

De mãos dadas? Teus olhos, que um momento

Perscrutaram nos meus, como vão tristes!

 

E sobre nós cai nupcial a neve,

Surda, em triunfo, pétalas, de leve

Juncando o chão, na acrópole de gelos...

 

Em redor do teu vulto é como um véu!

Quem as esparze - quanta flor -, do céu,

Sobre nós dois, sobre os nossos cabelos?

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

por Augusta Clara às 11:00



Pesquisar

Pesquisar no Blog  

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Comentários recentes


Links

Artes, Letras e Ciências

Culinária

Editoras

Filmes

Jornais e Revistas

Política e Sociedade

Revistas e suplementos literários e científicos