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Delícias são tudo o que nos faz felizes: um livro, a magia dum poema ou duma música, as cores duma paleta ... No jardim o sol não raia sempre mas pulsa a vida, premente.

Adão Cruz Primeiro de Maio

(Silvia Molinari)
Manuel Bandeira Eu vi uma rosa
(Silvia Molinari)
Eu vi uma rosa
— Uma rosa branca —
Sozinha no galho.
No galho? Sozinha
No jardim, na rua.
Sozinha no mundo.
Em tomo, no entanto,
Ao sol de mei-dia,
Toda a natureza
Em formas e cores
E sons esplendia.
Tudo isso era excesso.
A graça essencial,
Mistério inefável
— Sobrenatural —
Da vida e do mundo,
Estava ali na rosa
Sozinha no galho.
Sozinha no tempo.
Tão pura e modesta,
Tão perto do chão,
Tão longe na glória
Da mística altura,
Dir-se-ia que ouvisse
Do arcanjo invisível
As palavras santas
De outra Anunciação.
(in Manuel Bandeira, Antologia, Relógio d'Água)
Petrópolis, 1943
Eva Cruz A nostalgia da Serra
(Silvia Molinari)
A nostalgia da Serra
traz o cuco na Primavera
chega com os piscos
e as primeiras andorinhas.
Canta ao longe ainda o medo
depressa se envaidece
e repete atrevido
cucu... cucu
cuco ramalheiro quantos anos tens (de) solteiro
cucu... cucu
Raquel imita-lhe a voz
e procura nos galhos
as maçãzinhas de cuco
e o cuspe branco que vai deixando.
Todos os anos volta
para de novo ensaiar
e desafiar o sol que já vai alto.
Raquel gosta de acordar tarde nos matos
entre os rebentos verdes das carvalhas.
No adeus da juventude
Raquel envelhece de Primavera
e regressa em tempo de cuco
sem maçãzinhas nos ramalhos
nem seiva branca
só esperança de velhos meninos
no cuco ramalheiro.
(in Era uma vez, Future Kids, Campo das Letras)
(Silvia Molinari)
Floriram por engano as rosas bravas
No inverno: veio o vento desfolhá-las...
Em que cismas, meu bem? Porque me calas
As vozes com que há pouco me enganavas?
Castelos doidos! Tão cedo caístes!...
Onde vamos, alheio o pensamento,
De mãos dadas? Teus olhos, que um momento
Perscrutaram nos meus, como vão tristes!
E sobre nós cai nupcial a neve,
Surda, em triunfo, pétalas, de leve
Juncando o chão, na acrópole de gelos...
Em redor do teu vulto é como um véu!
Quem as esparze - quanta flor -, do céu,
Sobre nós dois, sobre os nossos cabelos?
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