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Jardim das Delícias


Segunda-feira, 16.02.15

Danos colaterais - José Goulão

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José Goulão  Danos colaterais

 

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   A imprensa norte-americana e as suas filiais europeias descobriram nas últimas horas uma coisa inquietante: O ISIS, ou Estado Islâmico, ou que lhe queiram chamar, chamem-lhe Al-Qaida, por exemplo, está a avançar na Líbia.
Na Líbia? Leram bem… Na Líbia?
Será que a Líbia ainda existe?
Se existe, quem governa o país? Onde está o governo? Quem manda?
Estas seriamas perguntas que a imprensa norte-americana e as suas filiais europeias deveriam fazer a si mesmas, investigar e encontrar respostas para informar os seus leitores, ouvintes ou telespectadores. Pois é, mas isso dói, não que custe dinheiro porque para a imprensa norte-americana e as suas filiais europeias o dinheiro não é nem nunca será problema. O problema é, adivinhem, medo. Medo naturalíssimo, compreensível, respeitável. Porque procurar conhecer a verdade da situação naquilo a que por hábito ou comodidade ainda chamam Líbia é perigoso, mortal.
Não deveriam pois a imprensa norte-americana e as suas filiais europeias falar de coisas que não podem ou não querem explicar quando ao certo, ao certo mesmo, só têm resposta para duas únicas perguntas:
Quem deixou o que resta da Líbia no estado em que está?
Quem goza do regabofe em que se transformou o comércio petrolífero do território outrora designado Líbia?
Acredito que a imprensa norte-americana e as suas filiais europeias sejam capazes de responder facilmente a estas perguntas. Porém, não as fazem nem respondem, lá sabem porquê.
Porque quanto ao resto, o ISIS, ou Daesh, ou Estado Islâmico, ou Al-Qaida estar a aumentar a sua influência na Líbia, não é notícia. Sempre lá esteve, criou um primeiro “califado” em Derna, na Cirenaica, quando começou a “primavera árabe” Benghazi, em 2011. A caminhada dos seus “combatentes da liberdade”, tornada possível a coberto dos bombardeamentos da NATO contra civis, escolas, instalações sociais e culturais, para conquistar Tripoli, ali instaurar o “poder democrático” e assassinar Khaddafi foi acompanhada com trombetas triunfais pela imprensa norte-americana e as suas filiais europeias. Em vez do “poder democrático” ficou um país em cacos, mas isso agora não interessa nada.
É verdade, o ISIS sempre lá esteve, até na luta clandestina contra Khaddaffi. Pode ter-se chamado outras coisas, tal como na Síria, mas foi, é e será o mesmo ISIS, a fachada de radicalismo islâmico que desde Bin Laden e a Al-Qaida, já lá vão 40 anos, tem servido aos pescadores de águas turvas, incluindo governos que se têm a si mesmos em conta de honestos, democráticos e civilizados, para atingirem objectivos multifacetados que tanto podem ser a instauração de regimes económicos neoliberais puros e duros, o contrabando de riquezas energéticas e minerais, o roubo de preciosidades históricas e artísticas que deveriam ser património da humanidade, o redesenho de mapas regionais, o tráfico de armas e estupefacientes. Enfim, em última análise, o ISIS e as suas mil e uma caras mafiosas servem para manter um estado de guerra permanente de que tão bem sabem alimentar-se a imprensa norte-americana, as suas filiais europeias e os senhores da guerra, alguns dos quais são seus patrões. O resto, como o avanço do ISIS pelo que resta da Líbia não é notícia, são danos colaterais.

 

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por Augusta Clara às 16:00



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