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Jardim das Delícias


Segunda-feira, 11.11.19

Pranto pelo dia de hoje - Sophia de Mello Breyner Andresen

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Sophia de Mello Breyner Andresen  Pranto pelo dia de hoje

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(Almada Negreiros)

Nunca choraremos bastante quando vemos
O gesto criador ser impedido
Nunca choraremos bastante quando vemos
Que quem ousa lutar é destruído
Por troças por insídias por venenos
E por outras maneiras que sabemos
Tão sábias tão subtis e tão peritas
Que nem podem sequer ser bem descritas

(in Livro Sexto, Obra Poética II, Caminho)

 

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por Augusta Clara às 19:36

Quarta-feira, 02.01.19

Com Fúria e Raiva - Sophia de Mello Breyner Andresen

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Sophia de Mello Breyner Andresen  Com Fúria e Raiva

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Com fúria e raiva acuso o demagogo
E o seu capitalismo das palavras

Pois é preciso saber que a palavra é sagrada
Que de longe muito longe um povo a trouxe
E nela pôs sua alma confiada

De longe muito longe desde o início
O homem soube de si pela palavra
E nomeou a pedra a flor a água
E tudo emergiu porque ele disse

Com fúria e raiva acuso o demagogo
Que se promove à sombra da palavra
E da palavra faz poder e jogo
E transforma as palavras em moeda
Como se fez com o trigo e com a terra

(Obra Poética III, Caminho)

 

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por Augusta Clara às 16:33

Quinta-feira, 24.09.15

Canção 2 - Sophia de Mello Breyner Andresen

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Sophia de Mello Breyner Andresen  Canção 2

 

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(John Atkinson Grimshaw)

 

 

 
Clara uma canção 
Rente à noite calada 
Cismo sem atenção 
Com a alma velada 
 
A vida encontrei-a 
Tão desencontrada 
Embora a lua cheia 
E a noite extasiada 
 
A vida mostrou-se 
Caminho de nada 
Embora brilhasse 
Lua sobre a estrada 
 
Como se a beleza 
Da lua ou do mar 
Nada mais quisesse 
Que o próprio brilhar 
 
Por esta razão 
Sem riso nem pranto 
Neste sem sentido 
Se rompe o encanto
 
(in Ilhas)
 

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por Augusta Clara às 19:00

Quinta-feira, 02.07.15

O Sol o Muro o Mar - Sophia de Mello Breyner Andresen

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Sophia de Mello Breyner Andresen  O Sol o Muro o Mar

 

ilha de mykonos, arquipélago das cyclades.jpg

 

O olhar procura reunir um mundo 
que foi destroçado pelas fúrias. 
Pequenas cidades: muros caiados e recaiados para 
manter intacto o alvoroço do início. 
Ruas metade ao sol metade à sombra. 
Janelas com as portadas azuis fechadas: violento 
azul sem nenhum rosto. 
Lugares despovoados, labirinto deserto: ausência 
intensa como o arfar de um toiro. 
Exterior exposto ao sol, senhor dos muros dos 
pátios dos terraços. 
Obscuros interiores rente à claridade, secretos e 
atentos: silêncio vigiando 
o clamor do sol sobre as pedras da calçada. 
Diz-se que para que um segredo não nos devore é 
preciso dizê-lo em voz alta no sol de um terraço 
ou de um pátio. 
Essa é a missão do poeta: trazer para a luz e para 
o exterior o medo. 
Muros sem nenhum rosto morados por densas 
ausências. 
Não o homem mas os sinais do homem, a sua arte  
os seus hábitos, o seu violento azul, o espesso 
amarelo, a veemência da cal. 
Muro de taipa que devagar se esboroa - tinta que
se despinta - porta aberta para o pátio do chão
verde:soleira do quotidiano onde a roupa seca e
espaço de teatro. Mas também pórtico solene aberto 
para a vida sagrada do homem. 
Muro branco que se descaia e azula irisado de 
manchas nebulosas e sonhadoras. 
 
A porta desenha sua forma perfeita à medida do 
homem: as cores do cortinado de fitas contam a 
nostalgia de uma festa. 
Lá dentro a penumbra é fresca e vagarosa. 
Nenhum rosto, nenhum vulto. 
As marcas do homem contando a história do 
homem. 
 
No promontório o muro nada fecha ou cerca. 
Longo muro branco entre a sombra do rochedo e 
as lâmpadas das águas. 
No quadrado aberto da janela o mar cintila coberto 
de escamas e brilhos como na infância. 
O mar ergue o seu radioso sorrir de estátua arcaica. 
Toda a luz se azula. 
Reconhecemos nossa inata alegria: a evidência do 
lugar sagrado. 
 
(in Ilhas)
 

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por Augusta Clara às 19:30

Terça-feira, 26.05.15

"Como é estranha a minha liberdade" - Sophia de Mello Breyner Andresen

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Sophia de Mello Breyner Andresen  "Como é estranha a minha liberdade"

 

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(Mário Botas)

 

 

Como é estranha a minha liberdade 
As coisas deixam-me passar 
Abrem alas de vazio p’ra que eu passe 
Como é estranho viver sem alimento 
Sem que nada em nós precise ou gaste 
Como é estranho não saber 
 
(in No Tempo Dividido)
 

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por Augusta Clara às 19:00

Terça-feira, 19.05.15

Dia - Sophia de Mello Breyner Andresen

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Sophia de Mello Breyner Andresen  Dia

 

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(Paul Klee)

 

 

Como um oásis branco era o meu dia 
Nele secretamente eu navegava 
Unicamente o vento me seguia.
 
(in NoTempo Dividido
 

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por Augusta Clara às 19:00

Sexta-feira, 06.03.15

"Se"- Sophia de Mello Breyner Andresen

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Sophia de Mello Breyner Andresen  "Se"

 

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(Gustav Klimt)

 

Se tanto me dói que as coisas passem
É porque cada instante em mim foi vivo
Na luta por um bem definitivo
Em que as coisas de amor se eternizassem.

 

(in Poesia I)

 

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por Augusta Clara às 19:00

Sábado, 24.01.15

Crepúsculo dos deuses - Sophia de Mello Breyner Andresen

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Sophia de Mello Breyner Andresen  Crepúsculo dos deuses

 

james macneill whistler, 1834-1903, sinfonia em br

 

(James McNeill Whistler)

 

 

 

Um sorriso de espanto brotou nas ilhas do Egeu

E Homero fez florir o roxo sobre o mar

O Kouros avançou um passo exactamente

A palidez de Atena cintilou no dia

 

Então a claridade dos deuses venceu os monstros nos

                                       [frontões de todos os templos

E para o fundo do seu império recuaram os Persas

 

Celebrámos a vitória: a treva

Foi exposta e sacrificada em grandes pátios brancos

O grito rouco do coro purificou a cidade

 

Como golfinhos a alegria rápida

Rodeava os navios

O nosso corpo estava nu porque encontrara

A sua medida exacta

Inventámos: as colunas de Sunion imanentes à luz

 

Mas eis que se apagaram

Os antigos deuses sol interior das coisas

Eis que se abriu o vazio que nos separa das coisas

Somos alucinados pela ausência bebidos pela ausência

 

E aos mensageiros de Juliano a Sibila respondeu:

 

«Ide dizer ao rei que o belo palácio jaz por terra quebrado.

Phebo já não tem cabana nem loureiro profético

nem fonte melodiosa. A água que fala calou-se.»*

* Resposta do Oráculo de Delphos a Oríbase, médico de Juliano, o Apóstata (Cadrenus, Resumo da História)

 

(in Obra Poética III, Caminho)

 

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por Augusta Clara às 16:00

Sábado, 10.01.15

Esta gente - Sophia de Mello Breyner Andresen

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Sophia de Mello Breyner Andresen  Esta gente

 

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(Adão Cruz)

 

 

 

Esta gente cujo rosto

Às vezes luminoso
E outras vezes tosco
Ora me lembra escravos
Ora me lembra reis

Faz renascer meu gosto
De luta e de combate
Contra o abutre e a cobra
O porco e o milhafre

Pois a gente que tem
O rosto desenhado
Por paciência e fome
É a gente em quem
Um país ocupado
Escreve o seu nome

E em frente desta gente
Ignorada e pisada
Como a pedra do chão
E mais do que a pedra
Humilhada e calcada

Meu canto se renova
E recomeço a busca
De um país liberto
De uma vida limpa
E de um tempo justo

 

(in Geografias)

 

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por Augusta Clara às 17:30

Segunda-feira, 01.12.14

Cidade dos outros - Sophia de Mello Breyner Andresen

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Sophia de Mello Breyner Andresen  Cidade dos outros

 

elisa costa pinto.jpg

 

(Elisa Costa Pinto)

 

 

Uma terrível atroz imensa
Desonestidade
Cobre a cidade

Há um murmúrio de combinações
Uma telegrafia
Sem gestos sem sinais sem fios

O mal procura o mal e ambos se entendem
Compram e vendem

E com um sabor a coisa morta
A cidade dos outros
Bate à nossa porta


(in Geografia)
 

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por Augusta Clara às 19:00



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