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Delícias são tudo o que nos faz felizes: um livro, a magia dum poema ou duma música, as cores duma paleta ... No jardim o sol não raia sempre mas pulsa a vida, premente.
José Pacheco Pereira É perigoso ficar já "farto" de falar da Grécia
Público, 18 de Julho de 2015
A questão nunca foi conduzir bem ou mal as negociações, mas o facto de, por imposição da Alemanha, se ter sempre decidido que não havia acordo com os esquerdistas do Syriza.
Eu sei que está toda a gente farta da Grécia, de ouvir notícias sobre a Grécia, de falar da Grécia. O sistema mediático tem este efeito de rápido cansaço e gera também a vontade de passar para outra coisa ou outra causa. Para além disso, tudo parece já estar decidido e não vale a pena chover no molhado. Vale, vale.
Depois há a sensação de derrota dos filo-helenos, seja dos políticos pró-Syriza, seja dos admiradores mais dos gregos do que do Syriza. Todos partilham uma sensação incómoda porque mistura sentimentos de traição, humilhação, derrotismo, impotência, tudo coisas pouco amáveis para a auto-estima.
Ainda pior é ver a alegria dos que, ao lado de personagens como Dijsselbloem, gozam a sua vingança contra Varoufakis que, de todo não respeitava o holandês pedestre, e contra os gregos que tiveram o arrojo de votar “não”. Digamos que é o clube português dos fans de Dijsselbloem, que festeja a vitória em artigos nos locais certos, nas redes sociais e nos comentários, numa espécie de jogo de futebol contra o clube português dos fans de Varoufakis, no qual, imagine-se a brilhante inteligência, incluem… António Costa.
Senhor, perdoai-lhes porque não sabem o que fazem. O problema é que sabem: querem manter-se no poder e prosseguir um programa de revanche social e política contra os que desde o 25 de Abril lhes roubaram o direito natural de mandar.
É por isso que me é inaceitável o argumento salomónico que muitos socialistas usam para se justificar, atribuindo “culpas” ao governo grego e à “Europa”, umas concretas e com alvo, as outras abstractas e genéricas, como se o resultado final se devesse ao modo como os gregos se comportaram nas negociações e não à recusa sempre sistemática dos alemães e do Eurogrupo em negociar fosse o que fosse, com o apoio dedicado dos socialistas. Os gregos podem ter feito todas as asneiras possíveis, que isso não justifica o que se passou. Mesmo os meses que durou isto tudo, não foram os meses necessários para negociar qualquer coisa, mas os meses necessários a colocá-los entre a espada e a parede e por fim vergá-los. Nunca, jamais, em tempo algum, poderia ter sido de outra maneira, porque nunca quem manda desejou que fosse de outra maneira.
Muitas das propostas gregas logo de início eram bastante moderadas (recordam-se de como os fans de Dijsselbloem disseram que os gregos tinham vergado como Hollande…), mas a perigosidade evidente de um governo como o do Syriza obter qualquer ganho de causa era inaceitável para governos como o português e o espanhol, e era uma bofetada para os socialistas colaboracionistas. A questão nunca foi conduzir bem ou mal as negociações, mas o facto de, por imposição da Alemanha, se ter sempre decidido que não havia acordo com os esquerdistas do Syriza.
Os alemães e os seus acólitos tinham um programa de humilhação, com um acordo que foi afinal escrito pelo Syriza a branco, para eles o reescreverem a preto. O acordo com a Grécia, na realidade um diktat, só tem uma lógica: obrigar os gregos a engolir tudo o disseram que não desejavam. Não tem lógica económica, nem financeira, tem apenas uma lógica política de humilhação. Querias isto? Pois levas com um não-isto. Foi assim que foi feito o chamado acordo.
E não me venham com o argumento de “confiança”, por parte de governantes como Merkel, Rajoy e Passos Coelho que apoiaram Samaras e a Nova Democracia até ao fim, sabendo que apoiavam um governo corrupto e oligárquico, coisa que o Syriza nunca foi acusado de ser. Esse governo “confiável” literalmente evaporou centenas de milhares de milhões de euros e permitiu que a Grécia, endividando-se até ao limite, funcionasse como tapete rolante para reciclar a dívida dos bancos franceses e alemães para os contribuintes europeus. E não me falem de “confiança” face a um acordo-diktat em que ninguém acredita, em que ninguém “confia” e que assenta no poder e no cinismo.
É uma exibição brutal de poder, que coloca a Grécia a ser governada de Bruxelas e Berlim, por gente que vai decidir os horários das lojas ao domingo, quem pode ter uma farmácia, como funcionam as leitarias e as padarias, e quem pode conduzir ferrys para as ilhas. Mas há mais: são revertidas decisões constitucionais de tribunais gregos e, como em Portugal se fez, mudanças legais para acelerar despejos, expropriações, falências e para retirar aos trabalhadores direitos sindicais e de negociação.
Carlos de Matos Gomes Técnica do golpe de Estado
O título do inglês The Guardian de 1 de julho explica os objectivos das «conversações» com o governo grego: «Syriza can’t just cave in. Europe’s elites want regime change in Greece» (O Siriza pode oferecer tudo, dar tudo, aceitar tudo. Não adiante, as elites europeias querem uma mudança de regime na Grécia). Segue-se o texto. O primeiro parágrafo: «É agora claro que a Alemanha e os poderes europeus (os ingleses distinguem a hierarquia de quem manda) não pretendem somente que o governo grego dobre os joelhos. Querem uma mudança de regime (para a comunicação social, o governo grego já é apresentado como o regime do Syriza). Não pela força militar, com certeza. Esta operação está a ser dirigida por Berlim e Bruxelas em vez de Washington…
Tudo parece claro. O Syriza disse que o rei ia nu, isto é, que o sistema financeiro era uma monstruosa fraude, ou uma fantasia, que as dívidas soberanas não são pagáveis, que as dívidas soberanas foram e são um processo de transferência de riqueza dos contribuintes para as oligarquias, que as regras da troika são a de aumentar a dívida soberana – aquela que irá ser paga pelos cidadãos – através do fabrico de mais dívida criada com os programas de resgate, na realidade de empréstimos para pagar juros de empréstimos, num processo sem fim.
O governo grego quebrou o tabu ao expor em público o rosto dos crápulas escondidos sob a máscara de respeitados e respeitáveis banqueiros e dirigentes da alta finança. Varoufakis, o ministro grego, disse-o com clareza, embora de forma delicada, quando respondeu à pergunta sobre a razão de não usar gravata: são os mafiosos que vestem Armani e não é por isso que deixam de ser mafiosos. No FMI, no BCE, em Bruxelas, muitos devem ter ido arrancar as etiquetas dos casacos, e esconder os óculos escuros. Estas ofensas pagam-se caro. Os gregos estão a pagar por isso.
O que está em curso na Grécia é então um golpe de Estado. Não já como o do Chile de Allende, mas com mais técnica e menos brutalidade. Mata-se lentamente à fome, de doença, e não com rajadas de metralhadora. A tortura é pelo esgotamento e não pela dor. A finalidade é a mesma: substituir um poder. Tsipras é o Allende dos nossos dias.
Vem tudo num livro editado em 1931 e que esteve proibido em Portugal até 1974: «Tecnica del colpo di Stato» (Técnica do golpe de Estado), do jornalista e escritor italiano Curzio Malaparte, então diretor do jornal La Stampa, de Turim, que explica as diferentes modalidades de golpe de Estado, seja de esquerda ou de direita, de Lenine a Mussolini, antecipando aquele que Hitler utilizaria para alcançar o poder na Alemanha.
Escreveu Curzio Malaparte, «o problema da conquista e defesa do Estado moderno, não é uma questão política, mas técnica.» Embora para ele o sentido da «técnica» não fosse o mais comum: «um conjunto de procedimentos que seguem algumas regras preestabelecidas para fazer algo em função de determinado fim», mas «uma forma de apropriação da natureza pelo homem, portanto, parte da cultura». É à luz de uma técnica para derrubar o governo grego que deve ser analisado o processo de conversações (falsas) que se desenrolam há 5 meses entre Bruxelas e Atenas.
Escreveu Curzio Malaparte: «Na política, esgotadas as decisões no campo das instituições democrático-republicanas, o resultado de uma eleição, por exemplo, as disputas transitam para outros patamares quando pessoas ou grupos ultrapassam os limites da legalidade/legitimidade e utilizam certos recursos técnicos para resolver impasses político-institucionais que podem implicar a rutura da ordem jurídica, parcial ou totalmente. (É o que está acontecer por parte das instituições europeias.) O golpe de Estado, nas suas múltiplas variações, é um destes recursos técnicos.»
Para Curzio Malaparte, o golpe de Estado seria uma espécie de «atalho» para a legitimação do poder, evitando os inconvenientes das eleições com voto universal e secreto, como manda o rito elementar da técnica da democracia.» Do ponto de vista de Malaparte, o golpe de Estado é sempre a negação da democracia, mas pode atingir a perfeição naqueles casos em que consegue os aplausos maioritários dos cidadãos. «O golpe de Estado é perfeito quando angaria apoio da opinião pública.»
É neste ponto, o de obter o apoio dos cidadãos para o golpe em curso, que se inclui a violentíssima campanha de propaganda das autoridades alemãs e de Bruxelas a favor do Sim e do descrédito do governo grego. Esta visível e descarada técnica de condicionamento da opinião pública grega para chegar ao golpe perfeito de que falava Curzio Malaparte – aquele que consegue o apoio popular - tem sido acompanhada por outras acções mais insidiosas, que Malaparte também referiu e que, se repararmos fazem parte do cardápio das «instituições europeias», com Berlim ao comando: «aquelas que, de modo quase imperceptível, utilizam instrumentos legais (invocação de regras do BCE e do FMI, ausência de regras do Europgrupo, controlo de capitais, declaração de incumprimento, p.ex) para se sobreporem à soberania popular e destituir um governo legitimamente constituído.»
É evidente que o apoio popular é desejável para o golpe de Estado, mas os golpistas de Berlim e Bruxelas, se leram Malaparte, podem contar com alternativas. É que, afirma ele, a história revela: «é possível em qualquer país democrático levar a cabo um golpe de Estado, mesmo sem o apoio de massas. Basta um grupo que tome o poder sem confrontar a força adversária (foi o que aconteceu recentemente em Itália e já tinha acontecido na Grécia com os governos ditos tecnocráticos, chefiados por banqueiros de confiança). Na Rússia, o governo de Kerensky protegeu os órgãos políticos, mas Trotsky ocupou os órgãos técnicos. Tentou o mesmo, em 1927, contra Staline, mas este usou corpos especiais de defensa e sobreviveu. Em Itália, os sindicatos de Giolitti e a policía defendiam o governo, mas os grupos fascistas neutralizaram ambos, tomaram o sistema ferroviário e foram de combóio a Roma derrubar o governo de Luigi Facta. A estratégia é sempre a mesma: concentrar as forças no ponto mais sensível do adversário, que num Estado moderno são os serviços públicos e os meios de comunicação.»
A Técnica do Golpe de Estado foi escrita em 1931, entre duas guerras, no período de ascensão dos fascismos, dos nazismos, do estalinismo. Repare-se como na Grécia, o governo anterior fechou a televisão do Estado, que não controlava. Repara-se como hoje a manipulação se faz com os serviços públicos na Grécia, com os bancos e o sistema de pensões e reformas, a ponto dos grandes órgãos de comunicação utilizarem fotografias de refugiados turcos vítimas de um terramoto como se fossem pensionistas gregos.
Alfredo Barroso Vivemos numa Europa dominada pelo medo e pela chantagem
Em Atenas, medo e chantagem estão a fazer o seu trabalho. «Madamas» e «escaravelhos» da direita - gentalha que respira ódio contra a esquerda e pouco ou nada sofre com a austeridade - já estão a levantar a cabeça e a proclamar que vão votar «sim» e aceitar às imposições dos credores (UE, FMI, BCE, banca, mercados financeiros) para derrubar o governo de esquerda apoiado pelo Syriza. E o Partido Comunista grego quer dar uma ajuda, apelando à abstenção contra o Syriza.
Eurocratas e plutocratas, que controlam e financiam os partidos de direita - e seus lacaios social-democratas (?), socialistas (?) e trabalhistas (?) - infelizmente no poder em quase todos os países da União Europeia, estão a ganhar a campanha de chantagem e medo para banir o «mau exemplo» dado por um governo corajoso que ousou fazer frente à «muralha do dinheiro» que domina a Europa.
Não me surpreenderia com o regresso ao poder, em Atenas, dos vassalos da eurocracia e da plutocracia - o partido da Nova Democracia, com o PASOK pela arreata - e que esse vírus ultraliberal e reaccionário inoculado por Bruxelas, ou, mais exactamente, pela Alemanha de Merkel e Schäuble, acabe por contaminar os países submetidos a brutais políticas de austeridade.
É tempo de nos prepararmos para o pior e apelar à resistência contra esta direita ultraliberal e reaccionária, que quer intimidar as populações com a linguagem da chantagem e do medo, para assim impor mais austeridade e prosseguir na sua campanha contra o Estado Social e tudo o que é público. Os políticos que nos governam são cruéis e medíocres, a soldo dos plutocratas e eurocratas. Se vencerem, vão fazer-nos penar por muitos e maus anos.
Comunicado do Secretariado Político do Syriza sobre os desenvolvimentos políticos e a negociação
Desde o momento da formação do governo, ficou claro – tanto no estrangeiro como no nosso país – que o mandato dado pelo povo grego é vinculativo e constitui a bússola nas negociações.
As linhas vermelhas do governo são também as linhas vermelhas do povo grego, elas exprimem os interesses dos trabalhadores, dos trabalhadores independentes, dos reformados, dos agricultores e da juventude. Elas exprimem a necessidade para o país seguir um novo caminho de crescimento, tendo como eixo a justiça social e a redistribuição das riquezas.
A insistência dos credores em querer aplicar o programa memorandário do governo Samaras, criando no país um espartilho sufocante de pressões políticas e asfixia financeira, surge em oposição direta com a noção de democracia e de soberania popular na Europa. Ela exprime uma ligação obsessiva à austeridade que desmantela o Estado social, à direção oligárquica dos assuntos europeus em circuito fechado e longe da influência da vontade social, o que abre caminho ao crescimento da extrema direita na Europa.
Estas exigências são inaceitáveis. Elas são inaceitáveis para o povo grego, que lutou todos estes anos para pôr fim às políticas criminosas dos memorandos. Elas são inaceitáveis para os povos da Europa e as forças progressistas sociais e políticas que lutam por uma Europa da solidariedade e da democracia.
Os cidadãos da Grécia e da Europa não são consumidores passivos das notícias das 20h. Pelo contrário, entendemos que podem ser também parte ativa numa negociação que diz respeito ao nosso destino comum à escala europeia e mundial.
O Syriza tomará todas as iniciativas possíveis para informar a sociedade grega mas também os povos da Europa. Em cada cidade, em cada bairro e em cada local de trabalho, mas também em todos os países da Europa, estarão os deputados, eurodeputados e dirigentes do Syriza, com os membros do Syriza e as forças solidárias, num grande apelo à mobilização pela vitória da democracia e da dignidade.
Chegou a hora dos povos entrarem na luta.
Venceremos.
Pedro Bacelar de Vasconcelos A Grécia lavrou a certidão de óbito
Jornal de Notícias, 6 de Fevereiro de 2015
Fechou-se este ciclo no lugar onde se abrira: a Grécia. A vitória do Syrisa lavrou a certidão de óbito de uma "política" que recusava admitir alternativas para a quebra da solidariedade europeia que iria transformar os prejuízos comuns provocados pela crise financeira internacional de 2008 nas "dívidas soberanas" dos estados da sua periferia meridional. Entre os caídos em combate, conta-se o Partido Socialista que, à frente do Governo grego, ainda tentou submeter a referendo as políticas draconianas que a troika lhe pretendia impor. Resignou-se, desistiu e acabou por desaparecer nas últimas eleições. As inúmeras tentativas de intimidação dos eleitores gregos durante a campanha eleitoral não resultaram e, agora, inconformados com o resultado das eleições, os vencidos tardam em reconhecer o seu fracasso, profetizando o insucesso do novo Governo e rejubilando ao mínimo sinal de qualquer contratempo que surja na contra ofensiva diplomática lançada pelos novos governantes. E teimam em denunciar a inviabilidade económica das propostas gregas mesmo onde repetem o que os conselheiros económicos do presidente norte-americano proclamam há muitos anos e, até, depois do próprio Barack Obama recomendar que se alivie a pressão sobre a Grécia. O primeiro-ministro de Portugal, Pedro Passos Coelho, também anima o triste coro destas aves agoirentas. E entende-se por que o faz. Enquanto a Alemanha defendia o seu interesse nacional e a França tergiversava por receio de prejudicar os créditos dos seus bancos, Passos Coelho era apenas movido pela sua "crença" na força regeneradora da miséria e do castigo, pela demonização do Estado e pelo endeusamento do empreendedorismo capitalista.
Por isso, a responsabilização da Alemanha e da Chanceler Angela Merkel pela política de austeridade que arruinou a Europa e os seus povos é um ato de encapotada cobardia. Não foi a Alemanha nem a Chanceler Angela Merkel que aprovaram o Pacto Orçamental e lhe conferiram, na prática, uma força vinculante superior ao Tratado de Lisboa ou à Carta dos Direitos Fundamentais da União Europeia redigida por uma convenção presidida, aliás, por um alemão - Roman Herzog - de que fui, com muito gosto, vice-presidente. Não foi a Alemanha que impôs a participação do FMI nesse esquema absurdo - a famigerada troika! - dos programas de resgate das dívidas soberanas da Grécia, Irlanda, Portugal e Chipre. Não foi Angela Merkel quem levou a Europa e a União Monetária até ao limiar do abismo.
A Alemanha e o seu Governo nunca teriam conseguido levar a cabo um tal empreendimento sem o silêncio e a cumplicidade dos governos dos restantes 27 estados-membros, do Conselho, da Comissão e do Parlamento Europeu. A Europa deve aos gregos esta derradeira oportunidade de enveredar por um novo caminho, o que na França e na Itália já se começou a compreender.
Jacques Sapir A Alemanha apanhada na sua armadilha
Inteligência Económica, 2 de Fevereiro de 2015
Jacques Sapir analisa a vitória do Syrisa e mostra como com esta decisão política os gregos enfiaram a Alemanha na sua própria armadilha. Como aqui se tinha escrito na noite histórica da limpa vitória eleitoral de Tsipras, a Alemanha perdeu a sua segunda guerra na Grécia, a outra tinha sido em 1944… Escreve Jacques Sapir:
“On commence seulement aujourd’hui à bien mesurer ce que la victoire de SYRIZA peut signifier pour le zone Euro. En réalité, cette victoire met l’Allemagne au pied du mur et fait éclater son double langage quant à la zone Euro. Privée de marges de manœuvres néanmoins, l’Allemagne peut réagir violemment et provoquer, indirectement, la dissolution de la zone, même si elle en est la principale bénéficiaire aujourd’hui…”
Pour comprendre cela, il faut rappeler ici quelques points.
La victoire de Syriza
La victoire, véritablement historique, de SYRIZA en Grèce a propulsé son chef, le charismatique Alexis Tsipras sous le feu des projecteurs. Il convient de rappeler que ce parti est en réalité une alliance regroupant des anciens gauchistes, des anciens communistes, des écologistes, et des anciens socialistes. Ce qui a fait le ciment de cette improbable alliance, et qui explique son succès, avec plus de 36% des suffrages exprimés, est en réalité bien plus profond, mais aussi plus complexe, que la “question sociale”. Non que cette dernière ne soit importante, voire tragique. On comprend le refus d’une austérité meurtrière qui ravage la population grecque depuis 2010. Mais il y a aussi la question de la souveraineté nationale. Le refus de la soumission aux injonctions de Bruxelles et de la commission européenne, qui s’est exprimé dès le lendemain de l’élection, est une dimension très importante de la victoire de SYRIZA. La question sociale, sur laquelle se focalisent les commentateurs français, pour importante qu’elle soit, n’explique pas tout. En réalité, SYRIZA s’est engagé dans un combat pour le souveraineté du peuple grec contre les bureaucrates de Bruxelles et de Francfort, siège de la Banque Centrale Européenne. La victoire de SYRIZA annonce peut-être celle de PODEMOS en Espagne au début de cet automne. Et, tout comme dans SYRIZA, la composante souverainiste est loin d’être négligeable dans PODEMOS, ou encore dans le parti irlandais qui briguera lui-aussi la victoire au début de 2016, le SIN FEINN.
Au-delà du symbole, il y a des actes. Et les premiers actes de Tsipras ont été des signaux très forts envoyés aux autorités de Bruxelles. Tout d’abord, il a constitué son gouvernement en passant une alliance avec le parti des “Grecs Indépendants” ou AN.EL. Beaucoup considèrent que c’est une alliance hors nature de l’extrême-gauche avec la droite. Mais ce jugement reflète justement leur incompréhension du combat de SYRIZA et sa réduction à la seule question sociale. Ce qui justifie l’alliance entre SYRIZA et les « Grecs Indépendants », c’est justement le combat pour la souveraineté de la Grèce. Tsipras, dès son premier discours, a parlé de l’indépendance retrouvée de son pays face à une Union Européenne décrite ouvertement comme un oppresseur. Le deuxième acte fort du nouveau gouvernement, qui n’a eu aucun écho dans la presse française mais qui est fondamental, a été de se désolidariser justement de la déclaration de l’UE sur l’Ukraine. Une nouvelle fois, comme on pouvait s’y attendre, l’UE condamnait la Russie. Tsipras a dit, haut et fort, que la Grèce n’approuvait pas cette déclaration, ni sur le fond ni dans sa forme. Or, ce point va devenir de plus en plus important.
La politique de l’Union Européenne concernant les affaires internationales est une politique intergouvernementale. Cela implique que les décisions soient prises à l’unanimité1. Le nouveau gouvernement grec reproche donc à l’UE cette décision car elle a été prise sans respecter les procédures internes à l’UE2. Il est désormais clair que l’UE ne pourra plus se comporter comme avant en ce qui concerne tant la Russie que l’Ukraine. Le troisième acte a été la décision du gouvernement, annoncée par le nouveau ministre des Finances M. Varoufakis, de suspendre immédiatement la privatisation du port du Pirée. Cette décision signifie la fin de la mise à l’encan de la Grèce au profit de l’étranger. Ici encore, on retrouve la nécessité d’affirmer la souveraineté de la Grèce. Mais, cette décision est aussi un coup très dur porté aux diverses compagnies qui s’étaient attablées devant ce marché.
Le dilemme allemande
Il faut alors chercher à comprendre la position de l’Allemagne. La déclaration du Ministre de l’Économie, M. Sygmar Gabriel est à cet égard éclairante. Il a ainsi déclaré qu’”il faut que soit respecté un principe de justice à l’égard de notre population“3. Il a souligné que ce fameux « principe de justice » devait s’appliquer à l’égard “des gens en Allemagne et en Europe (…) qui se sont montrés solidaires” [des Grecs]. En réalité, ces aides sont allées majoritairement aux banques européennes qui avaient acheté une grande part de la dette grecque. Il n’y a pas eu de « solidarité » avec le peuple grec, mais un principe bien compris de socialisation des pertes. Néanmoins, il faut s’interroger sur le pourquoi de cette déclaration.
L’Allemagne ne veut pas que la zone Euro se transforme en une “union de transferts”. C’est une constante depuis le début des négociations sur la zone Euro. On peut le comprendre, d’ailleurs, car si les principes d’un réel “fédéralisme” étaient appliqués (comme ils le sont à l’intérieur d’un État comme la France) l’Allemagne, “région” riche de la zone Euro, devrait contribuer à hauteur de 8-9% de son PIB par an sur une période d’au moins dix ans. On peut considérer que ceci aboutirait à casser les reins à l’économie allemande. Mais l’Allemagne veut – par contre – les avantages de la monnaie unique, et d’un taux de change inchangé avec ses pays “clients”. C’est ici que le bat blesse. En effet, soit l’Allemagne accepte une nouvelle – et très importante – restructuration de la dette grecque (ou un moratoire) et elle sera immédiatement saisie de demandes analogues par des pays comme le Portugal, l’Irlande, l’Espagne et l’Italie. Soit l’Allemagne adopte une position “dure”, en l’enrobant de pleurnicheries obscènes comme celles de Sygmar Gabriel (et en oubliant toutes les restructurations de la dette allemande qui ont eu lieu au XXème siècle) et provoque un affrontement avec la Grèce. Mais alors, le risque est important de voir la Grèce quitter l’Euro, et un processus de contagion se mettre en place.
De fait, et quoi que fasse l’Allemagne, elle sera confrontée à ce processus de contagion, soit à l’intérieur de l’Euro (et avec une pression de plus en forte pour voir augmenter sa contribution) ou à l’extérieur, avec une dislocation probable de la zone Euro. L’Allemagne a encore le choix, mais c’est un choix entre deux maux. Et l’on peut penser que, dans ce cas, elle choisira ce qui pour elle, ou plus précisément pour ses dirigeants, apparaîtra comme le moindre : la rupture de la zone Euro. Mais l’Allemagne ne peut pas, pour des raisons historiques, porter la responsabilité d’une destruction de cette zone. Elle devra, à tout prix, la faire porter aux Grecs, quitte a déployer des trésors de mauvaise foi.
Quoi qu’il en soit, l’avenir s’annonce sombre pour l’Allemagne qui se rend compte aujourd’hui qu’elle est dans un piège, ce piège même où elle avait cru enfermer les autres pays. Quelle que soit l’issue qu’elle choisira, l’Europe, qui est aujourd’hui une forme de propriété allemande, sortira affaiblie. Mais cet affaiblissement tire en réalité son origine du fait que l’Allemagne a sciemment pratiqué une politique de “cavalier solitaire” tout en prétendant adhérer à des mécanismes fédéraux. Le double langage se paye toujours, et dans ce cas il se payera à un prix particulièrement élevé.
Une anticipation par le BCE ?
Il faut alors revenir sur la conférence de Mario Draghi du jeudi 22 janvier. On a déjà signalé l’importance de la limitation à 20% de la garantie de la BCE sur les nouveaux achats de titres. Mais on peut se demander si, en réalité, Mario Draghi n’a pas anticipé la situation à venir, et une probable décomposition de la zone Euro. On peut lire sa politique, et ses déclarations comme le choix suivant : pas de mutualisation des dettes s’il n’y a pas de mutualisation économique (et en particulier budgétaire). Cette position est très sensée. La mutualisation des dettes n’aurait effectivement de sens que si l’on aboutissait rapidement à un système de mutualisation économique, et budgétaire. Or, Mario Draghi n’est pas sans savoir que l’Allemagne est fortement opposée à une telle mutualisation. Aussi est-il en train d’organiser le fractionnement monétaire du marché des dettes, et donc la renationalisation de ces dernières. Ceci pourrait bien être la dernière étape avant la dissolution de la zone Euro.
Mais, pour qu’il y ait une dissolution “organisée”, il faudrait que l’Allemagne reconnaisse le dilemme dans lequel sa propre politique l’a plongée. Il est très peu probable que les dirigeants allemands, qui ont tous – que ce soit la CDU-CSU ou la SPD – été connivents à cette politique, l’acceptent. Disons le tout de suite, c’est très peu probable. Le cheminement auquel nous devons nous attendre est donc celui d’une montée de l’affrontement avec la Grèce conduisant cette dernière à faire défaut sur sa dette et à se faire “expulser” de la zone Euro, non pas dans les formes (car rien ne permet de le faire) mais dans les faits. La BCE coupera l’alimentation de la Banque Centrale grecque et décidera que les “euros” émis en Grèce ne peuvent plus circuler dans le reste de la zone Euro. Notons que des mécanismes de ce type ont été en leur temps employés, pour une durée certes très courte, sur Chypre.
Il est aussi clair que le gouvernement grec se prépare à ce type de scénario. Il va réaliser un budget en équilibre strict, moyennant bien entendu l’affectation des dépenses prévues sur les intérêt de la dette à d’autres dépenses. Mais, si cette politique fait sens pour la Grèce, elle ne le fait nullement pour la zone Euro, qui devra alors affronter une crise de défiance massive, et une contagion rapide sur d’autres pays. Ce sera le scénario de “dislocation” de la zone Euro.
Il serait important que notre personnel politique commence à s’y préparer. Mais l’on peut craindre que, vivant dans une bulle et pratiquant une forme particulière d’autisme politique, il ne voit rien venir et soit confronté à la réalité de manière très brutale.
Jacques Sapir
Notes
1.Gaspers Jan, « The Quest for European Foreign Policy Consistency and the Treaty of Lisbon », in Humanitas, Journal of European Studies, Vol. 2, No. 1, 2008.
2.Voir le blog du Ministre des Finances M. Yanis Varoufakis :
http://yanisvaroufakis.eu/2015/01/29/a-question-of-respect-or-lack-thereof/
Carlos Esperança A Grécia, o Syrisa e a União Europeia
A coragem e o desespero deram-se as mãos num grito de esperança, na manifestação de raiva e no corajoso desafio à União Europeia.
A Grécia, tal como Portugal, empobreceu com os empréstimos que colocaram a dívida a níveis intoleráveis, e conduziram o País ao desespero, fome, miséria e humilhação. Cada dia foi maior a dívida e o desemprego, mais penosa a vida e mais intangível o equilíbrio financeiro. Entre a espada e a parede, o eleitorado escolheu a espada.
A Grécia tudo suportou, incluindo a repressão policial, mas a humilhação ultrapassou o limite que a dignidade permite. Não é apenas o país, berço da nossa civilização, que não sabe como reagirá a União Europeia, de que não pode ser expulsa, é esta que terá de decidir o que fazer com a Grécia.
Seria lamentável que à vontade expressa nas urnas se seguisse uma vingança, à guisa de vacina que advirta os povos para os limites da própria liberdade.
Eu teria votado Syrisa e, pelo menos, respeito a decisão do povo grego. Estou solidário, mas não eufórico, com a vitória da democracia, a manifestação de coragem e o exemplo de um povo que os burocratas da troika humilharam continuamente.
Eu sei do que estes líderes europeus são capazes, da crueldade com que o capital pune, dos riscos que corre quem desafia a europa alemã, capaz de homenagear serventuários e incapaz de ser solidária, como, depois da guerra, foram para com ela.
Fico, em pungente ansiedade, solidário com a Grécia, a pensar em Portugal, à espera de que os deuses do Olimpo não sejam derrotados por uma única e execrável divindade – os mercados –, e pela raiva dos países mais poderosos da União Europeia.
Entrevista com Yanis Varoufakis, ministro das Finanças do Governo do Syriza
Esquerda.Net, 27 de Janeiro de 2015
Nesta entrevista, para o público falante de alemão, dada a Johanna Jaufer da cadeia pública austríaca ORF, Varoufakis afirma: “A Europa não aprendeu com as lições da história e, enquanto não mudarmos de rumo, é altamente improvável que consigamos manter o conjunto da união”.
Yanis Varoufakis, ministro das Finanças do Governo do Syriza
Yanis Varoufakis é o ministro das Finanças do governo grego do Syriza. É um reconhecido economista greco-australiano, professor na Universidade do Texas e na Universidade de Atenas. Em março de 2014, foi um dos 74 economistas de 20 países que assinaram o manifesto internacional que apelou à reestruturação da dívida portuguesa e apoiou o manifesto das 70 personalidades portuguesas.
Você é há três semanas político profissional…
Duas semanas.
Teve que pensar muito? No seu blogue escreveu também que a decisão lhe dava pânico.
Foi uma decisão grave. Porque eu entro na política para realizar uma tarefa que sempre pensei que tinha que levar a cabo, e era-me dada a oportunidade de meter mãos à obra. Tem a ver com as negociações entre a Grécia e a União Europeia, em caso de vitória do Syriza: trata-se de um projeto e de uma perspetiva extremamente difíceis. Por outro lado, eu sou um académico, sou um cidadão, um cidadão ativo, de maneira que estou habituado a um tipo de diálogo em que o que se trata é que eu aprenda realmente consigo e você comigo: teremos desacordos, mas através desses desacordos, os nossos respetivos pontos de vista enriquecer-se-ão.
Não se trata de alguém se impor a outro…
Exato. Mas na política é pior: cada parte tenta destruir a outra parte – perante o público -, e isso é algo que me é alheio, algo que de nenhuma forma estou disposto a fazer.
E o que acontece com o seu trabalho na universidade? Fica suspenso?
Sim, efetivamente. Deixei a Universidade do Texas. Mantenho a minha cátedra na Universidade de Atenas – sem pagamento -, e espero que não passe muito tempo até regressar.
Está disposto a permanecer num governo por mais tempo?
Não. Não desejo fazer carreira política. Idealmente, o que quereria é que outra pessoa fizesse isto, e que o fizesse melhor que eu. Só que esta era a única forma de fazer algo que não poderia fazer de outro modo. Não sou um profeta, de modo que não lhe posso dizer onde estarei daqui a dois, três, cinco ou dez anos. Mas se me pergunta agora, o ótimo para mim seria que o nosso governo tivesse sucesso na renegociação de um acordo com a Europa que tornasse a Grécia sustentável, e que depois outras pessoas viriam, já se sabe… o poder deve ser rotativo, ninguém deveria prender-se a ele.
Algo que foi divulgado várias vezes na Alemanha e na Áustria é o assunto das reparações de guerra, porque a Alemanha se esquivou a pagar reparações propriamente ditas depois da II Guerra Mundial. Na sua opinião, por que aconteceu isso? Talvez porque alegaram que a Alemanha se encontrava dividida, e esperavam uma reunificação? Ou foi porque os norte-americanos alegaram que precisavam de uma Alemanha capaz de albergar as suas bases militares, o que deixava pendurados os reclamantes? Ou foi uma combinação de ambas as coisas?
Foi uma combinação. Nos anos 40, os Aliados tinham decidido converter de novo a Alemanha num país camponês. Propuseram o desmantelamento de 700 fábricas, e foram os norte-americanos que travaram esse plano. De maneira que, sim, destruíram 700, mas depois mudaram de ideias. Mudaram por razões que têm a ver com o modo como os EUA estavam a desenhar o capitalismo global: precisavam de uma moeda forte na Europa e de uma moeda forte na Ásia (que acabaram por ser o marco alemão e o iene japonês), e todo o projeto da União Europeia se construiu em torno desse plano. Na Europa nós gostamos de pensar que a União Europeia foi uma criação nossa. Não foi. Foi um desenho norte-americano que depois nós adotamos e que, certamente, era congruente com o que desejávamos, com as nossas aspirações. Parte desse desenho passava por estimular a economia alemã, tirá-la da depressão, tirá-la do poço em que se encontrava nos anos 40, e uma componente importante de qualquer tentativa de revigorar uma economia passa por aliviar a sua dívida, por um corte importante da dívida, pelo perdão de dívida. Assim, em 1953 foi organizada a Conferência da Dívida em Londres, da qual resultou um violento corte da dívida alemã em prejuízo de muitas nações, entre as quais a Grécia. Mas a Grécia é um caso especial, porque a Alemanha tinha contraído com ela uma dívida que não tinha com nenhuma outra nação: em 1943, a Kommandatur aqui, em Atenas, impôs ao Banco da Grécia um acordo pelo qual este banco imprimiria um montão de dracmas – dracmas de guerra— e fornecê-lo-ia às autoridades alemãs para que estas pudessem comprar material, financiar os seus esforços de guerra e acumular bens agrícolas para a Wehrmacht, etc. O interessante é que as autoridades alemãs assinaram um contrato: deixaram por escrito o montante de dinheiro que tomavam como empréstimo. Prometeram pagar juros. Foi, por conseguinte, um empréstimo formal. Os documentos existem ainda e encontram-se em poder do Banco (Central) da Grécia. Em nenhum outro país aconteceu algo parecido. De modo que isto é como uma dívida oficial, como um título, contraído com a Grécia em tempo de guerra pelo estado nazi alemão.
Pode dar números exatos?
Números exatos. Será escusado dizer que a dificuldade está em traduzir essa moeda de guerra, que muito rapidamente foi absolutamente inflacionada por causa da quantidade de dracmas imprimidos. As autoridades alemãs, ao aceitar esse empréstimo do Banco da Grécia e ao fazerem compras, desvalorizaram a moeda, o que teve enormes custos sociais secundários em toda a Grécia. É muito difícil calcular exatamente em quanto se traduz esse empréstimo em termos atuais, como se compõe o juro, como se converte, como se calcula o custo da hiperinflação causada… O meu ponto de vista é que somos parceiros; deveríamos deixar-nos de moralismos, deveríamos deixar de apontar-nos mutuamente com o dedo. A teoria económica bíblica – “olho por olho, dente por dente” - deixa todo o mundo cego e desdentado. Deveríamos, simplesmente, sentar-nos com o mesmo espírito com que os EUA se sentaram em 1953, sem levantar questões como: “os alemães merecem o castigo?”, “é culpa ou é pecado?”. Já sei que em alemão os dois conceitos - “culpa” e “dívida” - se expressam com a mesma palavra (Schuld), antónima de crédito. Deveríamos limitar-nos a levantar esta simples questão: como podemos voltar a tornar sustentável a economia social grega de modo que os custos da crise grega sejam minimizados para o alemão médio, para o austríaco médio, para o europeu médio.
Por que é que muitas pessoas da Europa setentrional não temeram que os cortes nos direitos laborais nos anos 90 pudessem ser presságio do mesmo tipo de coisas que agora estão a ocorrer aqui (na Grécia)?
Acho que tudo é culpa de Esopo. A sua fábula da formiga e da cigarra: a formiga trabalha duro, não desfruta da vida, guarda dinheiro (ou valor), enquanto a cigarra se limita a descansar ao sol, a cantar e a não fazer nada, e depois vem o inverno e põe cada uma no seu lugar. É uma boa fábula: desgraçadamente, na Europa predomina a estranhíssima ideia de que todas as cigarras vivem no Sul e todas as formigas no Norte. Quando, na realidade, o que há são formigas e cigarras em todo o lado. O que aconteceu antes da crise - é a minha revisão da fábula de Esopo— é que as cigarras do Norte e as cigarras do Sul, banqueiros do Norte e banqueiros do Sul, por exemplo, se aliaram para criar uma bolha, uma bolha financeira que os enriqueceu enormemente, permitindo-lhes cantar e descansar ao sol, enquanto as formigas do Norte e do Sul trabalhavam, em condições cada vez mais difíceis, até nos tempos bons: conseguir que as contas quadrassem em 2003, em 2004, não foi nada fácil para as formigas do Norte e do Sul; e depois, quando a bolha, que as cigarras do Norte e as cigarras do Sul tinham criado, estoirou, as cigarras do Norte e do Sul puseram-se de acordo e decidiram que a culpa era das formigas do Norte e das formigas do Sul. A melhor forma de fazer isso era confrontar as formigas do Norte com as formigas do Sul, contando-lhes que no Sul só viviam cigarras. Assim, a União Europa começou a fragmentar-se, e o alemão médio odeia o grego médio, o grego médio odeia o alemão médio. Não tardará que o alemão médio odiará o alemão médio, e o grego médio odiará o grego médio.
Isso já começou, não?
Sim, já se vê. E é exatamente o que ocorreu nos anos 30, e Karl Marx estava completamente equivocado quando disse que a história se repete como farsa. Aqui a história repete-se, simplesmente.
No tocante à decisão do Sr. Draghi de inundar o mercado com biliões de euros, vi que você disse que isso é como usar uma pistola de água num incêndio florestal.
Acho que o Sr. Draghi tem boas intenções. Quer manter unida a zona euro, e é muito competente. Faz o que pode, dadas as restrições que tem. Não tenho a menor dúvida - ainda que ele nunca o admita - de que entende cabalmente que o que está a fazer é demasiado pouco e demasiado tarde: uma pistola de água perante um grande incêndio florestal. Mas ele acha que até uma pistola de água é melhor que nada. Se se declarou um incêndio, ele preferiria servir-se de um canhão de água, e teria preferido começar a usá-lo antes, mas não era permitido porque na Europa temos uma Carta do BCE que o ata de pés e mãos e o lança perante o monstro da deflação, o que é muito injusto para o BCE. E assim será enquanto a Europa não compreender o que é imperiosamente necessário do ponto de vista económico para sustentar uma união monetária, enquanto não entender por que se dá toda esta fragmentação e a crescente renacionalização de tudo, incluída agora a flexibilização quantitativa do senhor Draghi (80% das compras de títulos serão realizadas pelos Bancos Centrais nacionais, como se estes existissem separadamente do BCE). Porque essa fragmentação e essa renacionalização é exatamente o oposto do que deveríamos estar a fazer, apoiar, consolidar. Como se formaram os EUA? Pois, porque cada vez que tinham uma crise - a Guerra Civil, a Grande Depressão - avançavam na sua união. Nós dizemos que estamos a fazer isso com as “uniões bancárias”, com os “Mecanismos Europeus de Estabilização”, mas não é verdade. Criámos uma união bancária que não é uma união bancária, é uma desunião bancária, e chamamo-la, à maneira orwelliana, “união bancária”. A Europa não aprendeu com as lições da história , e enquanto não mudarmos de rumo, é altamente improvável que consigamos manter o conjunto da união.
A propósito dos planos do Syriza para revitalizar a indústria na Grécia, Theodoros Paraskevopoulos disse que se trata também de recuperar as dimensões do setor farmacêutico na Grécia, porque tem uma boa base. Como é isso?
Ao que sei, por alguma razão, temos boas empresas farmacêuticas que têm exportações sólidas. Precisamos ajudá-las e precisamos criar indústrias assim também noutros setores.
Por exemplo?
Acho que temos excelentes programadores informáticos e engenheiros de software, de modo que deveríamos fazer algo parecido ao que fez Israel. Criar uma rede de pequenas empresas emergentes orientadas internacionalmente para a exportação. Se algumas delas acabarem por ser compradas pela Google, etc., não é uma má coisa. É o tipo de coisas que deveríamos ensaiar e apoiar, se podermos.
Se pusermos a questão de que fazer para atrair investidores estrangeiros para a Grécia, há alguma ideia parecida com parcerias público-privadas, algo que nos países da Europa setentrional tem dado muitos problemas?
Eu não sou partidário das parcerias público-privadas. Onde essas associações foram ensaiadas, acabaram sempre por drenar recursos do estado sem produzir nenhum valor acrescentado significativo. Normalmente, foram exercícios de corte de custos, e no final, sem o menor efeito de desenvolvimento. O que eu acho é que devemos tender para o desenvolvimento de ativos públicos já existentes sem os vender - mesmo agora estamos a liquidar e a vender simplesmente para angariar receitas -, de modo que o dinheiro do setor privado, os fundos de investimentos, possam vir e contribuir para o desenvolvimento de forma mutuamente benéfica. É um tipo de empreendimento público-privado, mas não ao estilo do que se ensaiou na Grã-Bretanha e noutros lugares.
Voltando à discussão do memorando: entre que fatores acha que a Sra. Merkel está condicionada?
Acho que a Alemanha está dividida. Os interesses da banca em Frankfurt não são os mesmos que os da banca média, tal como os interesses das pequenas e médias empresas na Alemanha central não são os mesmos que os da Siemens e da Volkswagen, etc. É muito diferente ter a capacidade produtiva exclusivamente localizada na Alemanha, como as empresas pequenas e médias, ou estar mergulhado na globalização e ter fábricas na China e no México. E a Sra. Merkel é uma política astuta que se preocupa - ou pensa precaver-se - de que haja consenso entre esses interesses sobre o que há que fazer com o euro, com o nosso Banco Central, com a periferia, etc. A Sra. Merkel, simplesmente, não moverá qualquer peça até que haja um consenso que lhe garanta a sobrevivência política.
Mas esse consenso não é possível.
Bom, repare, por exemplo, o que se passou em 2012 com o anúncio unilateral por parte do Sr. Draghi das Operações Monetárias sobre Títulos, ou mesmo ontem, com a Flexibilização Quantitativa. Verá que, quando começam a ouvir-se vozes que dizem: “olhem, rapazes, que a deflação nos está a matar, há que fazer algo”, então a Sra. Merkel pode servir-se dessas vozes para dizer: “apoiarei o Sr. Draghi, façam o que fizerem”. Por conseguinte, não é um consenso-consenso, mas ela está a calibrar as movediças placas tectónicas sob os seus pés. E o modo como o faz é muito astuto. Eu convidá-la-ia a pensar no seu legado para além da mera sobrevivência, e gostaria que considerasse a possibilidade de que daqui a 10, 20, 100 anos, a Europa pudesse falar não só de um plano Marshall que salvou a Alemanha, mas também de um plano Merkel que salvou o Euro.
Artigo traduzido para espanhol sinpermiso.info por Estrella Mínima e para português por Carlos Santos para esquerda.net
José Vítor Malheiros A grande novidade é que a Grécia vai ter um Governo grego
1. A grande novidade das eleições legislativas gregas é que a Grécia vai ter finalmente um Governo grego, composto por gregos que se preocupam com a vida dos cidadãos gregos e não um Governo de capatazes, preocupados acima de tudo em não indispor os poderes financeiros do mundo e em obedecer às directivas das forças ocupantes.
O líder do partido espanhol Podemos, Pablo Iglesias, usou esta imagem, e ela é correcta. Até agora, na Grécia, como em Portugal, temos tido Governos que ascenderam ao poder para manter os seus países acorrentados à dívida. Governos que juraram vassalagem aos mais ricos para poderem beneficiar um dia dos seus favores, sacrificando para isso a liberdade, a dignidade, o bem-estar, a vida e o futuro de milhões de cidadãos.
Governos que tentaram destruir por dentro o Estado que construímos com o nosso trabalho e que não hesitam em delapidar o património que não lhes pertence na esperança de que, um dia, possam voltar a ajudar o inimigo a atacar de novo as muralhas da cidade e as possam encontrar mais enfraquecidas.
Governos que venderam a soberania nacional, que ofendem a memória de todos os que se sacrificaram em defesa da democracia, que escarnecem daqueles que acreditam que todos os indivíduos nascem livres e iguais em direitos. Fazem-no em troca de uns lugares em futuros conselhos de administração, ébrios de alegria por poderem ombrear com os ricos e com a consciência imperturbada dos que consideram que a conta bancária é a medida de todas as coisas e a vida dos pobres algo negligenciável.
Não há nada mais vil do que esta traição que, não por acaso, durante milénios, em todas as latitudes e em todos os povos, conheceu a mais radical das punições.
E, por isso, é com alegria que saudamos a queda do Governo de Antonis Samaras, como saudaremos com alegria o dia da queda de Passos Coelho, o primeiro-ministro cuja ambição mais exaltante é ser o cãozinho de regaço da chanceler alemã.
2. O Governo grego de coligação Nova Democracia-Pasok-Dimar, agora derrotado nas urnas, foi constituído e empossado em nome da necessidade de “estabilidade” do país, como já o anterior Governo de Papademos tinha sido e outros antes destes. Sabemos aonde levou esta “estabilidade”: desemprego de 25 por cento, desemprego jovem de 60 por cento, dívida de 317 mil milhões de euros ou 177% do PIB, a uma sociedade à beira do caos, com apoios sociais praticamente inexistentes para uma população com uma pobreza crescente, ao êxodo de profissionais, a uma economia destruída e sem motor de arranque à vista, a uma sociedade desesperada e descrente.
A vitória de anteontem do Syriza, segundo inúmeros analistas financeiros, politólogos e muitos solícitos comentadores anónimos de vários Governos europeus, corre, porém, o risco de aumentar a “instabilidade” da situação grega.
Apetece brincar e dizer que, se Samaras era a “estabilidade”, é urgente experimentar a “instabilidade”, mas é evidente que uma situação, por má que seja, pode sempre piorar e não faltará por certo na extrema-direita económica que governa a Europa quem queira aproveitar a vitória do Syriza para dar uma lição à esquerda e às veleidades de autodeterminação dos povos e para mostrar que não se devem eleger políticos de quem os bancos não gostam, cortando radicalmente o financiamento a Atenas e recusando todas as negociações.
É, no entanto, de esperar que algum bom senso prevaleça e que a Grécia não seja transformada no barril de pólvora que pode incendiar a União Europeia. Mas falemos desta “estabilidade” que a direita tanto aprecia e da “instabilidade” que ela tanto receia.
É evidente que, numa situação de paz, de progresso e justiça social, a estabilidade é um valor. Mas quando a situação é a desagregação social e a injustiça da Grécia, quando a situação é a desigualdade e a pobreza crescente que vemos no nosso país, quando a situação são os probemas estruturais da economia e a carência de financiamento dos dois países, é evidente que não é ética e politicamente admissível defender a “estabilidade”, porque essa “estabilidade” é apenas a paz podre onde os pobres morrem de fome sem reclamar.
Nos países em crise, a situação actual exige instabilidade porque exige mudanças drásticas. Não a destruição mascarada de estabilidade que vemos em Portugal, onde a calma apenas esconde uma operação de pilhagem do património público em nome da necessidade de “revitalizar a economia” com as privatizações, a par de uma campanha de ataque aos direitos laborais denominada “reformas estruturais”, mas uma instabilidade criativa, onde se admite a necessidade de inventar verdadeiras soluções que sirvam as populações. Uma instabilidade inventiva e honesta, onde será necessário correr riscos, mas onde os riscos que se correm terão uma razão de que nos poderemos orgulhar.
Este é o desafio que nos lança a Grécia de hoje. Um desafio a que respondemos com alegria porque, hoje como ontem, somos todos gregos.
JVM
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