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Delícias são tudo o que nos faz felizes: um livro, a magia dum poema ou duma música, as cores duma paleta ... No jardim o sol não raia sempre mas pulsa a vida, premente.
Carlos Matos Gomes A guerra de trincheiras do Bloco
Comemora-se este ano o centenário do início da Grande Guerra (1914-1918), que ficou conhecida como a guerra das trincheiras. De modo simplista, a Alemanha tinha uma ideia para si própria e para a Europa. Atacou e os Aliados defenderam-se na fronteira da França cavando trincheiras e metendo-se dentro delas durante 4 anos. A guerra começa com a Alemanha a ter uma estratégia e os Aliados remetidos à tática. Terminou na situação contrária, com a Alemanha entrincheirada e os Aliados a moverem-se e a vencerem, derrotando-a nas suas trincheiras.
Temo que a história do Bloco seja a da Alemanha. Apresentou-se, na sua fundação, com uma estratégia de vitória e novidade e parece ir acabar entrincheirado numa tática de defesa a todo o custo, sem horizontes. As moções apresentadas na Convenção do Bloco são uma escolha pela guerra de trincheiras e a confissão de ausência de uma estratégia. O Bloco defende um conjunto de bons princípios e de boas intenções e defende-se com eles como os exorcistas se defendiam mostrando a cruz aos possuídos pelos demónios.
Todas as moções são longas análises da situação com a qual a grande maioria dos portugueses está de acordo sem se mexer do sofá. A questão está no que o Bloco propõe para sair da crise, as propostas não levam os seus soldados a sair das trincheiras. Uma mão cheia do quase nada que é prometer uma melhor distribuição da riqueza. As duas moções principais, a E de Pedro Filipe Soares e a U da actual direcção de João Semedo e Catarina Martins, dizem claramente que lutam contra, não lutam por.
“Aqui estão aqueles que lutam contra a corrupção e as elites”, garantiu Pedro Filipe Soares. A atual coordenadora do Bloco em representação da moção U, Catarina Martins, defendeu:“Há um amplo consenso sobre o Bloco ser contra a austeridade e sabem todos que não faremos parte de um governo do PS, do pântano do bipartidarismo.”
Quais são as propostas para romper com a austeridade?
A moção E dedica-lhe o capitulo 4.4 O Essencial: O T.O. (Tratado Orçamental) é a barreira entre os que são submissos à ditadura da finança e os que colocam as pessoas no centro da política (…) O BE construirá um programa alternativo de governo que dê resposta às necessidades populares e altere a relação de forças. O caminho é claro: a) Desvinculação imediata do T.O.;b) Reestruturação da dívida pública rejeitando a dívida ilegítima, nacionalização do sector bancário para uma política de defesa da economia e criação de emprego e desobediência à austeridade europeia; c)Nacionalização dos bens comuns privatizados, garantindo o poder público dos setores estratégicos contra a globalização e o combate às rendas parasitárias, criando uma economia para o pleno emprego com direitos; (…)
A moção U dedica à resolução da crise o seu ponto 6. UM PROGRAMA PARA ACABAR COM A AUSTERIDADE: O objetivo imediato do Bloco é o fim da austeridade. Propõe o investimento público para a criação de emprego sustentável e a recuperação dos rendimentos do trabalho e dos serviços públicos degradados através da devolução à esfera pública dos bens estratégicos privatizados. Afirma que “ Este objetivo depende de medidas concretas” A primeira medida deste programa é a renegociação da dívida pública e de toda a dívida externa, cujos valores são insustentáveis. A par desta renegociação, deve iniciar-se a desvinculação do Tratado Orçamental. O núcleo do programa do Bloco completa-se com uma profunda reforma fiscal e com a nacionalização dos bens estratégicos. No caso da banca, o controlo público deve evitar a socialização das perdas e responsabilizar os acionistas e os potentados financeiros – os grandes credores da banca privada.
Não há diferenças entre a essência das duas propostas. Presumo (não as li) que as outras serão do mesmo teor. Elas motivam-me algumas questões:
As medidas apresentadas para sair da crise são adequadas? A maioria são.
São exequíveis? Na actual conjuntura a maioria não é exequível nem interna, nem externamente. Não podem ser levadas a cabo por um só partido nacional, nem por uma só corrente política europeia. O grupo da esquerda radical europeia não consegue por si só provocar a revisão do Tratado Orçamental, nem impor a renegociação da dívida, nem fazer aceitar a renacionalização da Banca, por exemplo. Internamente o Bloco não consegue, isolado, impor nenhuma das suas propostas. Ora o Bloco, tal como o PC, rejeita aliar-se com quem quer que não aceite as suas propostas e já o disse a António Costa.
O Bloco que sai desta Convenção é igual que que entrou, mantém-se, simplesmente, numa posição tática defensiva de afirmação de princípios. Sabe que não consegue sair da trincheira e impô-los. Resmunga.
As propostas do Bloco, mesmo que fossem adequadas e exequíveis seriam suficientes para vencer a crise e acabar com austeridade? Não são, nem seriam. O Bloco não propõe nenhuma medida para aumentar a riqueza produzida em Portugal. Nem para atrair capitais, que leve alguém a preferir investir aqui do que em outra parte. Nem para aumentar as vantagens comparativas de Portugal relativamente a outros estados e espaços. O Bloco não apresenta nenhuma estratégia para Portugal produzir riqueza no mundo global que, bem ou mal, é o que existe e que o Bloco não tem força para alterar radicalmente e que, nem mesmo que tivesse, iria a tempo de proporcionar às atuais gerações, as dos que ainda vivem e votam de viverem melhor. O Bloco não tem um política para a participação de Portugal nos grandes espaços mundiais – UE, Espaço Atlântico (EUA-RU e Canadá ), Lusofonia, Economias Emergentes (BRIC’s). Apenas uma frase sobre a saída da NATO, para a qual o nosso maior contributo é fazer voar meia dúzia de aviões em alegre vigilância turística sobre a orla costeira!
O Bloco repetiu a velha mensagem que há muito transmite à sociedade portuguesa: vai manter-se entrincheirado nas suas posições simpáticas de prometer distribuir melhor o pouco que há. Nada promete fazer para haver mais riqueza.
Foi afirmado que o Bloco não será o CDS do PS, a muleta do PS. Julgo que corre o risco de nem isso vir a ser, mas de se reduzir a um partido-seita, como o MRPP, ou o POUS.
Penso que as lições de história do Fernando Rosas sobre a falência dos movimentos pacifistas, anarquistas, espartaquistas, socialistas no período crucial do verão de 1914 poderiam ter sido úteis aos congressistas da Convenção.
Como se sabe da história da I Grande Guerra, o impasse só se resolveu com a introdução do movimento proporcionado por novas ideias e alianças, quando surgiu o tank que atravessou as trincheiras e a aviação que obrigou as velhas formações a saírem dos seus abrigos. Em minha opinião o Bloco está como os soldados alemães de 1918, começaram por atacar e acabaram a defender-se das novas ameaças com as velhas armas. Não é animador.
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