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Delícias são tudo o que nos faz felizes: um livro, a magia dum poema ou duma música, as cores duma paleta ... No jardim o sol não raia sempre mas pulsa a vida, premente.


EXPOSIÇÃO DE PINTURA























(imagem de Adão Cruz)
1º - A semana passada, dirigia-me eu à Corunha a fim de almoçar com uns amigos, quando, perto da saída para Ponte de Lima, tive um furo, originado por um maldito parafuso que por ali ficou à espera de outra vítima, segundo me disse o remendador de pneus. Tive a sorte de, naquele preciso momento, passar ali uma carrinha da Brisa, cujo condutor, dada a minha provecta idade, gentilmente se prontificou a mudar o pneu. Claro que, sendo sábado, desisti de continuar a longa viagem, com um pneu raquítico como aqueles que agora se usam como substitutos, embora já tivesse tido a experiência de andar com um pneu desses desde Villefranche de Conflent, sul da França, até Portugal.
Resolvi ir comer um pernil assado na “A Carvalheira”, e, no fim do repasto, dirigi-me a Vigo, onde assentei arraiais no velho, modesto e conhecido Hotel La Junquera, desde os tempos em que ainda não havia a “parte nova”. Como em outras ocasiões, fui à //Afundación, ver o que havia por lá, em termos de exposições. Nesse mesmo local onde o meu grande amigo Pastor Outeiral, uns anos antes de morrer, fez uma das suas últimas exposições. Entre “Da Xeración doente aos Renovadores”, “Pegadas da Abstracción a nova Figuracción”, “Identidade Individual, Vontade Global”, dei com obras de pintores que tiveram muito a ver comigo. Desde já, Tino Grandio que morreu em 1977 com um cancro da bexiga, cuja obra descobri há muitos anos em Pontevedra. Xaime Quesada, que ainda conheci pessoalmente em vida, em Ourense. Caruncho que morreu o ano passado, e com quem, um dia, jantei na Corunha.
Fui jantar ao meu querido café “Luces de Boémia”, onde tenho amigos, e que eu conheço desde os tempos em que ia a Vigo comprar películas para o meu primitivo ecocardiógrafo, o único ecocardiógrafo bidimensional existente no país, nessa altura. Aí me mantive até às primeiras horas da madrugada, ouvindo música ao vivo, dos anos 60-80-90. Depois de uns copos bem bebidos, indutores de um belíssimo sono, lá fui para o hotel “la Junquera”.
Levantei-me a meio da manhã e percorri calmamente, dentro da neblina e de uma chuva miudinha, todo aquele rabinho de costa entre Vigo e a Guarda (La Guardia), que por mais conhecido que seja nunca cansa. Almocei no “Muralhas de caminha”, do meu velho amigo Tiago, e rumei ao Porto.
2º À noite jantei num tasco. Na mesa frente à minha sentou-se uma moça nova, engraçada, mulher dos seus trinta e tais, com um homem bastante mais velho, com ar de sem-abrigo. Entre ambos abundavam os sorrisos e gestos de uma felicidade fora do comum. Eram, na verdade, pai e filha, segundo me segredaram. Ela, empregada muito precária, ele, com efeito, sem-abrigo. Ali vinham por vezes jantar. Desta vez uma suculenta picanha intercalada de sorrisos, salivações e lacrimosos olhares de felicidade. Dei comigo a entranhar bem dentro das entranhas o que é a vida e o que ela tem de absurdo, de relativo, de descarnado, de verdadeiro e de falso. Comparei, sem esforço, esta cena de plena felicidade, com as trombas (ainda que giras) transmitidas momentos antes, da execrável exploradora da miséria angolana, Isabel dos Santos, ao ver-se aprisionada durante meia hora num autocarro junto ao aeroporto de Lisboa.
Adão Cruz
Noite de Poesia na Taberna do Doutor
O primeiro aniversário da Taberna do Doutor foi festejado com uma sessão de leitura da poesia de Adão Cruz a quem o nome do restaurante foi dedicado.
Aqui fica um breve resumo fotográfico do evento, a par de quatro dos muitos poemas que nessa noite ali foram lidos.
Preso à cidade
Preso à cidade nesta inquietante angústia das sombras ao redor de um tudo-nada que nos prende e constrange cai dos telhados o pó cinzento de uma neblina estranha que definha as ruas e arrasta as horas na lentidão dos passos.
Lá atrás uma réstia de luz presa ao vidro de um candeeiro partido sob as janelas podres lembra que se alma houvesse seria presa fácil de um qualquer rígido corpo enjoado de farsas e falácias amontoadas no lixo ao longo das ruas.
A noite caiu de forma estranha sobre a cidade sem corpo definhada de luz e consciência deixando atrás de si os últimos passos de uma existência presa a todas as obscurantistas ordens estabelecidas.
Até o vento se foi para não arrastar a neblina estranha e para não incomodar o pesado silêncio que se prende ao corpo e às paredes como mortalha do tempo e pegajoso crude que desfaz essa réstia de luz presa ao vidro de um qualquer candeeiro partido.
Ainda ontem era dia nos braços repartidos do trabalho e nas carnes que não conheciam o exílio recusando morrer fora dos sonhos e da vida no meio da tempestade e o vento varria o silêncio para libertar o corpo e a mente da neblina estranha das noites pegajosas.
Havia certezas por entre os tremores da indecisão havia sorrisos verdades e ilusões e havia brisas sonâmbulas calando os medos e no fundo do silêncio corriam rios arrastando as paredes negras e todas as sombras dos candeeiros partidos.
Preso à cidade na tristeza que nos envolve e nos liberta por momentos o pensamento cai dos telhados a poeira do tempo que cala as ruas e prende as horas na lentidão dos passos e abre no chão quadriculado um espelho negro com um menino tocando o céu azul rodeado de pássaros e flores e rios cristalinos e nos estende a mão num gesto de paz que nos acalma e nos perdoa e carinhosamente e sigilosamente nos devolve ao nada por um caminho celular oculto irrepetível.
Não sou poeta nem nada
Não sou poeta nem nada nem noite de luar nem sopro de
vento nem pirilampo errante nem grão de espiga
Serei louco
O louco não tem número está fora da cidade dos homens
Não sou luz da serra nem sombra nem luz nem sombra da
noite no alvor da madrugada não sou coisa nem nada
Talvez louco
O louco não tem número o limite da soma é o vazio
Não sou murmúrio de rio nem cigarro viciado nem ponta de
cio nem lua patética crescendo e fugindo do tempo que passa
não sou quebra‑luz nem gavinha entrelaçada num abraço de
frio
Sete raios de sol queimaram o sonho sete chuvas de esperma
o fecundaram
Já não sou resina nem merda nem urina nem sangue nem
seiva
Morreram Afrodites e leões de pelo fulvo quando se
inventou a alma…e eu não sou mais do que rescaldo
Já não sou poeta nem nada
Sou mesmo louco
Ouço o silêncio
Ouço o silêncio dos olhos que se fecham na falta de
esperança
Amo o silêncio das cores vivas e do sonho que nos tece a
alma entre a vida e a morte
Doi‑me o silêncio negro dos gritos proibidos e sinto o
dourado silêncio dos gestos da noite que nos abrem os olhos
Amargo o silêncio das horas sem brilho e vivo o silêncio do
mar que risca na areia a força vencida
Assumo o silêncio sagrado da liberdade e da vida e o silêncio
de um céu de fogo que nos abre a cova na terra fria
Ao redor do nevoeiro
Hoje sou eu que vou ao teu encontro por dentro deste nevoeiro denso que tudo esconde, mas não sei onde estás nem sinto os teus cabelos de incenso.
Sei que moras para lá do tempo, entre dálias e gerânios entre memórias e sonhos de um segredo, mas o coração diz-me para seguir em frente e não ter medo.
Sem saber ao certo quem sou levo comigo a razão, único caminho que rasga o nevoeiro e rompe as algemas, e me deixa ver a luminosa transparência do teu corpo para lá das algas e dos peixes verdes dos poemas.
Tu estás do outro lado de um beijo, e eu quero abraçar-te pela cintura neste apagado incêndio dos sentidos, ainda que seja demasiado tarde para a verde ternura de um desejo.
Hoje sou eu que vou ao teu encontro em meu corpo de terra antiga que já não seduz, logo que possa dar um passo dentro do nevoeiro para lá dos olhos sem luz.
Assim o decidi ao ver-te quase nua, na altura em que o nevoeiro sem sentido caía pesadamente sobre a rua, mas não eras tu… era uma chama de lábios e lume, ardendo em estranho leito nupcial de um qualquer tempo já perdido.
No ventre do nevoeiro, inventei a noite entre lençóis de neve mordidos de uma luz oblíqua, que não era minha nem tua, e se perdia na pele branca de um qualquer corpo que eu não sentia.
Era como se um rio cantasse entre a lua e as águas e o nada… e fosse demasiado tarde para ser música no violino da madrugada.
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