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Delícias são tudo o que nos faz felizes: um livro, a magia dum poema ou duma música, as cores duma paleta ... No jardim o sol não raia sempre mas pulsa a vida, premente.
Noite de Poesia na Taberna do Doutor
O primeiro aniversário da Taberna do Doutor foi festejado com uma sessão de leitura da poesia de Adão Cruz a quem o nome do restaurante foi dedicado.
Aqui fica um breve resumo fotográfico do evento, a par de quatro dos muitos poemas que nessa noite ali foram lidos.
Preso à cidade
Preso à cidade nesta inquietante angústia das sombras ao redor de um tudo-nada que nos prende e constrange cai dos telhados o pó cinzento de uma neblina estranha que definha as ruas e arrasta as horas na lentidão dos passos.
Lá atrás uma réstia de luz presa ao vidro de um candeeiro partido sob as janelas podres lembra que se alma houvesse seria presa fácil de um qualquer rígido corpo enjoado de farsas e falácias amontoadas no lixo ao longo das ruas.
A noite caiu de forma estranha sobre a cidade sem corpo definhada de luz e consciência deixando atrás de si os últimos passos de uma existência presa a todas as obscurantistas ordens estabelecidas.
Até o vento se foi para não arrastar a neblina estranha e para não incomodar o pesado silêncio que se prende ao corpo e às paredes como mortalha do tempo e pegajoso crude que desfaz essa réstia de luz presa ao vidro de um qualquer candeeiro partido.
Ainda ontem era dia nos braços repartidos do trabalho e nas carnes que não conheciam o exílio recusando morrer fora dos sonhos e da vida no meio da tempestade e o vento varria o silêncio para libertar o corpo e a mente da neblina estranha das noites pegajosas.
Havia certezas por entre os tremores da indecisão havia sorrisos verdades e ilusões e havia brisas sonâmbulas calando os medos e no fundo do silêncio corriam rios arrastando as paredes negras e todas as sombras dos candeeiros partidos.
Preso à cidade na tristeza que nos envolve e nos liberta por momentos o pensamento cai dos telhados a poeira do tempo que cala as ruas e prende as horas na lentidão dos passos e abre no chão quadriculado um espelho negro com um menino tocando o céu azul rodeado de pássaros e flores e rios cristalinos e nos estende a mão num gesto de paz que nos acalma e nos perdoa e carinhosamente e sigilosamente nos devolve ao nada por um caminho celular oculto irrepetível.
Não sou poeta nem nada
Não sou poeta nem nada nem noite de luar nem sopro de
vento nem pirilampo errante nem grão de espiga
Serei louco
O louco não tem número está fora da cidade dos homens
Não sou luz da serra nem sombra nem luz nem sombra da
noite no alvor da madrugada não sou coisa nem nada
Talvez louco
O louco não tem número o limite da soma é o vazio
Não sou murmúrio de rio nem cigarro viciado nem ponta de
cio nem lua patética crescendo e fugindo do tempo que passa
não sou quebra‑luz nem gavinha entrelaçada num abraço de
frio
Sete raios de sol queimaram o sonho sete chuvas de esperma
o fecundaram
Já não sou resina nem merda nem urina nem sangue nem
seiva
Morreram Afrodites e leões de pelo fulvo quando se
inventou a alma…e eu não sou mais do que rescaldo
Já não sou poeta nem nada
Sou mesmo louco
Ouço o silêncio
Ouço o silêncio dos olhos que se fecham na falta de
esperança
Amo o silêncio das cores vivas e do sonho que nos tece a
alma entre a vida e a morte
Doi‑me o silêncio negro dos gritos proibidos e sinto o
dourado silêncio dos gestos da noite que nos abrem os olhos
Amargo o silêncio das horas sem brilho e vivo o silêncio do
mar que risca na areia a força vencida
Assumo o silêncio sagrado da liberdade e da vida e o silêncio
de um céu de fogo que nos abre a cova na terra fria
Ao redor do nevoeiro
Hoje sou eu que vou ao teu encontro por dentro deste nevoeiro denso que tudo esconde, mas não sei onde estás nem sinto os teus cabelos de incenso.
Sei que moras para lá do tempo, entre dálias e gerânios entre memórias e sonhos de um segredo, mas o coração diz-me para seguir em frente e não ter medo.
Sem saber ao certo quem sou levo comigo a razão, único caminho que rasga o nevoeiro e rompe as algemas, e me deixa ver a luminosa transparência do teu corpo para lá das algas e dos peixes verdes dos poemas.
Tu estás do outro lado de um beijo, e eu quero abraçar-te pela cintura neste apagado incêndio dos sentidos, ainda que seja demasiado tarde para a verde ternura de um desejo.
Hoje sou eu que vou ao teu encontro em meu corpo de terra antiga que já não seduz, logo que possa dar um passo dentro do nevoeiro para lá dos olhos sem luz.
Assim o decidi ao ver-te quase nua, na altura em que o nevoeiro sem sentido caía pesadamente sobre a rua, mas não eras tu… era uma chama de lábios e lume, ardendo em estranho leito nupcial de um qualquer tempo já perdido.
No ventre do nevoeiro, inventei a noite entre lençóis de neve mordidos de uma luz oblíqua, que não era minha nem tua, e se perdia na pele branca de um qualquer corpo que eu não sentia.
Era como se um rio cantasse entre a lua e as águas e o nada… e fosse demasiado tarde para ser música no violino da madrugada.
Tchaikovsky A Bela Adormecida
(Ópera Nacional de Paris, com coreografia e encenação de Rudolf Nureev)
Fernando Pessoa A lenda dourada e linda
(Maija Lindberg)
A lenda dourada e linda
Que me contaram outrora,
Em minha alma dorme ainda
Mas é outra lenda agora.
Antigamente falava
De fadas, elfos e gnomos;
Hoje fala só da escrava
Indecisão que nós somos.
Mas elfos, gnomos e fadas,
Vistos certos, que mais são
Que as projecções enganadas
Dessa nossa indecisão?
Criamos o que não temos
Por nos doer não os ter,
E quasi tudo o que vemos
É o que ansiamos por ver.
Depois, cansados daquela
Visão que viu só o nada,
Fechamos toda janela,
Ficamos na alma fechada.
Mas inda esses entes todos
Que outrora eram visão,
Bailam mesmo, e inda a rodos,
Mas só no meu coração.
(in Poesia 1931-1935, Assírio & Alvim)
Eva Cruz A nostalgia da Serra
(Silvia Molinari)
A nostalgia da Serra
traz o cuco na Primavera
chega com os piscos
e as primeiras andorinhas.
Canta ao longe ainda o medo
depressa se envaidece
e repete atrevido
cucu... cucu
cuco ramalheiro quantos anos tens (de) solteiro
cucu... cucu
Raquel imita-lhe a voz
e procura nos galhos
as maçãzinhas de cuco
e o cuspe branco que vai deixando.
Todos os anos volta
para de novo ensaiar
e desafiar o sol que já vai alto.
Raquel gosta de acordar tarde nos matos
entre os rebentos verdes das carvalhas.
No adeus da juventude
Raquel envelhece de Primavera
e regressa em tempo de cuco
sem maçãzinhas nos ramalhos
nem seiva branca
só esperança de velhos meninos
no cuco ramalheiro.
(in Era uma vez, Future Kids, Campo das Letras)
João José Cochofel Eu não vi a cor do Outono ...
(Mahlaicha)
Eu não vi a cor do Outono
nem a sua sombra ao dobrar do dia.
Eu não vi o arrepio da nudez
brotando do Verão que a cobria.
O fogo vai criando sol
nas noites de inverno, quando a cama gela;
e o amor é tranquilo e fundo, submerso
o medo pueril ao negro da janela.
Meu cata-vento ao sabor do que sinto,
a miragem desta vez foi mais forte.
Moeda jogada, é perder ou ganhar.
À sorte!...
(in 46º. Aniversário, Portugália)
Ana Goês Outono
(Edvard Munch)
O bicho que eu sou
sinto-o mover-se em cada outono
à flor húmida
da terra molhada
e reciclada
dos sentidos de mim.
Nos poros me respiro
no sangue me menstruo
e os meus cabelos incham
de fumo e nevoeiro.
Quero sair para a bruma
abafada enrolada
numa gola de peles
luminosos os lábios
escovados os cabelos
pintadas magoadas
as pálpebras de azul.
Grávida está a minha pele
prenhes os sulcos que vão ser as rugas
dói-me a malha que movo entre as agulhas
ardem-me as veias entre a raiz dos dedos.
Nascida no outono
em cada outono me redôo
e me reparo.
(in Convida-me só para jantar, Edição da autora)
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