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Jardim das Delícias


Segunda-feira, 28.09.15

1º. Aniversário do restaurante "Taberna do Doutor", Porto

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Noite de Poesia na Taberna do Doutor

 

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   O primeiro aniversário da Taberna do Doutor foi festejado com uma sessão de leitura da poesia de Adão Cruz a quem o nome do restaurante foi dedicado.

Aqui fica um breve resumo fotográfico do evento, a par de quatro dos muitos poemas que nessa noite ali foram lidos.

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Preso à cidade

Preso à cidade nesta inquietante angústia das sombras ao redor de um tudo-nada que nos prende e constrange cai dos telhados o pó cinzento de uma neblina estranha que definha as ruas e arrasta as horas na lentidão dos passos.

Lá atrás uma réstia de luz presa ao vidro de um candeeiro partido sob as janelas podres lembra que se alma houvesse seria presa fácil de um qualquer rígido corpo enjoado de farsas e falácias amontoadas no lixo ao longo das ruas.

A noite caiu de forma estranha sobre a cidade sem corpo definhada de luz e consciência deixando atrás de si os últimos passos de uma existência presa a todas as obscurantistas ordens estabelecidas.

Até o vento se foi para não arrastar a neblina estranha e para não incomodar o pesado silêncio que se prende ao corpo e às paredes como mortalha do tempo e pegajoso crude que desfaz essa réstia de luz presa ao vidro de um qualquer candeeiro partido.

Ainda ontem era dia nos braços repartidos do trabalho e nas carnes que não conheciam o exílio recusando morrer fora dos sonhos e da vida no meio da tempestade e o vento varria o silêncio para libertar o corpo e a mente da neblina estranha das noites pegajosas.

Havia certezas por entre os tremores da indecisão havia sorrisos verdades e ilusões e havia brisas sonâmbulas calando os medos e no fundo do silêncio corriam rios arrastando as paredes negras e todas as sombras dos candeeiros partidos.

Preso à cidade na tristeza que nos envolve e nos liberta por momentos o pensamento cai dos telhados a poeira do tempo que cala as ruas e prende as horas na lentidão dos passos e abre no chão quadriculado um espelho negro com um menino tocando o céu azul rodeado de pássaros e flores e rios cristalinos e nos estende a mão num gesto de paz que nos acalma e nos perdoa e carinhosamente e sigilosamente nos devolve ao nada por um caminho celular oculto irrepetível.

 

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Não sou poeta nem nada

Não sou poeta nem nada nem noite de luar nem sopro de

vento nem pirilampo errante nem grão de espiga

Serei louco

O louco não tem número está fora da cidade dos homens

Não sou luz da serra nem sombra nem luz nem sombra da

noite no alvor da madrugada não sou coisa nem nada

Talvez louco

O louco não tem número o limite da soma é o vazio

Não sou murmúrio de rio nem cigarro viciado nem ponta de

cio nem lua patética crescendo e fugindo do tempo que passa

não sou quebra‑luz nem gavinha entrelaçada num abraço de

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frio

Sete raios de sol queimaram o sonho sete chuvas de esperma

o fecundaram

Já não sou resina nem merda nem urina nem sangue nem

seiva

Morreram Afrodites e leões de pelo fulvo quando se

inventou a alma…e eu não sou mais do que rescaldo

Já não sou poeta nem nada

Sou mesmo louco

 

 

Ouço o silêncio

Ouço o silêncio dos olhos que se fecham na falta de

esperança

Amo o silêncio das cores vivas e do sonho que nos tece a

alma entre a vida e a morte

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Doi‑me o silêncio negro dos gritos proibidos e sinto o

dourado silêncio dos gestos da noite que nos abrem os olhos

Amargo o silêncio das horas sem brilho e vivo o silêncio do

mar que risca na areia a força vencida

Assumo o silêncio sagrado da liberdade e da vida e o silêncio

de um céu de fogo que nos abre a cova na terra fria

 

 

Ao redor do nevoeiro

Hoje sou eu que vou ao teu encontro por dentro deste nevoeiro denso que tudo esconde, mas não sei onde estás nem sinto os teus cabelos de incenso.

Sei que moras para lá do tempo, entre dálias e gerânios entre memórias e sonhos de um segredo, mas o coração diz-me para seguir em frente e não ter medo.

Sem saber ao certo quem sou levo comigo a razão, único caminho que rasga o nevoeiro e rompe as algemas, e me deixa ver a luminosa transparência do teu corpo para lá das algas e dos peixes verdes dos poemas.

Tu estás do outro lado de um beijo, e eu quero abraçar-te pela cintura neste apagado incêndio dos sentidos, ainda que seja demasiado tarde para a verde ternura de um desejo.

Hoje sou eu que vou ao teu encontro em meu corpo de terra antiga que já não seduz, logo que possa dar um passo dentro do nevoeiro para lá dos olhos sem luz.

Assim o decidi ao ver-te quase nua, na altura em que o nevoeiro sem sentido caía pesadamente sobre a rua, mas não eras tu… era uma chama de lábios e lume, ardendo em estranho leito nupcial de um qualquer tempo já perdido.

No ventre do nevoeiro, inventei a noite entre lençóis de neve mordidos de uma luz oblíqua, que não era minha nem tua, e se perdia na pele branca de um qualquer corpo que eu não sentia.

Era como se um rio cantasse entre a lua e as águas e o nada… e fosse demasiado tarde para ser música no violino da madrugada.

 

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por Augusta Clara às 14:00

Quinta-feira, 16.07.15

A Tempestade - Tchaikovsky

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Tchaikovsky  A Tempestade

 

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por Augusta Clara às 21:00

Sábado, 21.03.15

Valsa das flores - Tchaikovsky

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Tchaikovsky  Valsa das flores

 

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por Augusta Clara às 21:00

Domingo, 16.11.14

Pré-rafaelitas com música de Tchaikovsky

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John William Godward ao som do Lago dos Cisnes

 

 

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por Augusta Clara às 18:00

Sexta-feira, 24.10.14

Abertura 1812 - Tchaikovsky

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Tchaikovsky  Abertura 1812

 

 

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por Augusta Clara às 21:00

Domingo, 29.06.14

BALLET - A Bela Adormecida - Tchaikovsky

 

Tchaikovsky  A Bela Adormecida

(Ópera Nacional de Paris, com coreografia e encenação de Rudolf Nureev) 

 

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por Augusta Clara às 14:00

Sábado, 28.06.14

A lenda dourada e linda - Fernando Pessoa

 

Fernando Pessoa  A lenda dourada e linda

 

(Maija Lindberg)

 

 

A lenda dourada e linda

Que me contaram outrora,

Em minha alma dorme ainda

Mas é outra lenda agora.

 

Antigamente falava

De fadas, elfos e gnomos;

Hoje fala só da escrava

Indecisão que nós somos.

 

Mas elfos, gnomos e fadas,

Vistos certos, que mais são

Que as projecções enganadas

Dessa nossa indecisão?

 

Criamos o que não temos

Por nos doer não os ter,

E quasi tudo o que vemos

É o que ansiamos por ver.

 

Depois, cansados daquela

Visão que viu só o nada,

Fechamos toda janela,

Ficamos na alma fechada.

 

Mas inda esses entes todos

Que outrora eram visão,

Bailam mesmo, e inda a rodos,

Mas só no meu coração.

 

(in Poesia 1931-1935, Assírio & Alvim)

 

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por Augusta Clara às 19:00

Segunda-feira, 12.05.14

A nostalgia da Serra - Eva Cruz

 

Eva Cruz  A nostalgia da Serra

 

 

(Silvia Molinari)

 

 

A nostalgia da Serra

traz o cuco na Primavera

chega com os piscos

e as primeiras andorinhas.

Canta ao longe ainda o medo

depressa se envaidece

e repete atrevido

cucu... cucu

cuco ramalheiro quantos anos tens (de) solteiro

cucu... cucu

Raquel imita-lhe a voz

e procura nos galhos

as maçãzinhas de cuco

e o cuspe branco que vai deixando.

Todos os anos volta

para de novo ensaiar

e desafiar o sol que já vai alto.

Raquel gosta de acordar tarde nos matos

entre os rebentos verdes das carvalhas.

No adeus da juventude

Raquel envelhece de Primavera

e regressa em tempo de cuco

sem maçãzinhas nos ramalhos

nem seiva branca

só esperança de velhos meninos

no cuco ramalheiro.

 

(in Era uma vez, Future Kids, Campo das Letras)

 

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por Augusta Clara às 19:00

Sexta-feira, 01.11.13

Eu não vi a cor do Outono ... - João José Cochofel

 

João José Cochofel  Eu não vi a cor do Outono ...

 

(Mahlaicha)

 

 

Eu não vi a cor do Outono

nem a sua sombra ao dobrar do dia.

Eu não vi o arrepio da nudez

brotando do Verão que a cobria.

 

O fogo vai criando sol

nas noites de inverno, quando a cama gela;

e o amor é tranquilo e fundo, submerso

o medo pueril ao negro da janela.

 

Meu cata-vento ao sabor do que sinto,

a miragem desta vez foi mais forte.

Moeda jogada, é perder ou ganhar.

À sorte!...

 

(in 46º. Aniversário, Portugália)

 

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por Augusta Clara às 19:00

Quinta-feira, 10.10.13

Outono - Ana Goês

 

Ana Goês  Outono

 

(Edvard Munch)

 

 

 

O bicho que eu sou

sinto-o mover-se em cada outono

à flor húmida

da terra molhada

e reciclada

dos sentidos de mim.

Nos poros me respiro

no sangue me menstruo

e os meus cabelos incham

de fumo e nevoeiro.

Quero sair para a bruma

abafada     enrolada

numa gola de peles

luminosos os lábios

escovados os cabelos

pintadas     magoadas

as pálpebras de azul.

Grávida está a minha pele

prenhes os sulcos que vão ser as rugas

dói-me a malha que movo entre as agulhas

ardem-me as veias entre a raiz dos dedos.

 

Nascida no outono

em cada outono me redôo

e me reparo.

 

(in Convida-me só para jantar, Edição da autora)

 

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por Augusta Clara às 19:00



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