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Jardim das Delícias


Terça-feira, 19.01.16

História do quotidiano - Teolinda Gersão

ao cair da tarde 5b.jpg

 

Teolinda Gersão  História do quotidiano

 

alphonse mucha, 1920a.jpg

 

(Alphonse Mucha)

 

   Ele amou aquela mulher, porque ela tinha um riso fresco, uma contagiante alegria de viver, e sobretudo não era quotidiana. Mas depois de casar exerceu sobre ela um longo trabalho de domesticação, porque inconscientemente não podia aceitar que uma mulher casada não fosse igual a determinada imagem que se impunha. Forçou, lutou, e aos poucos, recalcitrante, ela foi cedendo. Quando a viu o dia inteiro ocupada na casa, banal, cinzenta, áspera e um pouco gorda, ele deixou-a entregue aos afazeres domésticos e foi procurar outra mulher que tinha um riso fresco, uma contagiante alegria de viver, e sobretudo não era quotidiana.

(in Os guarda-chuvas cintilantes, o jornal)

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por Augusta Clara às 17:00

Segunda-feira, 06.10.14

Carta Aberta aos caloiros - Teolinda Gersão

 

Teolinda Gersão  Carta Aberta aos caloiros 

 

 

   E como estamos no princípio do ano escolar, deixo aqui uma Carta Aberta aos Caloiros.
Caros Caloiros:
Certamente sabem que, na praxe coimbrã, mãe de todas as praxes, o caloiro é tradicionalmente “o animal”. Como também julgo que sabem, segundo a lei n.º 69/2014, de 29 de agosto, no nosso país os animais passaram a estar protegidos de maus tratos, o que abrange qualquer tipo de coacção física: dor, sofrimento, privação de alimentos, abandono, mutilação ou morte. A pena mais pesada pode ir até aos dois anos de prisão efectiva.
Referindo-se a pessoas, legalmente protegidas desde logo pelos direitos humanos universalmente aceites, o conceito de maus tratos inclui obviamente também qualquer tipo de coerção ou violência psicológica.
O que me leva a pensar: Que fariam se um professor vos mandasse rastejar no chão ? De certeza que não obedeciam, e o professor teria problemas, e apanharia com razão um processo em cima.
No entanto, como se viu em imagens passadas na TV, submeter-se à praxe pode significar rastejar no chão, e a muito mais do que isso. Milhares de espectadores viram, como eu, imagens gravadas no Pátio da Universidade, em Coimbra, em que um grande grupo de caloiros, cercado por um grupo igualmente grande de não caloiros, recebeu ordens para se ajoelhar no chão, inclinar-se para a frente e baixar as calças. Dispenso-me de descrever a cena de humilhação e sadismo que aconteceu a seguir, e ficou registada nas imagens. No entanto, para muitos de vocês, aparentemente nada é violento nem excessivo. A praxe é considerada intocável, acima dos professores, reitores, universidades, instituições e até da lei, que assegura aos cidadãos direitos, liberdades e garantias, que impedem qualquer tipo de violência e humilhação. No entanto, estranhamente, para vocês a praxe parece ter um poder incontestável - embora ela não tenha qualquer validade jurídica, nem sequer obedeça a princípios racionais. Para começar, os Duxes são os que andam na Universidade há mais tempo, somando portanto mais matrículas. Para isso basta ter dinheiro para pagar propinas (embora eu deixe a pergunta se, em todos os casos, as propinas deles são realmente pagas, e por quem). Uma vez que há numerus clausus, deixo também a pergunta se eles não tiram o lugar a outros estudantes, com mais capacidade de tirar um curso. Outra pergunta elementar me ocorre: É possível não haver prazo limite para frequentar a universidade? Esse tempo pode ser ilimitado, quando o ensino, como tudo o mais, depende dos impostos que pagamos? Pelo menos até ao ano passado, havia um dux que há 24 anos que somava matrículas, proeza heróica que gloriosamente o mantinha no cargo. E também pergunto o que se passa no caso de todos os outros duxes, porque o erário público é isso mesmo,um assunto público.
Mas o que mais me agride é que, na prática, vocês passaram a estar muito menos protegidos do que os animais, em sentido próprio. E a responsabilidade, em último caso, é vossa, porque se calam e consentem, rejeitando ou ignorando a lei em que vivem.
Em situações de perigo ou de desastre, se as praxes descambarem em tragédia, não se espantem se as instituições não funcionarem, se universidades, reitores, professores, polícia, tribunais, vos defenderem mal, já que vocês são os primeiros a não querer ser defendidos: consideram que ninguém tem de saber nem de interferir no que acontece nas praxes, juram a pés juntos que são irrelevantes brincadeiras (o que só algumas vezes é verdade, mas está muito longe de ser sempre), sublinham que são adultos, como se esse facto vos permitisse fugir à lei que se aplica a toda a gente.
Sendo essa a vossa posição, a opinião pública pouco mais pode fazer do que deixar-vos sós. Fica no entanto um alerta: em caso de tudo correr mal, dir-se-á que vocês lá estavam por vontade própria, e que, se lá estavam, não estivessem.
Mas dói-me pensar que vocês pretendem ser descartados desta forma: Se querem ser “animais”, com ou sem aspas, então sejam. Boa sorte.
Qualquer cão ou gato está muito mais protegido que vocês.

 

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por Augusta Clara às 10:00

Terça-feira, 28.05.13

Texto de Teolinda Gersão sobre o Acordo Ortográfico apresentado recentemente na Assembleia da República e publicado no Público

 
Teolinda Gersão sobre o Acordo Ortográfico
 
   O AO foi um processo infeliz, tratado nas costas da população dos países lusófonos, como se a língua fosse propriedade de um grupo de linguistas e os governos tivessem legitimidade para mudar por decreto uma língua que não é propriedade sua, mas do país e dos cidadãos.
O percurso errático do AO arrasta-se há 23 anos (ou melhor,há 38, porque começou a ser pensado em 1975) e ainda não está legalmente em vigor,porque as populações lhe resistem e porque,quando se tentou impô-lo pela força de um decreto, o resultado foi o caos.
O que faltará acontecer para que os sucessivos governos reconheçam que pretendem a quadratura do círculo e que estas tentativas pura e simplesmente não funcionam?
Recentemente a presidente Dilma adiou para 2016 a entrada em vigor do AO no Brasil, e, a acreditar nos jornais,tomou essa decisão sem consultar os seus parceiros.
Pretende-se vender-nos a ideia patética de que o português de grafia uniformizada (vulgo, o “acordês”) é a língua do poder e dos negócios. Seguindo o “acordês” todos seríamos, a reboque do Brasil, grandes potências emergentes, a caminho de um mundo magnífico de poder e riqueza,partilhado por 240 milhões de falantes. Será que não percebemos a irracionalidade desta ideia?
A verdade é que o Brasil – ele sim - é uma grande potência emergente, o que nos alegra porque também nós o amamos. Mas Portugal, e outros pequenos países lusófonos,jamais serão grandes potências ou terão o peso do Brasil. Esse peso não é partilhável, a nível nenhum.
Manter em cada país a sua variante da língua é uma marca de identidade e um património, que está acima do poder de qualquer governo.Porque os governos passam e mudam, mas as línguas não podem passar nem mudar como se fossem governos.
É natural que o Brasil pretenda maior protagonismo liderando estas alterações linguísticas. Mas os restantes países lusófonos não têm nada a lucrar com isso,só têm a perder. E o Brasil, como grande potência emergente que já é, não precisa de nós, a não ser a nível simbólico. Porque,com AO ou sem AO, o Brasil vai sempre cuidar dos seus negócios e dos seus interesses, e só deles, o que é normal e legítimo: os países cuidam de si próprios, e tomáramos nós ter em Portugal quem defendesse os nossos interesses como Dilma defende os do Brasil.
Os laços e afectos só existem a nível das pessoas.A nível dos países,há apenas interesses.Não sentimos isso na pele,aqui na Europa? Estas mudanças linguísticas são apenas uma jogada política. Em todos os outros aspectos, são incongruentes:
Só 2 exemplos: Se o AO é fundamental para que nos entendamos, então por que razão no Brasil os livros portugueses, escritos segundo o AO, são traduzidos para o português do Brasil como se estivessem escritos numa língua estrangeira?
Por que razão “mesa de cabeceira” passa a “criado mudo”, “ficou pasmado” a “ficou pasmo” ,”foi apanhado pela polícia” a “foi pego pela polícia” etc. etc.? Por que razão a nós nunca nos passou pela cabeça traduzir para o português europeu Guimarães Rosa, João Ubaldo Ribeiro, Ruben Fonseca ou qualquer outro autor?
Por que razão as livrarias portuguesas têm bancas de livros brasileiros, e a literatura do Brasil nos é tão familiar, quando o inverso não se verifica? Por que razão há cada vez MENOS estudos de literatura portuguesa nas universidades brasileiras, e cada vez MAIS estudos de literatura brasileira nas universidades portuguesas?
A resposta é simples: Porque Portugal se abriu há muitas décadas ao Brasil, cujos autores circulam livremente entre nós, porque os sentimos como se também fossem “nossos”, enquanto o Brasil sempre levantou barreiras alfandegárias intransponíveis aos livros portugueses, que lá chegam a preços proibitivos, e na maior parte dos casos nunca chegam.
A solução não está em “acordizar” , mas em ter um intercâmbio maior e mais simétrico, em conhecer-nos melhor, valorizando as nossas diferenças.
Quanto ao “acordês” ser a língua dos negócios, “acção” e “facto”,por ex. são mais compreensíveis para qualquer estrangeiro do que “ação” e “fato” (porque mais próximas de action e fact em inglês, língua de recurso que é também a língua dos negócios internacionais).
No ponto em que estamos, temos dois caminhos:
O do senso comum, que é reconhecer que a língua portuguesa admite variantes, nos diferentes países onde é usada, o que só a enriquece. Não pode haver qualquer hierarquia entre os países lusófonos, nem entre as suas variantes linguísticas: Nenhum país é dono da língua, e nenhum é inquilino. Vamos deixar a língua evoluir naturalmente, a partir de dentro e não por decretos, porque ela é um organismo vivo, e cada país a usa a seu modo, como bem entende e quer, porque ela é sua e lhe pertence por direito próprio. Nenhum país tem o direito de policiar ou fiscalizar o uso da língua em qualquer outro país lusófono.O português não é uniformizável, qualquer acordo é um contra-senso. Mesmo que fosse possível “acordar” e “simplificar” o resultado seria imensamente empobrecedor.
Ou entendemos isto e desistimos de acordos, ou vamos persistir por muitas décadas neste processo delirante de acordos impossíveis – um acordo ortográfico falhado atrás de outro, seguido de um já anunciado acordo de vocabulário que irá ser igualmente falhado, e depois um acordo de sintaxe falhado, etc. etc. - …até bater na parede de um imenso Desacordo final, que deixará profundo desgaste e feridas a todos níveis, entre países que sempre souberam entender-se e conviver, respeitando e valorizando as suas diferenças. Teolinda Gersão

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por Augusta Clara às 08:00



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