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Jardim das Delícias


Quinta-feira, 07.01.16

Invernia - Manuel da Fonseca

ao cair da tarde 5b.jpg

 

Manuel da Fonseca  Invernia

 

van gohg, montmartre1.jpg

 

(Vincent Van Gogh)

 

Traz o vento do mar tempestades escuras

e canta ladainhas de Inverno nos pinhais:

faz noite — dia e noite — em todas as casas.

 

Passa um gemido pela costa — tá mar!
(Só nos peitos rugem marés-cheias de largada,

só os olhos são barcos a navegar...)

 

E todo o Inverno, de cabeça tombada

como barco inútil varado de mágoa,

fica na praia um pescador enorme:
— tem um pé na areia, o outro na água.

nas mãos uma sardinha podre

e nos olhos o sal de todos os mares!...

 

(in Poemas Completos, Forja)

 

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por Augusta Clara às 19:00

Quarta-feira, 17.09.14

Poema - Fiama Hasse Pais Brandão

  

Fiama Hasse Pais Brandão  Poema

 

 

(Vincent van Gogh)

  

 

 

Todo o Ser, na sequência
das transformações, apela
um dia para ser outro.
Em Setembro, na pequena casa
de troncos e dúbio colmo,
apaga-se o alvor da manhã
em janelas, porventura poças.
Da soleira desce-se então
para um berço da caruma,
chão que inebria o olfacto.
Depois do sol, as nuvens
insistem uns dias em espelhar-se
nos resíduos de chuva.

 

(in Setembros)

 

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por Augusta Clara às 18:00

Sábado, 17.05.14

Abril de novo é exigência Nacional - António Tomás

 

António Tomás  Abril de novo é exigência Nacional 

 

(Vincent Van Gogh)

 

 

Sonhos sonhados não realizados,
Quarenta anos depois contestados,
Abril de hoje, é Frustração para os jovens,
que não tiveram revolução
Culpam a crise e a falta de ética, Sem piedade,
Mas, o sonho é criatividade
em qualquer geração!..
Os antigos recordam com paixão,
A perda de oportunidade,
quiseram construir futuro,
no mundo em evolução.
Mas veio o golpe prematuro,
Bloquear Abril , sem conclusão!..
Querem um Abril novo verdadeiro,
O nobre povo injustiçado
Reclama o prometido eleiçoeiro
Mas nunca concretizado.

A poesia é agora a arma viva
Na defesa da cidadania negada
Ela está interativa
Alimentando esperança,
na cultura de há 40 anos sonhada.

 

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por Augusta Clara às 17:00

Terça-feira, 18.02.14

Magro, de olhos azuis, carão moreno ... - Manuel Maria Barbosa du Bocage

 

Manuel Maria Barbosa du Bocage  Magro, de olhos azuis, carão moreno ...

 

(Van Gogh)

 

 

Magro, de olhos azuis, carão moreno,

Bem servido de pés, meão na altura,

Triste de facha, o mesmo de figura,

Nariz alto no meio, e não pequeno;

 

Incapaz de assistir num só terreno,

Mais propenso ao furor do que à ternura;

Bebendo em níveas mãos, por taça escura,

De zelos infernais letal veneno;

 

Devoto incensador de mil deidades

(Digo, de moças mil) num só momento,

E somente no altar amando os frades,

 

Eis Bocage em quem luz algum talento;

Saíram dele mesmo estas verdades,

Num dia em que se achou cagando ao vento.

 

(in Poesias, Círculo de Leitores)

 

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por Augusta Clara às 19:00

Sexta-feira, 14.02.14

Murmúrios do mar - José Tolentino Mendonça

 

 

José Tolentino Mendonça  Murmúrios do mar

 

 

(Vincent van Gogh)

 

 

«Paga-me um café e conto-te

a minha vida»

 

o inverno avançava

nessa tarde em que te ouvi

assaltado por dores

o céu quebrava-se aos disparos

de uma criança muito assustada

que corria

o vento batia-lhe no rosto com violência

a infância inteira

disso me lembro

 

outra noite cortaste o sono da casa

com frio e medo

apagavas cigarros nas palmas das mãos

e os que te viam choravam

mas tu não, tu nunca choraste

por amores que se perdem

 

os naufrágios são belos

sentimo-nos tão vivos entre as ilhas, acreditas?

e temos saudades desse mar

que derruba primeiro no nosso corpo

tudo o que seremos depois

 

«Pago-te um café se me contares

o teu amor»

 

(in Baldios, Assírio & Alvim)

 

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por Augusta Clara às 18:00

Terça-feira, 10.12.13

Noite de chuva - Florbela Espanca


Florbela Espanca  Noite de chuva



(Vincent van Gogh)


 

Chuva ... Que gotas grossas ! ... Vem ouvir : 

Uma ... duas ... mais outra que desceu ...

É Viviana, é Melusina, a rir,

São rosas brancas dum rosal do Céu ...


Os lilases deixaram-se dormir ...

Nem um frémito ... a terra emudeceu ...

Amor ! Vem ver estrelas a cair :

Uma ... duas ... mais outra que desceu ...


Fala baixo, juntinho ao meu ouvido,

Que essa fala de amor seja um gemido,

Um murmúrio, um soluço, um ai desfeito ...


Ah ! deixa à noite o seu encanto triste !

E a mim... o teu amor que mal existe,

Chuva a cair na noite do meu peito !


(in Sonetos, Livraria Tavares Martins)



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por Augusta Clara às 18:00



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