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Delícias são tudo o que nos faz felizes: um livro, a magia dum poema ou duma música, as cores duma paleta ... No jardim o sol não raia sempre mas pulsa a vida, premente.
Manuel da Fonseca Invernia
(Vincent Van Gogh)
Traz o vento do mar tempestades escuras
e canta ladainhas de Inverno nos pinhais:
faz noite — dia e noite — em todas as casas.
Passa um gemido pela costa — tá mar!
(Só nos peitos rugem marés-cheias de largada,
só os olhos são barcos a navegar...)
E todo o Inverno, de cabeça tombada
como barco inútil varado de mágoa,
fica na praia um pescador enorme:
— tem um pé na areia, o outro na água.
nas mãos uma sardinha podre
e nos olhos o sal de todos os mares!...
(in Poemas Completos, Forja)
Fiama Hasse Pais Brandão Poema
(Vincent van Gogh)
Todo o Ser, na sequência
das transformações, apela
um dia para ser outro.
Em Setembro, na pequena casa
de troncos e dúbio colmo,
apaga-se o alvor da manhã
em janelas, porventura poças.
Da soleira desce-se então
para um berço da caruma,
chão que inebria o olfacto.
Depois do sol, as nuvens
insistem uns dias em espelhar-se
nos resíduos de chuva.
(in Setembros)
António Tomás Abril de novo é exigência Nacional
(Vincent Van Gogh)
Sonhos sonhados não realizados,
Quarenta anos depois contestados,
Abril de hoje, é Frustração para os jovens,
que não tiveram revolução
Culpam a crise e a falta de ética, Sem piedade,
Mas, o sonho é criatividade
em qualquer geração!..
Os antigos recordam com paixão,
A perda de oportunidade,
quiseram construir futuro,
no mundo em evolução.
Mas veio o golpe prematuro,
Bloquear Abril , sem conclusão!..
Querem um Abril novo verdadeiro,
O nobre povo injustiçado
Reclama o prometido eleiçoeiro
Mas nunca concretizado.
A poesia é agora a arma viva
Na defesa da cidadania negada
Ela está interativa
Alimentando esperança,
na cultura de há 40 anos sonhada.
Manuel Maria Barbosa du Bocage Magro, de olhos azuis, carão moreno ...
(Van Gogh)
Magro, de olhos azuis, carão moreno,
Bem servido de pés, meão na altura,
Triste de facha, o mesmo de figura,
Nariz alto no meio, e não pequeno;
Incapaz de assistir num só terreno,
Mais propenso ao furor do que à ternura;
Bebendo em níveas mãos, por taça escura,
De zelos infernais letal veneno;
Devoto incensador de mil deidades
(Digo, de moças mil) num só momento,
E somente no altar amando os frades,
Eis Bocage em quem luz algum talento;
Saíram dele mesmo estas verdades,
Num dia em que se achou cagando ao vento.
(in Poesias, Círculo de Leitores)
José Tolentino Mendonça Murmúrios do mar
(Vincent van Gogh)
«Paga-me um café e conto-te
a minha vida»
o inverno avançava
nessa tarde em que te ouvi
assaltado por dores
o céu quebrava-se aos disparos
de uma criança muito assustada
que corria
o vento batia-lhe no rosto com violência
a infância inteira
disso me lembro
outra noite cortaste o sono da casa
com frio e medo
apagavas cigarros nas palmas das mãos
e os que te viam choravam
mas tu não, tu nunca choraste
por amores que se perdem
os naufrágios são belos
sentimo-nos tão vivos entre as ilhas, acreditas?
e temos saudades desse mar
que derruba primeiro no nosso corpo
tudo o que seremos depois
«Pago-te um café se me contares
o teu amor»
(in Baldios, Assírio & Alvim)
Florbela Espanca Noite de chuva
(Vincent van Gogh)
Chuva ... Que gotas grossas ! ... Vem ouvir :
Uma ... duas ... mais outra que desceu ...
É Viviana, é Melusina, a rir,
São rosas brancas dum rosal do Céu ...
Os lilases deixaram-se dormir ...
Nem um frémito ... a terra emudeceu ...
Amor ! Vem ver estrelas a cair :
Uma ... duas ... mais outra que desceu ...
Fala baixo, juntinho ao meu ouvido,
Que essa fala de amor seja um gemido,
Um murmúrio, um soluço, um ai desfeito ...
Ah ! deixa à noite o seu encanto triste !
E a mim... o teu amor que mal existe,
Chuva a cair na noite do meu peito !
(in Sonetos, Livraria Tavares Martins)
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