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Jardim das Delícias


Segunda-feira, 13.05.19

O QUE EU QUERIA VER (E DEVIA SER) DISCUTIDO NA CAMPANHA PARA AS ELEIÇÕES EUROPEIAS (independentemente das questões económicas e financeiras de que toda a gente fala) - Augusta Clara de Matos

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Augusta Clara de Matos   O QUE EU QUERIA VER (E DEVIA SER) DISCUTIDO NA CAMPANHA PARA AS ELEIÇÕES EUROPEIAS (independentemente das questões económicas e financeiras de que toda a gente fala)

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- O combate intenso e coordenado ao avanço da extrema-direita na Europa e uma campanha de esclarecimento às populações sobre as consequências do retorno de governos fascistas;
- A expulsão da União de países onde se instalem governos com políticas e práticas fascistas e que permitam a livre expressão de grupos que defendem a ideologia nazi e cometem crimes com base nesta ideologia;
- O acolhimento e integração de refugiados e suas famílias como cidadãos europeus de iguais direitos, desmontando a ideia ainda reinante em muitas cabeças de que são todos terroristas;
- O fim da venda de armas por países da EU a países, grupos e coligações que as têm utilizado para destruir países através de guerras que tiveram unicamente como fim roubar-lhes as matérias primas, sabendo nós que foram essas guerras a origem da fuga em massa dos seus habitantes em direcção à Europa nas trágicas condições que levaram a milhares de afogamentos;
- A uniformização de leis em todo o espaço da UE que penalizem sem condescendência a corrupção e as grandes fraudes financeiras que enfraquecem e deterioram a economia dos países;
- Como consequência do afirmado no parágrafo anterior, a luta por uma Justiça igual para todos os cidadãos e não diferenciada entre os que têm dinheiro para se defender e os outros;
- O combate sério e generalizado a todo o tipo de descriminação com base na opção sexual, política, de credo religioso ou outra;
- Exigência da protecção dos mais frágeis como as crianças, os deficientes e os idosos;
- Combate à violência doméstica e, especificamente, que seja dada maior atenção à violência contra as mulheres que tem assumido contornos escabrosos em vários países europeus;
- Acérrima exigência pela liberdade de opinião e de expressão.

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por Augusta Clara às 18:11

Sábado, 18.04.15

Ódio de perdição - Fernanda Câncio

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Fernanda Câncio  Ódio de perdição 

 

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   Diário de Notícias, 17 de Abril de 2015

   Marta Nogueira, 21 anos, Joana Nogueira, 23. Primas. Anteontem de manhã, na pastelaria onde trabalhavam, no Pinhão, Trás--os-Montes, um homem entrou e apontou a arma para matar, para apagar, para desfigurar: cara, pescoço, cabeça. Joana morreu, Marta está em coma. Os jornais - este jornal - titulam: "Ciúme levou Manuel a disparar." Manuel, parece, tivera namoro com Marta. O crime passa logo, então, à categoria "passional". Como quem diz de amor, de sentimento, "que levam a".

É sempre assim: homem mata mulher? Coitado, gostava demasiado dela, e ela ou o "deixou", ou ele tinha medo que ela o "deixasse", ou ela "portava-se mal", ou ele tinha medo que ela se "portasse mal". Mesmo, note-se, quando uma das mortas é prima do alegado objeto de amor; estamos perante o crime passional por afinidade. Porque será, então, que o homicídio do bebé de 5 meses que o pai esfaqueou há uma semana depois, diz-se, de ligar à mãe da criança a ameaçá-la, não é "de paixão"? Será porque a desculpabilização implícita, a "naturalização" e "contextualização" que induz, não é aceitável na morte de crianças? Porque nada pode justificar que se mate uma criança enquanto uma mulher, tantas mulheres, é outra coisa?

É para contextualizar? Contextualizemos. Até 1975, o Código Penal português incluía aquilo que nos países muçulmanos o Ocidente reputa de bárbaro: crimes de honra. Permitia-se ao marido enganado matar a mulher e o respetivo amante sem mais castigo que uns meses fora da comarca; o mesmo para o pai que matasse as filhas "desonradas" se menores de 21 e a viver "sob o pátrio poder". O Código Civil autorizava repudiar a mulher que fosse não virgem para o casamento, no qual estava submetida ao "chefe de família", que podia abrir-lhe a correspondência, dar--lhe ou não autorização para ter emprego e decidia tudo sobre os filhos (a mãe tinha "o direito de ser ouvida"). A mulher era ainda obrigada a viver com o marido, que podia exigir à polícia a sua devolução caso fugisse. Isto tudo era lei, há 40 anos. Era lei a submissão da mulher, era legal este desprezo que a tratava como menos que pessoa inteira, a nomeava e manietava como propriedade masculina.

A lei mudou mas o sentimento que esta consagrava e propagava não se vai tão rápido. A desculpabilização "passional" substituiu a da "honra"; subsiste a ideia de que "elas dão motivos" - como diziam os que à porta do tribunal aplaudiam Palito, o homem que há exatamente um ano, a 17 de abril de 2014, matou a ex-sogra e a irmã desta e feriu a ex-mulher e a própria filha: "Lá teve as suas razões." A própria justiça o admite, em acórdãos vergonhosos nos quais nunca se invoca isso que o Brasil no mês passado tipificou no Código Penal como feminicídio - o ódio às mulheres que mata. Cá não, é por amor. Em 15 semanas de 2015, já foram, de tão amadas, mortas onze. Somos assim românticos.


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por Augusta Clara às 11:00

Sexta-feira, 11.01.13

A prisão da pequenina Léa - José Goulão

 

José Goulão  A prisão da pequenina Léa

 

 

   Um dia destes, há muito pouco tempo, uma agente da polícia do município de Ustaritz, em França, entrou na escola de Saint Vincent, identificou a pequenina estudante Léa, que tem somente cinco anos, e levou-a para a esquadra vizinha onde a manteve durante algum tempo até lhe permitirem regressar às aulas, da parte da tarde, perante a estupefação de colegas, professores e diretor do estabelecimento. Razão da diligência: os pais de Léa devem 170 euros à cantina da escola, gerida pela Câmara de Ustaritz, e por isso o presidente do município ou maire proíbe a garota de almoçar no estabelecimento.

Passa-se isto na Europa das infindáveis virtudes, da interminável capacidade para julgar os outros, sobretudo quando se trata de direitos humanos e de liberdades cívicas, esta Europa farol inquestionável da democracia.

Nas aulas desse dia, os professores tentaram apagar o trauma gerado nas crianças, isto é, procuraram explicar o inexplicável porque na sua cada vez mais perseguida profissão (na Europa) ainda acontecem coisas para as quais não estão preparados; o diretor confessou aos jornais a revolta pela utilização de crianças como “reféns”; o pai de Léa quer saber quem se responsabiliza por um processo em que a sua filha foi levada da escola “manu militari”. O presidente da Câmara alegou que os pais de Léa foram notificados várias vezes da dívida associada à filha sem que tenham respondido pelo que, não o disse mas extrai-se da sua atitude, não havia outro remédio senão prender a garota, mesmo tendo cinco anos, para que eles dessem a cara indo busca-la à esquadra. Um sequestro de uma criança, portanto.

Se pensam que este caso é único na virtuosa Europa, uma ocasional manifestação de mentes perturbadas pelos inconvenientes que uma dívida de 170 euros provoca nos apertados orçamentos municipais, estão muito enganados. Também há pouco tempo, em Portugal, crianças foram proibidas de comer na cantina de uma escola porque os pais tinham dívidas que já somavam 60 euros. E voltando a França, agora à região de Yvellines, um maire admirador do ex-presidente Sarkozy manifestou vistas mais largas tentando prevenir em vez de ser obrigado a remediar: emitiu uma normativa que proíbe crianças que tenham pelo menos um dos progenitores desempregado de frequentar as cantinas e os centros de tempos livres das escolas do município. É o que se chama cortar o mal pela raiz. Antes a fome que as dívidas, antes o dinheiro que as pessoas, antes desempregados que caloteiros, quem não tem dinheiro não tem vícios, ainda que seja o de comer. O maior pecado que pode cometer-se no mundo que se considera o centro da civilização é, para que ninguém esqueça, faltar ao respeito ao dinheiro.

Como se não bastassem os cortes orçamentais na saúde e na educação nos países da União Europeia, como se não passe pela mente de governantes com cérebro de folha de Excel obrigar de novo a pagar o ensino público, como se a escola não fosse cada vez mais tratada como um luxo com inerência discriminatória, então que se acrescentem a fome e as restrições económicas para que as crianças oriundas dos meios mais desfavorecidos deixem de vez o ensino, ainda que para tal tenham de passar pela esquadra e viver logo aos cinco anos a primeira experiência de potencial criminoso.

Pensemos no drama da pequena Léa. Não estamos já perante casos de má governação, injustiça ou estupidez burocrática. Somos vítimas de mentes transviadas que perderam o mais elementar senso de humanidade.

  

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por Augusta Clara às 19:00



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