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Jardim das Delícias


Segunda-feira, 13.05.19

O QUE EU QUERIA VER (E DEVIA SER) DISCUTIDO NA CAMPANHA PARA AS ELEIÇÕES EUROPEIAS (independentemente das questões económicas e financeiras de que toda a gente fala) - Augusta Clara de Matos

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Augusta Clara de Matos   O QUE EU QUERIA VER (E DEVIA SER) DISCUTIDO NA CAMPANHA PARA AS ELEIÇÕES EUROPEIAS (independentemente das questões económicas e financeiras de que toda a gente fala)

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- O combate intenso e coordenado ao avanço da extrema-direita na Europa e uma campanha de esclarecimento às populações sobre as consequências do retorno de governos fascistas;
- A expulsão da União de países onde se instalem governos com políticas e práticas fascistas e que permitam a livre expressão de grupos que defendem a ideologia nazi e cometem crimes com base nesta ideologia;
- O acolhimento e integração de refugiados e suas famílias como cidadãos europeus de iguais direitos, desmontando a ideia ainda reinante em muitas cabeças de que são todos terroristas;
- O fim da venda de armas por países da EU a países, grupos e coligações que as têm utilizado para destruir países através de guerras que tiveram unicamente como fim roubar-lhes as matérias primas, sabendo nós que foram essas guerras a origem da fuga em massa dos seus habitantes em direcção à Europa nas trágicas condições que levaram a milhares de afogamentos;
- A uniformização de leis em todo o espaço da UE que penalizem sem condescendência a corrupção e as grandes fraudes financeiras que enfraquecem e deterioram a economia dos países;
- Como consequência do afirmado no parágrafo anterior, a luta por uma Justiça igual para todos os cidadãos e não diferenciada entre os que têm dinheiro para se defender e os outros;
- O combate sério e generalizado a todo o tipo de descriminação com base na opção sexual, política, de credo religioso ou outra;
- Exigência da protecção dos mais frágeis como as crianças, os deficientes e os idosos;
- Combate à violência doméstica e, especificamente, que seja dada maior atenção à violência contra as mulheres que tem assumido contornos escabrosos em vários países europeus;
- Acérrima exigência pela liberdade de opinião e de expressão.

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por Augusta Clara às 18:11

Quinta-feira, 14.03.19

Porquê as mulheres? - Isabel do Carmo

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Isabel do Carmo  Porquê as mulheres?

 

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Público, 14 de Março de 2019

Esta sociedade está cheia de sinais que vão até aos crimes baixos que fazem soar o alarme. Mas é tudo o resto que também temos que discutir.

Por que é que são as mulheres espancadas, algumas até à morte, ameaçadas, assediadas, sobrecarregadas com trabalho doméstico, ganham menos desempenhando as mesmas funções, vivem na sombra? Porque vivemos numa sociedade patriarcal hierarquizada. Os casos extremos são a ponta do iceberg. É uma questão de poder e é também o quotidiano que temos que discutir, para pôr ao sol o que parece subtil ou insignificante. Dar testemunho é um dever.

Participei na avaliação das consequências físicas do inquérito de prevalência de violência sobre mulheres (Manuel Lisboa, 2006). Algumas ousavam revelar lesões, arranhões, encontrões, hematomas, torções. As que tinham sofrido fracturas tinham ido ao hospital. Quase todas “porque tinham caído na escada” na declaração feita à entrada da urgência. Não sabemos os comentários que aí as acolheriam se dissessem o verdadeiro motivo.

Há portanto aqui uma escala, em que o assassinato emerge como caso extremo e sinal de alarme. No entanto, sei o que ouço nas minhas consultas clínicas, e por dever de médico, pergunto o que é que se passa “lá em casa”, para além das queixas que são motivo da consulta. O que ouço também é uma escala. Há as que se queixam que os maridos são uns “brutamontes”, dos quais nunca se separaram porque não tinham condições para isso. E há aquelas, muitas, a quem o marido “levanta a mão”, entra em cólera e impede qualquer conversa sobre razões conflituosas. Enfim, uma relação de maior força física e de poder que regula a relação doméstica.

Estes homens já foram crianças que assistiram a espancamentos ou a simples empurrões ou cóleras exercidas sobre a mãe, para eles “naturais”, assimilados, interiorizados. Foram crianças elas próprias espancadas pelos pais e educadas a reguadas na escola pública. Ou que, mais elegantemente, levaram “uns açoites” ou umas “palmadas que não fazem mal a ninguém”, exercidas pelas mães, subjugadas pelo patamar de cima. A escala do poder foi pois “natural” e interiorizada, o comportamento e o impulso nem são interrogados.

Este ambiente foi o mesmo em que viveram ou vivem polícias e juízes, para só falar nos que têm que exercer autoridade e decidir. É pois necessário meter a mão naquilo que é a vida privada, a vida quotidiana, sem ter medo de ferir susceptibilidades. Mas também sem considerar os homens como inimigos das mulheres ou dizer que “são todos iguais”. A par das histórias dramáticas e sobretudo tristes que ouço, também testemunho muitos casos de casais de muitos anos, verdadeiros companheiros solidários e jovens rapazes que partilham com alegria os cuidados dos filhos e da casa, o que nos dá esperança para o futuro.

Mas a maior parte das vezes em que pergunto sobre as tarefas domésticas, as mulheres descrevem um quotidiano em que fazem quase tudo. Nos casos mais simpáticos ele “ajuda”. Ele “ajuda” e ela até fica agradecida, como se fosse a vizinha do lado, prestável, que a ajudasse. E não a pessoa que tem os mesmos filhos e vai utilizar os mesmos objectos, a mesma roupa e comer a mesma comida que ela, que tem os mesmos horários e os mesmos transportes. Pôr em questão estes problemas relacionados com a sociedade patriarcal e com estas relações de poder não é coisa fácil e atravessa classes sociais e ideologias. Indignação perante um assassinato é uma coisa, mexer nas relações do quotidiano é outra. Infelizmente, a primeira tem que servir para trazermos à luz do dia aquilo que está oculto.

Podemos lembrar as concepções ditas machistas que emergiram a seguir ao 25 de Abril e durante o processo revolucionário. Iam muito além dos tradicionalistas e conservadores e atravessavam os politicamente à esquerda, que se diziam “chefes de família”, respeitavam as suas “esposas”, mas tinham uma vida hipócrita tal como o papa Francisco descreve para os habitantes do Vaticano — moralistas para fora, “pecadores” para dentro. Aliás, homem que tinha “casos por fora” até era engraçado, sinal de virilidade, mas as mulheres tinham que ser “sérias”, “honradas”. Considerar “histéricos” os protestos contra a estrutura machista da sociedade veio até agora.

Só há poucos anos vou a sessões do dia 8 de Março com alguma tranquilidade, pois durante muitas comemorações fui objecto de provocações e tentativas de desacato, as quais foram provocadas por personagens insuspeitos. Numa, um militar muito radical interrompia e queria provar que os homens é que eram vítimas das mulheres. Noutra, uma jovem mulher dizia que estas questões da mulher não deviam ser levantadas porque quando a sociedade mudasse elas ficavam resolvidas, o que desde já se provava pelo facto de no partido dela não haver discriminação de sexos. Noutra, numa sessão da Ler Devagar, uma “feminista” vestida à homem contestava violentamente que estivéssemos a exibir um belo filme, Curvas Graciosas, onde se mostravam as formas próprias das mulheres novas e velhas, muito para além do estereotipado. Todos estes casos foram provocações premeditadas e destinadas a acabar com a sessão, em locais considerados “abertos” e com frequentadores habituais.

Evoco, todavia, também como janela de esperança, o caso de um adolescente, numa escola que servia o Vale da Amoreira, no Barreiro, que numa dessas sessões me colocou uma verdadeira questão: ser ou não verdade que se for o homem a estar desempregado e a fazer tarefas domésticas se sente mais humilhado do que se for o inverso. Foi há poucos anos, estávamos e estamos ainda muito na infância da discussão do quotidiano. Quando estou numa reunião, seja política, seja institucional, seja profissional, com homens e mulheres, proponho sempre que quem fale o faça pedindo a palavra ou, muito melhor, dando a volta à mesa. Porque se não for assim... já sei quem vai falar primeiro, mais alto e a sobrepor-se. E quantas vezes em reuniões sociais vemos as mulheres entrarem e saírem caladas porque “onde há galos não cantam galinhas”. E não evoquemos as excepções para provar o contrário, porque são mesmo excepções conseguidas a custo!

Aprofundando mais ainda os sinais e observando a linguagem, não se poderá reflectir sobre a expressão de insulto “filho da p...”? Não considero que a prática da prostituição seja uma profissão, também não considero que seja crime ou delito e conheço o sofrimento que acarreta. O que sei é que as mulheres que a praticam e os filhos delas são tão dignos de consideração como qualquer cidadão.

O insulto é mal escolhido. Indo mais longe: o que é que queremos dizer com a expressão agressiva “fuck you” nos vários idiomas? Falocrático, não é? Com isto não quero fazer qualquer campanha moralista contra os palavrões e até aprecio a poesia erótica de José Maria do Bocage, que os empregou na verdadeira acepção. O que quero mostrar é que esta sociedade está cheia de sinais que vão da linguagem banal, à ordem “natural” do quotidiano, público e privado, passando dos pequenos gestos ameaçadores até grandes gestos. Para finalmente emergir em crimes baixos que fazem tocar o alarme. Mas é tudo o resto que também temos que discutir.

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por Augusta Clara às 17:03

Segunda-feira, 30.10.17

Caros homens - Bruno Maia

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Bruno Maia  Caros homens

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(Bruno Maia é neurologista no Centro Hosptalar de Lisboa Central)

 

É preciso ser mulher para perceber e sentir todas as formas de opressão, discriminação, subjugação e assédio que nós homens infligimos, na maioria das vezes sem nos apercebermos.

 

esquerda.net, 28 de Outubro de 2017

   É-nos muito difícil falar sobre emoções. Eu sei. Desde bebés que nos dizem que os homens não choram. Que todo e qualquer sentimento que não seja regozijo numa qualquer vitória ou domínio sobre outro ser humano, não é aceitável. Talvez não nos tenham dito explicitamente mas estava lá implícito, nos contos de crianças, na banda desenhada, nos videojogos, nas conversas de recreio, no campo de futebol. Afinal histeria e choradeira são só para meninas. E aprendemos inconscientemente que há deveres que não são nossos: quando a mãe nos dispensava de arrumarmos o quarto, quando a professora “tolerava” o nosso lixo porque “éramos rapazes”, quando a namorada da adolescência passou a escolher a roupa por nós, quando a casa que partilhamos com outros rapazes na faculdade tinha que estar imunda, ou não era uma casa de rapazes. Os mais velhos diziam com frequência que tinham a esperança de um dia encontrarmos uma rapariga com a cabeça no lugar para “tomar conta” de nós (dos tais deveres que aos rapazes não assistem).

Lembram-se dos primeiros dias de vida? Claro que não. Mas vários investigadores já demonstraram que o tom de voz com que os pais tratam os meninos recém-nascidos é muito diferente daquele com que se dirigem às meninas. E lembram-se daquele tio, ou amigo do pai, que se ria e divertia sempre que dizíamos asneiras? Ou que nos incentivavam, ainda com 3 anos, quando agarrávamos a menina lá no infantário para dar um “inocente” beijo, quer ela quisesse ou não?

Lembram-se de todas aquelas vezes em que, para nos insultarem, os outros rapazes diziam: “pareces uma menina”? E certamente lembram-se do que pensávamos todos de uma rapariga com muitos namorados… E um rapaz com muitas namoradas? Era o quê? Lembram-se?

Todos crescemos para sermos campeões. Bem-sucedidos. Décadas nisto tornaram o nosso inconsciente impermeável a “emoções frágeis” e o nosso ego imbatível. Convenceram-nos (consciente e inconscientemente) que nós “temos direito” a uma série de coisas. Os privilégios de sermos homens. De vivermos com regalias das quais nem temos noção no dia-a-dia que elas existem! Já participaram em reuniões certamente – do trabalho, políticas, qualquer coisa onde estejam homens e mulheres. Na próxima reparem no número de vezes que os homens falam por cima delas e ninguém se importa – afinal temos a voz mais grossa, impomos a nossa presença, enfim, somos homens! E sempre que uma mulher fala mais alto reparem naquela vossa voz interior que vos diz: “é uma histérica” – porque nem pensar aceitar que uma mulher pode simplesmente ter razão.

Por tudo isto é tão difícil que alguém venha pôr em causa estes nossos privilégios. Mexemos na cadeira, ficamos incomodados, espumamos de raiva, sentimo-nos frustrados. Mas não podemos chorar que isso não é de homem – temos de bater em alguém, insultar, provocar, assediar uma rapariga qualquer que esteja por ali a passar. Chorar e falar sobre as nossas emoções é que não. Gritar não dá porque é para “histéricas”. Que coisa mais efeminada.

Tudo isto poderia ser apenas um problema nosso – uma coisa que nós resolvêssemos com o tempo, com a mudança de mentalidades. Mas não é um problema só nosso por esta pequena mas importantíssima razão: os nossos privilégios existem à custa das mulheres!

Façam agora um pequeno exercício: invertam tudo o que está descrito acima para nós homens e ponham-se no lugar das mulheres! Já se colocaram? Pois, não chega! Porque para termos sequer um vislumbre do que é ser mulher nesta sociedade não bastam 2 minutos de pensamento solidário – é preciso viver como mulher todos os dias desde o momento em que nascemos. É preciso ser mulher para perceber e sentir todas as formas de opressão, discriminação, subjugação e assédio que nós homens infligimos, na maioria das vezes sem nos apercebermos.

Para terminar deixo dois conselhos:

  1. Não falem por elas! Nós sabemos lá o que é ser assobiado na rua dia sim, dia não, ou ter o chefe constantemente a colocar a mãozinha no ombro. Se tantas mulheres se revoltam porque um juiz atenua uma agressão a uma mulher por adultério, não fiquem presos no vosso umbigo a pensar: “mas eu não quero ser traído, também me ia sentir revoltado…”; elas lidam com o problema da violência diariamente, sabem que podem ser agredidas ou até mortas por quem mais amam – nós nunca sentimos isto, não sabemos o que é!
  2. Têm filhos rapazes? Pois comecem a mudar o mundo – ensinem-nos a expressar as emoções, a chorar quando é preciso, a aceitar a vulnerabilidade como normal, caso contrário anos de repressão emocional costumam desabar em violência.

Ah e já me esquecia: feminismo quer dizer igualdade entre os géneros. Por isso, se não és feminista és um porco machista e estás na mira para ser aniquilado a curto prazo! Passem bem!

 

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por Augusta Clara às 16:08

Sexta-feira, 27.10.17

Contra o acórdão do Tribunal da Relação do Porto

 

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Concentrações

6ª feira, 27 OUT, 18h

LISBOA Praça da Figueira
PORTO Praça Amor De Perdição (jardins Da Cordoaria, Em Frente À Antiga Cadeia Da Relação)

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por Augusta Clara às 14:16

Sexta-feira, 27.10.17

José Vitor Malheiros sobre as declarações do presidente do Supremo Tribunal de Justiça (Henriques Gaspar)

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José Vítor Malheiros

 

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   Numa cerimónia onde deu posse a dois novos juízes conselheiros, o presidente do Supremo Tribunal de Justiça, Henriques Gaspar, pediu ontem aos juízes prudência na linguagem que usam, naquilo que parece ter sido uma referência ao vergonhoso acórdão do Tribunal da Relação do Porto da autoria dos juízes desembargadores Neto de Moura e Maria Luisa Arantes.

Se Henrique Gaspar se referia de facto a este acórdão, o caso é preocupante, já que o que está em causa não é de forma alguma a linguagem usada, mas os valores retrógrados que são defendidos e a sustentação jurídica apresentada pelos dois juízes para justificar as leves penas aplicadas aos dois homens (um ex-marido e um ex-amante) condenados por agredirem brutalmente uma mulher e para justificar a suspensão de ambas as penas.

Se Henriques Gaspar não vê nenhuma problema nesses valores e na justificação jurídica baseada na lei mosaica e num código do século XIX já em desuso, o caso é ainda mais grave do que parecia, pois mostra que o desnorte da justiça é total e está bem enraizado no topo da hierarquia. E se o presidente do Supremo Tribunal de Justiça aceita estes valores e esta fundamentação jurídica como bons, não tenciona fazer nada para os erradicar da prática dos juízes e ainda recomenda aos juízes que assim agem que dissimulem o que pensam de forma a reduzir a indignação e o clamor popular, não existem palavras para qualificar esta justiça.

 

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por Augusta Clara às 13:12

Quarta-feira, 25.10.17

Pronunciamento do MDM Sobre o Acórdão do Juiz Neto de Moura do Tribunal de Relação do Porto

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Pronunciamento do MDM
Sobre o Acórdão do Juiz Neto de Moura do Tribunal de Relação do Porto

A indignação das mulheres e da comunidade perante o Acórdão do Juiz Neto de Moura do Tribunal de Relação do Porto, é generalizada.

A Violência psicológica e física sobre esta mulher, exercida insistentemente e premeditadamente, por dois homens é desculpada porque ela teve um comportamento adúltero episódico. O discurso contido no Acórdão que já é público é uma ofensa à dignidade de todas as mulheres. É um prelúdio da mentalidade arrogante, autoritária, misógina que, sem pudor, mostra as suas garras.

Quanto a nós, MDM, não podemos silenciar que este acórdão extravasa o poder judicial legal e compromete a já debilitada imagem popular sobre a Justiça portuguesa. Por isso consideramos urgente que o Tribunal de Relação do Porto e os dois juízes se retratem perante a opinião pública como forma de prevenir e reparar a injustiça cometida, o abuso de poder, e afirmem inequivocamente o respeito da legalidade democrática.

Importa que o princípio constitucional da igualdade entre mulheres e homens seja replicado sempre que estão em causa processos de direito civil ou penal. Que não sejam invocados argumentos de natureza religiosa, de relativismo cultural ou ideológicos que subalternizam as mulheres com as atitudes sobranceiras e de dominação masculina seja em que esfera for do poder.

Estes dois juízes, Neto de Moura e Maria Luisa Arantes, ao ferirem de ilegalidade constitucional a sentença sobre um caso grave de violência doméstica, com contornos e riscos que não foram avaliados, deram mais uma machadada na credibilidade da Justiça. Uma andorinha não faz a primavera, é certo, mas a repercussão pública destes julgamentos e das atenuantes encontradas para justificar a redução de penas aos agressores fazendo recair a culpa sobre a mulher é uma atitude que se encontra sedimentada em posicionamentos judiciais mas também de discursos políticos retrógrados, que recrudescem e se assemelham. No momento em que vivemos, tal é perigoso e preocupante.

Este é mais um exemplo de quanto as leis democráticas são desrespeitadas nas malhas do poder. Quem está interessado em revisitar o vocabulário dos tempos da Idade Media e dos códigos de família e penal do século XIX para salvaguardar “a honra do homem”, recorrer ao exemplo “da dita mulher honesta”, da adúltera que merece castigo e até lembrar com a maior naturalidade a lapidação em certas sociedades, é assumidamente uma pessoa perigosa, impregnada de preconceitos e disposta a transgredir as mais elementares regras de convivência social.

Independentemente de nos manifestarmos contra esta atitude em outros espaços públicos, o MDM vai apresentar queixa ao Senhor Provedor da Justiça a fim de que possa interceder junto dos poderes públicos para reparar a injustiça do acórdão e intervir pela monitorização da aplicação legal dos direitos das mulheres.

O juiz acolheu de bom tom a versão de uma parte (a dos agressores) que é seguramente “a sua própria”. Neste sentido perguntamo-nos como poderá um juiz (um tribunal) desrespeitar as leis nacionais e internacionais sobre a Violência doméstica e sobre o direito à igualdade entre mulheres e homens na vida? Sendo Portugal um estado laico para quê invocar a Bíblia? Se o papel do Juiz é estabelecer alguma paz social e certeza nas relações jurídicas, como é que este Acórdão persegue o seu fim último que é o de fazer Justiça?

A honra e a dignidade das mulheres está em causa. A constituição da República proclama esse princípio.

São rebarbativas as expressões escritas pelo relator, o juiz desembargador Neto de Moura e assinadas também por Maria Luísa Arantes no acórdão: “Ora, o adultério da mulher é um gravíssimo atentado à honra e dignidade do homem. Sociedades existem em que a mulher adúltera é alvo de lapidação até à morte. Na Bíblia, podemos ler que a mulher adúltera deve ser punida com a morte. Ainda não foi há muito tempo que a lei penal [de 1886] punia com uma pena pouco mais que simbólica o homem que, achando a sua mulher em adultério, nesse acto a matasse”.

O acórdão é, em si mesmo, uma ameaça aos direitos das mulheres, um desagravo da violência e da agressão de homens sobre as mulheres, um regresso ao direito romano e da Idade Média, em que prevaleceu a anexação do Direito pela Religião e pela Moral, com a prevalência da “justiça bíblica”. É, obviamente, um clamoroso retrocesso civilizacional que merece repreensão pública.

O Juiz não valorizou a situação criada e preconcebida para a violência física, não valorizou o uso de uma moca com pregos, não valorizou a arma com munições, escondida e encontrada na garagem, não valorizou as mensagens e a perseguição continuada, as ameaças de morte nela contidas, nem os seus efeitos traumáticos sobre aquela mulher.

Mas o Juiz atenuou as razões que levaram aqueles homens a fazer o que fizeram em nome da “sua honra” – a honra de homem… Foi a depressão… Foi a intempestuosidade… Foi a traição. Nunca foi a premeditação, que está patente no carrear dos factos.

O argumentário está impregnado de moralismo obsoleto, arcaico e ilícito. Serve-se de uma argumentação eivada de preconceito, desculpabilizadora do homem e, em contraponto, minimizando factos e provas do sofrimento da mulher e da sua condição humana.
Foi agredida com uma moca e foi perseguida mas a culpa é da mulher, a responsabilidade é sua. Honra seja feita ao Ministério Público que não aceitou a primeira sentença considerada injusta pelo Tribunal de Felgueiras.

O Presidente da República não exige pedido de desculpa ao juiz desembargador e ao Tribunal de Relação do Porto? Também valeria a pena em nome de uma sociedade democrática em que as mulheres são sujeitos activos e estão a ser profundamente ofendidas.

A Direcção Nacional do Movimento Democrático de Mulheres
Lisboa, 24 de outubro de 2017

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por Augusta Clara às 16:14

Terça-feira, 24.10.17

Os juízes - Augusta Clara de Matos

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Augusta Clara de Matos  Os juízes

 

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   Os juízes pertencem à carreira mais bem paga da Administração Pública.

Chegaram a estar, em termos remuneratórios, equiparados à carreira de investigação e à carreira docente universitária mas rapidamente se desequipararam. São a “nata” do Estado que não tem de prestar contas a ninguém no exercício das suas funções.

Apesar de não ser correcto generalizar a toda a classe os erros, alguns bem graves, de muitas sentenças ou ausência delas, a verdade é que, no cômputo geral, já praticamente ninguém tem confiança na protecção duma justiça imparcial como um dos principais pilares de sustentação do regime democrático. Falando bem e depressa, ninguém acredita na justiça deste país porque ela tem provado proteger os ricos e desprezar os pobres. Ricos e pobres chegaram a parecer dois termos gastos mas, neste momento, perante a realidade, o seu uso readquiriu total legitimidade.

Atente-se na disparidade de critérios dos juízes da nossa praça. Enquanto que uma “mulher adúltera”, agredida por dois homens, que, embora adversários quanto à sua posse, a espancaram de forma brutal, é acrescidamente culpabilizada em tribunal por um juíz que demonstra uma nostalgia da aplicação da pena de morte ou uma simpatia pela sharia dos regimes islâmicos radicais – vocações semelhantes atribuíram a culpa de violações a mulheres que “estavam mesmo a pedi-las” -, outros congéneres e confrades têm deixado em liberdade, e até com direito a férias e a montarem negócios noutras paragens, os maiores burlões do país , os que desfalcaram o erário público, banqueiros que se apropriaram das poupanças dos depositantes que neles confiaram e até quem, acusado de um crime de morte no estrangeiro, vive descontraidamente nesta terra de justiça cega e “igual para todos”.

Que este acórdão do Tribunal da Relação do Porto sirva para dizermos BASTA!

As mulheres portugueses exigem ser tratadas pelos juízes, e pelas juízas, em pé de igualdade com os homens, com base nas leis em vigor e de acordo com os princípios expressos na Constituição da República Portuguesa que os juízes juram cumprir. As convicções destes titulares, por mais miseráveis que sejam, têm de ficar em casa. Ou, então, que alguém os remova do cargo.

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por Augusta Clara às 18:57

Sábado, 07.01.17

EM PORTUGAL OS ÁRBITROS DE FUTEBOL VALEM MAIS DO QUE AS MULHERES - Augusta Clara

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Augusta Clara  EM PORTUGAL OS ÁRBITROS DE FUTEBOL VALEM MAIS DO QUE AS MULHERES 

 

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   Num país onde a ameaça a um árbitro de futebol desencadeia de imediato uma protecção reforçada das forças de segurança a todos os outros e suas famílias enquanto que as queixas de mulheres por violência doméstica levam tanto tempo e tanta burocracia a serem apreciadas que os casos de morte já fazem história, NÃO HÁ MACHISMO?

E o silêncio que sobre isto se faz por parte de um e do outro sexo chama-se como?

É forçoso que hoje deixe aqui um elogio à acção da Polícia Judiciária que ontem, em Grândola, salvou da morte uma mulher.

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por Augusta Clara às 18:15

Terça-feira, 08.03.16

Dia Internacional da Mulher - As mulheres ainda não podem andar sozinhas sem correrem o risco de ser atacadas ... por machos da sua inteligente espécie

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Marina Menegazzo e Maria José Coni

 

   Não gosto de "Dias de ..." mas este ano, depois de tudo o que se tem passado por todos os cantos do mundo e também em Portugal, com maus tratos e assassinatos de muitas mulheres, apetece-me deixar aqui algumas notícias e referências.

E começo pela notícia da morte bárbara de duas jovens argentinas que se tinham deslocado de férias, já este ano, ao Equador e cujos corpos apareceram com sinais de terem sofrido extrema violência ao tentarem defender-se. Os criminosos confessaram o crime.

A. Clara

 

"Resumindo: duas mulheres foram de férias. Um grupo de homens achou-as ‘apetecíveis’ e fez-lhes uma emboscada para as tentar violar. Elas, como qualquer pessoa faria, resistiram. E foram mortas à paulada e à facada por isso."

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 Leia o artigo aqui.

 

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por Augusta Clara às 08:00

Segunda-feira, 11.01.16

Violência de Ano Novo: uma história alemã mal contada - José Goulão

 

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José Goulão  Violência de Ano Novo: uma história alemã mal contada

 

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Mundo Cão, 10 de Janeiro de 2016 

 

   Os acontecimentos violentos em território alemão iniciados na noite de Ano Novo, principalmente nas cidades de Colónia e Hamburgo, estão envolvidos em contradições e deficiências de informação, que não parecem acidentais, contribuindo para agravar os sentimentos xenófobos e os comportamentos anti refugiados manobrados por grupos racistas e de extrema-direita.

Até ao momento há cerca 150 queixas formais de mulheres que dizem ser vítimas de agressões sexuais – violações em alguns casos – praticadas junto à estação ferroviária de Colónia, na cidade portuária de Hamburgo e também, de maneira mais isolada, em Bielefeld, Berlim, Estugarda e outras cidades, por indivíduos embriagados, actuando aparentemente em grupo, durante os festejos da passagem de ano. De acordo com as versões conhecidas, os criminosos agiram a coberto da escuridão aproveitando a confusão e o terror provocados através do lançamento de petardos.

Passados dez dias, as autoridades policiais continuam a ser parcas e indefinidas no esclarecimento dos factos. Tanto quanto se sabe, a única versão existente é a de que os agressores foram indivíduos do sexo masculino com “aparência árabe ou norte africana”. O ministro da Justiça, Heiko Maas, fala em “nova forma de criminalidade organizada”, não explicando em que dados assenta tal informação, do mesmo modo que a chanceler, Angela Merkel, garante que “não se trata de casos isolados”. O ministro do Interior, Ralf Jagger, constatou que o “movimento” foi organizado através das redes sociais.

Neste cenário, aproveitado agora através de múltiplas acções de mobilização e “esclarecimento” promovidas pelo partido nazi Alternativa para a Alemanha (AfD) e o movimento islamófobo Pegida, os partidos do governo e o próprio executivo prepararam medidas legislativas para facilitar o processo de expulsão de estrangeiros condenados por actividades criminosas e o cumprimento das penas de prisão dos eventuais condenados em cadeias dos países de origem, proposta esta do vice-chanceler Sigmar Gabriel, chefe do Partido Social Democrata.

Tais declarações e medidas surgem na sequência de factos que não foram esclarecidos e que tiveram como desenvolvimentos, para já, a demissão do chefe da polícia de Colónia.

Alguns jornais sublinham que a descrição de “aparência árabe ou norte africana” para identificar os participantes na “onda de violência” é suficiente para desencadear um clima de perseguição xenófoba aos imigrantes e uma travagem da chamada “política de portas abertas” criada pela Srª Merkel em relação aos refugiados. Ao que se sabe, há mais de um milhão de refugiados pretendendo ser acolhidos na Alemanha numa altura em que, segundo as entidades patronais, as necessidades da economia do país em mão-de-obra não qualificada são bastante inferiores.

Além disso, outros factos suscitam dúvidas na opinião pública. Os acontecimentos ocorreram na noite de 31 de Dezembro e só no dia 4, segunda-feira, a polícia e a comunicação social falaram da “onda de violência na noite de Ano Novo em Colónia e Hamburgo”. Em plena época da “informação em directo”, a sociedade alemã manteve-se no desconhecimento de conhecimentos gravíssimos durante todo um fim- de-semana prolongado. A tal ponto que a cadeia de TV ZDF se sentiu na obrigação de pedir desculpas aos espectadores por tal fracasso informativo.

No entanto, os relatórios policiais da noite de Ano Novo não registaram nada de anormal. Uma nota da polícia de Colónia divulgada no dia 1 dá conta de que a passagem de ano decorreu em “ambiente alegre, com celebrações na sua maior parte pacíficas”.

Testemunhas presentes junto à estação de Colónia revelaram à comunicação social que durante os festejos alguns indivíduos se excederam, obrigando a polícia a intervir a e conduzi-los para o interior da estação. Pouco depois os autores de distúrbios estavam de volta aos locais de onde foram retirados.

Logo que as notícias começaram a correr, a partir de dia 4, bandos organizados do AfD e do Pegida iniciaram as acções de rua contra imigrantes e refugiados, fazendo crer que os factos são consequência directa dos estrangeiros em território alemão, agravados pela entrada dos refugiados.
De acordo coma polícia, dos 32 indivíduos investigados por terem alegadas responsabilidades nos acontecimentos, 22 são refugiados – entre eles 9 argelinos e 8 marroquinos. Não há notícias de sírios envolvidos, a não ser a referência de um jornal a um detido que terá gritado, exibindo documentos: “sou sírio, têm de me tratar bem porque estou a convite da Srª Merkel”.

As acções de rua nazis e do Pegida prosseguem quotidianamente, provocando alguns confrontos com manifestantes antifascistas que denunciam o aproveitamento que está a ser feito a propósito de acontecimentos mal esclarecidos.

As autoridades policiais e políticas, porém, continuam reticentes em revelar em pormenor o que se passou na noite de 31 de Dezembro; no entanto, generaliza-se a opinião de que, fruto destes acontecimentos mal explicados, está a esbater-se rapidamente na Alemanha o espírito de boa vontade no acolhimento aos refugiados que se verificou durante o Outono, perante a indisfarçada ira das poderosas comunidades racistas e xenófobas germânicas.

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por Augusta Clara às 08:00



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