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Jardim das Delícias


Segunda-feira, 13.05.19

O QUE EU QUERIA VER (E DEVIA SER) DISCUTIDO NA CAMPANHA PARA AS ELEIÇÕES EUROPEIAS (independentemente das questões económicas e financeiras de que toda a gente fala) - Augusta Clara de Matos

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Augusta Clara de Matos   O QUE EU QUERIA VER (E DEVIA SER) DISCUTIDO NA CAMPANHA PARA AS ELEIÇÕES EUROPEIAS (independentemente das questões económicas e financeiras de que toda a gente fala)

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- O combate intenso e coordenado ao avanço da extrema-direita na Europa e uma campanha de esclarecimento às populações sobre as consequências do retorno de governos fascistas;
- A expulsão da União de países onde se instalem governos com políticas e práticas fascistas e que permitam a livre expressão de grupos que defendem a ideologia nazi e cometem crimes com base nesta ideologia;
- O acolhimento e integração de refugiados e suas famílias como cidadãos europeus de iguais direitos, desmontando a ideia ainda reinante em muitas cabeças de que são todos terroristas;
- O fim da venda de armas por países da EU a países, grupos e coligações que as têm utilizado para destruir países através de guerras que tiveram unicamente como fim roubar-lhes as matérias primas, sabendo nós que foram essas guerras a origem da fuga em massa dos seus habitantes em direcção à Europa nas trágicas condições que levaram a milhares de afogamentos;
- A uniformização de leis em todo o espaço da UE que penalizem sem condescendência a corrupção e as grandes fraudes financeiras que enfraquecem e deterioram a economia dos países;
- Como consequência do afirmado no parágrafo anterior, a luta por uma Justiça igual para todos os cidadãos e não diferenciada entre os que têm dinheiro para se defender e os outros;
- O combate sério e generalizado a todo o tipo de descriminação com base na opção sexual, política, de credo religioso ou outra;
- Exigência da protecção dos mais frágeis como as crianças, os deficientes e os idosos;
- Combate à violência doméstica e, especificamente, que seja dada maior atenção à violência contra as mulheres que tem assumido contornos escabrosos em vários países europeus;
- Acérrima exigência pela liberdade de opinião e de expressão.

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por Augusta Clara às 18:11

Quinta-feira, 14.03.19

Porquê as mulheres? - Isabel do Carmo

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Isabel do Carmo  Porquê as mulheres?

 

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Público, 14 de Março de 2019

Esta sociedade está cheia de sinais que vão até aos crimes baixos que fazem soar o alarme. Mas é tudo o resto que também temos que discutir.

Por que é que são as mulheres espancadas, algumas até à morte, ameaçadas, assediadas, sobrecarregadas com trabalho doméstico, ganham menos desempenhando as mesmas funções, vivem na sombra? Porque vivemos numa sociedade patriarcal hierarquizada. Os casos extremos são a ponta do iceberg. É uma questão de poder e é também o quotidiano que temos que discutir, para pôr ao sol o que parece subtil ou insignificante. Dar testemunho é um dever.

Participei na avaliação das consequências físicas do inquérito de prevalência de violência sobre mulheres (Manuel Lisboa, 2006). Algumas ousavam revelar lesões, arranhões, encontrões, hematomas, torções. As que tinham sofrido fracturas tinham ido ao hospital. Quase todas “porque tinham caído na escada” na declaração feita à entrada da urgência. Não sabemos os comentários que aí as acolheriam se dissessem o verdadeiro motivo.

Há portanto aqui uma escala, em que o assassinato emerge como caso extremo e sinal de alarme. No entanto, sei o que ouço nas minhas consultas clínicas, e por dever de médico, pergunto o que é que se passa “lá em casa”, para além das queixas que são motivo da consulta. O que ouço também é uma escala. Há as que se queixam que os maridos são uns “brutamontes”, dos quais nunca se separaram porque não tinham condições para isso. E há aquelas, muitas, a quem o marido “levanta a mão”, entra em cólera e impede qualquer conversa sobre razões conflituosas. Enfim, uma relação de maior força física e de poder que regula a relação doméstica.

Estes homens já foram crianças que assistiram a espancamentos ou a simples empurrões ou cóleras exercidas sobre a mãe, para eles “naturais”, assimilados, interiorizados. Foram crianças elas próprias espancadas pelos pais e educadas a reguadas na escola pública. Ou que, mais elegantemente, levaram “uns açoites” ou umas “palmadas que não fazem mal a ninguém”, exercidas pelas mães, subjugadas pelo patamar de cima. A escala do poder foi pois “natural” e interiorizada, o comportamento e o impulso nem são interrogados.

Este ambiente foi o mesmo em que viveram ou vivem polícias e juízes, para só falar nos que têm que exercer autoridade e decidir. É pois necessário meter a mão naquilo que é a vida privada, a vida quotidiana, sem ter medo de ferir susceptibilidades. Mas também sem considerar os homens como inimigos das mulheres ou dizer que “são todos iguais”. A par das histórias dramáticas e sobretudo tristes que ouço, também testemunho muitos casos de casais de muitos anos, verdadeiros companheiros solidários e jovens rapazes que partilham com alegria os cuidados dos filhos e da casa, o que nos dá esperança para o futuro.

Mas a maior parte das vezes em que pergunto sobre as tarefas domésticas, as mulheres descrevem um quotidiano em que fazem quase tudo. Nos casos mais simpáticos ele “ajuda”. Ele “ajuda” e ela até fica agradecida, como se fosse a vizinha do lado, prestável, que a ajudasse. E não a pessoa que tem os mesmos filhos e vai utilizar os mesmos objectos, a mesma roupa e comer a mesma comida que ela, que tem os mesmos horários e os mesmos transportes. Pôr em questão estes problemas relacionados com a sociedade patriarcal e com estas relações de poder não é coisa fácil e atravessa classes sociais e ideologias. Indignação perante um assassinato é uma coisa, mexer nas relações do quotidiano é outra. Infelizmente, a primeira tem que servir para trazermos à luz do dia aquilo que está oculto.

Podemos lembrar as concepções ditas machistas que emergiram a seguir ao 25 de Abril e durante o processo revolucionário. Iam muito além dos tradicionalistas e conservadores e atravessavam os politicamente à esquerda, que se diziam “chefes de família”, respeitavam as suas “esposas”, mas tinham uma vida hipócrita tal como o papa Francisco descreve para os habitantes do Vaticano — moralistas para fora, “pecadores” para dentro. Aliás, homem que tinha “casos por fora” até era engraçado, sinal de virilidade, mas as mulheres tinham que ser “sérias”, “honradas”. Considerar “histéricos” os protestos contra a estrutura machista da sociedade veio até agora.

Só há poucos anos vou a sessões do dia 8 de Março com alguma tranquilidade, pois durante muitas comemorações fui objecto de provocações e tentativas de desacato, as quais foram provocadas por personagens insuspeitos. Numa, um militar muito radical interrompia e queria provar que os homens é que eram vítimas das mulheres. Noutra, uma jovem mulher dizia que estas questões da mulher não deviam ser levantadas porque quando a sociedade mudasse elas ficavam resolvidas, o que desde já se provava pelo facto de no partido dela não haver discriminação de sexos. Noutra, numa sessão da Ler Devagar, uma “feminista” vestida à homem contestava violentamente que estivéssemos a exibir um belo filme, Curvas Graciosas, onde se mostravam as formas próprias das mulheres novas e velhas, muito para além do estereotipado. Todos estes casos foram provocações premeditadas e destinadas a acabar com a sessão, em locais considerados “abertos” e com frequentadores habituais.

Evoco, todavia, também como janela de esperança, o caso de um adolescente, numa escola que servia o Vale da Amoreira, no Barreiro, que numa dessas sessões me colocou uma verdadeira questão: ser ou não verdade que se for o homem a estar desempregado e a fazer tarefas domésticas se sente mais humilhado do que se for o inverso. Foi há poucos anos, estávamos e estamos ainda muito na infância da discussão do quotidiano. Quando estou numa reunião, seja política, seja institucional, seja profissional, com homens e mulheres, proponho sempre que quem fale o faça pedindo a palavra ou, muito melhor, dando a volta à mesa. Porque se não for assim... já sei quem vai falar primeiro, mais alto e a sobrepor-se. E quantas vezes em reuniões sociais vemos as mulheres entrarem e saírem caladas porque “onde há galos não cantam galinhas”. E não evoquemos as excepções para provar o contrário, porque são mesmo excepções conseguidas a custo!

Aprofundando mais ainda os sinais e observando a linguagem, não se poderá reflectir sobre a expressão de insulto “filho da p...”? Não considero que a prática da prostituição seja uma profissão, também não considero que seja crime ou delito e conheço o sofrimento que acarreta. O que sei é que as mulheres que a praticam e os filhos delas são tão dignos de consideração como qualquer cidadão.

O insulto é mal escolhido. Indo mais longe: o que é que queremos dizer com a expressão agressiva “fuck you” nos vários idiomas? Falocrático, não é? Com isto não quero fazer qualquer campanha moralista contra os palavrões e até aprecio a poesia erótica de José Maria do Bocage, que os empregou na verdadeira acepção. O que quero mostrar é que esta sociedade está cheia de sinais que vão da linguagem banal, à ordem “natural” do quotidiano, público e privado, passando dos pequenos gestos ameaçadores até grandes gestos. Para finalmente emergir em crimes baixos que fazem tocar o alarme. Mas é tudo o resto que também temos que discutir.

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por Augusta Clara às 17:03

Terça-feira, 24.10.17

Os juízes - Augusta Clara de Matos

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Augusta Clara de Matos  Os juízes

 

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   Os juízes pertencem à carreira mais bem paga da Administração Pública.

Chegaram a estar, em termos remuneratórios, equiparados à carreira de investigação e à carreira docente universitária mas rapidamente se desequipararam. São a “nata” do Estado que não tem de prestar contas a ninguém no exercício das suas funções.

Apesar de não ser correcto generalizar a toda a classe os erros, alguns bem graves, de muitas sentenças ou ausência delas, a verdade é que, no cômputo geral, já praticamente ninguém tem confiança na protecção duma justiça imparcial como um dos principais pilares de sustentação do regime democrático. Falando bem e depressa, ninguém acredita na justiça deste país porque ela tem provado proteger os ricos e desprezar os pobres. Ricos e pobres chegaram a parecer dois termos gastos mas, neste momento, perante a realidade, o seu uso readquiriu total legitimidade.

Atente-se na disparidade de critérios dos juízes da nossa praça. Enquanto que uma “mulher adúltera”, agredida por dois homens, que, embora adversários quanto à sua posse, a espancaram de forma brutal, é acrescidamente culpabilizada em tribunal por um juíz que demonstra uma nostalgia da aplicação da pena de morte ou uma simpatia pela sharia dos regimes islâmicos radicais – vocações semelhantes atribuíram a culpa de violações a mulheres que “estavam mesmo a pedi-las” -, outros congéneres e confrades têm deixado em liberdade, e até com direito a férias e a montarem negócios noutras paragens, os maiores burlões do país , os que desfalcaram o erário público, banqueiros que se apropriaram das poupanças dos depositantes que neles confiaram e até quem, acusado de um crime de morte no estrangeiro, vive descontraidamente nesta terra de justiça cega e “igual para todos”.

Que este acórdão do Tribunal da Relação do Porto sirva para dizermos BASTA!

As mulheres portugueses exigem ser tratadas pelos juízes, e pelas juízas, em pé de igualdade com os homens, com base nas leis em vigor e de acordo com os princípios expressos na Constituição da República Portuguesa que os juízes juram cumprir. As convicções destes titulares, por mais miseráveis que sejam, têm de ficar em casa. Ou, então, que alguém os remova do cargo.

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por Augusta Clara às 18:57

Terça-feira, 31.03.15

Violência doméstica - Carlos Esperança

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Carlos Esperança  Violência doméstica

 

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   No início deste mês, um homem de 33 anos matou a mulher de 29 e, a seguir, atirou-se da Ponte 25 Abril, deixando o filho de 3 anos que assistiu ao crime. A monótona notícia que se repete, à média de 40 mulheres por ano, é um ferrete de ignomínia que nos marca com o estigma da brutalidade, um desmentido feroz da brandura que alardeamos.Sei que também há homens que são vítimas da violência doméstica e que o assassinato não é a única forma de violência, mas são as mulheres que estão na vanguarda destacada da estatística das vítimas.

Falar do ‘país de brandos costumes’, expressão cunhada pelo frio ditador que deixava os adversários entregues às mãos criminosas dos esbirros ou o ao gatilho rápido da polícia política, e sabermos que, nos últimos dez anos, a violência doméstica deixou 700 órfãos, é sermos percorridos por um frémito de desconfiança e revolta, sentirmos em cada órfão o filho que a violência abandonou aos baldões da sorte e o remorso da indiferença.

Que raio de genes conservamos ainda das cavernas da nossa ancestralidade, da miséria de um povo que foi sempre pobre e onde o pão se disputava numa leira de terra ou num rego de água para a cultivar, à custa da vida de um irmão ou do pai que teimava em não morrer?

É deste povo que somos que nasce a violência que nos envergonha, a morte que nasce na ponta de uma faca, na lâmina de uma sachola ou no gume de uma foice por motivos que a inteligência repudia ou ciúmes que a educação há muito devia ter erradicado.

Que raio de genes e de gentes, moles com os fortes e violentos com os fracos, incapazes de pensar nos outros, descarregando frustrações e impotência em quem se habituou a ser culpada pela família, Igreja e sociedade que mais facilmente desculpam algozes do que protegem as vítimas.

Fonte: Comissão de Proteção às Vítimas dos Crimes (CPVC)

 

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por Augusta Clara às 08:00

Segunda-feira, 27.10.14

Deixem-se de histerias - Fernanda Câncio

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Fernanda Câncio  Deixem-se de histerias     

 

 

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Diário de Notícias, 24 de Outubro de 2014

 

   As pessoas espantam-se com cada coisa. Agora é porque um tribunal superior diz que nas mulheres a atividade sexual serve sobretudo para a procriação, logo depois dos 50 e já tendo parido dois filhos não poder ter sexo não releva grande coisa para efeitos de indemnização por danos, e dá como assente que uma mulher deve cuidar do marido.

Isto no país e na semana em que, reagindo ao caso do homem que em Soure, Coimbra, matou a mulher e uma filha à facada e deixou outra filha ferida, um porta-voz da GNR disse ao DN: "É difícil perceber, ainda para mais quando se atacam os filhos. Pertence ao domínio da psicologia." Ora bem. Se o homem matasse só a mulher seria mais fácil perceber, até porque é o pão nosso de cada dia, a gente já não estranha (só até junho foram 24, uma por semana) - e, como daquele senhor tão engraçado chamado Palito que, estando com pulseira eletrónica por violência contra a ex-mulher foi de caçadeira para a matar e matou a ex-sogra e a irmã dela por se meterem à frente, diziam os populares (as populares, aliás) que o aplaudiram à porta do tribunal, "se fez aquilo alguma razão teria."

Aliás, como nos lembrou nesta mesma semana e neste mesmo país o presidente da Federação das Associações de Ciganos, contestando um projeto parlamentar de criminalização de casamentos forçados (de menores, portanto), o papel da mulher está muito bem definido e o resto são aberrações que podem levar os homens à loucura e o mundo à ruína: "A cigana é preparada para o casamento. As ciganas aprendem a lavar, a coser, a passar a ferro, a fazer tudo. Ao contrário da sociedade maioritária em que a maioria delas nem sabem fritar um ovo. Até se vê mulheres a conduzir um automóvel e os maridos a conduzir carrinhos de bebé. As nossas são 100% femininas, 100% donas de casa."

O mesmo país em que estas declarações passam sem uma única reação institucional de repúdio (fosse um muçulmano a debitá-las, ui), que é o mesmo país em que uma proposta de criminalizar o assédio sexual das mulheres na rua é acolhida com gozo - o argumento predileto é "só as feias não gostam" - e no qual a quebra da natalidade é invariavelmente imputada à "dificuldade de conciliar maternidade e trabalho", é também o mesmo em que uma loja pode apostar, como estratégia de marketing, num cartaz à porta a dizer "homens e cães podem entrar, mulheres não." Fosse "proibida a entrada a negros", "judeus" ou "ciganos", isso sim, era inaceitável, discriminatório, insultuoso. Mas é com mulheres, pá. Qual é o problema de discriminar e insultar as mulheres, que, toda a gente sabe, já não se podem queixar de falta de igualdade? Se calhar queriam valer mais do que os homens, ou ter um estatuto intocável, não? Um bocadinho de sentido de humor, vá. E digam lá se aquele acórdão, bem vistas as coisas, não é a nossa cara.

 

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por Augusta Clara às 11:00

Sexta-feira, 24.10.14

Matar conseguem mas a suicidar falham sempre - Ferreira Fernandes

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Ferreira Fernandes  Matar conseguem mas a suicidar falham sempre

 

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Diário de Notícias, 23 de Outubro de 2014

 

   Vi ontem que um jornal fez com o homem que matou a mulher um daqueles "sobe e desce" com setinhas. O homem, engenheiro e de Soure (digo isto porque, sendo tantos os homens que matam as mulheres, se não damos minúcias, perdemo-nos), além da mulher, matou uma filha de 16 anos e feriu outra, de 13. As setas são úteis para se entender rapidinho se é mau ou bom o que um sujeito fez. Por exemplo, o ministro poupou: seta para cima. O guarda-redes deu um frango: seta para baixo. As opiniões são controversas, difíceis de pesar. São como os interruptores, umas vezes para cima, outras para baixo. Um homem que mata a mulher e uma filha, e fere outra, e tudo com várias facas, três ou quatro, porque iam--se partindo, esse sujeito, pois, foi colocado pelo jornal sob a dúvida: sobe ou desce? Desce, o jornal pô-lo a descer. Acho que foi uma decisão acertada. Outra coisa eu não esperaria de um jornal que narra estas coisas do quotidiano ordinário com cuidadas análises psicanalíticas: o homem tinha "pouca autoestima". No fim do artigo fui informado de que ele "depois de matar a família teve intenção de se suicidar mas não conseguiu." É sempre assim... Eu, que sou um bruto e dou pouca atenção às tais análises, já aqui propus numa que se fizesse uma campanha nacional para se inverter o método: explicar aos homens do meu país que devem, primeiro, suicidar-se, e só depois tentar matar as mulheres. Ah, se eu soubesse explicar isso com setinhas...

 

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por Augusta Clara às 11:00

Terça-feira, 29.04.14

A lei é: ele mata, ela morre - Ferreira Fernandes

 

Ferreira Fernandes  A lei é: ele mata, ela morre

 

 

Diário de Notícias, 21 de Abril de 2014

   Há demasiados títulos de "marido mata mulher". Não, em assassínios conjugais não podemos brincar com a piada estatística da galinha que um come e outro não, o que dá meia galinha em média para cada um... Não, em casais desavindos é indecente concluir que "come meio balázio cada um". A lei é: ele mata, ela morre. Agora é um Manuel Baltazar que mata a ex-sogra, mata a ex-tia, e só fere a ex-mulher porque a filha, que levou com tiro no peito, se interpôs. Os títulos de jornais agora dedicados a Valongo dos Azeites, Viseu, podem surpreender o mundo mas não os da terra - estava-se à espera daquilo. O enredo havia de ser o de sempre - ele atira, ela morre - talvez só com algumas variantes ocasionais (como aparecer no meio uma filha valente). Mas o essencial, a causa do morticínio há muito está definido: a vida de mulher pesa pouco. Há 40 anos, por estes dias, nas vésperas do grande dia, o juiz corregedor do Círculo Judicial de Viseu condenou Adélio da Custódia, assassino da mulher Maria Pais Pimenta, a dois anos (o agora assassino foragido Manuel Baltazar era uma rapazola, 19 anos, há de se lembrar dessa leveza). E sua excelência ditou a sentença assim: "Porque se justifica perfeitamente a reação do réu contra a mulher adúltera que abandonou o lar, o marido e dois filhos de tenra idade, para seguir um saltimbanco." Depois, veio o grande dia, mas os títulos dos jornais em 40 anos deviam avisar-nos: a vida delas ainda pesa pouco.

 

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por Augusta Clara às 11:00

Terça-feira, 18.06.13

Fechar os olhos a uma guerra civil - Ferreira Fernandes

 

Ferreira Fernandes  Fechar os olhos a uma guerra civil

 

 

 

Publicado no DN em 18 de Junho de 2013 

 

   Um proletário do Catujal compra um revólver e diz a um amigo que "ia haver mortes", referindo-se à sua mulher, que fora embora. Sete dias depois ele mata a mulher. Um jornal, que recolhe o testemunho do tal amigo, tem tempo e espaço para falar da depressão do assassino, mas esquece-se de perguntar à testemunha: "E que fez sobre a ameaça? Alertou a polícia?" Claro que o jornalista não perguntou, arriscava-se a ouvir: entre marido e mulher... Um médico que tinha sequestrado a mulher levou-me a tribunal, com esse argumento, por eu ter escrito uma reportagem sobre o seu abuso. Tive sorte, era juíza, e se calhar por ser juíza mandou-me embora, agradecendo. Isso aconteceu dez anos depois de Adélio ter matado Maria, quando ela voltou para casa depois de ter andado com outro. Julgado nas vésperas do 25 de Abril, o juiz-corregedor de Viseu sentenciou Adélio: "(...) Justifica-se a reação do réu contra a mulher adúltera que abandonou o lar." E deu-lhe só dois anos. Estava aquele jornal português sem pôr a pergunta devida ao amigo do assassino, um jornal inglês publicou fotografias de uma celebridade televisiva, Nigella, a ser agarrada pelo pescoço pelo multimilionário do marido, Charles. Foi num restaurante, em Mayfair, cheio de paparazzi. Daí as fotos. Mas um restaurante vazio de gente. Daí ninguém ter acudido. Ele há género humano e ela há género humano. Esta última, rica ou pobre, é como se fosse de segunda. Mas não é. Não é.

 

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por Augusta Clara às 15:04

Segunda-feira, 07.01.13

Violência e culpa - Lígia Amâncio

Lígia Amâncio  Violência e culpa

 

(Psicóloga social e professora catedrática do ISCTE)

 

Publicado no jornal Público de 4 de Janeiro de 2013

 

 

   Na recente campanha lançada pelo Governo contra a violência doméstica, os agressores são os únicos ausente de todo o enredo e há um discurso que vitimiza ainda mais as vítimas.

___________________________

Onde pára o pensamento? Salvo raras e meritórias excepções de alguns comentadores e algumas comentadoras, a actualidade é, hoje, marcada por uma ausência de reflexão e de esforço de compreensão dos acontecimentos, do momento que vivemos. Pelo menos no discurso mediático, a reflexão cedeu o lugar a relações de causalidade simplistas, assentes em chavões e ideias feitas e análises desprovidas de factores de contexto, reduzindo tudo a factores psicológicos, como a culpa. Sinal dos tempos, a palavra culpa invadiu o espaço de outros significados e substitui frequentemente os conceitos de razão ou causa de um acontecimento ou decisão política, ou mesmo de responsabilidade, no plano individual e institucional. A culpa permite identificar um inimigo e serve de veículo às emoções e frustrações, mas pouco ou nada adianta para perceber a contribuição de determinados factores para um determinado efeito.

Um exemplo flagrante deste espírito do tempo é a recente campanha lançada pelo Governo contra a violência doméstica. Uma figura de mulher, exibindo feridas no rosto e nas mãos, pousa uma mão protectora no ombro de uma criança. A imagem é acompanhada de um texto onde se referem as consequências, sobre as crianças, dos actos de agressão exercidos sobre ela e que termina admoestando-a a dar um murro na mesa para proteger os filhos dessas consequências. Surpreendentemente, os agressores são os únicos ausentes de todo este enredo. E no entanto eles existem e são muitas vezes conhecidos da família, dos vizinhos, das autoridades policiais e até dos tribunais que nem sempre recorrem à possibilidade, prevista na lei, de impor o seu afastamento da vítima, ou não têm meios para fazer cumprir uma norma indispensável para a protecção da vida.

A centragem exclusiva na agredida omite um dos actores principais destas histórias e reforça a crença de que a violência é, de alguma forma, merecida, face às hesitações, às queixas feitas e depois retiradas, às desculpas tantas vezes aceites...Todas estas observações, que não deixam de ser verdadeiras em alguns casos, alimentam o desprezo pelas vítimas e pela sua aparente incapacidade de lutar contra a situação. Assim se perpetua a tolerância em relação à violência e a indiferença em relação às vítimas iludindo, ao mesmo tempo, a falha das instituições em proteger os direitos dos cidadãos. Face à complexidade do fenómeno da violência doméstica, esta campanha serve apenas para acentuar a culpa das próprias vítimas, ao sublinhar o seu papel de mães. E o que dizer então das crianças das 33 mulheres assassinadas em 2012, mais ainda do que no ano anterior? Essas não sofreram consequências? E o Estado não tinha a responsabilidade de proteger essas pessoas e as suas famílias?

Esta campanha sugere, além disso, uma curiosa metáfora da actualidade. Um discurso que vitimiza mais ainda as próprias vítimas, um convite à alienação das consciências, o isolamento das pessoas face à ausência do cumprimento dos deveres do Estado: vítimas de agressão sem agressores, nem protecção por parte das instâncias a quem cabe essa função, dêem um murro na mesa e deixarão de o ser. Tão simples como os portugueses terem vivido acima das suas possibilidades como razão para a crise em que se encontram. Poupem, não sejam piegas, façam sacrifícios em nome dos vossos filhos e reajam à violência a que estão sujeitos com um murro na mesa...

 

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por Augusta Clara às 17:00

Sábado, 05.01.13

"Gang Gulabi" ou Exército de Sari Rosa

 

"Gang Gulabi" ou Exército de Sari Rosa

 

 

   O “Gang Gulabi” (ou o exército de sari rosa) é um grupo de mulheres, na empobrecida região da cidade de Banda, no norte da Índia. O Gulabi intervém em casos de violência doméstica, atacando os maridos abusivos com "laathis" (varas de bambu). Atualmente, lutam para combater o casamento infantil, eliminar o sistema de dote e derrotar o analfabetismo feminino.

 

EXEMPLARES! 

 

 

(Foto de PLANETA EM QUE HABITO)
 

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por Augusta Clara às 15:00



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