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Delícias são tudo o que nos faz felizes: um livro, a magia dum poema ou duma música, as cores duma paleta ... No jardim o sol não raia sempre mas pulsa a vida, premente.

Augusta Clara de Matos 10 Anos de Web Summit

Vamos ter a Web Summit em Portugal durante os próximos 10 anos. E aqui começa logo a minha estranheza.
Summit significa Cimeira e de tantas já reza a História mas nunca ouvi falar em nenhuma que tivesse durado 10 anos. Eu sei que somos pródigos em originalidade mas este período que corresponde quase ao tempo de uma geração deixa-me desconfiada.
Estive a ouvir com toda a atenção o que foi dito no substancial tempo de antena atribuído ao evento no telejornal da noite da RTP2 e não foi dita uma qualquer palavra quer pelo dono da crescente cimeira, quer pelo Primeiro-Ministro, quer pelo presidente da Câmara Municipal de Lisboa, como sempre babado de cosmopolitismo, que indicasse uma única área ou projecto de investigação a beneficiar dos milhões apregoados que chegarão ao país por esta via.
Pouco percebi do objectivo porque foi tudo falado em economês. Falou-se de dinheiro, muitos milhões, de “ser bom para Portugal”, de empresas cotadas na Bolsa, mas de ciência e tecnologia Nada!
E, então, aí os meus neurónios entraram em convulsão porque se recordaram da boneca de plástico que puseram a falar connosco na última Web Summit. E vai daí, eles, os meus neurónios esticaram os braços uns aos outros e fizeram-me chegar a suspeita sobre se não se estará a projectar, em segredo, uma nova geração de portugueses de plástico como a sua Pitecantropa artificial que, depois, poderíamos exportar para o novo mundo que se avizinha onde o sol não faz falta nenhuma porque vai sendo coberto por uma nuvem negra.

Augusta Clara de Matos Complacência, o cancro mole dos democratas

Algum bom senso prevaleceu naquela organização denominada Web Summit para anular o convite a Marine Le Pen a vir discursar durante o evento. Mas não creio que se deva ao bom senso dos organizadores senão à pressão de muitos portugueses que deitam fascismo pelos olhos, à posição de alguns, raros, elementos do PS que não do seu partido, tal como à de outros do PCP. Que eu me tenha apercebido, a posição do Partido Comunista Português, como organização política, foi tão suave que quase não se deu por ela. Apenas um partido por inteiro, o BE, tomou uma posição forte ao interpelar o Governo no sentido de impedir Marine Le Pen de vir participar como oradora no evento.
Pela CML, na pessoa do seu presidente Medina, sempre tão efusivo a acarinhar estrelas mundiais, já não ponho as mãos no fogo.
Mas muitos comentários que por aqui li fazem-me lembrar a Alemanha, em particular, e a Europa das democracias dos anos 30 e começo a duvidar que a História, de facto, nos tenha ensinado alguma coisa. Se bem se lembram os que se interessam por saber como o mundo caminha e caminhou, tanta complacência e medo de ofender os nazis, mais o convencimento da sua fraqueza nunca os deixar chegar ao poder, levaram à derrota da República Espanhola e à sanguinária Guerra Civil que se lhe seguiu bem como aos horrores da Segunda Guerra Mundial e do Holocausto.
Quando uma pessoa chega aqui e vê pessoas a dizerem que somos democratas e, por isso, é preferível arvorarmos aquela postura de S. Jorge a combater o dragão, neste caso o fascismo da Le Pena, mas na reunião, para ela aprender e ver como temos razão, eu pergunto das três uma: ou nasceram já depois do 25 de Abril, ou não sabem nada da História da Europa do século passado ou estão-se nas tintas porque se convencem de que a elas nunca acontecerá nada se os fascistas voltarem ao poder.
Os mal intencionados poupem-nos a essa cangalhada argumentativa sobre extrema-esquerda, extrema-direita, comunismo, etc., etc. com o objectivo de criarem a ignorante turbulência como única actividade em que demonstram competência.
Aos outros a ingenuidade, no melhor dos casos, leva-os a esquecerem-se de que para sermos todos livres, o que implica muita coisa, temos de impedir a liberdade de alguns só a quererem para muito poucos à custa, se for preciso, da vida de muitos outros.

Augusta Clara de Matos A Web Summit e a mercantilização da ciência

A Web Summit que está a acontecer em Lisboa é uma feira de comércio e da indústria onde ele se baseia. Não é um acontecimento científico.
Tem muito do que a ciência nos tem legado? Tem, mas, embora o conhecimento científico deva fluir em total liberdade e a ciência seja neutra, as suas aplicações, a escolha dos projectos de investigação que são financiados e até mesmo os cientistas e investigadores, muitas vezes, não o são. Como exemplo extremo, basta pensar no armamento militar.
E não vale a pena ir buscar o Galileu porque o modo de fazer ciência no seu tempo era muito diferente do de hoje, tal como a sociedade de então não tinha qualquer semelhança com a nossa. E não vale referir todas as comodidades de que dispomos hoje sem enunciar os malefícios igualmente resultantes do desenvolvimento do conhecimento que, apesar de no-las porem à disposição, não tornaram o homem melhor. Parece-me mesmo que o seu processo de desenvolvimento humano se encontra em retrocesso.
Quem não tem formação científica pode deslumbrar-se com acontecimentos deste tipo em que se põem Sophias e Einsteins a falar pela boca de bonecos. Pode legitimar o seu deslumbramento no aparecimento de grandes cientistas vivos, para completarem o ramalhete, cujas palavras só ouvem por metade. Ouçam com atenção o alerta de Stephen Hawkins a propósito da inteligência artificial. Não foi o mesmo que “robotoparlou” uma boneca – que ofensa apresentá-la como Sophia no dia do aniversário da poetisa! -, que friamente anunciou vir tirar-nos os nossos trabalhos. De uma forma gélida, não como nos tinha sido explicado no início que os compoutadores e a informatática iriam tornar mais leves as actividades laborais.
O mundo do dinheiro apropriou-se da ciência sob a forma de tecnologia que não é o mesmo do que, noutros tempos, foi a técnica. Ciência e tecnologia, nos dias de hoje, alimentam-se mutuamente como pescada de rabo na boca, num circuito a que não sei se existe algum reduto que ainda escape.
A relação entre a ciência fundamental e a tecnologia processa-se através de meandros muito complexos nas várias áreas. Não tem, por isso, cabimento num texto desta natureza.
Apesar disso, como me continua a deslumbrar o processo sem fim de irmos desvendando os mistérios da Vida, da sua contínua evolução, seja qual for o caminho que a Natureza entender tomar! Como respeito os que lutam pela saúde e bem-estar de cada pessoa, sem disso fazerem alarde.
Como admiro aqueles que estudam o que se passa para além deste nosso planeta, sem se preocuparem com os milhões ou biliões de anos que a Terra possa ter de existência.
E os que procuram entender essa maravilhosa rede alojada no nosso cérebro que nos permite tudo o que atrás ficou dito. É pena que não só para o Bem, mas também para o Mal.
Que importância para a Humanidade têm estas espaventosas realizações em comparação com o que, em maior silêncio e teimosamente, constitui a contribuição dos que continuam a acreditar que a felicidade, apesar de meta longínqua, ainda persiste no horizonte da verdadeira condição humana?
Dito isto, a Summit é a Summit, três dias onde, enquanto uns se entusiasmam a anunciar as suas criações, porque não há nada que trave esse impulso, e, mesmo no ganancioso ambiente do lucro financeiro, falam em novos postos de trabalho, outros se deliciam com o aparecimento da destruidora cara de anjo que promete anular essas vontades.
E fico por aqui porque já estava tentada a passar a outro âmbito de conversa a que, infelizmente, oportunidades não faltarão.
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