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Jardim das Delícias


Quinta-feira, 16.04.15

ISRAEL e a NIGÉRIA - Augusta Clara de Matos

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Augusta Clara de Matos  ISRAEL e a NIGÉRIA

 

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(Wole Soyinka e Khalida Jarrar)

 

 

       A Nigéria teve, desde a independência, vários governos ditatoriais. Perto do fim do século passado estava no poder um sanguinário ditador chamado San Abacha - morreu em 1998 numa orgia com prostitutas tailandesas que mandava buscar com frequência - que levou grande parte da oposição a exilar-se. Entre os que saíram encontrava-se Wole Soyinka, Nobel da Literatura e um homem muito respeitado pelas várias etnias do país. Porém, mesmo no exílio, os opositores tinham de ter os maiores cuidados e viver numa semi-clandestinidade dado que a polícia política de Abacha estendia os tentáculos procurando encontrá-los nos mais recônditos lugares.

Curiosamente, conta Soyinka nas suas Memórias, ao ter sido convidado para estar presente num encontro literário em Jerusalém, acabou por saber, por acaso, que quem organizava e compunha a segurança política de Abacha era, nada mais nada menos, que a MOSSAD.

Hoje sabemos que Israel protege e trata os terroristas feridos do ISIS (EI ou DAESH) e que prendeu a representante palestiniana no TPI, Khalida Jarrar.

O que têm estes judeus (sionistas) a ver com os mártires dos campos de concentração nazis?

 

Fonte: Wole Soyinka, É Melhor Partires de Madrugada, Pedra da Lua

 

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por Augusta Clara às 08:00

Quinta-feira, 22.01.15

Das Memórias de Wole Soyinka, Nobel da Literatura da Nigéria

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(...) Em demasiadas nações africanas, o índice comparativo de brutalidade, desprezo pela lei e violação dos direitos huma­nos entre certas pretensas democracias e as ditaduras militares faz-nos duvi­dar de uma perspectiva absoluta. Basta pensar na “democracia” queniana do tempo de Arap Moi, ou do cheiro de tabaco requentado do hitleriane Robert Mugabe do Zimbabwe disfarçado de empenho em restituir terras. Dentro da Nigéria* temos o exemplo do contraste entre o regime militar de 1975 de um Murtala Mohammed, por um lado, e a “democracia” fascistóide e despesista do NPN de Shagari, entre 1979 e 1983 - e assim por diante em todo o continente. Os que insistem em viver no mundo real vêem-se sujei­tos à exigência daquilo que se pode e deve obter da autoridade usurpadora em nome da nação, em nome da humanidade palpável e não contida nas estatísticas que constitui o ambiente vital de cada um de nós. Para um tem­peramento como o meu, nunca foi possível abstrair-me - por um período prolongado - de uma sensação de censura pelo muito que todos os dias se perde, desperdiçado ou degradado, pelo muito que não se consegue recu­perar, por ser irreparável, quando se adopta uma posição que nos confere a doce satisfação pessoal de um distanciamento purista inabalável.(...)

 

(...) e Olabiyi Yai, do departamento linguística, ioruba cuja nacionalidade da República do Benim me recordou mais uma vez o prejuízo causado pelas potências europeias ao continente africano quando o dividiram de forma arbitrária em pretensas entidades nacionais. (...)

 

(...) A famosa máscara de marfim do Benim, esculpida com requinte e porme­nor, permaneceu escondida na segurança dos vastos labirintos do Museu Britânico. Tinha sido roubada nos finais do século XIX durante o saque igualmente famoso do Reino do Benim por uma força expedicionária britâ­nica, em represália por um recontro anterior, humilhante e fatal, entre um certo capitão Phillips e o rei Ovoramwen, o mais alto suserano do Reino do Benim, cuja ascendência, segundo a lenda, era de origem ioruba! A expedi­ção de Phillips insistira em ser recebida em audiência pelo rei durante um dos seus retiros mais sagrados, quando não era permitido ao oba50 ver quais­quer estranhos. Ora os súbditos britânicos de Sua Majestade não admitiam tal recusa e forçaram a entrada na cidade, com consequências terríveis. Não podiam ter contemplações com tal insolência! Foram dadas ordens para preparar uma expedição punitiva, executada com eficácia igualmente ter­rível. Foram enviados para Inglaterra muitos tesouros e o espólio de guerra - para compensar o seu custo, declaravam os despachos britânicos, com admirável franqueza. Entre eles estava a máscara de marfim, que parece ser a representação da cabeça de uma princesa do Benim. (...)

50  Chefe tradicional (N. da T.)

 

(in Wole Soyinka, É Melhor Partires de Madrugada, Pedra da Lua)

 

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por Augusta Clara às 08:00

Quinta-feira, 15.01.15

Um texto das Memórias do Nobel nigeriano Wole Soyinka "É Melhor Partires de Madrugada"

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Nota de edição: neste texto das Memórias de Wole Soyinca, cuja publicação me foi suscitada pelos bárbaros acontecimentos dos últimos dias na Nigéria e quando muitas pessoas perguntam porque não intervem a comunidade internacional, mais uma vez fica patente a passividade e a desvalorização da gravidade das situações com que as Nações Unidas têm actuado.

 

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   Na minha paisagem política, o vazio mais evidentemente acusador, criado por alguém que foi decisivo para a minha missão no exílio durante estes úl­timos cinco anos, é o do industrial Bashorun Moshood Kashimawo Abiola. Abiola era o presidente eleito de uma nação, mas nunca presidiu a algo mais do que a sua casa, a sua vasta rede de negócios e, por fim, o seu local de detenção. Sabe-se que é hábito inútil considerar como um fracasso pessoal aquilo que é claramente um crime de outros, mas essa reflexão irracional reclama por vezes esse tipo de posição nos nossos reveses. A morte de Xen Saro-Wiwa, naquela funesta sexta-feira 10 de Novembro de 1995, enforcado com oito dos seus companheiros na prisão de Port Harcourt, foi um brutal homicídio judicial, condenado universalmente, cuja evocação ainda hoje nos arrepia. No entanto, o de Abiola foi de uma crueldade persistente e sem igual. Espoliado da vitória, preso e isolado do contacto humano durante quase quatro anos e depois, à beira da sua segunda vitória, vitória assinalada pela morte do seu carcereiro e usurpador de mandato, Smi Abacha, acabarem-lhe de vez com a vida!...

Aquilo que as aspirações democráticas da nação tinham previsto depois da morte súbita de Abacha em Junho de 1998 era procurar um futuro nego­ciado em que, logicamente, Abiola, o presidente eleito preso, desempenharia um papel central, muito provavelmente como chefe de um governo interino de unidade nacional. Nenhum notável negara ainda que ele tinha ganho as eleições presidenciais de 1993. Então, um mês depois da morte de Sani Abacha, na presença de uma delegação oficial norte-americana - Thomas Pickering, ex-embaixador na Nigéria, Susan Rice, membro da administração do presidente Clinton, etc. -, serviram a Abiola uma chá­vena de chá que hoje alcançou um estatuto lendário no país: Abiola sofreu um ataque minutos depois de ingerir a bebida, teve um colapso e morreu. Tento recordar se houve alguma vez um Tântalo na história ou mitolo­gia nigerianas, mas nenhum me parece adequado. Só a figura do herói de Ogboju Ode, de D. O. Fagunwa, enterrado até ao pescoço no cativeiro, vítima de uma maldosa conspiração palaciana, se aproxima um pouco, mas trata-se de um conto que pelo menos oferecia aos seus leitores a recom­pensa moral de uma salvação, de um final feliz.

Sei que a verdade virá à tona um dia. Quatro anos para realizarem este homicídio, mas por fim assassinaram-no, e só posso pensar que o facto se deveu a alguma insuficiência da nossa parte, minha, embora não saiba ao certo o que eu ou qualquer outra pessoa na luta pela democracia poderia ter feito para o evitar. Surge ainda como absolutamente injusto que, a poucos dias da sua morte, eu tenha sido surpreendido em Viena por um fax que me avisava da iminência do seu assassínio. Por causa deste alerta e ape­sar da sua inutilidade em termos de tempo e de meios, arrasto comigo um incómodo sentimento de culpa. De pouco consolo me serviu saber depois que não fui o único a receber essa mensagem cujo texto roçava claramente a histeria. Mesmo no seu registo mais calmo e neutro, tratava-se de uma fonte que tínhamos aprendido a tomar a sério. No caso presente, o estado de espírito do autor do fax - dávamos às nossas principais fontes de infor­mação o nome colectivo de Longa Throat, Garganta Comprida, inspirado no informador que fez perder Richard Nixon, Garganta Funda - parecia ter afectado a sua utilização das maiúsculas e minúsculas:

 

0 novo regime e os seus colaboradores têm uma única nova adenda: ARRANJAR MANEIRA DE 0 CHEFE M. K. 0. ABIOLA NÃO VIR A SER PRESIDENTE DA NIGÉRIA DE MODO ALGUM... Deixe-me afirmar aqui categoricamente que isto está longe de se tratar de um palpite. É um plano preconcebido do novo regime, revelado por alguém que está por dentro...

0 RELATÓRIO IMPORTANTE QUE ME ENVIARAM HOJE: UM GANG NOTÓRIO NO EXÉRCITO NIGERIANO completou o seu plano para assassinar o chefe Moshood Abiola para pôr ponto final à guerra abacha/abiola numa solução de “nem vencido, nem vencedor". Acredite ou não, a crer no relatório que me deram, a morte do chefe Abiola pode ocorrer dentro de poucos dias ou antes do fim de Setembro... Isto pode parecer ridículo, impensá­vel ou pura invenção mas, acredite, é verdade. Diga ao Prof. e a outros grupos pró-democracia dentro e fora do país que exerçam uma pressão muito intensa sobre Abdulsalami para que liberte de imediato o chefe M. K. 0. Abiola!

0 novo regime não conseguirá proteger o chefe Abiola dos seus assassinos por­que não foi capaz de os persuadir a repensar a questão nacional da Nigéria. Até podem tomar o poder a Abubakar para pôr em prática o seu plano de destruição. Esta gente está mais disposta a dar cabo da unidade do país do que a deixar que Abiola seja presidente.

 

 O último elo da cadeia que me enviava esta mensagem era o meu filho Ilemakin, que havia muito se tinha lançado sozinho na luta, fugira do país e começara a realizar algumas missões para o movimento democrático. O apelo desesperado chegou por fim ao seu destino no último dia que pas­sei em Viena, mas só depois da partida de Kofi Annan, secretário-geral das Nações Unidas. Na véspera, eu estivera reunido a sós com ele durante quase uma hora e meia. Aparentava estar bastante descontraído; a confe­rência sobre direitos humanos que nos trouxera à Áustria parecia ter preen­chido todos os objectivos das Nações Unidas, e Kofi Annan pensava já na próxima missão: viajar na manhã seguinte para a Nigéria, onde iria visitar o novo chefe de Estado - decididamente interino - Abubakar Abdulsalami e, evidentemente, avistar-se com Moshood Abiola na prisão. Nenhum de  nós precisou de ser pressionado para aceitar a ideia de que tínhamos de nos encontrar e conversar antes da sua partida.

A minha paciência foi rudemente posta à prova pela sua atitude de “razoabilidade”... sim, sim, Wole, com a morte de Abacha apresentou-se agora oportunidade e não devemos desperdiçá-la. Muito se pode conseguir, agora a crise pode ser resolvida, mas, bem vê, também tem de dizer à sua gente que seja razoável. A oposição tem de mostrar-se razoável.

Razoável? Estávamos a ser irrazoáveis? Após quase trinta anos de regime militar, os últimos dos quais sob a forma ditatorial mais repugnante, reclamávamos a libertação imediata do presidente eleito - e de todos os restantes presos políticos - e o estabelecimento de um governo interino dirigido por Abiola, o presidente legítimo. Um governo interino com a vigência de um a dois anos. Em simultâneo, os representantes da nação encontrar-se-iam numa Conferência Nacional Soberana para apurar qual a verdadeira vontade popular, preparar condições para as eleições seguintes e ao mesmo tempo rever as modalidades de associação dos elementos constitutivos da nação. Depois, eleições gerais - que havia de irrazoável nestas propostas? E de resto, que outras alternativas havia? Tive o terrível pressentimento de que Kofi Annan ia para a Nigéria com um guião preparado, um guião já acordado entre as Nações Unidas e um comité de governos ocidentais. O programa da nossa coligação democrática não fazia parte desse guião.

O aviso sobre a ameaça de morte que pesava sobre Abiola só me foi entregue depois de Kofi Annan partir para a Nigéria e ter estado reunido com o preso! Se eu o tivesse recebido antes, teria submetido toda a discussão política à urgência da libertação imediata de Abiola! Teria decerto informado oficialmente a ONU, insistindo - mesmo sem saber se valia a pena - em que o seu secretário-geral se recusasse a encontrar-se com Abiola a menos que ele estivesse em liberdade, na sua casa, rodeado da sua família e asso­ciados políticos. Sabíamos por experiência que qualquer aviso de Garganta Comprida devia ser tido em conta. No entanto, era demasiado tarde, Abiola já estava a morrer, com os órgãos enfraquecidos por uma dieta diabólica que o envenenava lentamente. Tudo isto acabará por ser revelado um dia com todos os seus detalhes bizantinos - disso tenho absoluta certeza.

Portanto, a nossa discussão - e as minhas principais preocupações - girou essencialmente em volta do futuro da Nigéria, sem qualquer ideia do perigo que corria o homem que estava no centro de tudo. No fim dessa reunião, tão convencido estava eu de que o futuro já fora decidido por outros que de imediato enviei mensagens para o país, insistindo em que se exercesse o máximo de pressão sobre o visitante para o obrigar a dar ouvidos ao nosso programa e a defendê-lo junto do novo inquilino de Aso Rock [sede do governo em Abuja], o general Abdulsalami. No entanto, adverti ao mesmo tempo que isso de nada ser­viria. Estas frequentes contradições definem muitos dos momentos desta postura democrática. A inutilidade dos nossos esforços era óbvia, mas a inacção era muito mais intolerável.

De um modo irónico e incongruente, nestes momentos vem-me à ideia um dos aforismos preferidos da minha mãe, com a sua cómica iorubização da importante palavra inglesa try (tentar): itirayi ni gbogbo nkan - no tentar é que está tudo. A Cristã Selvagem aplicava-o a uma vasta gama de situa­ções incompatíveis - desde o encolher de ombros resignado na sequência de uma tentativa abortada de cobrar quantias exorbitantes pelos seus pro­dutos, até ao atacar com muito gosto o resultado duvidoso de uma receita culinária exótica que experimentava pela primeira vez. Abiola, como o pre­sidente socialista francês François Mitterrand - e a comparação termina aqui -, era adepto ferrenho da doutrina de itirayi. Não era a sua primeira tentativa de ocupar a presidência da Nigéria. Sendo um ioruba do Sul, a sua primeira tentativa, demasiado confiante, foi ridicularizada e sabotada por uma cabala feudal que considerava risível alguém fora do seu círculo pri­vilegiado poder pensar em governar o país. Serviam-se - e muito - do seu dinheiro, mas ironizavam abertamente acerca das suas ambições. Abiola fez um recuo estratégico, esperou por uma boa ocasião, lançou-se numa cru­zada filantrópica, alargou e consolidou a sua base política. Numa segunda tentativa, conseguiu. E por isso foi morto.

(in Wole Soyinka, É Melhor Partires de Madrugada, Pedra da Lua)

 

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por Augusta Clara às 08:00



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