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Jardim das Delícias


Segunda-feira, 11.01.16

Violência de Ano Novo: uma história alemã mal contada - José Goulão

 

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José Goulão  Violência de Ano Novo: uma história alemã mal contada

 

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Mundo Cão, 10 de Janeiro de 2016 

 

   Os acontecimentos violentos em território alemão iniciados na noite de Ano Novo, principalmente nas cidades de Colónia e Hamburgo, estão envolvidos em contradições e deficiências de informação, que não parecem acidentais, contribuindo para agravar os sentimentos xenófobos e os comportamentos anti refugiados manobrados por grupos racistas e de extrema-direita.

Até ao momento há cerca 150 queixas formais de mulheres que dizem ser vítimas de agressões sexuais – violações em alguns casos – praticadas junto à estação ferroviária de Colónia, na cidade portuária de Hamburgo e também, de maneira mais isolada, em Bielefeld, Berlim, Estugarda e outras cidades, por indivíduos embriagados, actuando aparentemente em grupo, durante os festejos da passagem de ano. De acordo com as versões conhecidas, os criminosos agiram a coberto da escuridão aproveitando a confusão e o terror provocados através do lançamento de petardos.

Passados dez dias, as autoridades policiais continuam a ser parcas e indefinidas no esclarecimento dos factos. Tanto quanto se sabe, a única versão existente é a de que os agressores foram indivíduos do sexo masculino com “aparência árabe ou norte africana”. O ministro da Justiça, Heiko Maas, fala em “nova forma de criminalidade organizada”, não explicando em que dados assenta tal informação, do mesmo modo que a chanceler, Angela Merkel, garante que “não se trata de casos isolados”. O ministro do Interior, Ralf Jagger, constatou que o “movimento” foi organizado através das redes sociais.

Neste cenário, aproveitado agora através de múltiplas acções de mobilização e “esclarecimento” promovidas pelo partido nazi Alternativa para a Alemanha (AfD) e o movimento islamófobo Pegida, os partidos do governo e o próprio executivo prepararam medidas legislativas para facilitar o processo de expulsão de estrangeiros condenados por actividades criminosas e o cumprimento das penas de prisão dos eventuais condenados em cadeias dos países de origem, proposta esta do vice-chanceler Sigmar Gabriel, chefe do Partido Social Democrata.

Tais declarações e medidas surgem na sequência de factos que não foram esclarecidos e que tiveram como desenvolvimentos, para já, a demissão do chefe da polícia de Colónia.

Alguns jornais sublinham que a descrição de “aparência árabe ou norte africana” para identificar os participantes na “onda de violência” é suficiente para desencadear um clima de perseguição xenófoba aos imigrantes e uma travagem da chamada “política de portas abertas” criada pela Srª Merkel em relação aos refugiados. Ao que se sabe, há mais de um milhão de refugiados pretendendo ser acolhidos na Alemanha numa altura em que, segundo as entidades patronais, as necessidades da economia do país em mão-de-obra não qualificada são bastante inferiores.

Além disso, outros factos suscitam dúvidas na opinião pública. Os acontecimentos ocorreram na noite de 31 de Dezembro e só no dia 4, segunda-feira, a polícia e a comunicação social falaram da “onda de violência na noite de Ano Novo em Colónia e Hamburgo”. Em plena época da “informação em directo”, a sociedade alemã manteve-se no desconhecimento de conhecimentos gravíssimos durante todo um fim- de-semana prolongado. A tal ponto que a cadeia de TV ZDF se sentiu na obrigação de pedir desculpas aos espectadores por tal fracasso informativo.

No entanto, os relatórios policiais da noite de Ano Novo não registaram nada de anormal. Uma nota da polícia de Colónia divulgada no dia 1 dá conta de que a passagem de ano decorreu em “ambiente alegre, com celebrações na sua maior parte pacíficas”.

Testemunhas presentes junto à estação de Colónia revelaram à comunicação social que durante os festejos alguns indivíduos se excederam, obrigando a polícia a intervir a e conduzi-los para o interior da estação. Pouco depois os autores de distúrbios estavam de volta aos locais de onde foram retirados.

Logo que as notícias começaram a correr, a partir de dia 4, bandos organizados do AfD e do Pegida iniciaram as acções de rua contra imigrantes e refugiados, fazendo crer que os factos são consequência directa dos estrangeiros em território alemão, agravados pela entrada dos refugiados.
De acordo coma polícia, dos 32 indivíduos investigados por terem alegadas responsabilidades nos acontecimentos, 22 são refugiados – entre eles 9 argelinos e 8 marroquinos. Não há notícias de sírios envolvidos, a não ser a referência de um jornal a um detido que terá gritado, exibindo documentos: “sou sírio, têm de me tratar bem porque estou a convite da Srª Merkel”.

As acções de rua nazis e do Pegida prosseguem quotidianamente, provocando alguns confrontos com manifestantes antifascistas que denunciam o aproveitamento que está a ser feito a propósito de acontecimentos mal esclarecidos.

As autoridades policiais e políticas, porém, continuam reticentes em revelar em pormenor o que se passou na noite de 31 de Dezembro; no entanto, generaliza-se a opinião de que, fruto destes acontecimentos mal explicados, está a esbater-se rapidamente na Alemanha o espírito de boa vontade no acolhimento aos refugiados que se verificou durante o Outono, perante a indisfarçada ira das poderosas comunidades racistas e xenófobas germânicas.

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por Augusta Clara às 08:00

Sexta-feira, 11.09.15

10 razões para não acolhermos refugiados, do blogue Por Falar Noutra Coisa

 Jornalista húngara pontapeia refugiados no campo de Röszke  

 

 

10 razões para não acolhermos refugiados

 

Por Falar Noutra Coisa, 10 de Setembro de 2015

 

   O debate sobre se Portugal deve ou não acolher refugiados sírios tem incendiado as redes sociais. Como eu gosto de ser um bom comburente também vou dar a minha opinião sobre o assunto. Vamos lá então ver os dez motivos que devem levar Portugal a recusar-se a receber refugiados sírios, esses patifes!

 
"Eles vêm para cá e não respeitam as nossas regras!"
 
Este argumento é colocado nos comentários do Facebook por alguém que o escreveu no seu smartphone enquanto conduzia. Depois, toldado pela raiva, passou dois vermelhos, atropelou uma velha e fez um manguito ao ultrapassar uma criança paraplégica. De repente, o português começou a dar muitíssimo valor às regras do seu país. Os portugueses adoram regras, toda a gente sabe disso e ai de quem venha para cá quebrá-las! O crime e a falta de civismo é propriedade intelectual dos portugueses e até temos patentes e tudo. Basta ver as estatísticas e perceber que a grande maioria dos muçulmanos, especialmente os que vivem no ocidente, é cumpridora e contribui para a boa cidadania. Basta ver os países com uma comunidade muçulmana enorme e que não é por causa deles que as coisas correm mal ou que estão piores do que Portugal. Têm as pancadas deles, claro, como nós também temos pessoas que escrevem livros com as conversas que tiveram com Jesus Cristo. Há malucos em todo o lado. A única coisa em que concordo é que entrar num banco ou bomba de gasolina, mascarado de ninja com uma burka, não devia ser permitido. Quero igualdade para todos e se eu não posso andar nu a passear o São Bernardo no metro, não quero cá mulheres tapadas da cabeça aos pés no meu pais. Já nos basta o falso puritanismo tão tipicamente lusitano.
 
"Eles estão a recusar comida!"
 
Argumentam muitas pessoas que acreditam nas publicações do Correio da Manhã e nas partilhas feitas no Facebook daqueles sites "www.somosbuecrediveis.todaaverdade.a.serio.com.br". São pessoas que após lerem as gordas de uma notícia não se dão ao trabalho de pesquisar um pouco e tentar perceber se é verdade, ou qual a razão que levou a isso. Estou a falar de várias notícias falsas que circulam nas redes sociais como aquela que mostra um vídeo onde os refugiados parecem estar a rejeitar comida. Os conspiracionistas do Facebook apressaram-se a concluir que era porque vinham em pacotes da Cruz Vermelha e que, por isso, os fazia lembrar Deus Nosso Senhor dos Católicos. Se pesquisarem um bocadinho vão descobrir o que realmente aconteceu: ao que parece, os refugiados estavam na fronteira entre a Macedónia e a Grécia, há três dias, no meio do nada e à chuva. Queriam passar, foram mal recebidos e maltratados, e decidiram fazer greve de fome para tentar acelerar o processo. Simples, não é? Mas mesmo que tivessem recusado por causa disso, era só uma minoria de palermas ali no meio de tanta gente desesperada. Se eu estivesse lá e me trouxessem uma caixinha com sushi, eu também os mandava à merda e recusava.
 
"Eles só querem ir para os países ricos!"
 
Comenta um símio com acesso à Internet enquanto recusa um convite para ir a um restaurante de sushi abaixo da qualidade a que ele está habituado. Os portugueses já tiveram várias vagas de emigração em busca de uma vida melhor, de mais trabalho e melhores condições para os seus filhos. Embora seja diferente, já que estes estão a fugir da guerra, acho que é fácil de perceber que eles, já que tiveram de desertar do seu país, queiram ir para onde lhes seja garantida uma melhor qualidade de vida e oportunidades. Quando se é recebido com gás pimenta e lacrimogéneo e com balas de borracha na Macedónia, por exemplo, e se é tratado como gado idoso na Hungria, se calhar fica-se desconfiado e prefere-se continuar a jornada até um país que sabem que não lhes fará isso. Quem usa este argumento são aquelas pessoas que fizeram birra quando os pais alugaram uma casa de férias sem piscina. São pessoas que acampam à espera do novo iPhone, para poderem continuar a debitar palermices no Facebook, mas com uma resolução melhor.
 
"Primeiro estão os nossos sem-abrigo!!!"
 
Fico muito contente em ver a preocupação com uma causa que me é muito querida. Os portugueses, afinal, preocupam-se imenso com quem tem o céu como tecto. Há esperança para Portugal! Com esta onda de solidariedade, espero que para a semana que vem nunca mais ver pessoas a dormir na rua. É bonito ver o PNR a fazer campanha com isso e a querer ajudar quem tanto precisa. Desde que não sejam "pretos", nem "maricas", claro. Nesse caso nem são dignos das pedras da calçada! Só se lhes forem atiradas à cabeça, obviamente. Sim, devemos ajudar os nosso sem-abrigo e quem passa dificuldades em Portugal, mas isso não implica que não se abram as portas a quem vem a fugir de uma guerra. Se metade das vozes que surgem com este argumento fizesse alguma coisa para ajudar, garanto-vos que não havia um único sem-abrigo nas ruas portuguesas. Esta alegação é como dizer «As andorinhas que migram para Portugal e fazem ninho na altura da Primavera estão a roubar os telhados que deviam ser dos nossos pintassilgos! Além disso cagam-me o carro todo! PS: Nada contra as andorinhas. Não sou racista!». 
 
"Se são refugiados, porque é que a maioria são homens?!"
 
Onde estão as mulheres e as crianças, para além daquela que deu à costa? Onde andam eles? Qualquer pessoa inteligente perceberá que em todas as vagas de migração primeiro vão os homens e, só depois, as mulheres e as crianças. Os homens vão em busca de um local melhor e de condições para depois poderem trazer a família sem a ter de a sujeitar a uma viagem que poderá ter como destino a morte. Eu percebo que fosse muito mais interessante ver desembarcar nas praias portuguesas botes cheios de ginastas suecas e contorcionistas búlgaras, mas é o que há meus amigos. Não sejam esquisitos quanto à raça, género e religião de quem precisa de auxílio. Vejam o lado bom, para crianças ranhosas cujos pais não as souberam educar, já bastam as nossas.
 
"Eu não sou racista, mas... os muçulmanos são todos terroristas é são bichos nos quais não podemos confiar! "
 
Concordo. Os muçulmanos são pessoas de merda. Mas os católicos também. E os ateus idem. No geral, as pessoas são uma merda. Aliás, é por isso que os migrantes em vez de se juntarem à jihad, ao lado do Estado Islâmico, preferem arriscar a vida para chegar a um país seguro e ainda livre da guerra santa. Sim, hoje há mais ataques terroristas perpetrados por alguém em nome de Alá do que em nome de Cristo. Dou-vos isso. Pelo menos, ataques com bombas e com fogo de artificio, porque se me perguntarem, contribuir para que milhares de pessoas morram com HIV dizendo-lhes que usar preservativo é pecado, talvez possa ser considerado um bocadinho terrorista. Não sei se sou eu que sou picuinhas, mas é o que me parece. Cometem-se atrocidades em nome da religião, seja ela qual for, e sim, há muitos países que são estados religiosos islâmicos que cometem crimes contra a humanidade. A Arábia Saudita é um deles, mas como é aliado e tem petróleo do bom, ninguém faz nada. Também se mutilam mulheres, genitalmente, em países maioritariamente cristãos. Aliás, o Islão só está atrasado em relação às cruzadas e à Inquisição, não são piores, chegaram foi mais tarde à festa. O único problema é acreditarem piamente que no céu estarão virgens gostosonas e safadas para lhes fazerem cafuné no turbante, depois de se rebentarem para defender o profeta. Se os católicos acreditassem tanto quanto eles, garanto-vos que andavam também aí a fazer merda como gente grande. É óbvio que a esmagadora maioria dos muçulmanos é pacífica. Infelizmente, há radicais que lhes dão mau nome. Radicais esses tão perigosos como quaisquer outros, seja qual for o credo ou clube de futebol.
 
"É um cavalo de Tróia do Estado Islâmico!"
 
Diz alguém, utilizando a expressão «cavalo de Tróia» que aprendeu apenas ao ver o filme com o Brad Pitt. Os jihadistas que enfaixaram aviões contras as torres gémeas não precisaram de uma estratégia tão elaborada, nem de vir num bote mata-vidas a arriscar a sua, para fazer estragos contra os infiéis ocidentais. Nem os do Charlie Hebdo. Nem os do metro de Londres. Nem os do metro de Madrid. Nem os da Dinamarca. Acho que é fácil perceber que eles, se quiserem muito, arranjam maneira de chegar cá, até porque é fácil entrar na Europa pela Turquia e depois passar para o espaço Schengen. Claro que é possível que lá no meio das centenas de milhares de refugiados venha um gajo ou outro mais avariado dos cornos, mas isso há em todo o lado. Por esse prisma não se ajuda ninguém, já que há sempre um sem-abrigo que vai gastar tudo em vinho em vez em vez de endireitar a vida. A Síria está como está porque está a combater o Estado Islâmico, em vez de lhes dar via verde para que passem e cheguem mais perto de nós. 
 
"Os países árabes que fiquem com eles!"
 
Sim, porque o Médio Oriente é a zona mais estável do mundo para onde toda a gente quer ir morar. Não há nenhum risco de a guerra se espalhar para os países vizinhos, que parvoíce. Nem há países árabes cujos governos financiam o Estado Islâmico e outros movimentos jihadistas... que ideia parva! Eu nem sei se os países árabes e civilizados (Que choque! Há disso?), estão a disponibilizar algum tipo de ajuda, mas mesmo que não, a obrigação de ajudar não é de ninguém, é de todos. Se os outros não ajudam, mais uma razão para sermos nós. Se vamos por essa ordem de ideias, quem os devia acolher eram os Estados Unidos da América, o maior causador da instabilidade naquela zona e que fecharam os olhos aos crimes horrendos que se iam fazendo na Síria. Fosse uma posição geográfica estratégica ou estivesse apinhada de petróleo, que tinham ido logo lá espalhar a democracia com os seus tanques e F-16s. «Portugal é o país que melhor sabe receber. É o país mais hospitaleiro.» ouve-se amiúde. Sim, mas desde que sejam estrangeiros brancos e com dinheiro e boas gorjetas para dar.
 
"Quem quer ajudar que lhes dê uma casa!"
 
Eu cá não quero sírios em minha casa. Nem pretos. Nem ciganos. Nem brancos, portugueses ou estrangeiros. Não quero ninguém na minha casa porque sou um gajo que não gosta de pessoas no geral nem de ter estranhos a invadir-me a privacidade. Se eu quisesse pessoas na minha casa fazia couchsurfing que ainda podia ser que aparecesse um grupo de modelos de lingerie da Letónia. Não quero ninguém em minha casa mas posso ser a favor que se criem locais e estruturas para ajudar quem precisa, ou não? Não me importo que os meus impostos (e as ajudas externas) sejam utilizados para garantir a segurança e o bem-estar de quem foge da guerra. Quem usa este argumento é quem diz «Acho muito bem que mandem a Cova da Moura abaixo e os realojem, desde que não seja num raio de 20km da minha casa.» Ainda assim, mais depressa tinha uma família de sírios com dez crianças a morar na minha dispensa e a comer-me as latas de atum, do que alguém que acha que se devem fechar fronteiras e deixar as pessoas à mercê do destino de que não tiveram culpa. Não sei se é por morada na Buraca, mas até acho que uns sírios iam melhorar a minha vizinhança.
 
"Porque estou a cagar-me para o sofrimento deles!"
 
Ora aqui está um excelente argumento e talvez o único que faz real sentido. A única razão para não se querer acolher refugiados é a falta de empatia pelo sofrimento alheio. É não estar disposto ao risco mínimo que é ter por cá uns poucos milhares de pessoas a fugir da guerra, por se valorizar muito mais a comodidade e a segurança pessoal. Eu percebo este argumento, eu também não como uma feijoada com a lágrima no olho por saber que há crianças a morrer à fome todos os dias. Admitam. Não vos interessa se eles morrem ou não, mesmo que tenham partilhado a foto da criança morta na praia, acompanhada de uma citação de um site brasileiro. Admitam que são um bocadinho racistas, xenófobos e que não gostam de muçulmanos. Admitam e deixem de ser hipócritas.
 
Até consigo perceber a razão de alguns destes argumentos e acho que se deve debater o assunto com inteligência e acautelar o futuro. Não acho que quem está contra que se acolham refugiados sejam tudo más pessoas. Algumas são só burras e desinformadas. Mesmo acreditando que alguns destes argumentos são válidos, é fácil colocá-los no prato de uma balança e ver que ela pende para o outro lado. Não está em causa ajudar refugiados sírios. Está em causa ajudar seres humanos. A maioria sem culpa nenhuma pelo que está a passar e que só teve o azar de nascer no lugar errado à hora errada. Não é Portugal, Espanha ou a Micronésia que devem ajudar. É o mundo que se tem que ajudar a ele próprio para que ainda haja alguma esperança desta merda não ir toda ao ar. Se calhar, mas só se calhar, talvez se evite violência a longo prazo ajudando quem precisa e não ostracizando e recusando-lhes condições para terem uma vida decente. Talvez haja mais terrorismo no futuro contra quem não os quis acolher, do que contra quem lhes deu a mão na hora de maior aperto. Digo eu. Não sei. As pessoas são um bocado mal agradecidas, é um facto.
 
Por fim, queria só descansar-vos e dizer-vos para se preocuparem muito, já que os sírios que acolhermos vão-se embora mal percebam a quantidade e gente hipócrita, sem compaixão e falsa moralista que há neste país. Advogam aos sete ventos a moral e os bons costumes, mas quando é para ajudar, está quieto ó pessoa de cor. Os sírios, mal percebam que não há emprego, fazem como muitos dos nossos jovens e emigram para países mais civilizados. Sim, porque acredito que a maioria dos sírios queira mesmo trabalhar e não ficar em casa a coçar a sacola dos girinos e a mandar postas de pescada no Facebook. Enfim, é a minha opinião. Vale o que vale. Quem gosta, gosta, quem não gosta, emigra para outro blogue e sai de casa para dar comida a um sem-abrigo. Está bom? Vá, boa continuação.
 

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por Augusta Clara às 08:00

Quinta-feira, 10.09.15

Primeiro nós, depois os outros - António Oliveira e Silva

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António Oliveira e Silva  Primeiro nós, depois os outros

 

 

        José, João, Jorge, como vais?

Vejo que esta semana acordaste orgulhoso por ser português e determinado em defender o que te pertence. Isso é bom, Carla, Cristina, Cândida, Célia. Isso é muito bom. Partilhas vídeos chocantes de supostos árabes com explicações em idiomas desconhecidos. Não sabes quem são, o que dizem, onde estão nem o que se passa.

Mas isso, que interessa? Falam como cães e escrevem gatafunhos. E isso chega para alimentar a tua certeza. Homens que batem em mulheres, como nunca aconteceu aqui. Gente que cospe para o chão, como nunca se vê por cá. Gente que cheira mal, de certeza, e que suja autocarros e as estradas. Os telemóveis que usam... de certeza que os roubaram na Hungria.

Hoje, David, Dario, Duarte, estás indignado.

Indignado porque temes uma invasão de gente estranha, castanha, com manha, gente capaz de vender as mães e de queimar os filhos, gente que viola mulheres. Selvagens. Até porque, Pedro, Paulo, foi o que viste na televisão, entre a história da pizza do outro e antes de veres os resultados do jogo. O jogo que te mata, a paixão que te assolapa, o melhor do Mundo que te incha e os treinadores que amas muito.

Vais mudando de canal, vais falando com a Vanessa, Vanda, vais pensando nas letras do Audi, até porque entre salário em atraso e salário que não sobe, nunca vamos ter para nós, quanto mais para os outros.

Por isso, Alberto, António, pensas agora nos teus. Pensas nos mendigos a dormir na Praça do Comércio ou nos pobres do Bairro da Sé. És parte de uma onda de solidariedade e renasces, quem sabe, como um Cristão identitário sem medo, ainda que não ouças o que diz Francisco.

Nunca tiveste tempo para ir a manifestações, até porque eles são todos iguais e mais vale ir à praia. Nunca tiveste tempo para ajudar as crianças portuguesas que tanto de apoquentam, porque ganhas pouco e porque, Maria, Marisa, Marta, os cremes custam dinheiro e o consumo mínimo obrigatório na discoteca do centro também.

Por isso, queres o teu país limpo, Luís, Leandro, porque já tens problemas que cheguem. Limpo de estrangeiros dos quais não sabes nada, limpo de gente que foge, até porque a gente nunca fugiu. Afogas as redes sociais com bandeiras nacionais, como os que colocavam sapos à porta da loja para afastar o cigano.

Estás, Sofia, Soraia, no fundo, tão determinada e eufórica como quando a Seleção joga. Não assinaste petições para aquilo dos submarinos, aquilo da ponte, aquilo dos espiões, aquilo do dinheiro que vai desaparecendo, aquilo tudo. Mas tens tempo e vontade, Bruno, Bernardo, para travar a chegada de gente que vem sem nada, que tem ainda menos do que tu, pelo menos agora que fugiram da morte, da fome, ou das duas coisas.

Primeiro nós, primeiro os nossos quinhentos por mês, primeiro os nossos empreendedores de pacotilha, primeiro o nosso medo constante a fazer que algo mude. E depois, só depois, os outros.

Até porque se fogem de radicais, Miguel, Mário, Manuel, Daniela, Dalila, Diana, só podem ser piores.

 

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por Augusta Clara às 14:00

Sexta-feira, 04.04.14

Este é o típico discurso dos colonialistas nórdicos e centro europeus - Carlos Matos Gomes

 

Carlos Matos Gomes diz-nos a propósito deste texto

 

 

   Convém dizer que este é o típico discurso dos colonialistas nórdicos e centro europeus, alemães e austríacos quando chegaram a África após a conferência de Berlim.

Corresponde ao conceito do colonialismo. É simples: o direito das “raças superiores” a aniquilar as “raças inferiores” sem piedade nem consciência alguma. “Exterminai a todos os selvagens”, delira Kurtz em "O Coração das Trevas", de Joseph Conrad. O direito divino de matar. A Europa “iluminada” que exterminou a povos inteiros de todas as latitudes, dos quatro continentes, em nome da civilização. Os afãs de riqueza inventaram justificativas políticas, filosóficas e científicas para endossar o extermínio massivo de todos os “selvagens”.

O historiador sueco Sven Lindqvist, inspirado também em Conrad, escreve em "Exterminai todas as bestas": - “A destruição europeia das ‘raças inferiores’ de quatro continentes abriu o caminho para que Hitler aniquilasse seis milhões de judeus. A expansão mundial europeia acompanhada de uma desavergonhada defesa do extermínio, criou hábitos de pensamento e precedentes políticos que abriram caminho para novas atrocidades”.

"À sombra das palmeiras" (1907) escrita por Edward Wilhelm Sjöblom, sobre sua experiência no Congo em 1892, disse sobre os negros: “O melhor deles é apenas bom para morrer como um porco”.

Convinha que os políticos portugueses e os deputados europeus lembrassem esta besta que não está a inventar nada e que bestas destas são conhecidas e os seus métodos também. Convinha também que os membros do governo português soubessem que é a gente desta que estão prestar vassalagem.

 

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por Augusta Clara às 08:00



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