Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

Jardim das Delícias



Segunda-feira, 04.11.19

“Tartulhos” - Eva Cruz

ao cair da tarde 5b.jpg

Eva Cruz  “Tartulhos”

vc 10.jpg

vc 30.jpg

 

cemitério.jpg

cemitério1.jpg

 

   Aproveitando uma aberta de sol, entremeando estes dias pardacentos de chuva e nevoeiro, fui visitar o cemitério, não por me apetecer mas para respeitar a memória de alguém que não gostava que os mortos fossem desprezados. Passeei-me por entre túmulos e jazigos recentes, à procura de alguns nomes desaparecidos há pouco e que me diziam muito. Fiquei impressionada com a fealdade de tanta negritude luzidia e retratos esfumados, pelos vistos em moda. Muitas eram as flores, tinha sido dia de “Finados”, compostas em arranjos deveras estilizados e arrevesados que também pouco contribuíam para encobrir o que aos meus olhos se apresentava simplesmente medonho. No meio de todo aquele cenário vislumbrei uma campa rasa, estreita e coberta de relva verdinha ainda com gotas da chuva, tendo ao cimo uma pedra do rio com duas fotografias encrustadas. Destoava.

Fui para casa, o meu recanto da aldeia, e corri os campos a deleitar-me com as cores outonais e os resquícios do Verão. Deparei com um mar de tortulhos de vários feitios e cores. Chamaram-me a atenção uns cogumelos de um vermelho retinto, alguns do tamanho de um palmo, redondos ou quadrados, com pintinhas brancas. Lindíssimos! Em criança vira muitos “tartulhos” nos matos, nos sítios apodrecidos, nos pés das videiras velhas, mas como aqueles nunca. Dizem que são venenosos e conhecidos por Amanita Muscaria.

Como gosto de perscrutar e entender a natureza, procurei perceber a razão pela qual apareciam aqueles cogumelos só em determinados sítios, debaixo de coníferas, velhas árvores de Natal que durante anos ali fora plantando. Lembrei-me então dos contos dos irmãos Grimm e da Schwarzwald- a Floresta Negra, esse paraíso de verdura de milhares de espécies de árvores, de casinhas de madeira, dos relógios de cuco, de sulcos e regatos, de lendas de duendes e magia, e também de cogumelos vermelhos com pintinhas brancas.

Desfez-se a imagem do cemitério. Imaginava-o agora coberto de relva com cogumelos vermelhos de pintinhas brancas a desafiar a negritude tumular. Ainda por cima, venenosos. Talvez assim envenenassem a morte e acabassem com ela de uma vez para sempre.

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

por Augusta Clara às 15:45




Pesquisar

Pesquisar no Blog  

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Comentários recentes


Links

Artes, Letras e Ciências

Culinária

Editoras

Filmes

Jornais e Revistas

Política e Sociedade

Revistas e suplementos literários e científicos