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Delícias são tudo o que nos faz felizes: um livro, a magia dum poema ou duma música, as cores duma paleta ... No jardim o sol não raia sempre mas pulsa a vida, premente.
Carlos de Matos Gomes Técnica do golpe de Estado
O título do inglês The Guardian de 1 de julho explica os objectivos das «conversações» com o governo grego: «Syriza can’t just cave in. Europe’s elites want regime change in Greece» (O Siriza pode oferecer tudo, dar tudo, aceitar tudo. Não adiante, as elites europeias querem uma mudança de regime na Grécia). Segue-se o texto. O primeiro parágrafo: «É agora claro que a Alemanha e os poderes europeus (os ingleses distinguem a hierarquia de quem manda) não pretendem somente que o governo grego dobre os joelhos. Querem uma mudança de regime (para a comunicação social, o governo grego já é apresentado como o regime do Syriza). Não pela força militar, com certeza. Esta operação está a ser dirigida por Berlim e Bruxelas em vez de Washington…
Tudo parece claro. O Syriza disse que o rei ia nu, isto é, que o sistema financeiro era uma monstruosa fraude, ou uma fantasia, que as dívidas soberanas não são pagáveis, que as dívidas soberanas foram e são um processo de transferência de riqueza dos contribuintes para as oligarquias, que as regras da troika são a de aumentar a dívida soberana – aquela que irá ser paga pelos cidadãos – através do fabrico de mais dívida criada com os programas de resgate, na realidade de empréstimos para pagar juros de empréstimos, num processo sem fim.
O governo grego quebrou o tabu ao expor em público o rosto dos crápulas escondidos sob a máscara de respeitados e respeitáveis banqueiros e dirigentes da alta finança. Varoufakis, o ministro grego, disse-o com clareza, embora de forma delicada, quando respondeu à pergunta sobre a razão de não usar gravata: são os mafiosos que vestem Armani e não é por isso que deixam de ser mafiosos. No FMI, no BCE, em Bruxelas, muitos devem ter ido arrancar as etiquetas dos casacos, e esconder os óculos escuros. Estas ofensas pagam-se caro. Os gregos estão a pagar por isso.
O que está em curso na Grécia é então um golpe de Estado. Não já como o do Chile de Allende, mas com mais técnica e menos brutalidade. Mata-se lentamente à fome, de doença, e não com rajadas de metralhadora. A tortura é pelo esgotamento e não pela dor. A finalidade é a mesma: substituir um poder. Tsipras é o Allende dos nossos dias.
Vem tudo num livro editado em 1931 e que esteve proibido em Portugal até 1974: «Tecnica del colpo di Stato» (Técnica do golpe de Estado), do jornalista e escritor italiano Curzio Malaparte, então diretor do jornal La Stampa, de Turim, que explica as diferentes modalidades de golpe de Estado, seja de esquerda ou de direita, de Lenine a Mussolini, antecipando aquele que Hitler utilizaria para alcançar o poder na Alemanha.
Escreveu Curzio Malaparte, «o problema da conquista e defesa do Estado moderno, não é uma questão política, mas técnica.» Embora para ele o sentido da «técnica» não fosse o mais comum: «um conjunto de procedimentos que seguem algumas regras preestabelecidas para fazer algo em função de determinado fim», mas «uma forma de apropriação da natureza pelo homem, portanto, parte da cultura». É à luz de uma técnica para derrubar o governo grego que deve ser analisado o processo de conversações (falsas) que se desenrolam há 5 meses entre Bruxelas e Atenas.
Escreveu Curzio Malaparte: «Na política, esgotadas as decisões no campo das instituições democrático-republicanas, o resultado de uma eleição, por exemplo, as disputas transitam para outros patamares quando pessoas ou grupos ultrapassam os limites da legalidade/legitimidade e utilizam certos recursos técnicos para resolver impasses político-institucionais que podem implicar a rutura da ordem jurídica, parcial ou totalmente. (É o que está acontecer por parte das instituições europeias.) O golpe de Estado, nas suas múltiplas variações, é um destes recursos técnicos.»
Para Curzio Malaparte, o golpe de Estado seria uma espécie de «atalho» para a legitimação do poder, evitando os inconvenientes das eleições com voto universal e secreto, como manda o rito elementar da técnica da democracia.» Do ponto de vista de Malaparte, o golpe de Estado é sempre a negação da democracia, mas pode atingir a perfeição naqueles casos em que consegue os aplausos maioritários dos cidadãos. «O golpe de Estado é perfeito quando angaria apoio da opinião pública.»
É neste ponto, o de obter o apoio dos cidadãos para o golpe em curso, que se inclui a violentíssima campanha de propaganda das autoridades alemãs e de Bruxelas a favor do Sim e do descrédito do governo grego. Esta visível e descarada técnica de condicionamento da opinião pública grega para chegar ao golpe perfeito de que falava Curzio Malaparte – aquele que consegue o apoio popular - tem sido acompanhada por outras acções mais insidiosas, que Malaparte também referiu e que, se repararmos fazem parte do cardápio das «instituições europeias», com Berlim ao comando: «aquelas que, de modo quase imperceptível, utilizam instrumentos legais (invocação de regras do BCE e do FMI, ausência de regras do Europgrupo, controlo de capitais, declaração de incumprimento, p.ex) para se sobreporem à soberania popular e destituir um governo legitimamente constituído.»
É evidente que o apoio popular é desejável para o golpe de Estado, mas os golpistas de Berlim e Bruxelas, se leram Malaparte, podem contar com alternativas. É que, afirma ele, a história revela: «é possível em qualquer país democrático levar a cabo um golpe de Estado, mesmo sem o apoio de massas. Basta um grupo que tome o poder sem confrontar a força adversária (foi o que aconteceu recentemente em Itália e já tinha acontecido na Grécia com os governos ditos tecnocráticos, chefiados por banqueiros de confiança). Na Rússia, o governo de Kerensky protegeu os órgãos políticos, mas Trotsky ocupou os órgãos técnicos. Tentou o mesmo, em 1927, contra Staline, mas este usou corpos especiais de defensa e sobreviveu. Em Itália, os sindicatos de Giolitti e a policía defendiam o governo, mas os grupos fascistas neutralizaram ambos, tomaram o sistema ferroviário e foram de combóio a Roma derrubar o governo de Luigi Facta. A estratégia é sempre a mesma: concentrar as forças no ponto mais sensível do adversário, que num Estado moderno são os serviços públicos e os meios de comunicação.»
A Técnica do Golpe de Estado foi escrita em 1931, entre duas guerras, no período de ascensão dos fascismos, dos nazismos, do estalinismo. Repare-se como na Grécia, o governo anterior fechou a televisão do Estado, que não controlava. Repara-se como hoje a manipulação se faz com os serviços públicos na Grécia, com os bancos e o sistema de pensões e reformas, a ponto dos grandes órgãos de comunicação utilizarem fotografias de refugiados turcos vítimas de um terramoto como se fossem pensionistas gregos.
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