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Jardim das Delícias



Quinta-feira, 24.03.16

Terroristas como peixe na água - Ferreira Fernandes

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Diário de Notícias, 23 de Março de 2016

   Os anarquistas também escolheram a propaganda por ato violento, no virar do século XIX para o XX. Em 30 anos, além de bombas cegas, por vezes com dezenas de vítimas, mataram cinco chefes de Estado, de regimes diversos (um czar, dois presidentes, francês e americano, e dois reis, italiano e português). Mas foram vencidos por medidas policiais. É que aqueles terroristas de antanho eram pessoas isoladas ou de pequenos grupos desgarrados. Não eram peixe mergulhado em meio natural. Hoje, o terror é outro.

Ontem, um dos títulos iniciais do site do jornal Le Monde foi: "Uma explosão em Bruxelas numa estação de metro do bairro europeu." Apanhei-me a ler a frase no sentido literal. Europeu, qual? Não são todos, em Bruxelas? Só depois me dei conta de que o jornal se referia ao bairro das instituições europeias (com o edifício da União Europeia, entre outros). Mas as explosões têm destes efeitos colaterais, trazem-nos recordações explosivas. Lembrei-me de um português que trabalhara na UE, em Bruxelas, e morara em Molenbeek, um bairro de imigrantes muçulmanos.

Logo a seguir aos atentados de Paris (novembro do ano passado), esse português foi uma espécie de vox populi, voz inocente, voz de testemunha. Quando alguns habitantes de Molenbeek foram relacionados ao que acontecera em Paris, o nosso português foi requestado por jornais e sites. Um destes colocou uma frase dele em título: "Fui assaltado mais vezes em Lisboa do que em Molenbeek." E ele contou a "boa convivência" que encontrou no bairro. Talvez com alguns poréns, coisa pouca: os cafés eram só de homens, os quiosques não tinham jornais franceses nem flamengos, só árabes, as mulheres andavam veladas na rua e a sua namorada quando o ia visitar não podia ir sozinha, porque era incomodada. "Sempre pensei em Molenbeek como estar em Marrocos, por exemplo", contou o português.

Entretanto, foram-se precisando as ligações dos recentes atentados islamistas com o bairro. Mehdi Nemmouche, o assassino de quatro pessoas no museu de Bruxelas, em 2014, foi preso em Molenbeek. Amedy Coulibaly, cúmplice dos assassinos dos jornalistas do Charlie Hebdo, comprou em Molenbeek as armas com que sequestrou e matou no supermercado judeu, em Paris, em janeiro de 2015. Ayoub Elkhazzani também comprou as armas em Molenbeek com que tentou uma matança no comboio entre Amesterdão e Paris, em agosto passado. E, relação mais antiga, Dahmane Abd el-Sattar e Rachid Bouraoui el-Ouaer eram habitantes do bairro quando partiram para o Afeganistão para matar o comandante Massoud, que combatia os talibãs, nas vésperas dos atentados das Torres Gémeas.

Na capital da Europa, um bairro que era o braço armado da Al-Qaeda, primeiro, e do Estado Islâmico, depois. Na semana passada, quando da prisão do descerebrado que organizou as mortes de Paris, Salah Abdeslam, soube-se que ele vivera os últimos quatro meses em... Molenbeek. Mais do que o nível de organização - que não é sofisticado (casa sem água nem eletricidade) - impressiona o facto de o assassino, filho do bairro, ter desaparecido na paisagem, como um peixe na água. E, por isso, seria melhor dar mais atenção àquela frase duma voz inocente: "Sempre pensei em Molenbeek como estar em Marrocos..."

Porque a questão é essa: Molenbeek não é Marrocos. Sem desprimor, para um ou para outro, simplesmente isto: Molenbeek é um bairro europeu. Ou melhor, deveria sê-lo e, pelos vistos, não é. Pelos vistos, quero dizer, viu-se. Por exemplo, há poucos meses, quando a polícia belga fez buscas em Bruxelas à procura dos terroristas, os jornais internacionais publicaram a foto de um polícia e dois soldados, patrulhando uma das belas galerias do centro da capital (belga e, o que mais é, europeia). E as caras deles estavam tapadas! Homens da ordem, escondendo-se! Sinal tremendo da nossa fraqueza... Quem devia estar tapado, presumia-se, era Salah Abdeslam. Que, veio a saber-se, vivia no seu bairro.

Um bairro que, além de albergar um assassino, tem a semente dos que assassinam e, pior do que tudo, expõe de forma cruel a nossa fraqueza. E, nisso, Molenbeek é só o epítome - o mal, deles, e a fraqueza, nossa, estão espalhados pela Europa. Há quem os aceite, apesar de a causa que defendem ser indecente. Leiam, por favor, a reportagem do The New York Times que o DN publica, nas páginas 16 e 17 desta edição. As escravas sexuais no Estado Islâmico são obrigadas a tomar a pílula contracetiva só porque os terroristas têm de respeitar uma lei medieval: é pecado ter relações com uma mulher grávida... Eles, tudo; elas, gado. E, há um ano, no mesmo dia em que um vídeo nos mostrou as estátuas milenárias a ser destruídas em Mossul, no Iraque, amigos de Jihadi John - o degolador do Estado Islâmico - defenderam-no e louvaram-no, numa conferência de imprensa em Londres.

Ontem, boas almas escreviam no chão das praças de Bruxelas: "Paz". O falar é sempre para alguém: para quem era aquela mensagem? Havia também mulheres a desenhar: "Paz". A quem oferecem a outra face? Ainda não entenderam que não querem delas face nenhuma, querem ambas tapadas. E o presidente francês disse: "A Europa está em guerra." Soou a frase batida e vazia. Uma espécie de homenagem à capital da banda desenhada, dos Dupond e Dupont. A Hollande pareceu-nos seguir Hollante: "Eu diria mesmo mais, a Europa está em guerra."

 

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por Augusta Clara às 08:00


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