Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]

Jardim das Delícias



Quarta-feira, 05.08.20

Um bramido de raiva - Adão Cruz

ao cair da tarde 5b.jpg

 

Adão Cruz  Um bramido de raiva

image001 (16)a.jpg

 

(pormenor de quadro de Adão Cruz)

Senti um frio arrepiante e um buraco negro nas entranhas,
tão fundo como a silhueta daquele maldito comboio da
inglória velocidade rebentando a dor direito à morte que está
em pé na berma do cais, pela mão de uma criança.

 

O pai, nos braços de um escombro deste mundo sem sol
e sem lua, destino bárbaro e cruel da perda total, de mão dada
com o filho contra a majestade de um gélido cadafalso de
ferro, parido pela força de um desumano progresso contra o
qual se esmagam os pobres e desamparados que vivem em
contramão.

 

Meu menino sonâmbulo, de olhos negros e pálida doçura
quase luminosa, firme, terna, inocente, confiante na verdade
desfeita em sangue pela mentira das mãos fatalistas de uma
sociedade podre.

 

Podia ser um menino nascido no berço do lado, ao colo de um
pai ou de um avô milionário, desiludido porque a sua fortuna
não havia atingido o limiar do absurdo, o que não deixava de
ser triste, mas a vida filha da puta, meu menino pobre, nada
mais te deu do que um pai sem nada, sem prendas, sem força
nem entreactos que te enxergassem melhor sorte do que a
morte.

 

O monstruoso comboio entra na tua boca a toda a brida, o
ar louco sai em turbilhão do teu pequenino peito sem eco, a
vida estilhaça-se em ruidoso estrondo e o teu corpo frágil
cai em pedaços sobre os bonecos das tuas meias, no pavoroso
silêncio dos teus olhitos redondos.

 

E o mundo continua como se nada tivesse acontecido.

 

Quando vi que eras tu o menino que estava no curto
caminho da morte pela mão de um pai que não dominava
a fome, e não tinha dinheiro para te comprar uma bola, um
pai que não sorria nem cantava para ti porque a alma se
perdeu na praça do medo com o sol congelado na boca, senti
um bramido de raiva e uma louca vontade de pedir contas a
Deus.

...

Autoria e outros dados (tags, etc)

por Augusta Clara às 14:39


1 comentário

De Anónimo a 06.08.2020 às 12:03

Bravo, meu caro Adão!

Comungo dessas palavras tão simples e tão sábias e que me enternecem até à medula...

Abraço,
Alberto

Comentar post




Pesquisar

Pesquisar no Blog  

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Comentários recentes

  • Ana D.

  • Anónimo

    Obrigada Sandra. Tive tantas Sandras como alunas. ...

  • Anónimo

    Parabéns, Eva!Mais uma riquíssima vivência tua (tã...

  • Augusta Clara

    Obrigada, Sandra, por mim e pela autora.

  • Sandra

    Há muito tempo que eu não lia algo assim tão belo ...


Links

Artes, Letras e Ciências

Culinária

Editoras

Filmes

Jornais e Revistas

Política e Sociedade

Revistas e suplementos literários e científicos