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Jardim das Delícias



Quinta-feira, 18.12.14

Um conto de Natal de Adão Cruz

ao cair da tarde 5b.jpg

 

Adão Cruz  Sábado à noite dia vinte e um vésperas do Santo Natal

 

Adão44.bmp

 

(Adão Cruz)

 

   O frio enrugava os ossos a rua de Santa Catarina era um rio de gente um rio de águas desencontradas sem destino nem rumo umas correndo para baixo outras para cima e mesmo para os lados -se algum dia se viu!

Gente por cima gente por baixo gente saindo e entrando  não se sabe bem onde tanta porta aberta tanta porta fechada não se sabe ao certo.

Pessoas em cima de gente embrulhadas em pessoas e sacos e mais gente e mais sacos pendurados nas mãos nos ombros no pescoço nas orelhas nos olhos.

Uma velha andrajosa suja e gorda - de doença seria a gordura e não de fartura! - uma provável anasarca cardíaca que faz do doente  uma espécie de boneco Michelin rebentando de inchaços uma velha gorda  excrescente tumoral - de trapos seria a gordura também! - (o frio enroscara-lhe o corpo com todos os farrapos do lixo) uma velha suja tentava subir a rua por entre a multidão limpa.

Com grande agonia arrastava pelo chão puxada  por um cordel uma caixa de papelão que dentro continha outras caixas e restos de caixas e mais papelão provavelmente toda a sua mobília de quarto que haveria de montar nesse arrastado andar lá para o meio da noite no vão de uma porta muito acima do 575 mais fora dos olhos dos enxotadores de pobres.

A velha cuja idade mirraria as carnes se os inchaços se escoassem não ia bem disposta nem dava ideia de estar bem no meio daquele mar de gente.

Antes de tudo sentia-se afogar.

Não era inveja dos sacos nem dos cheiros nem dos casacos nem do luxo - sabia lá ela o que era o luxo! - importava-se lá ela com todo o papelão dos outros todo o papelão que ia dentro daquele mundo de sacos!

Ela só queria o seu papelão e que não estorvassem  os seus bocados de passos que juntos não dariam mais do que dez à hora.

Ela só queria que aquela gente toda ali parida pelo diabo a não impedisse de arrastar a sua casa então praguejava bem alto vão todos pró caralho vão-se todos foder.

Ouvia-se como música de fundo um lindo cântico de Natal...filhos da puta deixai-me passar vão-se todos foder.

Dois putos atiçaram a velha vai-te foder tu velha ranhosa ao mesmo tempo que ironizavam à gargalhada avariou-se o mercedes à gaja!

A velha não se agastou mais do que já vinha estava treinada na cena para não perder energias com a inutilidade de erguer a voz e ripostou num grunhido cavo vai levar no cu paneleiro de merda.

A melodia de Natal escorria pelos ouvidos cheios de sacos de paz e harmonia.

Já quase exausta com voz mais cava a velha dizia deixai-me passar bandalhos.

Lá em cima Deus não deve ter levado a mal.

Como reza o Divino Testamento dos pobres é o reino do Céu.

Em breve ela estaria com Ele para usufruir da eterna justiça e...na altura devida Ele lhe daria com ternura um puxãozito de orelhas.

 

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por Augusta Clara às 14:00


2 comentários

De Beatriz Santos a 18.12.2014 às 18:45

Esta é a miséria que não se conta mas existe e me impressiona que consiga subsistir. Nós acordamos com os pés frios debaixo de um edredão de penas, deitados numa cama conveniente que por sua vez está dentro de uma casa, muitas vezes, ela mesma calafetada e aquecida. E acordamos com os pés frios. Num desconforto.

Mas eu sei o túnel do metro no Vasco da Gama - gélido. Já me sentei naqueles parapeitos, e o frio repassa a roupa e arrefece o traseiro. Como é que tanta gente dorme ali, um colchão de papelão e pronto. É coisa que não entendo. Como é que não se morre de hipotermia. Estarão bêbados. Mas aguentariam se não bebessem?!

Desacredito de quem, ora, "estão ali porque querem". Mas como é que se pode desejar este abandono de animal escorraçado.

De Augusta Clara a 18.12.2014 às 20:09

Quem diz isso não consegue ver nada para além do seu nariz. E, quanto à sensibilidade e ao sentido de justiça e de igualdade de direitos, nem vale a pena falar.

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