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Delícias são tudo o que nos faz felizes: um livro, a magia dum poema ou duma música, as cores duma paleta ... No jardim o sol não raia sempre mas pulsa a vida, premente.
Eva Cruz Um poema de Amor
(Adão Cruz)
Era um fim de tarde de Verão escaldante. O zumbido dos insectos metalizava o ar. Atrás da casa, no caminho da Varziela, ouviram-se gritos angustiantes. O miúdo vinha numa padiola e esperava-o o carro da Seta, o táxi da Vila, para o levar ao hospital.
O Nel da Palmira caíra da varanda abaixo. Era ainda pequenito e a varanda não tinha grades. A casa estava a ser construída pelo pai que era trolha, mas ia nascendo aos poucos e à medida do pouco dinheiro que ganhava. Viviam num canto, ao jeito de mal acabado, só com telhado e paredes. A areia, o cimento e o saibro esperavam no pátio pela hora de se juntarem.
A Palmira era nossa jornaleira. A minha mãe gostava muito dela, séria, humilde, nada de mulher de ditos.
A criança sofrera traumatismos graves e nunca mais foi gente. O corpo ficou muito torto e a mente também não se ajeitou lá muito bem à cabecita, como se ficasse sempre criança. Rosado, loirinho e de olhos azuis, cor de água, o Nelzito parecia um anjo muito grande. Um dia, já rapazito disse que queria namorar comigo.
- Como pode ser, se sou muito mais velha do que tu?
- Não faz mal, a gente senta-se e olha um pró outro.
- Está bem, então.
Nesse dia, o Nel saiu do portão sorridente a dizer perante o olhar terno e complacente da mãe.
- Já tenho uma namorada.
- Coitadinho, não tem juízo pra mais.
Os tolitos, não sei por que artes, têm todos uma certa atracção pela minha pessoa. Se calhar mais do que os finos. A última vez que vi o Nel foi no funeral da mãe. Há dias encontrei-o, vinha com a irmã. Está num lar de dia e regressa a casa à noite. Anda pelos sessenta anos.
- Gostas de estar no lar, Nelzito?
A irmã respondeu por ele.
- Gosta muito e até tem lá uma namorada.
- Tenho e munto bonita.
- É uma mongolóide, mais novita do que ele.
- Então como namoras tu com ela?
- Sentamo-nos e olhamos um pró outro.
- Ela tem olhos azuis, disse a irmã.
- Munto , munto lindos.
Azul, cor de água, pensei eu. Nunca soube fazer poemas de amor. Faço mais depressa um poema a um pardal. Os poemas de amor soam-me ridículos. Há quem saiba fazer poemas de amor, mas esses são poetas.
O amor não é roxo, nem preto, nem vermelho. O amor é branco. Está no poema da água azul daqueles olhos.
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