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Delícias são tudo o que nos faz felizes: um livro, a magia dum poema ou duma música, as cores duma paleta ... No jardim o sol não raia sempre mas pulsa a vida, premente.
Adão Cruz Uma forma de pensar
(Adão Cruz)
A arte e a poesia são irmãs gémeas, mas a poesia é, por assim dizer, a irmã mais gémea, a gémea por excelência. E isto porque a poesia, ou melhor dizendo, o sentimento poético percorre transversalmente qualquer forma de expressão artística, e qualquer forma de expressão artística só será obra de arte se contiver dentro de si o sentimento poético. Como sempre tenho dito, a poesia é um sentimento como outro qualquer, como o sentimento do amor, por exemplo. O facto de vermos alguém de braço dado ou alguém numa cena aparentemente amorosa, não é garantia de que entre eles haja amor, pois este sentimento pode não existir ou existir em grau que vai do frágil e superficial ao mais profundo. Com o sentimento poético acontece provavelmente o mesmo. Não é por termos à frente dos olhos uma obra aparentemente bem feita ou um poema aparentemente bem escrito que podemos dizer que ali está a poesia. Pode não estar e muitas vezes não está, sendo difícil que, desta forma, estejamos perante uma obra de arte. Custa-me dizer isto, mas cada vez mais gosto muito de poucas coisas. O que por aí se passa em relação à poesia é, quanto a mim, uma tristeza, porque fazer poesia, descobrir o sentimento poético não é encastelar versos uns em cima dos outros ou escrever frases labirínticas que ninguém entende, e, com isso tudo, encher as prateleiras das livrarias. O sentimento poético aproxima-se muito do místico sem lá chegar, felizmente. É um sentimento quase indefinível, é um estado de hipersensibilidade, um desejo de ser-se de outra maneira, uma necessidade de sair do não autêntico, um quase sentir a verdade total e o amor universal.
Passando à pintura, podemos dizer que a montante da obra está o artista. Este deita mão de todos os elementos que tem para criar a obra. Desde as suas capacidades inatas, os seus conhecimentos adquiridos, as suas habilidades e experiências, a sua “Arte”, a sua filosofia, a sua visão do mundo e das coisas, até aos elementos físicos como as tintas e os pincéis. Mas o elemento principal, o que está acima de todos os outros é o sentimento poético. Não é um elemento que o artista possa chapar na obra como faz com uma pincelada. Ele tem de existir dentro do artista, ele está na essência e na vivência do artista, e como faz parte da sua alma nasce espontaneamente na obra de forma consciente, subconsciente ou mesmo inconsciente. Sem sentimento poético dificilmente uma obra será uma obra de arte, e muito provavelmente não passará de um entretenimento superficial dos sentidos.
A jusante do artista está a obra, como um todo indivisível e indissociável. E para que a obra adquira grandeza, todos os processos formais devem ser ofuscados pelo seu próprio efeito. Por isso, desnudar esses processos formais, tentar dissecar, escalpelizar, descodificar, fatiar uma obra pode ser muito nefasto, pode ser um fenómeno redutor que empobrece a obra, pode massificar e estereotipar o pensamento, pode tapar os olhos do espectador e pode anular toda a hermenêutica, isto é, a capacidade de gerar forças interpretativas. Que se faça em termos académicos e investigacionais, vá que não vá. Em termos de fruição da obra é profundamente negativo. O próprio título pode ser a primeira fatia. Quase como num bolo de aniversário. Quando entra a faca lá vai o encanto contido na expressão inicial dos convivas: “Que lindo bolo!”.
A este respeito, um amigo meu dizia-me ontem, uma obra de arte é como um filme sem legendas. Num filme sem legendas, se o espectador não conhece a língua, imagina histórias muito diferentes daquela que o filme pretende contar. Claro que, embora nem sempre, a intenção e a finalidade de um filme é mesmo contar aquela história e não outra. Na obra de arte pode não haver histórias, e se as há, elas deverão ser tantas quantos os olhos que a contemplam.
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