Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]

Jardim das Delícias



Quarta-feira, 18.12.19

Vinho verde - Adão Cruz

ao cair da tarde 5b.jpg

 

Adão Cruz  Vinho verde

98a.png

 

(Adão Cruz)

 

O vinho verde, já o disse muitas vezes, foi o meu segundo leite.
Lembro-me muito bem daquelas cheirosas pipas da adega, com torneiras de madeira que chiavam ao verterem nos copos o denso e espumoso verde tinto.
Ainda criança, que bem me sabiam as sopas de cavalo cansado, uma malga de vinho verde tinto com pão de trigo ou boroa migada com açúcar!
Levantavam a alma de um morto, dizia-se.
Hoje acordei às oito e quarenta e cinco, Patxi Andión estava vivo.
Dez minutos depois, às oito e cinquenta e cinco, morreu num acidente de viação em Sória.
Pouco tempo depois, telefonou-me um amigo, e ambos nos queixámos, mutuamente, das nossas próstatas.
A próstata é uma pequena noz que, fisiologicamente, quando se é jovem, tem o papel fundamental de criar o líquido onde os espermatozóides nadam até ao óvulo.
Quando se é velho não serve para nada.
Só serve para chatear.
Para além de outras perrices desagradáveis, obriga-nos a mijar quando não queremos e não nos deixa mijar quando queremos.
Eu e o meu amigo, como medida analgésica e anestesiante, combinámos ir comer aquele leitãozinho que muito apreciamos, logo que possível.
Ainda bem que a próstata, ou “crosta”, como dizia um paciente meu, não se queixa muito com estas escapadelas, por vezes mais eficazes do que silodosinas e finasterides.
Entretanto, como hoje é dia de cozido à portuguesa, acompanhado de verde tinto, eu não posso resistir.Ao meu lado, num daqueles restaurantes dos velhinhos a que por vezes me tenho referido, um a mesa de seis, qual deles o mais serôdio.
Antes de pedirem o cozido, os aperitivos resumiram-se a uma conversa pegada sobre análises, ressonâncias magnéticas e TACs, tudo isto afogado de imediato com a chegada de duas bojudas canecas de tinto.
Dizia um que, no cozido, não havia nada que chegasse à orelheira.
Para outro era o focinho.
Um terceiro afirmava que nada superava a couvinha e a cenoura.
O verde tinto, o segundo leite da minha infância, continuava a fazer milagres, mesmo nesta idade.
Já não para o Patxie Andión, infelizmente, mas para aqueles que, como nós, ainda não chegaram às oito e cinquenta e cinco.
Se isto não é poema, o que é a poesia?

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

por Augusta Clara às 17:01


1 comentário

De Anónimo a 25.12.2019 às 23:13

Texto de excelente e deliciosa "prosa poética"!...

Comentar post




Pesquisar

Pesquisar no Blog  

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Comentários recentes


Links

Artes, Letras e Ciências

Culinária

Editoras

Filmes

Jornais e Revistas

Política e Sociedade

Revistas e suplementos literários e científicos